Pedras rai

As pedras rai são discos de pedra calcária da ilha de Yap, na Micronésia, no Pacífico Ocidental (Oceania), e que são utilizadas como moeda pelos habitantes do local. Algumas dessas pedras polidas apresentam dimensões maiores que as de um automóvel e são muito pesadas para mover; esculpidas em épocas anteriores à colonização europeia e transportadas por canoas provindas da ilha de Palau, uma nação insular 400 quilômetros a sudoeste, onde sua matéria-prima fora descoberta. Após as negociações com o povo de Palau, onde estabeleceu-se uma pedreira, foram usadas ferramentas de concha para esculpir tais pedras em forma de disco, denominadas rai e inicialmente usadas como presentes e com o formato de uma baleia. O diâmetro destas pedras pode chegar de 7 centímetros a até os 3.7 metros e são furadas em sua parte central, o que permitiria que fossem atravessadas por estacas grossas e roladas até as canoas de transporte e que mantivessem sua flutuabilidade até sua região de destino. Os chefes da ilha também davam nomes a algumas pedras, geralmente escolhendo seu próprio nome ou de parentes, e confirmavam as pedras como legítimas lhes dando um valor baseado em um sistema monetário ainda mais antigo: o yar (dinheiro em concha de pérola). As pedras poderiam então entrar em circulação e ser compradas por qualquer pessoa.

Um grande exemplo (aproximadamente 2,5 metros de altura) do dinheiro de pedra da ilha Yap (rai) na vila de Gachpar.
Moedas de pedra, atravessadas por troncos e prontas para o transporte, fotografia de 1903.
Apresentação do dinheiro de pedra (rai) para a inauguração dos Estados Federados da Micronésia.

As pedras rai tornaram-se uma espécie de moeda, habitualmente trocada em casamentos e como parte de acordos políticos, heranças e ressarcimentos, e seu valor depende de suas dimensões e de como se deu a sua procedência, já que a morte de uma pessoa na obtenção da moeda seria um motivo para que o seu valor se tornasse maior. O quanto vale uma moeda também depende de para quem você a dá e para quê. Sua transação monetária é independente do transporte do objeto para um novo local, mas meramente pelo reconhecimento da transferência de sua propriedade. Em um dos casos, a moeda fora acidentalmente depositada no fundo do oceano, após uma tempestade, e continua a ter seu valor estabelecido.

Tais discos sólidos não estão imunes a problemas de desvalorização. Durante a década de 1870 do século XIX, um explorador irlandês denominado David O'Keefe acompanhou a população da ilha em sua obtenção de mais moedas; auxiliando na obtenção de melhores ferramentas para sua tarefa e acelerando o seu processo de fabricação, ocasionando uma abundância que reduziu o seu valor geral. A funcionalidade das pedras rai terminou em meados do século XIX, mas o povo da ilha ainda importa tais discos para suas comemorações. A maioria destes objetos, em uma quantidade que supera 5.000 itens, está exibida linearmente, em fileiras nos locais externos como o centro das vilas, perto da praia ou em clareiras nas florestas. O seu roubo não é uma preocupação local. Os yapese consideram a sua história oral no valor de cada pedra, já que não há nenhum registro escrito de qual delas pertence a quem. As famílias raramente se mudam de suas aldeias e os anciãos tribais das cerca de 150 aldeias repassam as informações de cada peça, o que significa que agem como uma lembrança do passado e ajudam a reforçar relacionamentos e transações que remontam aos tempos dos guerreiros e seus clãs. Em alguns casos tais pedras têm gravuras marcando batalhas realizadas há mais de 200 anos, no passado. São as histórias que os moradores carregam que realmente determinam qual é a mais valiosa delas, não havendo mais a necessidade de se fazer outras pedras rai, pois a ilha essencialmente contém um número permanente e poucas são movidas. Mesmo as pedras quebradas retêm sua história oral e isso lhes dá mais valor do que uma peça nova. Novas são feitas ocasionalmente, no entanto, e isto é simplesmente para garantir que as habilidades das gerações anteriores não sejam esquecidas pelas novas gerações.[1][2]

BitcoinEditar

Uma investigação comparativa minuciosa sobre as moedas digitais revelou semelhanças entre a criptomoeda descentralizada, Bitcoin, e a moeda rai, pois ambos permitem ter e usar o dinheiro sem possuí-lo materialmente, funcionando a partir de um registro comunitário que garante a segurança e a transparência, coletivamente e sem nenhum banco central envolvido.[3]

Ligações externasEditar

Referências

  1. FOER, Joshua; THURAS, Dylan; MORTON, Ella (2019). Atlas Obscura. An Explorer's Guide to the World's Hidden Wonders (em inglês) 2 ed. New York: Workman Publishing - Google Books. p. 256. 480 páginas. ISBN 978-1-5235-0648-4. Consultado em 25 de outubro de 2020 
  2. POOLE, Robert Michael (3 de maio de 2018). «The tiny island with human-sized money» (em inglês). BBC Travel. 1 páginas. Consultado em 25 de outubro de 2020 
  3. OLIVEIRA, A. J. (11 de junho de 2019). «Antigo dinheiro de pedra pode ter inspirado moedas digitais». Superinteressante. 1 páginas. Consultado em 25 de outubro de 2020