Transcendentais

Os transcendentais (em latim: transcendentalia) são as propriedades do ser consideradas na filosofia clássica como as mais superiores, essenciais e absolutas; geralmente correspondem a três aspectos do campo de interesse humano e são seus ideais; ciência (verdade), artes (beleza) e religião (bondade). Disciplinas filosóficas que as estudam são lógica, estética e ética. Elas também pressupõem e por vezes incluem o próprio todo do qual participam, as ideias de Ser e de simplicidade do Um (unidade).

HistóriaEditar

Parmênides primeiro perguntou sobre as propriedades co-extensivas ao ser.[1] Sócrates, falado através de Platão, seguiu-o na discussão sobre a Ideia do Uno, no diálogo Parmênides, e Platão transmitiu a Ideia do Bem como sendo a fonte que irradia a beleza e a verdade e causa de todos os seres.[2]

A teoria da substância de Aristóteles (ser uma substância pertence ao ser enquanto ser) tem sido interpretada como uma teoria dos transcendentais.[3] Aristóteles discute apenas a unidade ("Um") explicitamente porque é o único transcendental intrinsecamente relacionado ao ser, enquanto a verdade e a bondade se relacionam com criaturas racionais.[4]

Na Idade Média, os filósofos católicos elaboraram o pensamento de que existem transcendentais (transcendentalia) e que eles transcendiam cada uma das dez categorias aristotélicas.[5] Uma doutrina da transcendentalidade do bem foi formulada por Alberto, o Grande.[6] Seu aluno, Tomás de Aquino, postulou cinco transcendentais: res, unum, aliquid, bonum, verum; ou "coisa", "um", "outro algo", "bom" e "verdadeiro".[7] Tomás deriva os cinco explicitamente como transcendentais,[8] embora em alguns casos ele siga a lista típica dos transcendentais consistindo no Um, no Bem e no Verdadeiro. Os transcendentais são ontologicamente um e, portanto, são conversíveis: por exemplo, onde há verdade, também há beleza e bondade. Duns Escoto afirma que "todas as coisas naturalmente conhecíveis por Deus são transcendentais" e que os transcendentais são as "perfeições puras" e "pertence ao significado de 'transcendental' não ter predicado superior a ele além de 'ser'".[6]

Na teologia cristã, os transcendentais são tratados em relação à teologia própria, a doutrina de Deus. Os transcendentais, de acordo com a doutrina cristã, podem ser descritos como os desejos últimos do homem. O homem, em última instância, busca a perfeição, que toma forma através do desejo de realização perfeita dos transcendentais. A Igreja Católica ensina que Deus é Ele mesmo verdade, bondade e beleza, conforme indicado no Catecismo da Igreja Católica.[9] Cada um transcende as limitações de lugar e tempo e está enraizado no ser. Os transcendentais não dependem da diversidade cultural, doutrina religiosa ou ideologias pessoais, mas são as propriedades objetivas de tudo o que existe.

Veja tambémEditar

Referências

  1. DK fragmento B 8
  2. República 7:517c
  3. Aristóteles, Metafísica 1028b4; Allan Bäck, Aristotle's Theory of Abstraction, Springer, 2014, p. 210: "Since all that is, in any category is in virtue of having some relation to substance..., being a substance belongs to being qua being. Because of the centrality of substance for something to be, Aristotle says, "what is being is just the question what is substance." [Metaph. 1028b4] Given Aristotle’s account of focal meaning, it has turned out that x is a being only if x is a substance. Items in non-substantial categories are beings, secondarily, only given their being in substance. ... [Ι]n Metaphysics IV, Aristotle offers both transcendental and categorical items as proper subjects for first philosophy."
  4. Aristóteles, Metafísica X.1–2; Benedict Ashley, The Way toward Wisdom: An Interdisciplinary and Intercultural Introduction to Metaphysics (University of Notre Dame Press, 2006), p. 175.
  5. Scott MacDonald (ed.), Being and Goodness: The Concept of the Good in Metaphysics and Philosophical Theology, Cornell University Press, 1991, p. 56.
  6. a b Goris, Wouter (2019). Medieval Theories of Transcendentals (Stanford Encyclopedia of Philosophy)
  7. Questões Disputadas sobre a Verdade, Q. 1 A. 1.
  8. De Veritate, Q. 1 A.1
  9. Catecismo da Igreja Católica referencia esses três na Seção 41.

BibliografiaEditar

  • Jan A. Aertsen, Medieval Philosophy and the Transcendentals: the Case of Thomas Aquinas, Leiden: Brill, 1996.
  • Jan A. Aertsen, Medieval Philosophy as Transcendental Thought. From Philip the Chancellor (ca. 1225) to Francisco Suárez, Leiden: Brill, 2012.
  • John P. Doyle, On the Borders of Being and Knowing. Late Scholastic Theory of Supertranscendental Being, Leuven: Leuven University Press, 2012.
  • Graziella Federici Vescovini (éd.), Le problème des Transcendantaux du XIVe au XVIIe siècle, Paris: Vrin, « Bibliothèque d’Histoire de la Philosophie », 2001.
  • Bruno Pinchard (éd.), Fine folie ou la catastrophe humaniste, études sur les transcendantaux à la Renaissance, Paris, Champion, 1995.
  • Piero di Vona, Spinoza e i trascendentali, Napoli: Morano, 1977.

Ligações externasEditar