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Seca na Região Nordeste do Brasil (2010–presente)

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Seca na Região Nordeste do Brasil em 2010-atualmente
Paisagem do sertão nordestino em período de seca.
Duração 2010 – presente
Danos R$ 103,5bi de prejuízo
Áreas afetadas Região Nordeste do Brasil

A seca na Região Nordeste do Brasil desde 2010 é um evento climático ocorrido no Brasil que prolonga até os dias atuais[1] Caracteriza-se por chuvas irregulares e pouco expressivas registradas em praticamente toda Região Nordeste e com grau mais severo em Pernambuco, Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte e Alagoas; iniciando no primeiro ano da década de 2010 e persistindo ano após ano desde então.[2]

O principal fator responsável pela diminuição das precipitações é a posição da Zona de Convergência Intertropical mais ao norte que a média de ocorrência histórica, devido às águas do Atlântico Sul não esquentarem o suficiente, além da formação do El Niño entre 2009 e 2010 e, principalmente, entre 2014 e 2016.[2] Aliado a estes fenômenos, a falta de água na região também está associada a fatores ligados à infraestrutura, como a falta de adutoras, barragens e o prolongamento por vários anos da obra de transposição do Rio São Francisco, bem como a desertificação causada por fatores humanos de uso excessivo do solo e a falta de planejamento.[3]

Diferentemente de outros períodos de seca, esta não limitou-se à áreas do Sertão nordestino, o chamado Polígono das Secas. Cidades da Zona da Mata e do Agreste da região enfrentaram ou enfrentam escassez d'água.[4] Por esta duração e pelo total de pessoas e fatores econômicos afetados, esta seca é considerada a mais grave da história da Região, comparando-se à seca ocorrida entre 1910-1915 relatada em romance de Rachel de Queiroz.[3]

ContextoEditar

 
Vítimas da seca de 1877/1878, no Ceará.

A seca no Nordeste brasileiro é um fenômeno natural e comum na região. Desde que começou a ocupação portuguesa na região, passando pelo período de reinado, período imperial e até os dias atuais, são contabilizados 84 períodos de estiagem prolongada.[1] O clima semiárido da maior parte da região caracteriza-se por um curto período de chuvas e um longo período seco. O período chuvoso na região ocorre notadamente do final do Verão para início do Outono, quando em algumas regiões chega a chover mais de 80% do esperado para o ano todo em cerca de dois ou três meses.[5]

Por ocorrer em um curto espaço de tempo, pode acontecer de que alguns fatores climáticos não favoreçam a ocorrência de chuva durante o período que ela costuma ocorrer, fazendo com que as chuvas do restante do ano não supram as necessidades hídricas, ocorrendo então as secas.[5]

A atual seca do Nordeste, iniciada em 2010, deve-se a combinação de vários fatores climáticos, que vem ano após ano influenciando queda nos registros pluviométricos de boa parte da região, entre esses fatores incluem-se: a diminuição da temperatura da superfície do Oceano Atlântico Sul, a formação da Zona de Convergência Intertropical na costa norte do Nordeste, durante os meses de janeiro a março, ao contrário de sua localização sobre o sertão, e a ocorrência do fenômeno El Niño em 2014, que contribui fortemente para o bloqueio de massas de ar úmidas que conseguem chegar à região.[2]

Contudo a seca não é homogênea em toda a região, algumas áreas começaram a sentir seu efeito mais tardiamente, enquanto outras apesar de senti-lo há mais tempo podem também ter apresentado anos de chuva além da média.[5]

Estado de emergênciaEditar

 
Áreas de seca no Nordeste (Out/16).
  Seca extrema
  Seca excepcional

Ao final de 2014, 803 municípios se encontravam em estado de emergência devido a seca, tendo esse número subido para 841, no início de 2015.[6] No total, 33,4 milhões de pessoas estão a ser afetadas pela seca, número que representa mais de 15% da população brasileira e quase 60% da população nordestina.[3]

Os estados da Paraíba e Pernambuco encontram-se em situação mais desfavorável.[7] No total, 33,4 milhões de pessoas estão afetadas pela seca.[3] Na Paraíba 197 municípios dos 223 do estado encontravam-se em estado de emergência no início de 2015.

Até o estado do Maranhão, que por situar-se em parte mais úmida e próximo à Floresta Amazônica geralmente não sofre os efeitos da seca, tem sofrido com a falta de chuvas. Em agosto de 2016, 60% do território encontrava-se em situação de seca extrema, penúltimo grau na escala de seca, aponta relatório do Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos.[8]

Os estados de Minas Gerais, Goiás e o Distrito Federal estão ou estiveram em parte sob efeito da seca.[9]

Brasília, a capital federal, conheceu em 2016 o seu primeiro racionamento de água, desde sua fundação em 1961.[10]

Ações de combateEditar

A curto prazo, a construção de cisternas e perfuração de poços artesianos tem sido a ação que mais tem demonstrada efetividade contra os efeitos da seca,[11] a utilização de carros-pipa para levar água para zonas rurais e mesmo para cidades tem sido outra ação comum tomada pelos estados e governo federal para combater a seca, porém, com a maioria dos açudes vindo a apresentar exaustão completa, o transporte de água por carros-pipa tem ficado mais difícil, uma vez que açudes onde possam captar água possam ficar a mais de 100 quilômetros de distância.[9] Um total de sete mil carros-pipa estavam contratados para transportar água no Nordeste em dezembro de 2016.[12]

 
Reservatório de Sobradinho, em dezembro de 2015.

Projetos de transferência de renda, como o Bolsa Família e o seguro safra tem ajudado a atenuar os problemas de falta de renda para os que ficaram sem trabalho devido à falta de chuva.[3] O governo federal também tem liberado, por diversas vezes, dinheiro para ações no combate à seca.[13]

Grandes obras como o Eixão das Águas, no Ceará,[14] e a Adutora do Agreste, em Alagoas,[15] foram construídas visando o abastecimento de importantes cidades, outras adutoras foram e estão a ser construídas por toda a região. Grande obras de açudes também merecem destaque no enfrentamento à seca, a maior delas é a Barragem de Oiticica, no sertão do Rio Grande do Norte.[16]

Em dezembro de 2016, o governo do Estado de São Paulo anunciou o empréstimo de bombas para o combate à seca na região. As bombas foram utilizadas durante a seca que o estado de São Paulo presenciou entre 2014 e 2016, quando em uma etapa mais crítica, parte Grande São Paulo utilizou água do volume morto do Sistema Cantareira para suprir suas necessidades hídricas. As bombas seriam encaminhadas para Pernambuco e Paraíba.[17]

Transposição do Rio São FranciscoEditar

 Ver artigo principal: Transposição do Rio São Francisco
 
Canal do Eixo Norte da transposição em Cabrobó, Pernambuco.

Tido como única saída viável a curto e médio prazo para o desastre da seca no Nordeste, a transposição de parte das águas do Rio São Francisco, iniciadas em julho de 2007, estava previsto para ser inaugurada em 2010. Suas águas iriam servir para o consumo de 12 milhões de pessoas de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. As obras do Eixo Leste foram iniciadas pelo Exército Brasileiro. O Consórcio Águas do São Francisco, composto pelas empresas Carioca, S.A. Paulista e Serveng foram responsáveis pelas obras do Lote 1 do Eixo Norte e a Camargo Corrêa das obras do Lote 9 do Eixo Norte.[18]

Os trechos sob a responsabilidade do Exército eram os únicos prontos em dezembro de 2013, um ano depois da data de compleição estimada no início do projeto, em 2007. Quatro cidades — Salgueiro e Cabrobó, em Pernambuco, Jati, no Ceará, e São José de Piranhas, na Paraíba — trabalhavam 24 horas em seus canais, mas no geral o ritmo era lento, e alguns municípios ainda contratavam operários para as obras. Alguns dos canais concluídos apresentam rachaduras e outros problemas de conservação e precisaram ser refeitos.[19] O prazo fora inicialmente prorrogado para 2012, depois para 2015, 2016, e por último está prometido sua entrega à população no ano de 2017.[20]

Prejuízo econômicoEditar

 
Animal morto em meio à seca, Remanso-BA.

Estudos da Confederação Nacional dos Municípios feitos a partir de dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres estimam prejuízo de pelo menos 103,5 bilhões de reais à economia da região até o ano de 2016.[21][3]

A agricultura teve um prejuízo R$ 74,5 bilhões, no período. Na pecuária, foram R$ 20,4 bilhões de prejuízo, com redução do rebanho bovino (um dos principais da região) em mais de 6 milhões de cabeças.[22] Somente no ano de 2012, a contagem do rebanho bovino da região diminuiu 4 milhões de cabeças, sendo Paraíba e Pernambuco, os estados com maiores perdas — 28% e 24%, respectivamente.[4]

Cidades mais afetadasEditar

Entre as principais cidades afetadas destacam-se:

Ver tambémEditar

Referências

  1. a b «Nordeste brasileiro enfrenta a maior seca de sua história». Veja. Veja.com. 3 de dezembro de 2016. Consultado em 28 de dezembro de 2016 
  2. a b c «Depois de 5 anos consecutivos de seca, Nordeste está à beira do colapso». RedeBrasilAtual. redebrasilatual.com.br. 23 de novembro de 2016. Consultado em 28 de dezembro de 2016 
  3. a b c d e f Pina, Rute (16 de dezembro de 2016). «Seca no Nordeste corre risco de bater recorde e completar seis anos em 2017». Brasil de Fato. brasildefato.com.br. Consultado em 28 de dezembro de 2016 
  4. a b Madeiro, Carlos (25 de dezembro de 2016). «Seca histórica dá "cara de sertão" à zona da mata e ao litoral no Nordeste». Brasil de Fato. noticias.uol.com.br. Consultado em 28 de dezembro de 2016. UOL Notícias 
  5. a b c de Freitas, Eduardo. «A Seca no Nordeste». Brasil Escola. brasilescola.uol.com.br. Consultado em 31 de dezembro de 2016. Brasil Escola 
  6. Falcão, Marina (18 de fevereiro de 2015). «Nordeste pode enfrentar 4º ano seguido de seca». Clip News. cliptvnews.com.br. Consultado em 30 de dezembro de 2016. Clip News 
  7. «Nordeste do Brasil enfrenta a pior seca desde 1910». RTP. rtp.pt. 27 de dezembro de 2016. Consultado em 30 de dezembro de 2016. RTP 
  8. Martins, Miguel (5 de dezembro de 2016). «A seca extrema avança no Nordeste». Carta Capital. cartacapital.com.br. Consultado em 30 de dezembro de 2016. Carta Capital 
  9. a b Torquato, Silvana (5 de junho de 2016). «Operação Carros-Pipa leva água a 171 municípios atingidos pela estiagem». Jornal da Paraíba. jornaldaparaiba.com.br. Consultado em 30 de dezembro de 2016. Jornal da Paraíba 
  10. Leal, Aline (24 de setembro de 2016). «Seca provoca primeiro racionamento de água em Brasília». Agência Brasil. agenciabrasil.ebc.com.br. Consultado em 30 de dezembro de 2016. Agência Brasil 
  11. Mello, Alessandra (27 de dezembro de 2016). «Seca mais grave dos últimos 110 anos castiga 975 cidades no país». Diário de Pernambuco. diariodepernambuco.com.br. Consultado em 30 de dezembro de 2016. Diário de Pernambuco 
  12. Freitas, Raquel (20 de dezembro de 2016). «Governo não tem mais verba para carros-pipa em 2017». Folha de Pernambuco. folhape.com.br. Consultado em 30 de dezembro de 2016. Folha de Pernambuco 
  13. «Governo intensifica repasses para obras hídricas no País». Portal Brasil. brasil.gov.br. 30 de novembro de 2016. Consultado em 30 de dezembro de 2016. Portal Brasil 
  14. «Eixão das Águas é a maior obra de infraestrutura hídrica do Ceará». Portal Brasil. brasil.gov.br. 25 de março de 2014. Consultado em 30 de dezembro de 2016. Portal Brasil 
  15. «Novo sistema adutor do Agreste é inaugurado em Arapiraca». Já É Notícia. jaenoticia.com.br. 9 de agosto de 2014. Consultado em 30 de dezembro de 2016. Já É Notícia 
  16. Nicácio, Romário (27 de dezembro de 2016). «Novo sistema adutor do Agreste é inaugurado em Arapiraca». Portal N 10. oportaln10.com.br. Consultado em 30 de dezembro de 2016. Portal N 10 
  17. «São Paulo empresta bombas para ajudar a combater seca no Nordeste». Governo do Estado de São Paulo. saopaulo.sp.gov.br. 26 de dezembro de 2016. Consultado em 30 de dezembro de 2016. Governo do Estado de São Paulo 
  18. «Ministério da Integração (2008): Projeto São Francisco: a realidade que une recursos hídricos com geração de emprego e inclusão social». Consultado em 31 de dezembro de 2016. Arquivado do original em 31 de outubro de 2010 
  19. «CPT: "Transposição foi abandonada, virou ralo de dinheiro"». Terra. terramagazine.terra.com.br. 7 de dezembro de 2011. Consultado em 28 de dezembro de 2016. Terra 
  20. «Rachadura no Eixo Norte da Transposição do Rio São Francisco». JC Online. jconline.ne10.uol.com.br. 9 de fevereiro de 2016. Consultado em 30 de dezembro de 2016. JC Online 
  21. «Em três anos, seca no Nordeste causa prejuízo de R$ 103,5 bilhões». Juntos Pela Água. juntospelaagua.com.br. Consultado em 28 de dezembro de 2016. Juntos Pela Água 
  22. «Seca no Nordeste provocou prejuízo de R$ 100 bilhões, diz Raimundo Lira». Senado. senado.leg.br. 7 de dezembro de 2016. Consultado em 28 de dezembro de 2016. Senado 
  23. Alves, Cleide (28 de fevereiro de 2013). «Recife volta a entrar no esquema de racionamento de água». JC Online. jconline.com.br. Consultado em 28 de dezembro de 2016. JC Online 
  24. «Termina racionamento de água no Recife». Agência estado. ultimosegundo.ig.com.br. 19 de maio de 2013. Consultado em 28 de dezembro de 2016. JC Online 
  25. «Compesa anuncia racionamento de água no Grande Recife». TV Jornal. tvjornal.ne10.uol.com.br. 3 de dezembro de 2014. Consultado em 28 de dezembro de 2016. TV Jornal 
  26. Teixeira, Kleide (3 de dezembro de 2014). «Cagepa anuncia mudanças no racionamento em Campina Grande». TV Jornal. jornaldaparaiba.com.br. Consultado em 14 de setembro de 2016. Jornal da Paraíba 
  27. «Ministro admite colapso de água em Campina e prevê maior seca em 100 anos». TV Jornal. jornaldaparaiba.com.br. 13 de outubro de 2016. Consultado em 30 de dezembro de 2016. Arquivado do original em 1 de janeiro de 2017. WSCom 
  28. Roberto, Dayvson (20 de julho de 2016). «Racionamento de água vai aumentar em novo calendário da Compesa». No Detalhe. nodetalhe.com.br. Consultado em 30 de dezembro de 2016. No Detalhe 

Ligações externasEditar