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Edifício Itatiaia

Edifício modernista projectado por Oscar Niemeyer

Edifício Itatiaia
Edifício Itatiaia - fachada frontal.jpg

Fachada frontal do Edifício Itatiaia, vista a partir da Praça Carlos Gomes.

História
Arquiteto
Engenheiro
Werner Müller
Desenvolvedor
Construtora Ribeiro Novaes
Período de construção
19531957
Status
Concluído
Uso
Residencial
Arquitetura
Estilo
Telhado
49 metros[1](161 pés)
Superfície
11 153,42 m²
Pisos
15
Elevador
3
Administração
Contratante
Ralpho Ribeiro
Ruy Hellmeister Novaes
Referências
Localização
Localização
Endereço
Coordenadas
Edifício Itatiaia
Estilo dominante Moderno
Arquiteto Oscar Niemeyer
Classificação nacional Condepacc
Data 2011
Geografia
Cidade Campinas, SP

O Edifício Itatiaia é um edifício projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer no Centro da cidade de Campinas, construído entre 1953 e 1957, exemplar típico da arquitetura moderna de meados do século XX. Primeiro edifício vertical de uso exclusivamente residencial no Centro de Campinas até o início da década de 1960, é o único prédio na cidade que atende à maioria dos princípios modernistas postulados pelo arquiteto franco-suíço Le Corbusier: apesar de as demais construções posteriores nesse estilo apresentarem um efeito plástico semelhante, estas outras atenderam apenas de forma incidental ou parcial os elementos modernistas, seguindo também os padrões tradicionais, fora da linguagem moderna[3].

A fachada frontal do prédio tem vista para a Rua Irmã Serafina, e seus fundos - a parte ondulada - têm vista para a estreita Rua Coronel Rodovalho. Em abril de 2011, o Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas tornou-o um bem tombado, considerando-o parte cultural e social do município[4], sendo o único projeto do arquiteto concluído na cidade[5].

Índice

HistóriaEditar

A ideia da construção do Edifício Itatiaia partiu dos empresários Ralpho Fonseca Ribeiro e Ruy Hellmeister Novaes[6], que posteriormente veio a ser prefeito de Campinas em dois mandatos (1956-1959 e 1964-1969)[7]. Em 1951, estes empresários solicitaram um estudo sobre a construção de um bloco de 15 pavimentos sobre pilotis. A esse projeto inicial não se pôde dar continuidade, pois o então arquiteto responsável, um francês conhecido como Charles Victor, não possuía a licença profissional.[3]

Devido a isso, um novo projeto é elaborado, agora sendo idealizado por Oscar Niemeyer. Em 1952, Niemeyer chama o engenheiro Werner Müller para fazer os cálculos estruturais, ainda que nos documentos entregues à prefeitura conste o nome do engenheiro Yasuo Yamamoto (que trabalhava no escritório-satélite que Niemeyer manteve em São Paulo[6] durante a década de 1950[8]). O lançamento do projeto se deu pela construtora Ribeiro Novaes[3] para o público com pompa em 23 de novembro de 1952[9] pelo jornal Correio Popular: "Orgulhosamente, apresentamos o primeiro projeto de Oscar Niemeyer para uma cidade do interior paulista: Edifício Itatiaia, ponto alto da arquitetura campineira."[10] O projeto foi protocolado na prefeitura de Campinas em 2 de dezembro de 1952, sob o número 25 602 e o habite-se, emitido em 11 de fevereiro de 1957.[3]

CaracterísticasEditar

Situado na Rua Irmã Serafina, 919, ocupa um terreno com 1 569,80  em formato trapezoidal, com a frente reta e a traseira ondulada, guardando semelhança nesta última com outro projeto feito pelo arquiteto nessa época: o Edifício Copan, em São Paulo. No total, são 11 153,42 m² de área construída, guardando 8 metros de recuo no lado frontal (Rua Irmã Serafina) e 15 metros de recuo no lado posterior (Rua Coronel Rodovalho). Dessa forma, Oscar Niemeyer procurou equilibrar em importância as duas faces do edifício.[3]

O Itatiaia, em torre única, possui 15 andares e 60 apartamentos. É um edifício com características próprias e praticamente únicas na cidade: pé-direito de 3 metros, uso extensivo de brises dos dois lados do edifício, sendo que inicialmente o projeto encaminhado para aprovação no poder público municipal apresentava terraços em cada apartamento,[3] algo que antes da execução foi substituído pela solução única na fachada. O prédio possui quatro apartamentos por andar, que conforme a posição têm planta, metragem e características próprias: dois apartamentos possuem três dormitórios, com 163,16 m² e 128,9 m² e os outros dois apartamentos têm dois dormitórios, com 107,02 m² e 89,65 m², respectivamente: todos com acessos sociais e de serviço independentes. As fachadas, por sua vez, apresentam a mesma solução: esquadrias e vidros em três alturas, tanto nas salas de estar/jantar, quanto nos banheiros (somente nos apartamentos de dois dormitórios: os outros possuem os banheiros fora das fachadas principais),[3] quanto nos dormitórios (com exceção de um dos três dormitórios do apartamento maior, cuja janela é convencional e também se situa fora da fachada principal). No térreo, há 47 vagas para os 60 apartamentos, que abrigam mais de 100 moradores[11].

A estrutura do Itatiaia também é única em Campinas: foram usadas lajes do tipo caixão-perdido — com mesas superiores e inferiores e a presença de um material inerte entre as duas,[12] eliminando a presença de vigas — em todos os 15 pavimentos, sendo que a laje de pavimento do primeiro andar funciona como laje de transição, conduzindo as cargas dos pavimentos superiores para os pilotis do térreo,[9] solução típica da arquitetura moderna.

Concepção urbanísticaEditar

 
Fachada posterior do Edifício Itatiaia, vista da Rua Coronel Rodovalho.

Originalmente, o Edifício Itatiaia possuía uma concepção urbanística que foi desconfigurada com o passar do tempo: não havia muros ou grades em torno do prédio,[13] o acesso era livre entre a Rua Irmã Serafina (frente) e a Rua Coronel Rodovalho (traseira), integrando o espaço público ao particular, através do uso de pilotis em "V" no andar térreo. O aumento da insegurança urbana nas décadas seguintes às da construção causou a retirada dessa característica típica da arquitetura moderna e niemeyeriana, ainda presente em outras obras modernas criadas com o mesmo conceito no Brasil, tais como o Edifício Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro ou os edifícios das superquadras do Plano Piloto de Brasília[14] .

O Itatiaia também é um dos poucos edifícios em Campinas que buscou cumprir em seu projeto a maioria dos Cinco pontos da Nova Arquitetura, preconizados pelo arquiteto franco-suíço Le Corbusier em 1927[15]: a planta livre, uma estrutura independente que permite a livre locação das paredes, livradas da função estrutural; a fachada livre, que decorre da independência da estrutura, fazendo com que a fachada seja projetada sem impedimentos; os pilotis, pilares que elevam o prédio, permitindo a livre circulação sob o mesmo, e as janelas em fita, que possibilitadas pela fachada livre, permitem uma relação desimpedida com a paisagem. O único ponto preconizado por Le Corbusier que não se faz presente no Itatiaia é o terraço-jardim, que "recupera" o solo ocupado pelo prédio, "transferindo-o" para cima da obra: no caso do Itatiaia, a solução foi tradicional - o edifício é coberto por telhados.[16]

A ondulação da parte traseira foi executada seguindo em suma dois princípios: a união do modelo barroco ao modernismo, muito presente na obra niemeyeriana; e a proteger os apartamentos dos fundos contra os raios solares vespertinos, formando uma espécie de "quebra-sol", juntamente com a utilização dos brises. Todavia, esta função deixou de ser completamente essencial, em função da construção posterior de mais prédios ao redor que reduziram a exposição direta ao sol[17].

TombamentoEditar

O processo de tombamento iniciou-se em 2010, com o processo 003/10[18], tendo o edifício passado à condição de bem tombado no nível municipal pelo CONDEPACC (Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas) através da Resolução 117,[19] de 28 de abril de 2011. Na estrutura, o tombamento se refere às fachadas (revestimento externo, esquadrias metálicas e vidros), aos brises e aos pilotis e no térreo, ao forro e às esquadrias da recepção, às luminárias, aos pisos, revestimentos, metais e lambris originais, além das portas e dos puxadores em metal dos elevadores. O bem tombado consiste no imóvel em si e a área envoltória está delimitada pelo lote[19][20][21].

Etimologia e contextoEditar

"Itatiaia" é um termo tupi que significa "pedra pontuda", através da junção dos termos itá ("pedra") e atîaîa ("pontudo")[22]. No contexto da década de 1950 era comum dar nomes nativos aos edifícios, algo que estava de acordo com o espírito nacionalista da época[23].

GaleriaEditar

Ver tambémEditar

Referências

  1. LEME, Roberto Silva (2009). «Edifícios de Habitação Coletiva em Campinas e as Manifestações da Arquitetura Moderna (figura 101, corte transversal do Edifício Itatiaia)» (PDF). Pontifícia Universidade Católica de Campinas. p. 168. Consultado em 7 de outubro de 2014 
  2. LEME, Roberto Silva (2009). «Edifícios de Habitação Coletiva em Campinas e as Manifestações da Arquitetura Moderna (figura 101, corte transversal do Edifício Itatiaia)» (PDF). Pontifícia Universidade Católica de Campinas. p. 168. Consultado em 7 de outubro de 2014 
  3. a b c d e f g LEME, Roberto Silva; SALGADO, Ivone (2009). «Arquitetura Moderna em Campinas: o Edíficio Itatiaia» (PDF). Revista Risco (IAU-USP), ed. 9. Consultado em 13 de outubro de 2013 
  4. «Projetado por Niemeyer, prédio em Campinas dava ênfase à liberdade». G1. 5 de dezembro de 2013. Consultado em 23 de dezembro de 2013 
  5. FONSECA, Douglas (6 de dezembro de 2012). «Niemeyer também deixou sua marca em Campinas». Correio Popular. Consultado em 9 de outubro de 2014 
  6. a b Identidade Arquitetônica - Campinas/SP. «Edifício Itatiaia». Instituto de Arquitetos do Brasil - Núcleo Regional Campinas. Consultado em 10 de abril de 2017 
  7. Redação - Folha Campinas (30 de março de 2000). «Afastado da política, Ruy Novaes morre». Folha de S.Paulo. Consultado em 10 de abril de 2017 
  8. ATIHE, Beatriz (23 de maio de 2014). «Obra de Niemeyer, edifício Triângulo se destaca por painel de Di Cavalcanti». Último Segundo - São Paulo. Consultado em 10 de abril de 2017 
  9. a b LEME, Roberto Silva; SALGADO, Ivone. «Arquitetura Moderna em Campinas: a questão estrutural» (PDF). CEATEC - PUC-Campinas. Consultado em 1 de dezembro de 2013. Arquivado do original (PDF) em 23 de setembro de 2015 
  10. SUGIMOTO, Luiz (23 de junho de 2003). «Arquiteta investiga "fase renegada" de Niemeyer» (PDF). Jornal da Unicamp, ed. 217. Consultado em 10 de novembro de 2013 
  11. VIEIRA, Sheila (8 de abril de 2017). «Os 60 anos de um marco arquitetônico». Correio Popular. Consultado em 10 de abril de 2017 
  12. DIAS, Ricardo Henrique (Janeiro de 2004). «Sistemas estruturais para grandes vãos em pisos e a influência na concepção arquitetônica». Vitruvius (ed. 044.04). Consultado em 8 de dezembro de 2013 
  13. FARIA, Ronaldo (7 de junho de 1987). «"Em volta, era tudo bonito".». Jornal de Domingo. Consultado em 10 de novembro de 2013 
  14. MADER, Helena (21 de abril de 2010). «Brasília 50 Anos - As Superquadras» (PDF). Correio Braziliense. Consultado em 8 de dezembro de 2013 
  15. MACIEL, Carlos Alberto (Maio de 2002). «Villa Savoye: arquitetura e manifesto (1)». Vitruvius (Arquitextos). Consultado em 7 de outubro de 2014 
  16. Google Maps. «Edifício Itatiaia». Consultado em 8 de dezembro de 2013 
  17. FARIA, Ronaldo (7 de junho de 1987). «"Visita ao Itatiaia, primeiro arranha-céu da praça, relíquia de Niemeyer".». Jornal de Domingo. Consultado em 10 de novembro de 2013 
  18. «Processo 003/10 -- Edifício Itatiaia». Prefeitura Municipal de Campinas (Patrimônio Histórico e Cultural). Consultado em 10 de outubro de 2014 
  19. a b Prefeitura Municipal de Campinas (9 de junho de 2011). «Resolução n° 117, de 28/04/2011. Condepacc - Tombamentos - SMAJ - CSD - BJ». Consultado em 12 de outubro de 2013 
  20. «Reunião Ordinária do CONDEPACC, Ata 380» (PDF). CONDEPACC, Campinas. 26 de novembro de 2009. Consultado em 12 de janeiro de 2014 
  21. FERREIRA, Leandro (17 de julho de 2010). «Condepacc tomba única obra existente de Niemeyer». AAN. Campinas: Folha Notícias. Consultado em 12 de janeiro de 2014. Arquivado do original em 12 de janeiro de 2014 
  22. NAVARRO, Eduardo de Almeida (2005). Método Moderno de Tupi Antigo. São Paulo: Global. pp. 312-313 
  23. MAIA NETO, Francisco (18 de setembro de 2011). «O batismo dos edifícios». Precisão Consultoria. Consultado em 28 de outubro de 2015