Pessoas em um momento de lazer

Lazer (em latim: licere, ou seja, "ser lícito", "ser permitido") corresponde ao tempo de folga, de passatempo, de ócio, de descanso, distração ou entretenimento, de uma pessoa.[1]

É comumente visto como um conjunto de ocupações às quais o indivíduo desenvolve de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se, ou ainda, para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais.[2]

No campo da educação podem-se identificar, as atividades de lazer, como ações integradoras dos quatro pilares da educação, propostos por Jacques Delors: aprender a conhecer e a pensar; aprender a fazer; aprender a viver com os outros e aprender a ser.[3]

ConceitoEditar

Poder-se-á definir lazer, como uma forma de uma pessoa utilizar seu tempo dedicando-se a uma atividade que aprecie e que não seja considerado trabalho. De acordo com Gomes e Elizalde (2012), o lazer não é um fenômeno isolado e se manifesta em diferentes contextos de acordo com os sentidos e os significados culturalmente produzidos/reproduzidos pelos sujeitos em suas relações com o mundo. O lazer participa da complexa trama histórico-social que caracteriza a vida na sociedade, e é um dos fios tecidos na rede humana de significados, dos símbolos e das significações.[4]

Na vida cotidiana o lazer constitui-se de relações dialógicas com outros campos além do trabalho, tais como a educação, política, economia, linguagem, saúde, arte, ciência e a natureza, entre outras dimensões da vida, sendo parte integrante e constitutiva de cada sociedade.[5] Desse modo, lazer é uma necessidade humana e dimensão da cultura caracterizada pela vivência lúdica de manifestações culturais no tempo/espaço social. Assim, o lazer é constituído na articulação de três elementos fundamentais: a ludicidade, as manifestações culturais e o tempo/espaço social. Juntos, esses elementos configuram as condições materiais e simbólicas, subjetivas e objetivas que podem – ou não – fazer do lazer um potente aliado no processo de transformação de nossas sociedades, tornando-as mais humanas e inclusivas.[4]

Segundo Gomes (2008), as manifestações culturais que constituem o lazer são práticas sociais vivenciadas como desfrute e como fruição da cultura, tais como: festas, passeios, viagens, poesia, grafite e desenho, pintura, escultura, dança, vivências e expressões corporais, jogos eletrônicos e experiências virtuais, fotografia, teatro, atividades recreativas e esportivas, festivais e eventos artísticos, variadas formas de educação popular local, espaços de conversação e debate etc.[6]

Essas e outras manifestações possuem significados singulares para cada sujeito e para cada grupo humano e, por isso, não podem ser reduzidas a divertimentos, embora eles também sejam amplamente vivenciados como experiências de lazer. Assim, as manifestações culturais constituem práticas sociais complexas permeadas por aspectos simbólicos e materiais que integram a vida de cada pessoa e a cultura de cada povo, podendo assumir múltiplos significados: ao serem concretizadas em um determinado tempo/espaço social, ao dialogarem com um determinado contexto e, também, ao assumirem um papel peculiar para os sujeitos, para os grupos sociais, para as instituições e para a sociedade que as vivenciam histórica, social e culturalmente.[7]

Não nos esqueçamos de que o lazer também compreende outras práticas culturais que abrem possibilidades de introspecção – tais como a meditação, a contemplação e o relaxamento – que podem representar significativas experiências pessoais e sociais graças ao seu potencial reflexivo. Certamente, existe um preconceito com esse tipo de experiência, porque ela desafia a lógica produtivista que impera em nossa realidade social ao ser, lamentavelmente, considerada como improdutiva e como perda de tempo.[8]

HistóriaEditar

 
Homem descansando.

De acordo com Gomes e Elizalde (2012), nos estudos sobre o lazer difundidos no Ocidente é possível verificar que as raízes, geralmente, são localizadas na antiga Grécia clássica ou na modernidade europeia. Essas duas interpretações distintas são divergentes em termos da ocorrência histórica do lazer e geram intensos debates acadêmicos: para alguns, a existência do lazer é observada desde as sociedades gregas e, para outros, o lazer é um fenômeno específico das sociedades modernas, urbanas e industrializadas.[9]

Ambas as interpretações colaboram com a manutenção de uma lógica evolutiva e linear que define os tempos, as histórias, as culturas e as práticas de todas as realidades e de todos os povos que, por sua vez, devem almejar o modelo ocidental – urbano, industrial e capitalista – como o ideal a ser alcançado para atingir um suposto progresso.[4] Além disso, as duas interpretações sobre uma suposta origem do lazer, destacadas previamente, são produções teóricas que reforçam o mito da centralidade da Europa como referência privilegiada para a constituição do mundo, sobretudo do chamado “mundo ocidental”. Desse modo, excluem a decisiva participação de outras realidades em um jogo de poder que envolve, de maneira desigual, vários componentes, dentre os quais os povos e as culturas de outros continentes, tais como América Latina, África e Ásia.[8]

Os conhecimentos supostamente universais estão comprometidos com determinados valores e interesses – explícitos ou ocultos – que não correspondem necessariamente aos interesses e às necessidades específicas de todos os contextos locais do mundo. Por isso, é muito importante considerar não somente os conhecimentos sobre lazer que um determinado autor produz ou utiliza.

Também é fundamental reconhecer de onde nascem estes conhecimentos e em quais teorias e autores eles estão fundamentados; conhecer e analisar os contextos em que foram produzidos, a que motivações correspondem, os valores que expressam, os fundamentos que os definem, as visões de mundo e as ideologias subjacentes, assim como os projetos políticos de sociedade com os quais estão comprometidos. Afinal, existe uma estreita relação entre os padrões de conhecimento mundiais e as estruturas econômicas e de poder hegemônicas.[4]

TiposEditar

A partir de outras abordagens teóricas, pode-se dizer que há uma importante diversificação do mundo do lazer ao ponto que podemos falar de diferentes tipos de lazer, suficientemente distintos entre si,[10] podemos defini-los separadamente:

  • Lazer noturno: se trata de todo o lazer associado a noite e atividades em que elas se desenrolam, bares, discotecas, e outros lugares em que a música e a bebida são os pilares centrais.
  • Lazer espetáculo: todo lazer relacionado com os espetáculos, entre os que podemos distinguir os culturais (teatro, concertos,ópera, cinema, shows, espetáculos, apresentações culturais) e os desportivos.
  • Lazer esportivo: se refere a prática de algum esporte.
  • Lazer alternativo: o lazer alternativo tem duas vertentes, uma que se refere ao lazer alternativo noturno, que na maioria dos casos é dirigido a jovens maiores de 18 anos, para proporcionar uma alternativa mais sadia em suas saídas noturnas. Enquanto que um novo ramo do lazer alternativo, se refere a um tipo de lazer não convencional, no esportivo e no de espetáculo na que o participante é ator principal de seu lazer. Este tipo de lazer também é conhecido como lazer experiencial.

Utilizando como critério a participação das pessoas no lazer podemos distinguir dois tipos de lazer:

  • Lazer ativo: Lazer em que o participante é receptor e emissor de estímulos.
  • Lazer passivo: Lazer em que o participante é unicamente receptor de estímulos.

Ver tambémEditar

Referências

  1. lazer, iDicionário Aulete
  2. Dumazedier, 1976, apud Oleias
  3. ROLIN, Liz Cintra (1990). Educação e Lazer - A Aprendizagem Permanente. São Paulo: Ática 
  4. a b c d «Gomes e Elizalde». Consultado em 29 de junho de 2012 
  5. CAMARGO, Luis Otávio de Lima (1989). O que é Lazer. São Paulo: Brasiliense 
  6. DUMAZEDIER, Joffre (1976). Lazer e cultura popular. São Paulo: Perspectiva 
  7. MARCELINO, Nélson Carvalho (1983). Lazer e Humanização. Campinas: Papirus 
  8. a b GOMES, Christianne L.; ELIZALDE, Rodrigo (2012). Horizontes latino-americanos del ocio [Horizontes latino-americanos do lazer] (PDF) (em espanhol). Belo Horizontes: Editora UFMG/Grupo OTIUM (Lazer, Brasil & América Latina). Consultado em 10 de dezembro de 2012 
  9. GOMES, Christianne L. (2008). Lazer, trabalho e educação: relações históricas, questões contemporâneas 2 ed. Belo Horizonte: Editora UFMG 
  10. BACAL, Sarah (2003). Lazer e o Universo dos Possíveis. São Paulo: Aleph 

BibliografiaEditar

  • Delors, Jacques (1999). EDUCAÇÃO - um tesouro a descobrir: relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. São Paulo: Cortez. p. 288  Tradução de José Carlos Eufrásio.
  • MUNNE, Frederic (1980). Psicosociología del tiempo libre: un enfoque crítico (em espanhol). México: Trilhas 
  • REQUIXA, Renato (1977). O lazer no Brasil. São Paulo: Brasiliense 

Ligações externasEditar