Políptico da Matriz de Santa Cruz da Graciosa

Conjunto de 6 pinturas a óleo sobre madeira que constituiram o elemento central do Retábulo da Igreja Matriz de Santa Cruz da Graciosa.

O Políptico da Matriz de Santa Cruz da Graciosa é um conjunto de seis pinturas a óleo sobre madeira pintadas cerca de 1550 presumivelmente pelo artista português que se designa por Mestre de Arruda dos Vinhos para a Igreja Matriz de Santa Cruz (Santa Cruz da Graciosa) onde ainda se encontram.

Retábulo do Altar-mor da Igreja Matriz de Santa Cruz da Graciosa
Autor Mestre de Arruda dos Vinhos
Data c. 1550
Técnica pinturas a óleo sobre madeira
Localização Igreja Matriz de Santa Cruz (Santa Cruz da Graciosa), Ilha Graciosa
Caminho do Calvário

DescriçãoEditar

O estilo das pinturas do Políptico da Matriz de Santa Cruz da Graciosa apresenta forte paralelismo ao das pinturas do Políptico quinhentista de Arruda dos Vinhos sendo pelos historiadores de arte e no estado actual do conhecimento situadas em meados do século XVI e ligadas ao artista anónimo formado na escola de Diogo de Contreiras, conhecido pelo nome de Mestre de Arruda dos Vinhos.[1]

A Igreja de Santa Cruz, na Ilha Graciosa, de origem quinhentista mas muito alterada por reconstrução entre 1722 e 1743, conserva assim um dos mais importantes conjuntos de pintura do século XVI existentes no Arquipélago dos Açores. Estas pinturas a óleo sobre madeira, que beneficiaram recentemente de intervenção de restauro, foram reveladas em 1941 por José Hipólito Raposo que as considerou terem sido encomenda do capitão-donatário D. Álvaro Coutinho.[1]

O Políptico da Matriz de Santa Cruz da Graciosa é constituído pelas seguintes pinturas cujos temas iconográficos pertencem ao ciclo da vida de Cristo e da Santa Cruz, da invocação da própria Igreja para onde destinadas:[2]

  • Caminho do Calvário,
  • Calvário,
  • Deposição de Cristo,
  • Pentecostes,
  • Santa Helena e a Invenção da Cruz e
  • O Imperador Heráclio e a Exaltação da Santa Cruz.

As pinturas medem 1190 x 810 mm salvo o Pentecostes que mede 1,000 x 810 mm por ter sido cortado na zona superior. Apresenta-se a seguir a descrição das pinturas segundo a temática dos episódios representados numa ordem cronológica.

Caminho do CalvárioEditar

O Caminho do Calvário representa o episódio bíblico de Jesus carregando a cruz.

O Caminho do Calvário revela a imagem de Cristo, vergado ao peso da Cruz e flagelado por um dos soldados, vestidos com finas e ricas armaduras, enquanto Simão Cireneu procura aliviar o peso do madeiro. Ao fundo avista-se o típico casario de Jerusalém. Um pormenor de especial interesse diz respeito à cesta de vime com os chamados martírios ou instrumentos da Paixão.[2]

CalvárioEditar

 
Calvário

A pintura Calvário representa o episódio bíblico da Crucificação de Jesus relatado nos quatro evangelhos canônicos (Mateus 27:33-44; Marcos 15:22-32; Lucas 23:33-43; João 19:17-30).

O Calvário não faz actualmente parte do Retábulo do Altar-mor estando colocado na parede esquerda da capela-mor.[1]

Para Vítor Serrão, Calvário é a melhor tábua deste conjunto, com elegante modelação do nu e um sfumato atmosférico que evoca o Calvário de Diogo de Contreiras na Igreja de São Quintino (Sobral de Monte Agraço).[1]

Deposição de CristoEditar

 
Deposição de Cristo

A Deposição de Cristo representa o episódio bíblico do Sepultamento de Jesus.

A Deposição de Cristo, onde o corpo de Cristo se encontra deitado sobre o lençol de mortalha, exibindo ao lado um vaso de aroma ou bálsamo, exibe na cena a presença de quatro Santas Mulheres, São João Evangelista, José de Arimateia, Nicodemus e outra figura de homem. O Monte Calvário expõe três cruzes erguidas, estando as dos lados pendentes, com os corpos do Bom e do Mau Ladrão. O céu é repetidamente escuro, como acima mencionámos.[2]

A pose dramática das mulheres chorosas é comum às duas tábuas. Na tábua graciosense pode observar-se a Virgem Maria, Madalena e Santas Mulheres, a figura aureolada de S. João Evangelista, José de Arimateia e Nicodemus, cujo céu mostra espessas nuvens e uma trágica escuridão eminente.[2]

PentecostesEditar

 
Pentecostes

Pentecostes representa o episódio bíblico da descida do Espírito Santo no dia do Pentecostes relatado no Novo Testamento (Atos 2:1-41) que deu origem a uma das mais importantes celebrações do culto cristão.

A Virgem Maria está rodeada pelos Apóstolos e pelas Santas Mulheres, todos nimbados e a receber a luz e o fogo do Espírito Santo, no Cenáculo de Jerusalém, sendo ainda possível observar no pavimento, junto aos pés da Virgem, uma cruz da ordem de Malta.[2]

Santa Helena e a Invenção da CruzEditar

Santa Helena e a Invenção da Cruz representa o episódio da descoberta, segundo a tradição católica, da Cruz de Cristo (Vera Cruz ou Cruz Verdadeira) por Santa Helena, que tendo perto de oitenta anos, no ano de 326, fez uma peregrinação à Palestina onde se dedicou a identificar locais da vida de Jesus Cristo tendo supostamente encontrado a cruz com que Cristo foi crucificado no Gólgota. A partir do final do século IV, Helena passou a estar associada pela tradição com esta descoberta.[3]

Na pintura pode observar-se a Imperatriz Helena e o seu séquito, onde se identifica o Bispo Macário, magistrados e povo.[2]

O Imperador Heráclio e o Exalçamento da Santa CruzEditar

A O Imperador Heráclio e o Exalçamento da Santa Cruz representa o episódio, ocorrido em 628/629, da devolução a Jerusalém da Vera Cruz pelo imperador bizantino Heráclio que a reconquistara aos Persas.

A pintura ostenta um cortejo imperial detido da porta de Jerusalém, fechada, denotando-se o espanto dos soldados. O imperador Heráclio alça a Cruz nos braços, montado no cavalo branco, cuja cena é acompanhada pelo povo e soldados erguendo lanças e bandeiras.[2]

De acordo com o conhecimento da época desta pintura, actualmente posto em causa pela historiografia moderna, o xá sassânida Cosroes II apoderou-se como troféu da relíquia da Vera Cruz que estava em Jerusalém quando capturou a cidade após o cerco de 614. Treze anos mais tarde, em 628, o imperador bizantino Heráclio derrotou Cosroes e recuperou a relíquia que manteve inicialmente em Constantinopla, mas que levou de volta a Jerusalém em 630. É este último evento que a pintura representa.[4][5]

HistóriaEditar

 
Santa Helena e a Invenção da Cruz

Em 1941 as pinturas foram assinaladas pela primeira vez nos tempos modernos por Hipólito Raposo, advogado e monárquico que esteve exilado na ilha Graciosa pelo salazarismo devido à sua oposição integralista ao Estado Novo. Segundo este estudioso, a encomenda das pinturas para o retábulo da Igreja de Santa Cruz terá sido feita por D. Álvaro Coutinho, capitão-donatário da ilha Graciosa, que as terá mandado pintar em Lisboa ao Mestre de Arruda dos Vinhos.[2]

Sabe-se que antes, em 1486, Pedro Correia, capitão da ilha, recebia do duque de Beja, futuro rei D. Manuel, este na qualidade de regedor e governador da Ordem de Cristo, um missal e várias galhetas para a Igreja de Santa Cruz da Graciosa. Outras remessas se seguiram em 1490 e 1515. Ainda se conservam dessas ofertas manuelinas um cálice gótico-manuelino com incrustações de esmalte e uma cruz processional de prata.[1]

Do retábulo encomendado por Álvaro Coutinho, com uma estrutura de talha renascentista, nada chegou ao presente pois foi substituída no fim do século XVII. Em 1675, o Bispo de Angra, Lourenço de Castro, mandou ampliar a capela-mor da Igreja e, Frei Clemente Vieira, professor da Universidade de Coimbra, na visita que fez em 1690, assinalava que a capela-mor da Igreja não tinha retábulo, pedindo apoio à corte para que mandassem fazer um bom e dourado, como era conveniente e decente para a principal igreja daquela ilha.[1]

Desconhece-se quem foi o entalhador do novo retábulo onde foram integrados cinco painéis do antigo conjunto, tendo o Calvário sido colocado na parede lateral da Capela-mor:[1] Pentecostes ficou na cimo do Retábulo, Cristo com a cruz às costas e O Imperador Heráclio e o exalçamento da Santa Cruz no andar nobre, e Cristo deposto da cruz e Santa Helena e o milagre do reconhecimento da Cruz no andar inferior.

Foi realizado recentemente o restauro do Políptico da Graciosa bem como do Retábulo de que faz parte pelo ACROARTE - Atelier de Conservação e Restauro de Obras de Arte São Jorge, tendo o Calvário sido colocado no centro do Retábulo.[2]

ApreciaçãoEditar

 
O Imperador Heráclio e o Exalçamento da Santa Cruz

Para Vítor Serrão, a atribuição deste Políptico a Cristóvão de Figueiredo proposta por Hipólito Raposo baseou-se apenas nos repetidos temas das tábuas do Políptico quinhentista do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (1522-1530) que se encontra parcialmente no Museu Machado de Castro. Mas a tipologia, o estilo, a técnica e o espírito das duas obras são muito diferentes, sendo a de Coimbra, ainda ligada a princípios flamengos, muito anterior aos painéis da Graciosa. Estes são posteriores um quarto de século e estão imbuídos do novo gosto de superação do Renascimento e de abertura ao Maneirismo entretanto introduzido na arte portuguesa. O desenho das composições da Graciosa tem um estilo próprio inspirado nos exemplos de Gregório Lopes (c. 1480-1550) e de Diogo de Contreiras (c. 1500-1565), mas sem a extraordinária delicadeza destes mestres.[1]

Também para Vítor Serrão, ao Mestre de Arruda dos Vinhos, com actividade em Lisboa entre 1540-1560, se devem outras pinturas muito próximas às da Graciosa, como os painéis da matriz de Arruda dos Vinhos (uma delas com a pseudo-joaninha, marca de oficina utilizada nas obras tardias de Gregório Lopes), os painéis do Políptico do Altar-mor da Matriz da Ponta do Sol, na ilha da Madeira, quatro quadros de um antigo Retábulo da matriz da Lourinhã (1545), e a Assunção da Virgem no Hospital da Luz (Carnide).[1]

Ainda para Vítor Serrão, o Mestre de Arruda dos Vinhos (que poderá ser Cristóvão Lopes, filho de Gregório Lopes) é um seguidor de Diogo de Contreiras, de quem evidencia estilemas que sugerem formação na oficina deste notados nas figuras e no detalhe dos fundos. Os painéis da Graciosa têm um desenho elegante e revelam competência artística e características de execução que constituem um evidente estilo próprio, havendo figuras, adereços, poses, gestos, bem como desenho de armas, jóias e objectos acessórios, de decoração de tecidos, e tipos de casario que surgem nas outras obras que lhe são atribuídas.[1]

BibliografiaEditar

 
Nave central da Igreja Matriz de Santa Cruz da Graciosa, com o Retábulo do Altar-mor antes do recente restauro

Com base no texto de Vítor Serrão,[6] ordenado por ordem cronológica:

  • Raposo, José Hipólito, Os Painéis Quinhentistas da Graciosa, Academia Nacional de Belas Artes, Lisboa 1941.
  • Raposo, José Hipólito, Descobrindo Ilhas Descobertas, Porto, 1942, pp. 281-297.
  • Ferro, Maria José Pimenta, As Doações de D. Manuel, Duque de Beja, a algumas igrejas da Ordem de Cristo, Lisboa, 1971, p. 167.
  • Pacheco, Norberto da Cunha, Graciosa. As tradições e as paisagens de uma ilha. 500 anos da vila de Santa Cruz, Santa Cruz, 1986, pp. 21-28.
  • Pereira, Padre Vital Cordeiro Dias, Igrejas e Ermidas da Graciosa, DRAC/SREC, Angra, 1986, p. 60.
  • Oliveira Martins, Francisco Ernesto de, Ambientes Açorianos da Época dos Descobrimentos à das Viagens e Emigração, Signo, Ponta Delgada, 1992, pp. 243-247.
  • Serrão, Vítor, «Os Painéis da Matriz da Graciosa, obra do Mestre de Arruda dos Vinhos (c. 1550) e a pintura lisboeta do fim do Renascimento», A União, Angra do Heroísmo, de 7 de Maio de 2001.
  • Pestana, Maria Isabel Santa Clara Gomes, Das coisas visíveis às invisíveis. Contributos para o estudo da pintura maneirista na Ilha da Madeira (1540-1620), tese de doutoramento, Universidade da Madeira, 2003.
  • Dias, Pedro, "Açores", vol. 3 de Arte de Portugal no Mundo, Comunicação Social, S.A, 2008, p. 120.
  • Caldas, João Vieira, Sardo, Delfim, e Serrão, Vítor, História da Arte nos Açores, 1427-2000, ed. DRAC, 2017.

Referências

  1. a b c d e f g h i j Vítor Serrão, Instituto Histórico da Ilha Terceira, O Património perto de si (II), [1]
  2. a b c d e f g h i Ana Raquel Machado, "O Mestre de Arruda dos Vinhos e a pintura portuguesa do século XVI", em Chafariz de Arruda, 11-04-2018, [2]
  3. "Archæology of the Cross and Crucifix", inCatholic Encyclopedia (em inglês) [3]
  4. Treadgold, Warren (1997). A History of the Byzantine State and Society. Stanford: Stanford University Press. p. 299. ISBN 0-8047-2630-2 
  5. Há estudiosos que discordam desta narrativa, como Constantin Zuckerman, considerando que a Vera Cruz foi realmente perdida pelos persas e que a madeira contida no relicário alegadamente ainda selado trazido a Jerusalém por Heráclio em 629 era uma falsificação. Em sua análise, a burla foi congeminada para servir os propósitos políticos tanto de Heráclio como do seu anterior inimigo e posterior aliado e sogro, o general persa Sarbaro que se tornou rei persa.Constantin Zuckerman (2013). Heraclius and the return of the Holy Cross. Col: Constructing the Seventh Century. Travaux et mémoires (17). Paris: Association des amis du Centre d'histoire et civilisation de Byzance. pp. 197–218. ISBN 978-2-916716-45-9 
  6. Vítor Serrão, "Os painéis quinhentistas da igreja de Santa Cruz da Graciosa", 2017, in O Património Perto de Si (II), coordenação de Marta Bretão, Direcção Regional de Cultura dos Açores, [4]

Ligações externasEditar

  • Vídeo da RTP Açores sobre a restauração do Retábulo-mor e dos Painéis quinhentistas da Igreja Matriz de Santa Cruz da Graciosa - [5]