Díptico da Crucificação e do Último Juízo Final

pintura de Jan van Eyck

O Díptico da Crucificação e do Último Juízo Final (ou Díptico com o Calvário e Juízo Final)[1] consiste de dois pequenos painéis atribuídos ao pintor flamengo Jan van Eyck, com áreas finalizadas por discípulos não identificados ou membros de seu ateliê. Esse díptico é um óleo sobre tela, considerado uma das obras-primas do início do renascimento nórdico, notório pela sua complexidade e detalhada iconografia e pela evidende habilidade técnica na sua finalização. Foi realizado em um formato miniatura, os paineis possuem apenas 56,5 cm de altura por 19,7 cm de comprimento.

Díptico da Crucificação e do Último Julgamento de Jan van Eyck. Óleo sobre tela, transferido da madeira. Cada peça com 56.5 cm × 19.7 cm; Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque

No lado esquerdo da pintura está a crucificação, onde pode ser visto em primeiro plano os seguidores de Cristo, um pouco acima aparecem alguns espectadores e soldados observando três corpos crucificados, ao fundo pode-se ver a antiga Jerusalém. No lado direito está o Juízo Final: a hellscape at its base, o ressuscitado aguardando julgamento ao centro e uma representação do Cristo em Majestade acompanhado por deesis de santos, apóstolos clérigo, virgens e nobres na parte superior. Em algumas partes do obra aparecem inscrições gregas, latinas e hebráicas.[2] A moldura original banhada à ouro contém passagens bíblicas em latim retiradas dos Livros de Isaías, Deuteronômio e do Apocalipse. De acordo com uma data escrita em russo no verso, os painéis foram transferidos para suportes de tela em 1867.

A referência mais antiga sobre a obra é de 1841, quando estudiosos acreditavam que os dois painéis era parte de um tríptico.[3] O Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque adquiriu o díptico em 1933. Na época a obra era atribuída ao irmão de Jan van Eyck, Hubert van Eyck[4] devido algumas semelhanças com a pintura Hora de Turim, atribuída a ele.[5] Com base nas evidências da técnica e do estilo dos vestidos das figuras, a maioria dos estudiosos acredita que a obra seja uma das últimas de Jan van Eyck, feita no final da década de 1430 e terminada após sua morte. Outros historiadores da arte sustentam que van Eyck pintou os painéis no começo da década de 1420 e atribuem alguns pontos mais fracos à sua juventude e inexperiência.[5][6]

Formato e técnicaEditar

Juntamente com Robert Campin e depois com Rogier van der Weyden, Van Eyck revolucionou a abordagem do naturalismo e do realismo na pintura do norte da Europa entre o início e a metade do Século XV.[7] Ele foi o primeiro a manipular óleos para dar maiores detalhes que melhoraram o nível de realismo e complexidade de emoção vistos no díptico.[8] Ele associou isso com a maestria do esmalte para criar superfícies luminosas com uma profunda perspectiva mais perceptível na parte superior do painel Crucificação que ainda não tinha sido alcançada antes.[9]

Entre 1420 e 1430, a pintura a óleo e paineis de formatos verticais foram muitas vezes utilizados em pinturas sobre o Juízo Final, devido ao enquadramento estreito ser particularmente adequado à apresentação hierárquica do céu, da terra e do inferno, em contraste com a crucificação, apresentada de forma mais comum em formato horizontal. Para montar tais representações altamente detalhadas em dois pequenos painéis estreitos, van Eyck foi forçado a fazer diversas inovações, redesenhando diversos elementos do painel de Crucificação para coincidir com a apresentação vertical e condensada da narrativa do Juízo Final.[3][6] O resultado é um painel com as cruzes crescentes no céu, uma cena de uma multidão no meio da tela e mulheres chorando a morte de Jesus em primeiro plano, onde toda a cena é representada em uma encosta, ao estilo das tapeçarias medievais. O historiador da arte Otto Pächt disse "é o mundo inteiro em uma pintura, uma Orbis Pictus".[10]

No painel da Crucificação, van Eyck segue a tradição do começo do Século XIV de apresentar episódios bíblicos utilizando uma técnica narrativa.[11] De acordo com o historiador da arte Jeffrey Chipps Smith, o episódio mostra eventos simultâneos, não sequenciais.[3] Van Eyck concentra os episódios chave dos evangelhos em uma única composição, onde cada episódio é colocado de forma a chamar a atenção do espectador para cima em uma seqüência lógica.[11] Essa técnica permitiu a van Eyck criar uma ilusão de profundidade com arranjos espaciais mais complexos e incomuns.[3] No painel da Crucificação ele usa diferentes indicadores para mostrar a relativa proximidade de grupos particulares de figuras a Jesus. Dado o tamanho das mulheres em primeiro plano em relação às figuras crucificadas, os soldados e os espectadores reunidos no centro são muito maiores do que uma adesão estrita à perspectiva permitiria. No Juízo Final condenados estão localizados no inferno na parte inferior, enquanto que os santos e os anjos estão no primeiro plano superior.[6] Pächt escreveu sobre esse painel que a cena é "assimilado em um único cosmo espacial", com os arcanjos agindo como um divisor no espaço entre o céu e o inferno.[10]

Os historiadores da arte não estão certos se os painéis foram feitos para ser um díptico ou um tríptico.[12] Eles podem formar as alas laterais de um tríptico, com um painel representando a Adoração dos Magos no centro,[13] ou, como o historiador alemão Johann David Passavant especulou em 1841, o painel central perdido seria sobre a Natividade.[2] É pouco provavel que um painel perdido possa ser reconhecido como o original, tal união é pouco comum entre os pintores entre os anos de 1420 e 1430. Também foi proposto que uma peça central foi acrescentada depois, ou como Albert Châtelet escreve, o painel central pode ter sido roubado.[13][14] O historiador da arte Erwin Panofsky acreditava que os painéis Crucificação e Juízo Final foram concebidos como um díptico.[15] Ele argumentou que teria sido incomum para meras alas laterais receberem o "suntuoso tratamento" proporcionado a estes dois painéis.[16] Esse método é remanescente dos relicários medievais.[5] Outros observaram que trípticos eram, usualmente, obras maiores para exposição ao público e tendiam a possuir molduras douradas e com inscrições, geralmente só o painel central teria sido tão ricamente decorado como estes painéis. Dípticos contemporâneos são normalmente produzidos para serem utilizados em residências e sem grandes requintes na sua decoração.[2] Pächt acredita que não exista evidência suficiente para afirmar que tenha existido um terceiro painel.[12]

Referências

  1. Vermij et al., 362
  2. a b c "The Crucifixion; The Last Judgment". Metropolitan Museum of Art. Retrieved 20 February 2012.
  3. a b c d Smith, 144
  4. Ridderbos et al., 216
  5. a b c Borchert, 86
  6. a b c Borchert, 89
  7. Ridderbos et al., 378
  8. Panofsky, 163
  9. Viladesau, 70
  10. a b Pächt, 192–194
  11. a b Labuda, 14
  12. a b Pächt, 190–191
  13. a b Weale, 148
  14. Châtelet, 74
  15. Ridderbos et al., 78
  16. Panofsky, 454

BibliografiaEditar

  • Ainsworth, Maryan Wynn. From Van Eyck to Bruegel: Early Netherlandish painting in the Metropolitan Museum of Art. New York: Metropolitan Museum of Art, 1999. ISBN 0-300-08609-1
  • Borchert, Till-Holger. Van Eyck. London: Taschen, 2008. ISBN 3-8228-5687-8
  • Burroughs, Bryson. "A Diptych by Hubert van Eyck". The Metropolitan Museum of Art Bulletin, Volume 28, No. 11, Part 1, November 1933. 184–193
  • Châtelet, Albert. Van Eyck. Woodbury, NY: Barron's, 1979. 74. ISBN 0-8120-2161-4
  • Friedländer, Max Jakob. Die Van Eyck, Petrus Christus. Leiden: Sijthoff, 1934
  • Goldstein, Malcolm. Landscape with Figures: A History of Art Dealing in the United States. Oxford: Oxford University Press, 2000. ISBN 0-19-513673-X
  • Labuda, Adam S. "Jan van Eyck, Realist and Narrator: On the Structure and Artistic Sources of the New York 'Crucifixion'". Artibus et Historiae, Volume 14, No. 27, 1993. 9–30. JSTOR 1483443
  • Lodewijckx, Marc. Archaeological and Historical Aspects of West-European Societies: Album Amicorum André Van Doorselaer. Acta Archaeologica Lovaniensia Monographiae 8. Leuven: Leuven University Press, 1996. ISBN 90-6186-722-3
  • McNamee, Maurice. Vested Angels: Eucharistic Allusions in Early Netherlandish paintings. Leuven: Peeters Publishers, 1998. ISBN 90-429-0007-5
  • Panofsky, Erwin. Early Netherlandish painting: Its Origins and Character. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1964
  • Pächt, Otto. Van Eyck and the Founders of Early Netherlandish Painting. 1999. London: Harvey Miller Publishers. ISBN 1-872501-28-1
  • Passavant, Johann David. Die Christliche Kunst in Spanien. Leipzig, 1853
  • Ridderbos, Bernhard; van Buren, Anne; van Veen, Henk. Early Netherlandish paintings: Rediscovery, Reception and Research. Amsterdam: Amsterdam University Press, 2004. ISBN 90-5356-614-7
  • Sebag Montefiore, Simon. Jerusalem: The Biography. London: Phoenix, 2012. ISBN 1-78022-025-1
  • Smith, Jeffrey Chipps. The Northern Renaissance. London: Phaidon Press, 2004. ISBN 0-7148-3867-5
  • Underwood, Paul. The Kariye Djami, Volume 1. London: Pantheon, 1966
  • Upton, Joel Morgan. Petrus Christus: His Place in Fifteenth-Century Flemish painting. University Park: Pennsylvania State University Press, 1989. ISBN 0-271-00672-2
  • Vermij, R. H.; Cardon, Bert (ed); Van Der Stock, Jan (ed). Als Ich Can. Leuven: Peeters Publishers, 2002. ISBN 90-429-1233-2
  • Viladesau, Richard. The Triumph of the Cross: The Passion of Christ in Theology and the Arts from the Renaissance to the Counter-Reformation. New York: Oxford University Press, 2008. ISBN 0-19-533566-X
  • Ward, John. "Disguised Symbolism as Enactive Symbolism in Van Eyck's Paintings". Artibus et Historiae, Volume 15, No. 29, 1994. 9–53. JSTOR 1483484
  • Weale, W.H. James. Hubert and John Van Eyck, their life and work. London: John Lane, 1908
  • Williams, Robert. Russia Imagined: Art, Culture and National Identity, 1840–1995. New York: Peter Lang Publishing, 1997. ISBN 0-8204-4484-7

Ligações externasEditar

 
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NotasEditar