Primeira Guerra Luso-Ovimbundo

A Primeira Guerra Luso-Ovimbundo, também conhecida como Guerra de 1774-1778, foi um conflito armado entre os reinos dos povos ovimbundos, principalmente na figura dos reinos Bailundo e Bié, contra o Império Português.

Primeira Guerra Luso-Ovimbundo
Colonização portuguesa de África
Data 1774 a 1778
Local Planalto Central de Angola
Desfecho Vitória portuguesa
Situação Terminado
Beligerantes
Flag of Portugal (1707).svg Reino de Portugal Bailundo
Bié
Quingolo
Comandantes
Flag of Portugal (1707).svg António de Lencastre
Kangombe I
Chingui I
Ndjilahulu I
Chingui II

O conflito foi motivado pela ambição colonial portuguesa, colocando o povo ovimbundo contra os imigrantes europeus e os representantes coloniais.

AntecedentesEditar

As férteis terras altas de Benguela, também conhecidas como nano, eram tradicionalmente cultivadas pelos povos bantos. A invasão do início do século XVII, pelos povos bangalas levou a uma fusão das duas populações e a subsequente criação dos reinos ovimbundos. A região de Benguela foi explorada pela primeira vez por mercadores portugueses em meados do século XVII, iniciando o comércio de escravos, marfim, cera de abelha e borracha.[1]

As primeiras investidas do Império Português tentando atingir os ovimbundos se deram ainda no século XVII nos conflitos contra a rainha Ana de Sousa Ginga, em 1645. Em 1660 uma nova expedição lusitana foi malsucedida e repelida pelos ainda politicamente desorganizados povos ovimbundos.[2]

Se apercebendo dos riscos da influência portuguesa, os reinos ovimbundos começaram a estabelecer-se na virada no século XVII para o século XVIII, com destaque para a investidura de Katyavala Bwila I, no reino Bailundo (1700), e Vyie, no reino do Bié (1750).[1]

Confrontos ocasionais entre portugueses e os ovimbudos ocorreram no século XVIII, durante a abertura dos caminhos coloniais de exploração do leste, áreas ainda fortemente resistentes à ingerência estrangeira. Numa tentativa de uma rota sulista mais pacífica, os portugueses empreenderam, contra o reino Galangue, a Guerra de Galangue (1768-1769), onde derrotaram o rei Caconda, conseguindo forçar a retomada da Fortaleza de Caconda.[1]

ConflitoEditar

O conflito se desenrolou em cinco momentos, sendo dois deles contra o reino Bailundo, dois contra o reino do Bié e um contra uma coalizão ovimbundo.[3]

Batalha da coalizãoEditar

Apercebendo-se dos resultados da guerra de Galangue, com o plano português de invasão do planalto, os reinos de Quingolo e Bailundo formaram aliança, com apoio do Bié, em 1774, para resistir à invasão, capitaneados pelo rei bailundo Chingui I.[4]

As tropas da coalizão repeliram a invasão, empreendendo grande perseguição, fazendo os lusos retornarem à Caconda. O reino Quingolo porém saiu fortemente enfraquecido.[4]

Primeiro ataque ao BiéEditar

Para minar a força do Bié, na altura o mais forte dos reinos ovimbundos, Portugal enviou tropas à fronteira onde começou a atacar aldeias e ombalas, entre 1774 e 1775, sufocando a produção agrícola local.[1]

Portugal não conseguiu tomar o reino, mas a estratégia mostrou-se bem sucedida, na medida em que alimentou a formação de uma facção rival ao rei bieno Ndjilahulu I, liderada pelo pretendente Kangombe I.[3]

Batalha de LumbangandaEditar

A partir de Caconda, uma coluna militar foi formada para avançar sobre o Bailundo, em 1776. O ataque foi considerado brutal, que culminou na fuga do Soma Inene (rei) Chingui I e sua força para uma fenda que se localiza na serra Lumbanganda.[4]

O esconderijo foi descoberto após a entrega de posição pela Inaculo (rainha) bailunda, culminando na detenção de Chingui I e dela própria. Cativos em domicílio em Luanda, nasceu-lhes o filho Elanga Ngongo Chikundiakundi Puka Kaliliwa Lonjila Ekuikui.[4]

Grande batalha bailundaEditar

Os portugueses investiram Chiliva Bambangulu Chingui II, filho do antigo monarca, exigindo-lhe fidelidade, o que o mesmo pouco tempo depois rechaçou. Na ausência de fortificação, os portugueses retornaram à Caconda, enquanto Chingui II reorganizava suas tropas e tentava fortificar as aldeias. Prontamente os portugueses responderam, enviando tropas à fronteira, atacando aldeias a partir de 1776, enquanto eles mesmos não se organizavam totalmente.[4]

Em 1777 os bailundos tentam interromper o avanço lusitano, levando a uma situação de inconclusão bélica até 1778.[4]

Em 1778, aproveitando a situação calamitosa causada por uma seca, uma coluna portuguesa avança sobre Halã-Vala, a capital do reino Bailundo, bem como sobre as ombalas de Andulo e Viye. O rei Chingui II morre em batalha, sem que seu corpo consiga ser recuperado. O reino Bailundo perde as ombalas de Viye e Andulo, com a última tornando-se um reino fantoche.[4]

Em Luanda é investido Ekuikui I como Soma Inene (rei) bailundo, sendo este um monarca favorável a Portugal.[4]

Grande batalha bienaEditar

Cientes da dificuldade de atacar o Bailundo e o Bié ao mesmo tempo, os portugueses começaram a por em prática a estratégia de derrotar os reinos de dentro para fora. Assim, foram enviados mercenários que apoiaram a facção de Kangombe I.[1]

Uma estratégia de guerrilhas permaneceu entre 1776 e 1778, quando, ao derrotar os bailundos, Portugal reuniu forças para tentar imprimir derrota aos bienos.[3]

Em 1778, numa grande batalha, o Cuíto foi invadido pelas tropas lusitanas. O rei Ndjilahulu I foi deposto, assumindo em seu lugar Kangombe I.[1]

Ver tambémEditar

Referências

  1. a b c d e f Blog TV Navegante. A Revolta do Mutu-ya-Kevela. 10 de março de 2017.
  2. Douglas Wheeler. «The Bailundo Revolt of 1902» (PDF). Redeemer's University. Consultado em 9 maio de 2015 
  3. a b c Sungo, Marino Leopoldo Manuel. O reino do Mbalundu: identidade e soberania política no contexto do estado nacional angolano atual. Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Florianópolis, 2015.
  4. a b c d e f g h Ceita, Constança do Nascimento da Rosa Ferreira de. Silva Porto na África Central – VIYE / ANGOLA: história social e transcultural de um sertanejo (1839-1890). Tese de Doutoramento. Universidade Nova de Lisboa, Departamento de Estudos Portugueses, 2015.