Abrir menu principal
Discours de la servitude volontaire
Discurso sobre a Servidão Voluntária (PT)
Discurso da Servidão Voluntária (BR)
Autor(es) Étienne de La Boétie
Idioma Francês
Gênero Discurso
Edição portuguesa
Editora Antígona
ISBN 9789726080138
Edição brasileira
Tradução Laymert Garcia dos Santos
Editora Editora Brasiliense
Lançamento 1982

Discurso da Servidão Voluntária é um discurso de autoria de Étienne de La Boétie, publicado originalmente após sua morte em 1563.[1] O texto foi elaborado depois da derrota do povo francês contra o exército e fiscais do rei, que estabeleceram um novo imposto sobre o sal.[2] A obra se mostra como uma espécie de hino à liberdade, com questionamentos sobre as causas da dominação de muitos por poucos, da indignação da opressão e das formas como vence-las. Já no título aparece a contradição do termo servidão voluntária, pois como se pode servir de forma voluntária, isto é, sacrificando a própria liberdade de espontânea vontade?[3] Na obra, o autor pergunta-se sobre a possibilidade de cidades inteiras submeterem-se a vontade de um só. De onde um só tira o poder para controlar todos? Isso só poderia acontecer mediante uma espécie de servidão voluntária.[4] Ele afirma então que são os próprios homens que se fazem dominar, pois caso quisessem sua liberdade de volta, precisariam apenas de se rebelar para consegui-la.[5] Étienne afirma que é possível resistir à opressão, e ainda por cima sem recorrer à violência - segundo ele a tirania se destrói sozinha quando os indivíduos se recusam a consentir com sua própria escravidão. Como a autoridade constrói seu poder principalmente com a obediência consentida dos oprimidos, uma estratégia de resistência sem violência é possível, organizando coletivamente a recusa de obedecer ou colaborar.[6]

Índice

O conceito de servidão voluntária em Étienne de La BoétieEditar

Tirania e exploraçãoEditar

Em sua obra Discurso sobre a Servidão Voluntária, La Boétie analisa a relação de subordinação existente entre o soberano e seus súditos num governo tirânico.[7] Nesse sentido, o autor enxerga a disparidade entre a unicidade da figura do tirano e o número de súditos, os quais possuindo a mesma quantidade de poder que o déspota e, consequentemente, tendo seu direito natural à liberdade cerceada.[8] O poder do tirano, por sua vez, aumenta progressivamente à medida que seus servos sustentam a sua condição subserviente. Conforme afirma La Boétie, há três espécies de tiranos: o primeiro acede ao poder por meio do voto, o segundo pelas armas e o terceiro pela sucessão.[9]

O desejo inato pela liberdadeEditar

A tirania é um sistema autodestrutivo e, embora o povo não tenha feito conscientemente a escolha de estarem sob o jugo do tirano, ele possui a responsabilidade moral de romper o vínculo de submissão excessiva estabelecido com o déspota. Em seguida, La Boétie argumenta que, frequentemente, os indivíduos se associam e permanecem sob o jugo do tirano em razão de uma suposta segurança que lhes são proporcionada, mas que, verdadeiramente, traduz-se em exploração.[10] No entanto, apesar de haverem sua liberdade restringida, o súdito possui naturalmente o desejo da liberdade, mesmo não a conhecendo empiricamente. Tal fato é inclusive verificável entre os animais não humanos.[11]

A origem do poder tirânicoEditar

Segundo Étienne de La Boétie, o poder do tirano não advém exclusivamente de sua força física, mas sobretudo da magia que seu nome é capaz de cativar. Nesse sentido, o nome do tirano exerce uma certa magia acerca das representações e desvincula o medo do poder, o qual se constitui mais pelo afeto do que pela força existente de fato.[12] Tem-se lugar, portanto, uma avaliação afetiva dos súditos para com o déspota; o nome do tirano lança um efeito mágico e se atribuem qualidades ao rei que não se verificam. Dessa forma, tem-se em vista de que a força do soberano está apoiada em nenhum dos seus súditos, nem mesmo naqueles responsáveis em sua própria segurança, os quais somente o vigiam por mera formalidade ou espanto.[13] Ademais, por ser senhor de todos, o tirano não possui companheiro algum, uma vez que a amizade pressupõe a existência de uma estima mútua, sendo ela incapaz de germinar em relações apoiadas em crueldade, deslealdade e injustiça.[14]

O caminho para o fim da servidãoEditar

Por fim, o autor apresenta a maneira pela qual os súditos devem agir para destituir o tirano de seu poder ficcional. Para que isso aconteça, basta deixar de servi-lo.[15] É simplesmente pela tomada de consciência dos servos que se desvencilha da tirania. Em suas palavras, o povo se decapita justamente quando delega decisões que deveriam ser tomadas por ele mesmo a apenas um homem, ou seja, à medida que cada súdito concede seu poder ao tirano, o próprio povo corta a sua garganta.[16] Em última análise, La Boétie reforça a indignidade de o ser humano viver no estado de submissão, devendo retomar ao estado de liberdade política a partir da tomada de consciência da existência da opressão despótica.[17]

Referências

  1. CartaCapital: A servidão voluntária
  2. Rothbard, Murray, Ending Tyranny Without Violence
  3. Rabelo, Sebastião Augusto, Análise do DISCURSO SOBRE A SERVIDÃO VOLUNTÁRIA DE ÉTIENNE DE LA BOÉTIE, Página 5. Arquivado em 3 de março de 2016, no Wayback Machine.
  4. Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, Página 4, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004.
  5. Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, Páginas 6-7, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004.
  6. de La Boétie, Étienne, Discurso da servidão voluntaria, Sinopse, Brasiliense, 1982, ISBN 8572325557 - 239 páginas.
  7. La Boétie, Étienne de. Discurso sobre a servidão voluntária. 2. ed. rev. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2009, p. 32.
  8. La Boétie, Étienne de. Discurso sobre a servidão voluntária. 2. ed. rev. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2009, p. 35.
  9. La Boétie, Étienne de. Discurso sobre a servidão voluntária. 2. ed. rev. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2009, p. 41.
  10. La Boétie, Étienne de. Discurso sobre a servidão voluntária. 2. ed. rev. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2009, p. 60.
  11. La Boétie, Étienne de. Discurso sobre a servidão voluntária. 2. ed. rev. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2009, p. 40.
  12. La Boétie, Étienne de. Discurso sobre a servidão voluntária. 2. ed. rev. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2009, p. 32.
  13. La Boétie, Étienne de. Discurso sobre a servidão voluntária. 2. ed. rev. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2009, p. 57
  14. La Boétie, Étienne de. Discurso sobre a servidão voluntária. 2. ed. rev. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2009, p. 63.
  15. La Boétie, Étienne de. Discurso sobre a servidão voluntária. 2. ed. rev. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2009, p. 36.
  16. La Boétie, Étienne de. Discours de la servitude volontaire. Disponível em: < https://www.singulier.eu/textes/reference/texte/pdf/servitude.pdf>. Acesso em 24 de junho de 2019, p .4.
  17. La Boétie, Étienne de. Discurso sobre a servidão voluntária. 2. ed. rev. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2009, p. 65.

Ligações externasEditar