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Divulgação científica

Carl Sagan foi um dos principais nomes da divulgação científica durante a segunda metade do século XX, especialmente após a série televisiva Cosmos, de sua autoria, exibida pela primeira vez em 1980.

Divulgação científica, também conhecida como popularização da ciência, são as atividades que buscam fazer uma difusão do conhecimento científico para públicos não especializados. O termo popularização é mais utilizado que divulgação dentro da tradição de países anglo-saxônicos a partir da década de 1950. A divulgação científica é fundamental para o desenvolvimento da ciência, uma vez que ela é responsável pela circulação de ideias e divulgação de resultados de pesquisas para a população em geral. Desta forma potencializando o debate científico e instigando novos talentos para atividades de ciências.[1][2]

Outras expressões com sentidos mais restritivos são também usadas, tais como: comunicação pública da ciência, vulgarização científica e jornalismo científico.

A divulgação científica iniciou-se há mais de cinco mil anos. Mais recentemente, a popularização da ciência tem sido interpretada também como um instrumento para tornar disponíveis conhecimentos e tecnologias que ajudem a melhorar a vida das pessoas e que deem suporte a desenvolvimentos econômicos e sociais sustentáveis. Tais ações podem ter ainda um importante papel de apoio às atividades escolares. Mas não devem ser vistas apenas pelo seu caráter complementar ao ensino formal. Tem seu significado próprio, ao se dirigirem a um público mais amplo, que já passou (ou não) pelas escolas.

Atualmente, a divulgação científica ocorre em praticamente todos os formatos e meios de comunicação: documentários de televisão, revistas de divulgação científica, artigos em periódicos, websites e blogs.[3] Existem, inclusive, canais de televisão dedicados exclusivamente a divulgação científica, tais como Discovery Channel e National Geographic Channel, evidenciando o grande interesse dos meios de comunicação por fazer da ciência um de seus temas centrais.

Divulgação científica e comunicação científicaEditar

Os conceitos de comunicação científica e divulgação científica, segundo Bueno (2010), trazem características comuns entre si, pois se referem à difusão de informações científicas e tecnológicas. Ao mesmo tempo, implicam aspectos e intenções bastante diferentes em suas práticas.[4]

Entende-se por comunicação científica a transferência de informação científica e/ou tecnológica destinada aos especialistas (pesquisadores que compõem a comunidade científica, academias, universidades e institutos de pesquisas) em determinada área do conhecimento, também chamada de disseminação científica (BUENO, 2010). O autor apresenta duas categorias para a comunicação (ou disseminação) científica:

  • entrepares: praticada entre especialistas de uma mesma área do conhecimento, com conteúdo e público específicos e especializados e de código fechado (por exemplo, os periódicos científicos);
  • extrapares: quando acontece entre especialistas de áreas diferentes. O público ainda é especializado, mas inexiste o rigor de uma linguagem puramente técnica.

A divulgação científica, por sua vez, pode ser entendida como um processo de recodificação da linguagem especializada para uma não especializada e acessível à uma vasta audiência, na qual se utilizam “recursos, técnicas, processos e produtos (veículos ou canais) para sua veiculação. (BUENO, 2010).[4]

Bueno (2010) chama a atenção para seus pontos convergentes. De acordo com o autor, tanto comunicação como divulgação circulam informações especializadas e, portanto, podem estar suscetíveis à interesses extra científicos, como por exemplo, resguardar privilégios de grupos (empresas ou governos) ou ambições pessoais. Além disso, a comunicação científica serve de fonte para a divulgação científica.[5]

Ciência na cultura popular e na mídiaEditar

 
Esse é o diagrama, projetado por Thomas Edison em 1880, designado para descrever o funcionamento de uma lâmpada.

Nascimento da ciência públicaEditar

Enquanto o estudo científico começou a emergir como um discurso popular após o Renascimento e o Iluminismo, a ciência não foi amplamente financiada ou exposta ao público até o século XIX. [6] A maior parte da ciência anterior a isso era financiada por indivíduos sob patrocínio privado e estudada em grupos exclusivos, como a Royal Society. A ciência pública surgiu devido a uma mudança social gradual, resultante da ascensão da classe média no século XIX. À medida que invenções científicas, como a correia transportadora e a locomotiva a vapor, entravam e aprimoravam o estilo de vida das pessoas no século XIX, as invenções científicas começaram a ser amplamente financiadas por universidades e outras instituições públicas, em um esforço para aumentar a pesquisa científica. [7] Como as realizações científicas foram benéficas para a sociedade, a busca pelo conhecimento científico resultou na ciência como profissão. Instituições científicas, como a Academia Nacional de Ciências ou a Associação Britânica para o Avanço da Ciência, são exemplos de plataformas líderes para a discussão pública da ciência. [8] David Brewster, fundador da Associação Britânica para o Avanço da Ciência, acreditava em publicações regulamentadas para comunicar efetivamente suas descobertas, "para que estudantes de ciências possam saber por onde começar seus trabalhos". [9] À medida que a comunicação da ciência alcançava um público mais amplo, devido à profissionalização da ciência e sua introdução na esfera pública, aumentou o interesse pelo assunto.

Mídia científica no século XIXEditar

Houve uma mudança na produção de mídia no século XIX. A invenção da impressora a vapor permitiu a impressão de mais páginas por hora, resultando em textos mais baratos. Os preços dos livros caíram gradualmente, o que deu às classes trabalhadoras a capacidade de comprá-los. [10] Não mais reservados para a elite, textos acessíveis e informativos foram disponibilizados para um público de massa. A historiadora Aileen Fyfe observou que, à medida que o século XIX passava por um conjunto de reformas sociais que buscavam melhorar a vida das pessoas da classe trabalhadora, a disponibilidade de conhecimento público era valiosa para o crescimento intelectual. [11] Como resultado, houve esforços de reforma para aumentar o conhecimento dos menos instruídos. A Sociedade para a Difusão de Conhecimento Útil, liderada por Henry Brougham, tentou organizar um sistema de alfabetização generalizada para todas as classes. [12] Além disso, periódicos semanais, como a Penny Magazine, tinham como objetivo educar o público em geral sobre as realizações científicas de maneira abrangente. [13]

 
Impressora a vapor de Friedrich Koenig, 1814.

À medida que a audiência de textos científicos se expandia, o interesse pela ciência pública também o fez. "Palestras de extensão" foram instaladas em algumas universidades, como Oxford e Cambridge, que incentivavam membros do público a participar de palestras. [14] Nos Estados Unidos, as palestras sobre viagens eram comuns no século XIX e atraíam centenas de espectadores. Essas palestras públicas fizeram parte do movimento do liceu e demonstraram experimentos científicos básicos, que avançaram o conhecimento científico para os telespectadores instruídos e não instruídos. [15] A popularização da ciência pública não apenas iluminou o público em geral através da mídia de massa, mas também melhorou a comunicação dentro da comunidade científica. Embora os cientistas comuniquem suas descobertas e realizações por meio de impressão há séculos, as publicações com uma variedade de assuntos diminuíram em popularidade. [16] Como alternativa, as publicações em revistas específicas da disciplina foram cruciais para uma carreira de sucesso nas ciências no século XIX. Como resultado, revistas científicas como a Nature ou a National Geographic possuíam um grande número de leitores e receberam financiamento substancial até o final do século XIX, à medida que a popularização da ciência continuava. [17]

Comunicação científica na mídia contemporâneaEditar

A ciência pode ser comunicada ao público de muitas maneiras diferentes. De acordo com Karen Bultitude, professora de comunicação científica da University College London, elas podem ser categorizadas em três grupos: jornalismo tradicional, eventos ao vivo ou presenciais e interação on-line. [18]

Jornalismo tradicionalEditar

O jornalismo tradicional (por exemplo, jornais, revistas, televisão e rádio) tem a vantagem de atingir grandes audiências; no passado, era assim que a maioria das pessoas acessava regularmente informações sobre ciência. [18][19] A mídia tradicional também tem maior probabilidade de produzir informações de alta qualidade (bem escritas ou apresentadas), como serão produzidas por jornalistas profissionais. O jornalismo tradicional também é frequentemente responsável por estabelecer agendas e ter um impacto na política do governo. [18] O método jornalístico tradicional de comunicação é unidirecional, portanto, não pode haver diálogo com o público, e as histórias científicas podem ser reduzidas em escopo, de modo que haja um foco limitado para um público comum, que pode não ser capaz de compreender a imagem maior do ponto de vista científico.[18][20] No entanto, há novas pesquisas disponíveis sobre o papel dos jornais e canais de televisão na constituição de "esferas públicas científicas" que permitem a participação de uma ampla gama de atores em deliberações públicas.[21]

Outra desvantagem do jornalismo tradicional é que, uma vez que uma história científica é retomada pela grande mídia, o(s) cientista(s) envolvido(s) não têm mais controle direto sobre como seu trabalho é comunicado, o que pode levar a mal-entendidos ou desinformação.[18][20] Pesquisas nesta área demonstram como a relação entre jornalistas e cientistas tem sido prejudicada em alguns casos.[22] Por um lado, os cientistas relataram estar frustrados com coisas como jornalistas simplificando demais ou dramatizando seu trabalho, enquanto, por outro lado, os jornalistas acham que é difícil trabalhar com e mal equipado para comunicar seu trabalho a um público em geral.[23][22] Apesar dessa potencial tensão, uma comparação de cientistas de vários países mostrou que muitos cientistas estão satisfeitos com suas interações com a mídia e se envolvem com frequência. [24]

No entanto, é importante observar que o uso de fontes tradicionais de mídia, como jornais e televisão, diminuiu constantemente como fonte primária de informações científicas, enquanto a Internet aumentou rapidamente em destaque.[25] Em 2016, 55% dos americanos relataram usar a Internet como fonte primária para aprender sobre ciência e tecnologia, em comparação com 24% reportando TV e 4% reportando jornais como fontes primárias.[25] Além disso, os meios de comunicação tradicionais diminuíram drasticamente o número de jornalistas científicos ou, em alguns casos, eliminados, e a quantidade de conteúdo relacionado à ciência que eles publicam.[26]

PersonalidadesEditar

No Brasil, alguns proeminentes divulgadores de ciência são Drauzio Varella (medicina), Ana Beatriz Barbosa Silva (psiquiatria), Marcelo Gleiser (astrofísica), Raquel Rolnik (urbanismo), Suzana Herculano-Houzel (neurociência), Ildeu Moreira (popularização da ciência), entre outros.

Em Portugal destacam-se Rómulo de Carvalho, Carlos Fiolhais (Física), Galopim de Carvalho, etc.

Ver tambémEditar

Referências

  1. Massarani, Luisa; et al. (2002). Ciência e Público: caminhos da divulgação científica no Brasil (PDF). Rio de Janeiro: Casa da Ciência – Centro Cultural de Ciência e Tecnologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 232 páginas. ISBN 85-89229-01-7. Consultado em 22 de novembro de 2013. Arquivado do original (PDF) em 3 de dezembro de 2013 
  2. Massarani, L., de Abreu, W. V., & Norberto Rocha, J. (2019). Apoio a projetos de divulgação científica: análise de edital realizado pela Fundação Oswaldo Cruz. RECIIS, V.13(2): 391-410. http://dx.doi.org/10.29397/reciis.v13i2.1646
  3. Porto, Cristiane de Magalhães (org.) (2009). «Divulgação científica independente na internet como fomentadora de uma cultura científica no Brasil» (PDF). Difusão e cultura científica. alguns recortes. Salvador: UFBA. p. 93-112. ISBN 978-85-232-0619-2. Consultado em 29 de novembro de 2013 
  4. a b Bueno, Wilson Costa (16 de dezembro de 2010). «Comunicação cientifica e divulgação científica: aproximações e rupturas conceituais». Informação & Informação. 15 (supl): 1–12. doi:10.5433/1981-8920.2010v15nesp.p1 
  5. NASCIMENTO, Maria Marta (2016). Bibliotecas universitárias: cenários de divulgação científica. Campinas: Unicamp (Dissertação de mestrado) 
  6. «Who pays for science?». www.berkeley.edu. Berkeley University. Consultado em 29 Outubro 2016 
  7. «Science Technology Timeline». www.victorianweb.org. 2002. Consultado em 25 Outubro 2016 
  8. «BAAS». www.victorianweb.org. 2002. Consultado em 25 Outubro 2016 
  9. «British Science Association History». www.britishscienceassociation.org. British Science Association. Consultado em 30 Outubro 2016 
  10. Landow, George P. (25 Maio 2005). «A Review of Aileen Fyfe's Science and Salvation: Evangelical Popular Science Publishing in Victorian Britain». www.victorianweb.org. Consultado em 1 Novembro 2016 
  11. Fyfe, Aileen. «Science Publishing». www.victorianweb.org. National University of Ireland. Consultado em 29 Outubro 2016 
  12. Ashton, Rosemary (2004). «Society for the Diffusion of Useful Knowledge (act. 1826–1846)». Oxford Dictionary of National Biography. Oxford University Press. doi:10.1093/ref:odnb/59807. Consultado em 2 Novembro 2016 
  13. Society for the Diffusion of Useful Knowledge (2012). The Penny Magazine of the Society for the Diffusion of Useful Knowledge. archive.org. [S.l.: s.n.] Consultado em 1 Novembro 2016 
  14. «About the University: Nineteenth and twentieth centuries». University of Cambridge. University of Cambridge. 28 de janeiro de 2013. Consultado em 31 Outubro 2016 
  15. «Showing off: Scientific Lecturing in the 19th century». The Dickinsonia History Project. Dickinson College. Consultado em 2 Novembro 2016 
  16. Fyfe, Aileen. «Science Publishing». Brown University. Consultado em 29 Outubro 2016 
  17. Brown, Melinda (2015). Making "Nature": The History of a Scientific Journal. Chicago, USA: University of Chicago Press. ISBN 978-0226261454 
  18. a b c d e Bultitude, Karen (2011). «The Why and How of Science Communication» (PDF). Consultado em 25 Outubro 2016. Cópia arquivada (PDF) em 13 Agosto 2012 
  19. Ipsos-MORI (2011). «Public Attitudes to Science 2011» (PDF). Consultado em 27 Outubro 2016. Cópia arquivada (PDF) em 21 Julho 2015 
  20. a b McCartney, Margaret (25 Janeiro 2016). «Margaret McCartney: Who gains from the media's misrepresentation of science?». BMJ. 352: i355. ISSN 1756-1833. PMID 26810502. doi:10.1136/bmj.i355 
  21. Shiju Sam Varughese.2017. Contested Knowledge: Science, Media, and Democracy in Kerala. Oxford University Press, New Delhi.
  22. a b Dudo, Anthony (1 Setembro 2015). «Scientists, the Media, and the Public Communication of Science». Sociology Compass. 9 (9): 761–775. ISSN 1751-9020. doi:10.1111/soc4.12298 
  23. Jamieson, Kathleen Hall; Kahan, Dan M.; Scheufele, Dietram A. (2017). The Oxford handbook of the science of science communication. New York, NY, United States of America: [s.n.] ISBN 9780190497620. OCLC 962750268 
  24. Peters, Hans Peter; Brossard, Dominique; Cheveigné, Suzanne de; Dunwoody, Sharon; Kallfass, Monika; Miller, Steve; Tsuchida, Shoji (11 Julho 2008). «Interactions with the Mass Media». Science. 321 (5886): 204–205. ISSN 0036-8075. PMID 18625578. doi:10.1126/science.1157780 
  25. a b «S&E Indicators 2018 | NSF - National Science Foundation». www.nsf.gov. Consultado em 28 Março 2018 
  26. National Academies Of Sciences, Engineering; Division of Behavioral Social Sciences Education; Committee on the Science of Science Communication: A Research Agenda (13 Dezembro 2016). Communicating Science Effectively: A Research Agenda. [S.l.]: [National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine]; Division of Behavioral and Social Sciences and Education; Committee on the Science of Science Communication. ISBN 9780309451024. PMID 28406600. doi:10.17226/23674 

Ligações externasEditar