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tacacá

O Tacacá é uma iguaria típica de toda a região amazônica e pode ser encontrado em todos os Estados da região Norte como no Amazonas, Amapá, Acre, Roraima, Rondônia, Tocantins e Pará.

Preparado com um caldo amarelado, chamado tucupi. Coloca-se esse caldo por cima da goma de mandioca, também servida com jambu (Erva amazônica que provoca uma dormência na boca) e camarão seco. Serve-se muito quente, temperado com pimenta, em cuias. O tucupi e a goma são resultados da massa ralada da mandioca que, depois de prensada para fazer farinha, resulta num líquido leitoso-amarelado. Após deixado em repouso, a goma fica depositada no fundo do recipiente e o tucupi na sua parte superior.

IngredientesEditar

Cada estado possui ligeiras variações acerca dos ingredientes adicionais, os quais podem ser: pipoca, farinha, purê, cebolinha, cheiro verde etc.

Apresentação e consumoEditar

Serve-se em cuias. Coloca-se primeiramente um pouco de tucupi e o caldo da pimenta-de-cheiro com tucupi. Acrescenta-se a goma e arranjam-se os ramos do jambu de modo bem distribuído. Colocam-se os camarões e acrescenta-se mais tucupi até quase completar a cuia.

Toma-se o tacacá – não se diz comer, nem beber – levando-se os lábios até a cuia, sorvendo em pequenas quantidades o tucupi , misturado com a goma. Utiliza-se um palitinho de madeira para comer o camarão ou o jambu.

Dado que esta iguaria é servida muito quente, passou-se a usar uma pequena cesta na base da cuia - provavelmente a partir da década de 1990 - para proteger as mãos de quem consome o tacacá.

A tacacazeiraEditar

A vendedora de tacacá, ou tacacazeira, é uma figura típica das ruas de diversas cidades amazônicas. As vendedoras de tacacá têm ponto fixo em diferentes locais das cidades, permanecendo muitas vezes por décadas, de avós para netas, com clientela cativa.

OrigemEditar

Pressupõe-se que por volta do ano 5.000 a.C, na bacia do Alto Madeira tenha ocorrido a domesticação da mandioca; palavra que significa “comedor de farinha” no idioma arwak. Acredita-se que a iguaria é originária do Pará. A teoria é defendida por Flores (1947) e Câmara Cascudo (1967, 2004). Sua origem provavelmente deriva de um tipo de sopa indígena denominada ''mani poi''.

O primeiro escrito que se tem notícia acerca do tacacá, ocorre no século XVI pelo padre capuchinho Abbeville em sua descrição das práticas alimentares indígenas (Câmara Cascudo, 2004 : 135). A palavra tacacá provém certamente do nheengatu ou língua geral, o tupi veicular da Amazônia. Segundo o escritor Câmara Cascudo, “A origem do tacacá é dos indígenas paraenses”.

Num depoimento de junho de 1859, o médico e pesquisador alemão Robert Avé-Lallemant (1812-1884) descreve aquilo que provavelmente se trate da iguaria. O pesquisador visitou a vila de Serpa (atual Itacoatiara) e outros lugares da Amazônia, de que resultou o livro “No Rio Amazonas (1859)”, de sua autoria, traduzida em São Paulo em 1980.

Ao visitar o lago de Serpa, nos fundos da Colônia Agroindustrial, Robert Avé-Lallemant ficou encantado com a floresta, os pássaros, os macacos, a vitória-régia, o trabalho da pesca do pirarucu e das tartarugas. Conversou com alguns índios Mura aculturados, agricultores e cortadores de lenha para a Companhia do Amazonas, liderados por um português. Chamou-lhe a atenção um grupo de índias “sob uma varanda, sentadas com um bando de crianças bronzeadas, de todas as idades e na mais inocente nudez. Faziam pequenos trabalhos manuais, redes, etc., enquanto os homens gozavam do dolce far niente a que têm direito em todo o Amazonas. Arcos e flechas para pesca, arpões com as pontas móveis, anzóis, remos, etc., constituem principalmente os utensílios domésticos, tudo o mais sendo inteiramente rudimentar”.

No lago de Serpa Avé-Lallemant provou o tacacá (ele menciona o termo cacacá), qualificando-a como “a bebida nacional dos Mura”: mingau quase líquido de goma de tapioca temperado com tucupi, jambu, camarão e pimenta, que bebeu “com a maior naturalidade” achando-a “bem saborosa e nutritiva”. No dia 12 de agosto de 1859 o viajante alemão deixou Serpa, sua “última parada no Amazonas”, legando à posteridade um belo trabalho descritivo sobre a paisagem física e humana da Amazônia.

Não existem registros de que os índios Mura tenham residido no lado oriental da Amazônia, (Estado do Pará). Outro alemão, o etnólogo Kurt Nimuendaju (1883-1945) escreveu em 1926 que “de todas as tribos da Amazônia [a dos Mura] foi a que mais extenso território ocupou, espalhando-se das fronteiras do Peru até o Rio Trombetas”, no limite do Amazonas com o Pará. Foram moradores especialmente das bacias do Solimões, Médio Amazonas e Madeira. Por volta do ano de 1450 a. C., após se evadirem da margem esquerda do Amazonas, no interflúvio Urubu-Matari (atual Rio Preto da Eva), a noroeste da atual cidade de Itacoatiara, os Aroaqui, indígenas do grupo linguístico Arwak, foram ali substituídos pelos Mura, um grupo de língua isolada. Os Mura foram exterminados no século 18 pelos colonizadores europeus.

O cronista que melhor reportou a etnologia da Amazônia, no século 18, foi o padre jesuíta João Daniel (1722-1776). Seu livro “Tesouro Descoberto do Rio Amazonas”, escrito entre 1757 e 1776, revela com riqueza de detalhes, além do trabalho missionário, os hábitos e costumes das populações indígenas e a natureza “das dilatadas margens dos rios Amazonas, Madeira, Urubu, Negro e outros”.

João Daniel pouco se refere ao Pará, quando faz menção a lugares, habitações, apetrechos de caça e pesca, culinária, vestuário, danças, instrumentos musicais, enfeites e outros assuntos referentes aos nativos – utiliza os seguintes termos: “índios do Rio Amazonas”… “tapuias do Amazonas”… povoadores do Amazonas”…; que “usam da bebida tacacá…”; que “o tucupi é um sumo venenoso extraído da raiz da mandioca”; que “cozido perde o veneno e então é servido como tempero de vários guisados e bebidas”.

O SENAC nacional trata da matéria em uma edição de 2000. Já a bibliografia em favor da origem paraense é maior, a exemplo de Jaques Flores (1947), Luís da Câmara Cascudo (1967 e 2004), Osvaldo Orico (1972), Maria Lúcia Gomensoro (1999) e Márcia Algranti (2000).

BibliografiaEditar

  • ALGRANTI, Márcia. Pequeno dicionário da gula. São Paulo: Record, 2000. 544 p.
  • AVÉ-LALLEMANT, Robert C.B. No rio Amazonas. São Paulo. Editora Itatiaia, 1980.
  • CASCUDO, Câmara Luís da. História da alimentação no Brasil. São Paulo: Global, 2004. 954 p. (1ª ed.: Companhia Editora Nacional, 1967).
  • CULINÁRIA amazônica: o sabor da natureza. Rio de Janeiro: Senac Nacional, 2000. 150 p.
  • FLORES, Jaques. Panela de Barro: crônicas, ensaios, fantasias. Rio de Janeiro: Adersen, 1947. 194 p.
  • GOMENSORO, Maria Lucia. Pequeno dicionário de gastronomia. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. 432 p

Ligações externasEditar