Breque dos Apps


O Breque dos Apps foi uma mobilização grevista organizada por entregadores de aplicativos, principalmente aplicativos de alimentação, como do iFood, Loggi, Uber Eats e Rappi. A mobilização chegou ao auge nas paralisações nacionais dos dias 01/07 e 25/07 de 2020. Se tornou um acontecimento notável pelo lugar que ocupou no clima político da pandemia do covid-19, por ter provocado interpretações da atualidade da ação coletiva de classe em regimes de trabalho da chamada uberização, e também por ter tido como base a mobilização digital através de mídias sociais.

Breque dos Apps
Início 25 de julho de 2020
Lugar Brasil
Classe Entregadores de aplicativos
Reivindicações aumento do valor da taxa mínima de entrega; fim dos bloqueios indevidos e reativação dos cadastros que foram indevidamente bloqueados

ContextoEditar

A Pandemia de COVID-19 no Brasil colocou as função dos entregadores de aplicativos em uma nova posição de relevância econômica e social. Sendo uma atividade considerada desde o início como essencial, e que efetivamente não parou de trabalhar em nenhum momento de quarentena, os entregadores assumiram uma intensa carga de trabalho, riscos e responsabilização na continuação da atividade. Enquanto uma categoria frequentemente adepta dos discursos de supervalorização do empreendedorismo e do livre mercado, os entregadores eram marcadamente repelentes ao sindicalismo e a defesa das legislações trabalhistas[1][2]. Foi essa mentalidade que sofreu mudanças profundas a partir do início da pandemia, quando as narrativas do entregadores nas redes sociais, e dos entregadores-influencers em particular, começaram à refletir uma nova consciência de sua condição de vulnerabilidade social, bios(in)segurança e carga de trabalho. Um outro efeito da conjuntura foi o desemprego generalizado que aumentou o número de entregadores, o que aumentou consequentemente a concorrência e a concentração de trabalhadores em frente aos restaurantes à espera de serviços. Esses fatores, somados à diminuição do valor das taxas de entrega, geraram uma situação de visibilidade da precariedade do regime de trabalho dos serviços de aplicativo.[2]

Os Protestos antirracistas nos Estados Unidos em 2020 tiveram repercussões globais e estabeleceram o clima político do momento. No Brasil, o histórico de violência policial racista e a tensão contemporânea provocada pelo Governo Bolsonaro e sua bagagem ideológica autoritária e displicente sobre a violência militar no período da ditadura militar e atual, motivou a articulação de protestos solidários e análogos. O ato realizado na avenida paulista, articulado pelas torcidas organizadas que se identificaram com a pauta antiracista e antifascista, aconteceu seis dias antes do primeiro Breque dos Apps, e tanto coloborou com o rompimento da passividade e do isolamento quanto promoveu já a visibilidade da pauta dos entregadores e seus grupos e iniciativas, como os Entregadores Antifascistas e o Treta no Trampo.[2]

A greveEditar

No dia 25 de julho de 2020 aconteceu o primeiro Breque dos Apps. A ação digital sistemática foi efetiva em conquistar a atenção da mídia, de acadêmicos, do sindicalismo e da esquerda organizada, como também da população em geral[2]. Os entregadores defenderam como pauta o:

aumento do valor por km rodado; aumento do valor da taxa mínima de entrega; fim dos bloqueios indevidos e reativação dos cadastros que foram indevidamente bloqueados. Além disso, pediam pelo fim do sistema de pontuação e restrição de local da Rappi e auxílio pandemia (EPIs e auxílio caso ficassem doentes).[2]

A mobilização foi promovida pela iniciativa do grupo e perfil Treta no Trempo (@tretanotrampo), que desde o início produziu continuamente conteúdos em redes sociais de chamado e politização pelas pautas dos entregadores. A ampla rede dos Entregadores Antifascistas também teve lugar central na articulação das paralisações nacionais, um organizador da rede, Paulo Galo (Paulo Lima, conhecido como Galo) ganhou notoriedade em suas iniciativas e representação na mídia. A recepção e circulação da pauta nas redes sociais foi massiva[3][2].

Além da mobilização interna da categoria, também se buscou a colaboração dos consumidores em boicotar os aplicativos nos dias de paralisação:

O perfil Treta no Trampo divulgou cartilhas com instruções para os clientes que desejavam apoiar o Breque. A postagem pedia que os clientes ajudassem divulgando o Breque, imprimindo panfletos, colando cartazes e compartilhando as hashtags #BrequeDosApps e #ApoioBrequeDosApps. Além disso, solicitava que as pessoas avaliassem os apps de delivery com apenas uma estrela na PlayStore e na Apple Store, para manchar a imagem das empresas-plataforma. Também insistia que não fizes- sem pedidos nos aplicativos no dia do Breque.[2]


Reação das empresasEditar

O iFood foi uma das empresas que mais se empenhou em reparar a imagem pública, anunciando que havia dobrado seu Fundo Solidário e de Proteção. Também declarou que havia destinado R$100 milhões para ações de apoio feitas por entregadores, apesar de que a própria empresa declara que menos de R$400 mil foram destinados aos entregadores parceiros afastados[2].

Repercussão políticaEditar

A mobilização causou entusiasmo na esquerda partidária e no sindicalismo, por mostrar, segundo eles, a vigência da luta de classes mesmo nos regimes de trabalhos mais marcados pelas transformações da uberização.[4]

Ver tambémEditar

ReferênciasEditar

  1. Delgado, Gabriela Neves, and Bruna V. CARVALHO. "Breque dos Apps: direito de resistência na era digital." Le Monde Diplomatique Brasil,[on-line] 27 (2020).
  2. a b c d e f g h Desgranges, Nina, and Wickson Ribeiro. "Narrativas em rede: O Breque dos Apps e as novas formas de manifestação de trabalhadores em plataformas digitais." MovimentAção 8.14 (2021): 189-208.
  3. Piaia, Victor, et al. "“Breque dos Apps”: Uma Análise Temporal de Comunidades e Influenciadores no Debate Público Online no Twitter." Comunicação e Sociedade 39 (2021): 57-81.
  4. Delgado, Gabriela Neves, and Bruna V. CARVALHO. "Breque dos Apps: direito de resistência na era digital." Le Monde Diplomatique Brasil,[on-line] 27 (2020).