Gregório Derenício Arzerúnio

Gregório Derenício Arzerúnio (em armênio/arménio: Գրիգոր Դերենիկ Արծրունի; romaniz.: Grigor Derenik Artsruni; m. 886/887) foi um príncipe armênio de Vaspuracânia da família Arzerúnio, tendo reinado o país duas vezes, a primeira de 857, quando retorno de seu exílio em Samarra, até 868, quando seu pai e verdadeiro príncipe Asócio I também retorna do exílio, e novamente de 874, com o falecimento de seu pai, até 886/887, quando falece e é sucedido por seu filho Asócio Sérgio (r. 886/887-896; 898-903) sob regência de Cacício Abu Maruane Arzerúnio (r. 886/887–898).

Gregório Derenício Arzerúnio
Príncipe de Vaspuracânia
Reinado 857-868
874-886/887
Antecessor(a) Gurgenes I (1ª vez)
Asócio I (2ª vez)
Sucessor(a) Asócio I (1ª vez)
Asócio Sérgio (2ª vez)
Morte 886/887
Descendência Asócio Sérgio
Cacício I
Gurgenes II
Sofia
Filha de nome desconhecido
Casa Arzerúnio
Pai Gregório Derenício
Religião Cristianismo

ContextoEditar

Desde o final do século VII a Armênia era uma província sob domínio árabe liderada por um osticano (governador) representando o califa omíada e depois abássida,[1] e tornar-se-ia campo de batalha entre o califado e o Império Bizantino até o início do século IX.[2] Para reforçar a sua autoridade, estes osticanos implementaram emires em diversas regiões armênias; em Vaspuracânia, província histórica situada ao sul e dominada pelos Arzerúnios, não houve exceção à regra.[3] A família, no entanto, se beneficiaria da autonomia dos emires locais e da oposição que criavam ao governador[3] e gradualmente expandiu seus domínios: em 850 e sem que se saiba exatamente como, os Arzerúnio eram ixicanos (príncipes) de Vaspuracânia.[4] A aquisição da Armênia pelo turco Buga Alquibir em nome do califa Mutavaquil (r. 847–861) pelos anos 850 afetou muitas famílias nacarares (principescas), incluindo os Arzerúnio.[5]

VidaEditar

 
Dinar de ouro de Mutavaquil (r. 847–861)
 
Transcaucásia sob os muçulmanos: a província de Armênia-Azerbaijão

Filho de Asócio I, príncipe de Vaspuracânia, Derenício Arzerúnio é neste contexto capturado com seu pai e outros membros da família durante a campanha de Buga em 852.[6] Estes Arzerúnios foram exilados em Samarra, a capital califal, onde foram forçados à apostasia formal.[7] Em 857,[8] entretanto, o califa decidiu devolver Gregório para Vaspuracânia, acompanhado[9] por seu tio Gurgenes Arzerúnio que serviu-lhe como conselheiro até sua morte em 860. Em 862,[10] o jovem príncipe entrou em conflito com um primo, igualmente chamado Gurgenes I,[8] que ele captura e então liberta após mediação do bagrátida Asócio I, o Grande (r. 856–890), príncipe de príncipes armênio. Este último, que visava enfraquecer Vaspuracânia, voltou-se contra Gregório, capturando-o[11] e reduzindo seus domínios aos cantões em torno do lago de Vã.[12] Essa ação despertou a ira de Gurgenes, que obrigou Asócio a libertar Gregório; a reconciliação deu-se pela união do último com Sofia, filha de Asócio, estabelecendo um parentesco entre os Arzerúnios e os Bagrátidas.[13]

Em 868, Asócio I, pai de Gregório, voltou a Vaspuracânia de seu exílio em Samarra e ambos uniram-se para lutar contra Gurgenes, [14] um conflito que restabelecia o status quo.[15] Pai e filho, em seguida, tentam reduzir os enclaves muçulmanos em Vaspuracânia,[12] mas só conseguem tomar a cidade de Varague em 870.[16] Asócio I faleceu em 27 de maio de 874, deixando o comando do país para Gregório Derenício.[17] Logo, Gregório entrou em conflito com Asócio II, príncipe bagrátida de Taraunitis, de modo a substituí-lo por seu irmão, Davi, que era seu cunhado; e ele conseguiu capturá-lo em 878.[18] Asócio, no entanto, conseguiu escapar graças a cumplicidade de seu carcereiro, certo Haçane, que era sobrinho de Gregório. Depois, Haçane e Asócio chegaram a um acordo e capturaram Gregório Derenício, o que justificou uma intervenção de Asócio I, que sitiou Manziquerta e obrigou Haçane a libertar Gregório Derenício.[19]

Os últimos anos do reinado de Gregório foram dedicados à luta contra outra rival, Cacício Abu Maruane. No conflito, aproveitando-se para se vingar de Haçane, captura seu sobrinho e confisca seu forte de Sevã em 884, alegando que libertaria-o e devolveria sua base caso lhe trouxesse Cacício. Haçane tornou-se amigo de Cacício e, em seguida, aproveitou para capturá-lo e enviá-lo preso à seu tio. Gregório Derenício morreu poucos anos depois, em 886/887, aos quarenta anos de idade, numa emboscada durante uma expedição contra o emir de Coi, deixando três filhos infantes.[19] Cacício Abu Maruane, que estava preso por este tempo, foi libertado pela viúva Sofia e, sob intermédio de Asócio I, o Grande, foi nomeado tutor e regente dos filhos de Gregório.[20]

FamíliaEditar

Gregório Derenício casou-se apenas com Sofia durante sua vida e teve com ela três filhos e duas filhas:[21][22]

Referências

  1. Martin-Hisard 2007, p. 223.
  2. Martin-Hisard 2007, p. 231.
  3. a b Martin-Hisard 2007, p. 233.
  4. Martin-Hisard 2007, p. 235.
  5. Grousset 1947, p. 368.
  6. Grousset 1947, p. 361.
  7. Thierry 2007, p. 274.
  8. a b Martin-Hisard 2007, p. 236.
  9. Grousset 1947, p. 371.
  10. Grousset 1947, p. 372.
  11. Grousset 1947, p. 374.
  12. a b Thierry 2007, p. 275.
  13. Grousset 1947, p. 375.
  14. Grousset 1947, p. 380.
  15. Grousset 1947, p. 381.
  16. Thierry 2007, p. 292.
  17. Grousset 1947, p. 382.
  18. Grousset 1947, p. 386.
  19. a b Grousset 1947, p. 387.
  20. Grousset 1947, p. 388-389.
  21. Grousset 1947, p. 642.
  22. Toumanoff 1990, p. 102-103.

BibliografiaEditar

  • Grousset, René (1947). Histoire de l'Arménie: des origines à 1071. Paris: Payot 
  • Martin-Hisard, Bernadette (2007). «Domination arabe et libertés arméniennes (viie ‑ ixe siècle». In: Gérard Dédéyan. Histoire du peuple arménien. Tolosa: Privat. pp. 213–241. ISBN 978-2-7089-6874-5 
  • Thierry, Jean-Michel (2007). «Indépendance retrouvée : royaume du Nord et royaume du Sud (ixe ‑ xie siècle) — Le royaume du Sud : le Vaspourakan». In: Gérard Dédéyan. Histoire du peuple arménien. Tolosa: Privat. pp. 274–296. ISBN 978-2-7089-6874-5 
  • Toumanoff, Cyril (1990). Les dynasties de la Caucasie chrétienne de l'Antiquité jusqu'au xixe siècle : Tables généalogiques et chronologiques. Roma: Edizioni Aquila