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Frederico (visigodo)

Disambig grey.svg Nota: Para outros significados, veja Frederico.
Frederico
Nobre visigótico
Nascimento século V
  Reino Visigótico
Morte 463
  Orleães
Religião cristianismo católico

Frederico (em latim: Fredericus; 463) foi um nobre visigótico do século V. Era filho de Teodorico I (r. 418–451). Em 453, auxiliou seu irmão Teodorico II (r. 453–466) a assassinar seu outro irmão, o rei Turismundo (r. 451–453), e tornar-se-ia seu conselheiro e principal general. Em 453/454, foi enviado à Hispânia, onde suprimiu a revolta dos bagaudas em Tarraconense. Em 455, ajudou com Teodorico II as pretensões ao trono imperial de Ávito (r. 455–456). Na década de 460, liderou campanhas em Narbona e em 463 foi derrotado e morto na Batalha de Orleães.

Rei Teodorico I (r. 418–451)

VidaEditar

Família e primeiros anosEditar

Frederico era filho do rei Teodorico I (r. 418–451) e irmão dos nobres Ricímero e Himnerido, dos reis Turismundo (r. 451–453), Teodorico II (r. 453–466) e Eurico (r. 466–484) e de duas damas de nome desconhecido, uma que casar-se-ia com o rei suevo Requiário I (r. 448–456) e a outra que casar-se-ia com o rei vândalo Hunerico (r. 477–484).[1][2] Se sabe que era católico e um correspondente do papa Hilário (r. 461–468).[3]

Frederico aparece pela primeira vez em 451, quando, na véspera da Batalha dos Campos Cataláunicos, foi enviado para casa por seu pai Teodorico ao lado de Himnerido e Ricímero.[4] Com a morte do pai deles no confronto, a sucessão recaiu para Turismundo, que era o filho mais velho, mas para assegurar sua posição diante da possível reivindicação dos demais irmãos, este rapidamente retornou para a capital visigótica de Tolosa.[5]

Carreira sob Teodorico IIEditar

Campanha na Hispânia e apoio a ÁvitoEditar

 
Soldo de Valentiniano III (r. 423–455)
 
Tremisse de Ávito (r. 455–456)

Em 453, conspirou com seu irmão Teodorico para assassinar Turismundo. O motivo do ato certamente tem relações com as tentativas de Turismundo de expandir as fronteiras do Reino Visigótico às custas dos domínios do Império Romano do Ocidente, contrariando a política pró-romana adotada por seu pai.[5] Com o assassinato de Turismundo, Teodorico assumiu o trono e Frederico tornar-se-ia seu conselheiro.[6] Pensa-se que na década subsequente o poder de Frederico equiparou-se ao do irmão. Prova disso é a mensagem de Mário de Avenches no qual Frederico é estilizado "rei dos godos" (em latim: Rex Gothorum). Alguns historiadores modernos também enfatizam seu estatuto especial na corte ao conferir-lhe o título de "vice-rei".[7]

Frederico foi selecionado inúmeras vezes ao longo do reinado de Teodorico como chefe do exército visigótico em expedições militares não somente na Gália, mas também na Hispânia. O primeiro conflito conhecido foi a guerra de visigodos contra os rebeldes bagaudas em 453/454, feita, ao que parece, em nome do imperador Valentiniano III (r. 425–455). Frederico liderou exército visigodo-burgúndio à província de Tarraconense onde conseguiu uma vitória esmagadora contra os rebeldes, capturou Tarraco e então eliminou a presença bagauda do vale do Ebro. Esta vitória permitiu a Teodorico estabelecer controle sobre estas terras e estender sua autoridade por toda a província de Tarraconense.[8][9][10][11] É possível que como recompensa pela supressão da revolta, Frederico recebeu do imperador a posição militar de mestre dos soldados da Hispânia.[3][12]

Em 455, Valentiniano foi assassinado e o trono imperial foi assumido por Petrônio Máximo (r. 455). Teodorico e Frederico apressaram-se para tomar vantagens destes distúrbios e apoiaram as reivindicações imperiais de seu amigo, o nobre gaulês Ávito. Os eventos do período foram preservados em cartas de Sidônio Apolinário; descreveu a entrada solene de Ávito na capital gótica de Tolosa na primavera daquele ano na qual, segundo Sidônio, a mão direita do futuro imperador foi o rei Teodorico, e a esquerda Frederico, um ato simbólico à suas pretensões. Os irmãos também participaram ativamente na proclamação de Ávito em Arles em 9-10 de julho. Apesar disso, Ávito governaria apenas um ano, sendo sucedido por Majoriano (r. 457–461).[3][6][8][13]

Campanha contra NarbonaEditar

 
Soldo de Líbio Severo (r. 461–465)

No começo da década de 460, a situação deteriorou rapidamente na Gália em decorrência do declínio da autoridade imperial após a morte de Majoriano em 461. Seu sucessor, Líbio Severo (r. 461–465), era uma marionete de Ricímero, o comandante dos federados germânicos na Itália, e não recebeu o reconhecimento do imperador Leão I, o Trácio (r. 457–474). Ao mesmo tempo, governantes de territórios marginais ao Império Romano Ocidental, incluindo o mestre dos soldados da Gália Egídio, recusaram-se a obedecer Líbio. Apesar disso, Teodorico mostrou total apoio ao novo imperador.[5][14][15]

Em 462, Teodorico enviou o exército liderado por Frederico para Narbona, então controlada pelo conde e mestre dos soldados gaulês Agripino.[5][14][15] Segundo a vida do santo Lupicino de Condato, os visigodos conseguiram tomar Narbona sem luta: por ser acérrimo inimigo de Egídio, Agripino rendeu a cidade a Frederico.[16] Narbona e cercanias ficaram sob controle visigótico e Teodorico nomeou seu irmão como governante do país.[5][14][15] Os autores da Prosopografia do Império Romano Tardio sugeriram que esta concessão de Narbona fez parte dum plano de Líbio Severo para assegurar a ajuda de Teodorico contra Egídio.[16]

Como ariano, Frederico logo começou a confrontar-se com o bispo local Hermes que apoiou a ortodoxia. Entre os narbonenses houve aqueles que estavam descontentes com a eleição de Hermes: eles questionaram Frederico sobre a validade da eleição de Hermes e este escreveu uma carta sobre tais questões ao papa Hilário. Como resultado, um concílio foi conveniado em Roma no qual Hermes recebeu a permissão de manter sua diocese, mas perdeu seu estatuto de metropolita, que foi dado ao bispo de Ucécia Constâncio. [17][18][19]

Guerra com EgídioEditar

Em 463, inspirado por seu sucesso em Narbona, Teodorico iniciou ações militares diretamente contra Egídio. Supõe-se que esta decisão foi causada não tanto pelo desejo de auxiliar o imperador Líbio Severo, mas sim os planos visigóticos de conectar o território do Reino Visigótico do norte do rio Líger.[13] O comandante que liderou o exército visigótico rumo ao Reino de Soissons foi Frederico. Nas imediações de Orleães, uma batalha foi travada entre os visigodos de Frederico e um exército misto de galo-romanos liderados por Egídio e federados francos sálios liderados pelo rei Quilderico I (r. 457/458–481/482). O exército coligado se sairia vitorioso do conflito, com Frederico sendo morto e o resto do exército visigótico sendo obrigado a fugir. Como consequência, Teodorico viu-se forçado a suspender sua guerra com Egídio.[3][5][14][15][20]

Referências

  1. Wolfram 1990, p. 202.
  2. Procópio 2014, p. 563.
  3. a b c d Martindale 1980, p. 484.
  4. Martindale 1980, p. 565.
  5. a b c d e f Thompson 2003, p. 51—53.
  6. a b Tsirkin 2010, p. 158—159.
  7. Wolfram 2003, p. 254—255; 290.
  8. a b Wolfram 2003, p. 254—255.
  9. Thompson 2003, p. 51—53; 261.
  10. Dimitriev 1940, p. 101-114.
  11. Tsirkin 2010, p. 124.
  12. Tsirkin 2006, p. 163-164.
  13. a b Claude 2002, p. 50.
  14. a b c d Wolfram 2003, p. 257.
  15. a b c d Claude 2002, p. 52.
  16. a b Martindale 1980, p. 37-38.
  17. Wolfram 2003, p. 282.
  18. Devic 1872, p. 473-474.
  19. Griffe 1933, p. 33-35.
  20. MacGeorge 2002, p. 98-100.

BibliografiaEditar

  • Claude, D. (2002). History of the Visigoths. São Petersburgo: Eurasia. ISBN 5-8071-0115-4 
  • Devic, Dom. C.; Vaissete, Dom. J. (1872). Histoire générale de Languedoc. Tolosa: Édouard Privat, Libraire-Éditeur 
  • Griffe, Éllie (1933). Histoire Religieuse des Anciens Pays de l’Aude. Tome I. Des Origines Chrétiennes a la Fin de l’Epoque Carolingienne. Paris: Auguste Picard 
  • MacGeorge, P. (2002). Late Roman warlords. Oxford: Oxford University Press. ISBN 0-19-925244-0 
  • Martindale, J. R.; A. H. M. Jones (1980). The prosopography of the later Roman Empire. 2. A. D. 395 - 527. Cambridge e Nova Iorque: Cambridge University Press 
  • Procópio (2014). H. B. Dewing, ed. The Wars of Justinian. Indianápolis, Indiana: Hackett Publishing. ISBN 1624661726 
  • Tsirkin, Y. B. (2006). Antique and early medieval sources on the history of Spain. São Petersburgo: Universidade Estadual de São Petersburgo. ISBN 5-288-04094-X 
  • Tsirkin, Y. B. (2010). Spain from antiquity to the Middle Ages. São Petersburgo: Faculdade de Filologia da Universidade Estadual de São Petersburgo; Nestor History. ISBN 978-5-8465-1024-1 
  • Thompson, E. A. (2003). Romans and Barbarians: The Decline of the Western Empire. Madison, Wisconsin: University of Wisconsin Press. ISBN 0299087042 
  • Wolfram, Herwig (1990). History of the Goths. Berkeley, Los Angeles e Londres: University of California Press. ISBN 9780520069831 
  • Wolfram, Herwig (2003). The Goths. Weinheim: Juventa