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Logos, grafia grega

O Logos (em grego λόγος, do grego λέγω [légō], "Eu digo") é um termo filosófico intraduzível, encontrado em estudos de psicologia, retórica, religião, e que inicialmente se referia a composição lógica por trás de uma argumentação, conforme popularizado por Heráclito.[1]

Embora seja popularmente traduzida como "palavra", o termo grego para tal seria Lexis (λέξις)[2], que também vem da "légō". Esse erro de tradução provavelmente se popularizou com a Bíblia, quando o filósofo Filo da Alexandria descreveu Jesus como "o logos de Deus"[3]. (Supõe-se que, na incapacidade de traduzir a palavra, o tradutor correlacionou-a com légō e sua derivada lexis, popularizando o erro.)

Logos sintetiza vários significados que, em português, estão separados, mas unidos em grego. Vem do verbo légo (no infinitivo: légein) que significa: (1) colher,, enumerar, calcular, escolher, ordenar, reunir; (2) narrar, pronunciar, proferir, falar, dizer, declarar, anunciar, nomear claramente, discutir; (3) pensar, refletir; (4) querer dizer, significar, falar como orador, contar; (5) ler em voz alta, recitar, fazer dizer. Lógos é: palavra; o que se diz; sentença; exemplo; conversa; assunto da discussão; pensar; inteligência; razão; faculdade de raciocinar; fundamento; causa; princípio; motivo; razão de alguma coisa; argumento; exercício da razão, juízo ou julgamento; bom senso; explicação; narrativa; estudos; valor atribuído a alguma coisa; razão íntima de alguma coisa; justificação; analogia. Enfim, lógos reúne numa só palavra quatro sentidos principais: (1) linguagem; (2) pensamento ou razão; (3) norma ou regra; (4) ser ou realidade íntima de alguma coisa. – Logía, que é usado como segundo elemento de várias palavras compostas, indica: conhecimento de; explicação racional de; estudo de. O lógos dá a razão, o sentido, o valor, a causa, o fundamento de alguma coisa, o ser da coisa. É também a razão conhecendo as coisas, pensando os seres, a linguagem que diz ou profere as coisas, dizendo o sentido ou o significado delas.

Na teologia cristã o conceito filosófico do Logos viria a ser adaptado no Evangelho de João, o evangelista se refere a Jesus Cristo como o Logos, isto é, a Palavra: "No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra é Deus" João 1:1 (εν αρχη ην ο λογος και ο λογος ην προς τον θεον και θεος ην ο λογος)

(Há traduções do Evangelho em que Logos é o "Verbo"). O Logos também pode ser visto como o "Motivo" de todas as coisas, sendo a causa que explica o anseio existencial humano tão discutido pela filosofia.

Para muitos cristãos, a vida da pessoa que se tornou conhecida como Jesus Cristo não começou aqui na terra. Segundo essa compreensão, Ele mesmo teria falado da sua vida celeste pré-humana (Jo 3:13; 6:38, 62; 8:23, 42, 58). De acordo com uma compreensão corrente entre os cristãos, o livro João 1:1,2 fornece o nome celeste daquele que se tornou Jesus, dizendo: “No princípio era o Verbo [“Verbo”, Al; CBC; gr.: Lógos], no princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus. Ele estava no princípio com Deus.”

Índice

HeráclitoEditar

Foi nos escritos de Heráclito que a palavra "logos" mereceu especial atenção na filosofia da Grécia Antiga.[4] Apesar de Heráclito parecer usar a palavra com um significado não muito diferente da maneira como era utilizada no grego comum dessa época,[5] uma existência independente de um "logos" universal era já sugerida:[6]

Este logos, os homens, antes ou depois de o haverem ouvido, jamais o compreendem. Ainda que tudo aconteça conforme este LOGOS, parece não terem experiência em tais palavras e obras, como eu as exponho, distinguindo-se em tais palavras e obras, e explicando a natureza de cada coisa. Os outros homens ignoram o que fazem em estado de vigília, assim como esquecem o que fazem durante o sono (Diels-Kranz 22B1).

Por esta razão, o comum deve ser seguido. Mas, apesar de o LOGOS ser comum a todos, a maior parte das pessoas vive como se cada um tivesse um entendimento particular (Diels-Kranz 22B2).

É sábio que os que ouviram, não a mim, mas ao LOGOS, reconheçam que todas as coisas são um (Diels-Kranz 22B50).

Logos = justa medida = razão (filosofia)

O logos mencionado acima é também conhecido como o mantra "AUM".

EstoicismoEditar

O estoicismo é uma doutrina filosófica que afirma que todo o universo é corpóreo e governado por um Logos divino (noção que os estoicos tomam de Heráclito e desenvolvem). A alma está identificada com este princípio divino, como parte de um todo ao qual pertence. Este lógos (ou razão universal) ordena todas as coisas: tudo surge a partir dele e de acordo com ele, graças a ele o mundo é um kosmos (termo que em grego significa "harmonia"). Visto que o homem buscava intensamente essa harmonia e tranquilidade de vida.

Logos no cristianismoEditar

 Ver artigo principal: Logos no cristianismo

No cristianismo, o conceito deriva da famosa frase de João: «No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.» (João 1:1) na abertura de seu evangelho (Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος, καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν, καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος[7]) e é um importante conceito na cristologia cristã para estabelecer a doutrina da divindade de Jesus Cristo e sua posição como Deus Filho na Trindade, como declarado no Credo Calcedoniano.

Ver tambémEditar

Referências

  1. Cambridge Dictionary of Philosophy (2nd ed): Heraclitus. 1999: Cambridge 
  2. Liddell & Scott, Henry George & Robert (1940). An Intermediate Greek–English Lexicon. [S.l.]: Oxford Clarendon Press 
  3. M. Metzger, Bruce & Hebert G. (1997). The New Oxford Annotated Bible with the Apocrypha. [S.l.]: Oxford 
  4. F.E. Peters, Greek Philosophical Terms, New York University Press, 1967.
  5. W. K. C. Guthrie, A History of Greek Philosophy, vol. 1, Cambridge University Press, 1962, pp. 419ff.
  6. W. K. C. Guthrie, The Greek Philosophers: From Thales to Aristotle, Methuen, 1967, p. 45.
  7. «João 1:1» (em grego). Byblos. Consultado em 1 de junho de 2013. 

BibliografiaEditar

  • REAL, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Patrística e Escolástica.2.ed. São Paulo: Paulos, 2005, v.2.
  • ABAGNANO, Nicolal. Dicionário de Filosofia. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
  • I Apologia de Justino.
  • II Apologia de Justino.
  • Contra as heresias de Irineu.
  • Súplica pelos Cristãos de Atenágoras de Atenas.
  • O Protréptico de Clemente de Alexandria.
  • Segundo Livro a Autólico de Teófilo de Antioquia.
  • Do Tratado contra a heresia de Neto de Hipólito de Roma.
  • De Christo et antichristo de Hipólito de Roma.