Luís Gonçalves da Câmara

Luís Gonçalves da Câmara (Funchal, c. 1519Lisboa, 15 de março de 1575) foi um padre da Companhia de Jesus, confidente de Inácio de Loyola, confessor e preceptor do rei D. Sebastião.[1] Privou e correspondeu-se com importantes figuras seiscentistas, sendo uma personagem ambígua – odiada e admirada – e cujos percurso e legado são de uma importância indiscutível para a história da sua Ordem e do seu país.[2]

Luís Gonçalves da Câmara
Nascimento 1519
Funchal
Morte 15 de março de 1575
Lisboa
Cidadania Portugal
Progenitores
Alma mater
Ocupação sacerdote
Obras destacadas Acta Patris Ignatii
Religião Igreja Católica

BiografiaEditar

Nasceu no Funchal, ilha da Madeira, filho de João Gonçalves da Câmara, capitão do donatário no Funchal, e de sua esposa, Leonor de Vilhena. Foi irmão de Simão Gonçalves da Câmara, 1.º conde da Calheta, e de Martim Gonçalves da Câmara, reitor da Universidade de Coimbra.

Em 1535 iniciou seus estudos no Colégio de Santa Bárbara da Universidade de Paris, onde conheceu Pierre Favre (1506-1546), hoje conhecido como São Pedro Fabro, e outros companheiros de Inácio de Loyola (c. 1491-1556), que havia retornado a Espanha no início da primavera desse mesmo ano. Obtido o grau de Mestre em Letras naquela Universidade, regressou a Portugal para iniciar os estudos de Teologia na Universidade de Coimbra.

Após ingressar na Companhia de Jesus, em Coimbra em 27 de abril de 1545, foi enviado para o noviciado de Valência por alguns meses por o ter afastado da sua nobre e poderosa família, que se opunha à decisão do jovem. De volta a Coimbra, em 1547, foi nomeado reitor do Colégio de Jesus daquela cidade. Em 1548 fez parte, com João Nunes Barreto (1517-1562, futuro Patriarca da Etiópia, da primeira missão jesuíta a Tetouan (Marrocos), encarregada de prestar ajuda espiritual aos portugueses residentes e aos cristãos cativos. O excesso de trabalho e a doença levaram ao seu regresso a Lisboa, de onde continuou a tratar de assuntos relacionados com a mesma missão.[2]

Foi enviado a Roma pelo visitador Miguel de Torres (1509-1593), onde chegou a 23 de maio de 1553, para prestar contas sobre o preocupante estado da Província de Portugal da Ordem, situação que era consequência da má gestão do primeiro provincial e cofundador Simão Rodrigues. Em Roma ganhou a confiança de Inácio de Loyola, que em agosto de 1554 o nomeou Ministro da Casa Professa. Permaneceu em Roma até 23 de outubro de 1555, data em que quando empreendeu o regresso a Portugal.[2] Com essa confiança, Gonçalves da Câmara soube fazer com que o fundador e primeiro superior-geral decidisse atender aos repetidos pedidos de alguns dos seus companheiros, com Jerónimo Nadal (1507-1580) e Juan Alfonso de Polanco (1517-1576) entre os mais insistentes, para que aceitasse narrar com algum detalhe os principais incidentes da sua vida.[2] Dessas narrações nasceu a obra Acta Patris Ignatii, na qual Gonçalves da Câmara registou quanto Inácio relatou sobre o seu percurso biográfico, desde os seus primeiros anos ao ano de 1538. A narração ocorreu em três ocasiões distintas: agosto-setembro de 1553; março de 1555; e setembro-outubro de 1555. Nela Gonçalves da Câmara transcreveu o que ouviu de Inácio de Loyola na chamada autobiografia do santo, de capital importância para conhecer a evolução interna do fundador da Companhia de Jesus e a génese da nova ordem religiosa. Gonçalves da Câmara também guardou um Memoriale dos seus dias na Casa Generalícia de Roma, entre 26 de janeiro e 18 de outubro de 1555, cuja escrita definitiva o ocupou na fase final da vida.[2]

Para além destas duas obras, vindas da sua pena, Gonçalves relaciona-se com dois célebres textos inacianos: a Carta da Perfeição (1547-05-07) dirigida à comunidade escolar de Coimbra, da qual Gonçalves foi para o então Chanceler; e a Carta de Obediência, datada de 26 de março de 1553 e dirigida à Província de Portugal, em resposta a uma carta de Gonçalves da Câmara datada de 6 de janeiro de 1553, na qual dava conta da situação da Província.

Após a morte de Inácio (Roma, 1556-07-31), Gonçalves regressou a Roma em 1558 para frequentar a Primeira Congregação Geral que elegeu Diego Laínez (c. 1512-1565) para suceder ao falecido primeiro superior-geral. A mesma Congregação Geral nomeou Gonçalves Assistente para Portugal, o que o manteve em Roma até julho de 1559 quando, a pedido da Corte portuguesa, teve de regressar a Portugal para se encarregar da formação de D. Sebastião (1554-1578, que fiara órfão de seu pai, o príncipe herdeiro D. João Manuel de Portugal (1537-1554) antes de nascer e abandonado por sua mãe, Joana da Áustria e Espanha (1535-1573. Desde recém-nascido, o príncipe estava sob os cuidados da sua avó paterna, D. Catarina da Áustria (1507-1578). Gonçalves da Câmara tornou-se professor e confessor do jovem príncipe herdeiro até que, anos depois, a própria rainha-avó afastou o jesuíta da Corte, acusando-o de atrapalhar os planos de casamento do infante.

Nomeado Provincial de Portugal, em 1574 foi substituído por Manuel Rodrigues (1534-1596) por decisão de Everardo Mercuriano (c1514-1580), quarto superior-geral) após relatórios sobre a situação da Província por Simão Rodrigues (c1510- 1579) após o seu regresso a Portugal após duas décadas de ausência. Gonçalves da Câmara faleceu em Lisboa em 15 de março de 1575. O seu ex-aluno, o então rei D. Sebastião, terá ficado profundamente comovido ao receber a notícia em Évora.

ReferênciasEditar

BibliographiaEditar

  • Câmara, Luís Gonçalves da. Pereira, E., Rodrigues, G. Portugal: diccionario... Lisboa: J. Romano Torres, 1906. T. II., p. 639-640.
  • Carvalho, J. Vaz de. Câmara, Luís Gonçalves da. Diccionario histórico de la Compañía de Jesús... Roma, Madrid, 2001. T. I., p. 608-609.
  • Aubert, R. Gonzalez de Camara, Luis. Dictionnaire d'histoire et de géographie ecclésiastiques... Paris,1986. V. 21, Col. 665.

Ligações externasEditar