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Régia[1] (em latim: Regia) era uma estrutura religiosa da Roma Antiga situada na borda do Fórum Romano entre o Templo de Vesta e o Templo de Antonino e Faustina. Surgida ainda durante o período monárquico, funcionava como sede de diversos rituais religiosos públicos conduzidos pelo rei das coisas sagradas e pelo pontífice máximo.[2] Juntamente com o Templo de Vesta e a Casa das Vestais, a Régia compunha a parte religiosa do Fórum Romano, situada a leste das partes administrativa (onde ficavam a Cúria, a Rostra, o Templo de Saturno e as Basílicas Emília e Júlia) e comercial.

Régia
Local Região VIII - Fórum Romano
Construído em Desconhecido.
Construído por/para Numa Pompílio (?)
Tipo de estrutura Edifício religioso
Artigos relacionados Nenhum.
Régia está localizado em: Roma
Régia
Búcaro com a inscrição REX

Segundo a tradição, teria sido a residência do segundo rei de Roma Numa Pompílio (r. 715–673 a.C.), e o edifício do qual hoje se conservam apenas as fundações, em formato irregular, teria sido reconstruído diversas vezes durante a República, preservando seu formato durante o Principado. Abandonada por volta do século IX, foi destruída durante o século XVI para reúso de seu mármore em outras construções na cidade. Desde sua redescoberta no século XIX, por diversas vezes foi visitado e estudado por arqueólogos que procuraram esclarecer alguns pontos obscuros a respeito de suas funções originais.

Índice

HistóriaEditar

As escavações no local da Régia foram iniciadas no século XIX e se estendem até hoje. Na década de 1960 uma equipe da Academia Americana em Roma, liderada por Frank Brown, descobriu indícios de uma ocupação inicial parecida com a das cabanas redondas encontradas no Palatino, que na data aproximada de 625 a.C. parecem ter sido destruídas por uma inundação.[3] Logo em seguida, ainda no século VII a.C., aparecem as primeiras estruturas de alvenaria. Por cinco vezes seguidas nesse período parecem ter surgido diferentes reconstruções do edifício, em torno de 620, 600, 580, 540 e 510 a.C.[3] Depois da última reconstrução, que parece ter sido necessária após um incêndio, o edifício conservou a mesma forma até o fim da Antiguidade. Ainda ocorreram intervenções subsequentes, após os incêndios de 148 a.C. e de 36 a.C., esta última ordenada pelo cônsul Domício Calvino.[4][5]

Tradicionalmente indicado pelas fontes antigas como a residência construída e habitada por Numa Pompílio (r. 715–673 a.C.), [6][7][8][9] há uma dificuldade na interpretação da função inicial do edifício. Seu próprio nome, Régia, indica literalmente a "residência do rei",[10] mas nenhum dos outros reis parece ter morado lá. De fato, como o edifício era considerado um lugar sagrado pelos romanos (o que é o significado original da palavra templum[11]), sua principal função parece ter sido a de sede de alguns dos rituais mais antigos da religião romana.[12]

 
Denário de Pompeu com efígie de Numa Pompílio (r. 715–673 a.C.). Segundo as fontes antigas, a Régia serviu-lhe como habitação
 
Fragmento dum friso de terracota da Régia mostrando um minotauro e felinos, ca. 600-550 a.C.., Antiquário do Fórum Romano

A dificuldade de interpretação consiste no uso da palavra rex, que pode significar tanto o rei, durante o período monárquico, quanto o magistrado chamado rei das coisas sagradas (em latim: rex sacrorum), cargo criado no estabelecimento da República para manter as funções sacerdotais antes exercidas pelos reis. Segundo o gramático romano Sérvio, a Régia serviu como residência do pontífice máximo (pontifex maximus), o máximo cargo sacerdotal durante a República e que passou a ser prerrogativa única do imperador no Principado,[13][14] e do rei das coisas sagradas;[15] para Samuel Ball Platner, contudo, os pontífices provavelmente residiram na Casa Pública (Domus Publica), situada mais acima na Via Sacra, no Palatino, enquanto o rei das coisas sagradas era sediado no Vélia.[16] Um búcaro (cerâmica etrusca de terracota) encontrado pela equipe de Brown e datada do terceiro quarto do século VI a.C., apresenta a inscrição "REX" e reforça a dúvida sobre o significado.[17]

Sabe-se, no entanto, que a Régia passou também a ser sede de reuniões do Colégio de Pontífices, dos irmãos arvais e dos rituais promovidos pelo pontífice máximo.[18] Os principais recintos eram de acesso exclusivo do pontífice máximo e das vestais: as câmaras (sacraria) dos altares de Marte e de Ops Consiva. É possível que a Régia tenha sido o local onde o pontífice máximo exibia todos os anos os anais da República, (os Anais Máximos), que continham os nomes dos cônsules, os prodígios e os feitos militares ocorridos no ano,[19] e que os arquivos desses registros fossem guardados dentro do recinto.[20]

Segundo Tácito, o edifício foi danificado no incêndio ocorrido em 64, durante o reinado de Nero (r. 54–68), embora tal relato seja considerado um exagero.[21] Apesar disso, é possível que tenha sido danificado no grande incêndio de 191, durante o reinado de Cômodo (r. 177–192).[22] O edifício é representado sobre o fragmento do Plano de Mármore e é citado no século III e provavelmente no IV. Pelo tempo da Roma medieval, as construções pagãs gradualmente passaram por um processo de esquecimento. Pelo século VII-VIII, a Régia tornar-se-ia uma casa privada[23] e pelo século IX foi definitivamente abandonada. Durante a realização dos projetos arquitetônicos do Papa Paulo III, de 1543 a 1546, os pedaços de mármore e travertino do edifício foram retirados e reutilizados para outras construções.[24]

ArquiteturaEditar

 
Fragmentos de placas decorativas de terracota do século VI a.C.. Museu das Termas de Diocleciano, Roma

As ruínas existentes pertencem a três períodos distintos, o republicano, o imperial inicial e o medieval. Os vestígios dos primeiros dois períodos se restringem aos cursos inferiores de alguns muros e muitos fragmentos arquitetônicos.[20] A Régia tinha um formato irregular, bastante diferente do formato retangular dos templos romanos - o que mostra sua função diferente destes. Pelo que se pode inferir das fundações restantes, na sua primeira forma, no período monárquico, tratava-se de uma área coberta central cercada de pequenos pavilhões. Segundo Filippo Coarelli, a disposição dessas fundações mais antigas é parecida com a de residências reais etruscas, escavadas em Aquarossa, próximo a Viterbo.[2]

Do edifício do período republicano ainda são perceptíveis os traços dos reparos efetuados em 148 a.C.. Após as intervenções de Domício Calvino em 36 a.C., a Régia consistiu num pentágono irregular, preenchendo o espaço entre a Via Sacra, o têmeno do Templo de Vesta e o Templo de César, e consistiu de partes assimetricamente postas justas. Ele dividia-se em duas partes. A primeira e principal porção, alinhada no eixo leste-oeste, tinha formato trapezoidal com cerca de 22 metros de comprimento e 8 de largura, e foi edificada com blocos sólidos de mármore branco, com um pavimento de lajes de mármore; alguns fragmentos da cornija foram preservados. Nos lados leste e sul estavam inscritos em quatro painéis duplos os fastos consulares, enquanto que nas pilastras do lado sul, os fastos triunfais; muitos dos fragmentos atualmente estão expostos no Palácio dos Conservadores.[23]

Ela consistia em três câmaras, cuja entrada se situava no meio. A câmara do lado leste, de acesso restrito, parece ter sido consagrada a Ops Consiva, antiga deusa das colheitas e da abundância. A câmara oeste, maior, tem sido identificada como o sacrário de Marte, onde ficavam guardados as espadas e os escudos sagrados (em latim: ancilia), que eram carregados pelos sacerdotes sálios (em latim: sallii) em procissão, em sua dança sagrada, todo mês de março.[17][a] Também nesta câmara foi identificado um pavimento de blocos de tufa ânio (talvez pré-Sula) e uma estrutura circular de tufa verde de 2,53 metros de diâmetro,[23] provavelmente as fundações do altar em que se coletava o sangue do sacrifício de um cavalo, relacionado ao festival da Parília.[17]

 
Os sálios carregando os escudos sagrados de Marte

O espaço irregular ao norte entre essa porção e a Via Sacra foi ocupada por uma quadra aberta, com uma antecâmara coberta, talvez um terraço, e contendo talvez um pórtico. A quadra foi pavimentada com lajes de mármore, e ali há uma cisterna ou silo e dois poços, que podem datar dum período muito antigo, bem como havia dois loureiros, mencionados pelas fontes antigas.[2] Próximo à cisterna está uma base de blocos de tufa, com traços duma superestrutura circular e a ela pode pertencer o bloco circular de peperino com a inscrição A. COVRI (século II a.C.). Na ponta sudoeste do edifício de mármore há uma pequena sala, e próximo a ela, no muro, há uma inscrição da Escola dos Caladores (Schola Kalatorum).[23]

Do edifício medieval os traços são visíveis por todas as porções da área, mas principalmente ao longo da Via Sacra, onde a residência privada medieval foi acessada por duas escadas grosseiramente feitas de mármore e travertino, sobre as quais havia uma fileira de colunas de cipolino tomadas de algum edifício antigo. Tais escadas foram dispostas em frente a entrada republicana do edifício, que foi reutilizada e grosseiramente ampliada.[23]

EscavaçõesEditar

 
Panorama das ruínas da Régia

O sítio arqueológico da Régia tem sido alvo de investigações já há um certo tempo, embora ainda não se tenha disponível uma publicação abrangente sobre os resultados. O local foi tirado do abandono pela primeira vez entre 1872 e 1875.[25] Em 1876, Ferdinand Dutert discutiu a possível atribuição em seu volume sobre o Fórum Romano,[26] e logo depois, em 1886, Nichols identificou o sítio como sendo a Régia.[25] Novas escavações foram conduzidas pelos arqueólogos Christian Hülsen e Giacomo Boni em 1889.[27]

As escavações de Frank Brown nos anos 1930 e depois nos anos 1960 resultaram em diferentes teorias interpretativas:[28] a princípio ele acreditou que o edifício remanescente fosse datado do período republicano, sucedendo outras construções religiosas distintas, mas a partir de um artigo científico publicado em 1974,[29] passou a defender que o edifício datava originalmente de 625 a.C. e que havia sido sucessivamente reconstruído, sem no entanto mudar sua função original. As terracotas arquiteturais encontradas nas escavações de Brown foram publicadas em 1995.[30]

LocalizaçãoEditar

NotasEditar

[a] ^ Segundo Sérvio, estas espadas eram cruzadas antes das campanhas militares, "acordando" Marte.[31] Dião Cássio relata que foi ouvido um grande estrondo das espadas durante a noite anterior ao assassinato de Júlio César.[32]

Referências

  1. Grande 1950s, p. 809.
  2. a b c Coarelli 2007, p. 83.
  3. a b Grandazzi 2009, p. 93.
  4. Dião Cássio século III, 47.42.4-6..
  5. Hülsen 1906, p. 181.
  6. Ovídio século I, 6.263.
  7. Tácito século II, 15.41.
  8. Dião Cássio século III, fr. 1.6.2.
  9. Plutarco século I, 14.
  10. Festo século II, L 346-348.
  11. Linderski 1986, p. 2146-2312.
  12. Stamper 2005, p. 35.
  13. Bowersock 1990, p. 380.
  14. Eder 2005, p. 28.
  15. Sérvio século IV, VIII.363; II.57.
  16. Platner 1929, p. 440.
  17. a b c Forsythe 2005, p. 87.
  18. Platner 1929, p. 440-441.
  19. Cícero 55 a.C., II.12.52..
  20. a b Platner 1929, p. 441.
  21. Tácito século II, XV.41.
  22. Herodiano século III, I.14.3.
  23. a b c d e Platner 1929, p. 442.
  24. Claridge 1998, p. 106.
  25. a b Brown 1935, p. 67-88.
  26. Dutert 1876.
  27. Carnabuci 2012.
  28. Cornell 1995, p. 239.
  29. Brown 1974-75, p. 15-36.
  30. Downey 1995.
  31. Sérvio século IV, VIII.3.1.
  32. Dião Cássio século III, 44.17.2..

BibliografiaEditar

  • Bowersock, G. W. (1990). «The Pontificate of Augustus». In: Kurt A. Raaflaub and Mark Toher. Between Republic and Empire: Interpretations of Augustus and his Principate. Berkeley: University of California Press. ISBN 978-0-520-08447-6 
  • Brown, Frank E. (1935). «The Regia». Memoirs of the American Academy in Rome. 12 
  • Brown, F. (1974-75). «La protostoria della regia». Rendiconti della Pontificia Academia Romana di Archaeologia. 47  Texto "Frank Edward Brown" ignorado (ajuda); Verifique data em: |ano= (ajuda)
  • Carnabuci, Elisabetta (2012). Regia : nuovi dati archeologici dagli appunti inediti di Giacomo Boni. Roma: Quasar 
  • Claridge, A. (1998). Rome - Oxford Archaeological Guides. Oxford: Oxford University Press 
  • Coarelli, F. (2007). Rome and Environs, an Archaeological Giode. Barkeley, LA: University of California Press 
  • Cornell, T. J. (1995). The Beginnings of Rome: Italy From the Bronze Age to the Punic Wars (Circa 1,000 to 264 B.C.). Londres: Routledge. ISBN 0415015960 
  • Downey, Susan B. (1995). Architectural Terracottas from the Regia. Ann Arbor: University of Michigan Press 
  • Dutert, Ferdinand (1876). Le Forum romain et les forums de Jules César, d'Auguste, de Vespasien, de Nerva et de Trajan, état actuel des découvertes et étude restaurée. [S.l.]: A. Lévy 
  • Eder, Walter (2005). «Augustus and the Power of Tradition». Cambridge Companion to the Age of Augustus (Cambridge Companions to the Ancient World). Cambridge, MA; Nova Iorque: Cambridge University Press. ISBN 978-0-521-80796-8 
  • Forsythe, Gary (2005). A Critical History of Earlier Rome. Berkeley, LA: University of California Press 
  • Grandazzi, A. (2009). As origens de Roma. São Paulo: UNESP 
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  • Hülsen, Christian (1906). «XXXI. The Regia». The Roman Forum — Its History and Its Monuments. Turim: Ermanno Loescher & Co 
  • Linderski, J. (1986). «The Augural Law». In: Temporini, Hildegard; Haase, Wolfgang. Aufstieg und Niedergang der Romischen Welt. Berlim, Nova Iorque: Walter de Gruyter 
  • Stamper, John W. (2005). The Architecture of Roman Temples: The Republic to the Middle Empire. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 052181068X 

Ver tambémEditar

 
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Ligações externasEditar