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Batalha de Apameia

Batalha de Apameia
Guerras bizantino-árabes
Apamea-Cardo.jpg
Ruínas de Apameia
Data 19 de julho de 998
Local Apameia, Síria
Desfecho Vitória fatímida
Beligerantes
Império Bizantino Califado Fatímida
Comandantes
Damião Dalasseno Jaixe ibne Samsama
Forças
Desconhecidas 10 000 fatímidas
1 000 cavaleiros Banu Cilabe
Baixas
Variadamente 5 000, 6 000 ou 10 000 mortos
2 000 capturados
+ 2 000 mortos
Apameia está localizado em: Síria
Apameia
Localização de Apameia no que é hoje a Síria

A batalha de Apameia foi travada em 19 de julho de 998 entre as forças do Império Bizantino e as do Califado Fatímida. A batalha foi parte de uma série de confrontos militares entre os dois poderes sobre o controle do norte da Síria e o hamdanida Emirado de Alepo. O comandante regional bizantino, Damião Dalasseno, estava sitiando Apameia, até a chegada do exército de alívio fatímida de Damasco, sob Jaixe ibne Samsama.

Na batalha subsequente, os bizantinos foram inicialmente vitoriosos, mas um cavaleiro curso conseguiu matar Dalasseno, causando pânico no exército bizantino. Os bizantinos em fuga foram perseguidos e muitos perdendo a vida nas mãos das tropas fatímidas. Essa derrota forçou o imperador bizantino Basílio II Bulgaróctono (r. 976–1025) a fazer campanha pessoalmente na região no ano seguinte, tendo ela sido seguida, em 1001, pela conclusão de uma trégua de dez anos entre os dois Estados.

AntecedentesEditar

Em setembro de 994, Miguel Burtzes, o governador militar bizantino (duque) de Antioquia e norte da Síria, sofreu uma pesada derrota na batalha do Orontes nas mãos do general fatímida Manjutaquim. Essa vitória fatímida abalou a posição bizantina na Síria, e mostrou-se uma grande ameaça para seu vassalo árabe, o Emirado de Alepo dos hamdanidas. Para evitar sua queda, o imperador bizantino Basílio II Bulgaróctono (r. 976–1025) interveio em pessoa na região em 995, forçando Manjutaquim a retirar-se para Damasco. Após capturar Xaizar, Emesa e Rafaneia, e construir a nova fortaleza de Antarado, o imperador retirou-se, deixando Damião Dalasseno como novo duque de Antioquia.[1]

Dalasseno manteve uma postura agressiva. Em 996, suas forças invadiram os arredores de Trípoli e Arca, enquanto Manjutaquim, novamente sem-sucesso, liderou cerco à Alepo e Antarado, mas foi forçado a retirar-se quando Dalasseno veio com seu exército para aliviar a fortaleza. No ano seguinte, Dalasseno repetiu seus raides contra Trípoli, Rafaneia, Awgh e al-Lakma, capturando a última.[2] Ao mesmo tempo, os habitantes de Tiro, sob a liderança de um marinheiro chamado Alaca, revoltaram-se contra os fatímidas e solicitaram assistência bizantina; mais ao sul, na Palestina, o líder beduíno Mufarrije ibne Dagifal ibne Aljarrá atacou Ramla.[3][4]

Cerco de Apameia e expedição fatímidaEditar

No começo do verão de 998, ao saber que um incêndio catastrófico ocorrido em Apameia destruiu grandes parte de suas provisões, Dalasseno marchou em direção a cidade. Os alepinos também almejavam tomar Apameia e chegaram lá primeiro, mas retiraram-se com a aproximação de Dalasseno, que não poderia permitir um vassalo crescer tanto em poder e pretendeu capturar a cidade para o imperador. Embora ostensivamente aliados com os bizantinos, os alepinos deixaram as provisões que trouxeram consigo para serem coletadas pelos apameus, ajudando-os em sua resistência.[5][6] Os eventos subsequentes são apresentados por vários autores, incluindo a breve narrativa de João Escilitzes e os relatos mais extensos do árabe cristão Iáia de Antioquia e o armênio Estêvão de Taraunita. Relatos árabes também sobreviveram, todos aparentemente criados com base no trabalho do historiador do século XI Hilal Alçabi; a versão mais detalhada é preservada por ibne Alcalanici.[7][8]

O governador de Apameia, Almalaiti, solicitou apoio fatímida. Segundo ibne Alcalanici, o regente eunuco Barjauane convocou Jaixe ibne Samsama para comandar o exército de alívio, nomeando-o governador de Damasco e dando-lhe 10 000 homens.[9] Antes de se confrontar com os bizantinos, os fatímidas lidaram com a revolta de Tiro e a rebelião de ibne Aljarrá. Os bizantinos tentaram ajudar os tiranos ao enviarem uma frota, mas ela foi derrotara pelos fatímidas, e a cidade capturada em junho de 998.[3][10] A revolta de ibne Aljarrá também foi suprimida, e Jaixe retornou para Damasco, onde permaneceu por três dias para agrupar suas forças para o alívio de Apameia. Lá, foi acompanhado por tropas e voluntários de Trípoli, agrupando uma força de 10 000 homens e 1 000 cavaleiros beduínos da tribo Banu Cilabe.[11] Segundo Escilitzes, o exército fatímida compreendia forças de Trípoli, Beirute, Tiro e Damasco.[12] Nesse ínterim, Dalasseno estava vigorosamente prosseguindo no cerco, gerando fome entre os apameus, que foram forçados a comer cadáveres e cachorros, que eles compraram pelo preço de 25 dirrãs de prata (segundo Abul Faraje, 2 dinares de ouro) um pedaço.[13][14]

BatalhaEditar

Os dois exércitos encontraram-se na grande planície de Almudique (cf. Castelo de Almadique), cercada por montanhas e localizada próximo ao lago de Apameia,[15] em 19 de julho de 998.[14] Segundo ibne Alcalanici, a ala esquerda do exército fatímida estava sob comando de Maisur, o Eslavo, governador de Trípoli; o centro, onde a infantaria dailamita e a carroça de bagagem do exército estavam, sob o comando de Badir Alatar; e a ala direita sob comando de Jaixe ibne Samsama e Uaide Alhilali. Segundo todos os relatos, os bizantinos atacaram primeiro e conduziram-o à fuga, matando cerca de 2 000 e capturando a carroça de bagagem. Apenas 500 gulans sob o iquíxida Bixara manteve-se firme contra o assalto, enquanto os Banu Cilabe simplesmente abandonaram a luta e começaram a saquear o campo de batalha.[16][17] Neste ponto, um cavaleiro curdo, chamado Abul Hajar Amade ibne Daaque Salil por Ali ibne Alatir e ibne Alcalanici e Bar Quefa pelas fontes bizantinas e Abul Faraje, cavalgou em direção a Dalasseno, que estava próximo a seu estandarte de batalha no topo de uma colina com dois de seus filhos e 10 homens de seu séquito. Acreditando que a batalha fora vencida e que o curdo queria render-se, Dalasseno não tomou precauções. Quando aproximou-se do general bizantino, Ibne Daaque subitamente atacou. Dalasseno levantou seu braço para proteger-se, mas o curdo lançou sua lança nele. O general não usava couraça, e o golpe matou-o.[16][18][19]

A morte de Dalasseno mudou o rumo da batalha: os fatímidas tomaram coragem e, gritando "o inimigo de Deus está morto!", viraram-se contra os bizantinos, que entraram em pânico e fugiram. A guarnição de Apameia também atacou, completando o desastre bizantino.[20][21] As fontes deram vários números para as baixas bizantinas: Almacrizi menciona 5 000, Iáia de Antioquia 6 000, e ibne Alcalanici tanto quanto 10 000.[19] Muitos dos sobreviventes bizantinos (2 000 segundo ibne Alcalanici) foram feitos prisioneiros pelos fatímidas. Eles incluíam vários oficiais seniores, como o famoso patrício georgiano Tchortovanel, um sobrinho de Tornício Eristavi, bem como os dois filhos de Dalasseno, Constantino e Teofilacto, que foram vendidos para Jaixe ibn Samsama por 6 000 dinares e permaneceram por 10 anos como cativos no Cairo.[15][21] Estêvão de Taraunita dá um relato ligeiramente diferente da batalha, no qual os bizantinos vitoriosos foram surpreendidos por um ataque pelo fatímidas reagrupados em seu campo e que um dos irmãos de Dalasseno e um de seus filhos foi morto, bem como o próprio general. Essa versão é comumente rejeitada pelos autores modernos.[19][22]

RescaldoEditar

 
Histameno de Nicéforo II Focas (r. 963–969) e Basílio II Bulgaróctono (r. 976–1025)

A derrota de Dalasseno forçou Basílio II a liderar pessoal outra campanha na Síria no ano seguinte. Chegando na região em meados de setembro, o exército do imperador enterrou seus caídos no campo de Apameia e então capturaram Sezer, saquearam Marsias e Rafaneia, incendiaram Arca, e invadiram os arredores de Heliópolis, Beirute, Trípoli e Biblos. Em meados de dezembro, Basílio retornou para Antioquia, onde instalou Nicéforo Urano como duque,[23] embora, segundo sua alto-descrição, Nicéforo seja descrito como "governante do Oriente", com seu papel provavelmente tendo sido mais extensivo, com plenipotenciário militar e autoridade civil sobre a fronteira oriental inteira.[24] Em 1001, Basílio II concluiu uma trégua de 10 anos com o califa fatímida Aláqueme (r. 996–1021).[25][26]

Referências

  1. Honigmann 1935, p. 106.
  2. Honigmann 1935, p. 106–107.
  3. a b Honigmann 1935, p. 107.
  4. Canard 1961, p. 297–298.
  5. Cheynet 1986, p. 77–78.
  6. Schlumberger 1900, p. 108, 110.
  7. Canard 1961, p. 297.
  8. Holmes 2005, p. 347–349.
  9. Schlumberger 1900, p. 107–108.
  10. Canard 1961, p. 298.
  11. Canard 1961, p. 298–299.
  12. Schlumberger 1900, p. 108.
  13. Canard 1961, p. 299.
  14. a b Schlumberger 1900, p. 110.
  15. a b Canard 1961, p. 300.
  16. a b Canard 1961, p. 299.
  17. Schlumberger 1900, p. 110.
  18. Schlumberger 1900, p. 110–111.
  19. a b c Lilie 2013, Damianos Dalassenos (#21379).
  20. Canard 1961, p. 299–300.
  21. a b Schlumberger 1900, p. 111.
  22. Cheynet 1986, p. 78.
  23. Honigmann 1935, p. 107–108.
  24. Holmes 2005, p. 477.
  25. Honigmann 1935, p. 108.
  26. Holmes 2005, p. 476–477.

BibliografiaEditar

  • Canard, Marius (1961). «Les sources arabes de l'histoire byzantine aux confins des Xe et XIe siècles». Revue des études byzantines. 19: 284–314 
  • Cheynet, Jean-Claude; Vannier, Jean-François (1986). Études Prosopographiques. Paris, França: Publicações da Sorbona. ISBN 978-2-85944-110-4 
  • Holmes, Catherine (2005). Basil II and the Governance of Empire (976–1025). Oxford: Oxford University Press. ISBN 978-0-19-927968-5 
  • Honigmann, E. (1935). Byzance et les Arabes, Tome III: Die Ostgrenze des Byzantinischen Reiches von 363 bis 1071 nach griechischen, arabischen, syrischen und armenischen Quellen (em alemão). Bruxelas: Éditions de l'Institut de Philologie et d'Histoire Orientales 
  • Lilie, Ralph-Johannes; Ludwig, Claudia; Zielke, Beate et al. (2013). Prosopographie der mittelbyzantinischen Zeit Online. Berlim-Brandenburgische Akademie der Wissenschaften: Nach Vorarbeiten F. Winkelmanns erstellt 
  • Schlumberger, Gustave (1900). L'Épopée byzantine à la fin du Xe siècle. Seconde partie, Basile II le tueur de Bulgares. Paris: Hachette et Cie