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Falsas memórias ou memórias ilusórias, em psicologia, são memórias de eventos que nunca foram efetivamente vivenciados pelo sujeito. Entre os pioneiros da área, destacam-se Pierre Janet, Sigmund Freud e Alfred Binet, que trabalhou na França por volta de 1900 estudando a falsificação de memórias em crianças.[1] Desde 1974, a psicóloga americana Elizabeth Loftus tem sido uma líder em pesquisas relacionadas a falsa memória e recuperação de memórias.

O impacto de falsas memórias é visível durante psicoterapias, em depoimentos na área jurídica e em autobiografias. Comumente, falsas memórias estão associadas a abuso sexual infantil.[2][3][4][5] Em seu livro A Etiologia da Histeria (1896), Freud discute a relação entre memórias traumáticas reprimidas em crianças (relacionadas a abuso) e a histeria.[6]

Índice

Criando falsas memóriasEditar

Uma das formas de estimular a formação de falsas memórias é o chamado de "procedimento de sugestão de falsa informação" que envolve questionar sobre a presença de um estímulo compatível durante um fato vivenciado sugestivamente. Quanto mais aceitável, provável e conveniente a presença este estímulo seja subjetivamente, mais provável dele ser incluído na memória do sujeito. Outros fatores identificados como importantes nessa falsificação são os limites da memória, há quanto tempo aconteceu o evento original, a importância pessoal desse evento e quantas vezes essa memória já foi recordada.[7]

Outro fator importante é o impacto emocional do evento vivenciado, quanto maior o impacto, tanto negativo quanto positivo, desse evento maior a facilidade de recordá-lo posteriormente evolvido com falsas memórias. O mecanismo neurológico por trás disso provavelmente é a intereação do hipocampo (área relacionada ao processamento de memórias) com o sistema límbico (área relacionada as emoções) especialmente a amígdala cerebelosa (relacionada a ansiedade).[8]

A criação de falsas memórias é extremamente perigosa quando feita por testemunhas de crimes que estão sendo julgados, pois podem levar tanto inocentes a serem considerados culpados de crimes hediondos e mortos, quanto culpados de crimes hediondos serem inocentados e assim podendo cometer novos crimes.[9]

Teste de formação de falsas memórasEditar

Roediger and McDermott fizeram vários estudos sobre a formação de falsas memórias usando listas de palavras. Abaixo estão escritas 15 palavras.

  • Leia as palavras abaixo por 1 minuto e procure memorizá-las:
  • Espere 1 minuto e só então leia as palavras abaixo tentando se lembrar quais também estavam na lista acima.

Em um outro teste, foram lidos contos indígenas para crianças em idade escolar e depois o pesquisador lhes pedia para se recordarem da história. Além de faltarem algumas partes, nos relatos havia adaptações e invenções criadas pelos participantes para tornar a história mais racional e consistente.[10]

Persistência das falsas memóriasEditar

Nos testes originais propostos por Roediger e McDermott onde após o pesquisador ler cada grupo de 15 palavras os participantes deviam escrever as palavras que lembravam, um grande número de falsas memórias foram identificados imediatamente. Ao final desse teste os participantes leram as palavras originais e compararam com suas respostas, porém em um reteste uma semana depois as falsas memórias continuaram aparecendo.[11] No estudo original, mesmo após 5 testes, no mesmo dia, onde as respostas falsas e verdadeiras eram reveladas ao final de cada teste falsas memórias persistiram e no dia seguinte o número de falsas memórias aumentava novamente.[12] Esses estudos indicam que é possível manter falsas memórias por grandes períodos de tempo e que elas são tão persistentes quanto as verdadeiras.

Traços de personalidade relacionadosEditar

Pessoas com alto nível de neuroticismo foram identificadas como sendo mais vulneráveis a elaboração de falsas memórias.[13] Provavelmente isto ocorre pois essas pessoas tendem a ter altos níveis de vulnerabilidade psicológica, mais afetos negativos, baixa autoestima, grande número de respostas de enfrentamento mal adaptadas, frequentemente se depreciam e exageram em seus autorrelatos de sintomas. Além disso, quanto maior o neuroticismo melhor o detalhamento de eventos desegradáveis e maior o número de traços negativos de si mesmo relatados.[14]

De forma semelhante, a presença de depressão e ansiedade ao mesmo tempo diminuem o número de acertos e aumentam o número de falsos positivos (falsas memórias) em testes de memorização.[15]

Efeito Mandela: falsas memórias coletivasEditar

Popularmente, dá-se o nome "efeito Mandela" a falsas memórias que várias pessoas compartilham.[16] A origem do termo vem de 2010, quando foi constatado que várias pessoas acreditavam que Nelson Mandela havia morrido nos anos 80, quando na verdade estava vivo e só morreria em 2013.[17] Há vários outros exemplos de títulos da mídia, nomes e logotipos de marcas, entre outros itens, que as pessoas lembram incorretamente. Segue uma lista abaixo:

Falsa memória Realidade
Nelson Mandela morreu nos anos 80 Nelson Mandela morreu em 2013
A ponta da cauda do Pikachu é preta A ponta da cauda do Pikachu é amarela
"Ordem e Progresso" na bandeira do Brasil é em preto "Ordem e Progresso" na bandeira do Brasil é em verde
O Pensador apoia a mão na testa O Pensador apoia a mão no queixo
Looney Toons Looney Tunes
Flinstones Flintstones
Kit-Kat Kit Kat

Acredita-se que a causa do efeito Mandela seja fatores similares que afetam diversas pessoas,[18][19][20][21][22] memórias incorretas virando senso comum,[23][24] bem como notícias e imagens falsas que reforçam o surgimento de tais memórias.[25][24]

Na internet, explicações populares (porém pseudocientíficas) para o efeito incluem uma conspiração ou uma interação de diferentes universos paralelos.[carece de fontes?]

Ver tambémEditar

Referências

  1. Roediger, H. L. III (1996). Memory illusions. Journal of Memory and Language, 35, 76-100.
  2. Bremner, J. D.; Krystal, J. H.; Charney, D. S.; Southwick, S. M. (1996). «Neural mechanisms in dissociative amnesia for childhood abuse: Relevance to the current controversy surrounding the "false memory syndrome». American Journal of Psychiatry. 153 (7): 71–82. PMID 8659644. doi:10.1176/ajp.153.7.71 
  3. Davis, J (2005). «Victim narratives and victim selves: False memory syndrome and the power of accounts». Social Problems. 52 (4): 529–548. doi:10.1525/sp.2005.52.4.529 
  4. Ware, R (1995). «Scylla and Charybdis – Sexual abuse or false memory syndrome – Therapy-induced memories of sexual abuse». Journal of Analytical Psychology. 40 (1): 5–22. PMID 7868381. doi:10.1111/j.1465-5922.1995.00005.x 
  5. Christianson, S.; Loftus, E. (1987). «Memory for traumatic events». Applied Cognitive Psychology. 1 (4): 225–239. doi:10.1002/acp.2350010402 
  6. Gleaves, David H.; Smith, Steven M.; Butler, Lisa D.; Spiegel, David (2004). «False and recovered memories in the laboratory and clinic: A review of experimental and clinical evidence». Clinical Psychology-Science and Practice. 11 (1): 3–28. doi:10.1093/clipsy.bph055 
  7. Loftus, E. F. & Hoffman, H. G. (1989). Misinformation in memory: The creation of new memories. Journal of Experimental Psychology: General, 118, 100-104.
  8. Kensinger, E. A., & Corkin, S. (2004a). The effects of emotional content and aging on false memories. Cognitive, Affective, & Behavioral Neuroscience, 4 (1), 1-9..
  9. «Psicologia do testemunho: as falsas memórias no Processo Penal». Justificando. 10 de setembro de 2015. Consultado em 9 de janeiro de 2017 
  10. Bartlett, F., Remembering: a study in experimental and social psychology, Cambridge, England: Cambridge University, 1932
  11. Lilian Milnitsky Stein e Giovanni Kuckartz Pergher (2001) Criando Falsas Memórias em Adultos por meio de Palavras Associadas. Psicologia: Reflexão e Crítica, 2001, 14(2), pp. 353-366
  12. McDermott, K. B. (1996a). The persistence of false memories in list recall. Journal of Memory and Language, 35, 212-230.
  13. AVILA, Luciana Moreira de and STEIN, Lilian Milnitsky. A influência do traço de personalidade neuroticismo na suscetibilidade às falsas memórias. Psic.: Teor. e Pesq. [online]. 2006, vol.22, n.3 [cited 2011-02-26], pp. 339-346. ISSN 0102-3772. doi: 10.1590/S0102-37722006000300011.
  14. Larsen, R. J. (1992). Neuroticism and selective encoding and recall of symptoms: Evidence from a combined concurrent-retrospective study. Journal of Personality and Social Psychology, 62(3), 480-488.
  15. Kizilbash, A. H., Vanderploeg, R. D., & Curtiss, G. (2002). The effects of depression and anxiety on memory performance. Archives of Clinical Neuropsychology, 17, 57-67.
  16. «Collective representation elicit widespread individual false memories (PDF Download Available)». ResearchGate (em inglês). Consultado em 21 de setembro de 2017 
  17. «Nelson Mandela Died in Prison? – Mandela Effect». Mandela Effect (em inglês). 9 de setembro de 2010. Consultado em 27 de fevereiro de 2017 
  18. «Collective False Memories: What's Behind the 'Mandela Effect'?». The Crux (em inglês). 16 de fevereiro de 2017. Consultado em 27 de fevereiro de 2017 
  19. «21 Mandela Effect Examples List To Get You Thinking». BuzzFyre (em inglês). 16 de fevereiro de 2017. Consultado em 27 de fevereiro de 2017 
  20. «Does this picture look a bit off to you?». NewsComAu (em inglês). Consultado em 27 de fevereiro de 2017 
  21. «NZ and the 'Mandela Effect': Meet the folks who remember New Zealand being in a different place». Stuff. Consultado em 27 de fevereiro de 2017 
  22. «On a Grandma's House and the Unknowability of the Past». Pacific Standard. 9 de fevereiro de 2017. Consultado em 1 de março de 2017 
  23. Brown, Adam D.; Kouri, Nicole; Hirst, William (23 de julho de 2012). «Memory's Malleability: Its Role in Shaping Collective Memory and Social Identity». Frontiers in Psychology. 3: 257. ISSN 1664-1078. PMC 3402138 . PMID 22837750. doi:10.3389/fpsyg.2012.00257 
  24. a b «Can groups of people "remember" something that didn't happen?». Hopes&Fears. Consultado em 1 de março de 2017 
  25. «CogBlog – A Cognitive Psychology Blog » False Memories in the News: Are Pictures Worth MORE Than 1,000 Words?». web.colby.edu. Consultado em 1 de março de 2017