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Batalha de Márdia

A batalha de Márdia (em latim: Mardia), também chamada de batalha do Campo Mardiense (em latim: Campus Mardiensis) ou Campo Ardiense (em latim: Campus Ardiensis), foi travada entre as forças dos imperadores romanos Constantino, o Grande (r. 306–337) e Licínio (r. 308–324) no final de 316 ou começo de 317, provavelmente na moderna Harmanli, na Bulgária. A série de conflitos entre os augustos Constantino e Licínio ocasionou o fim do sistema de governo denominado Tetrarquia, estabelecido por Diocleciano em 293, e o restauro de um governante único no Império Romano.

Batalha de Márdia
Primeira Guerra Civil de Constantino e Licínio
Licinius-Constantine.jpg
À esquerda: busto de Licínio; à direita: cabeça do Colosso de Constantino, atualmente nos Museus Capitolinos, em Roma
Data 316 ou 317
Local Márdia, provavelmente perto de Harmanli, na Bulgária
Desfecho Vitória de Constantino
Beligerantes
Licínio Constantino
Comandantes
Licínio Constantino
Forças
Desconhecidas Desconhecidas
Baixas
Desconhecidas Desconhecidas

A batalha de Márdia teria ocorrido no rescaldo da batalha de Cíbalas, provavelmente provocada pela tentativa de nomeação de Bassiano como César da Itália por Constantino, e acabaria como uma derrota, embora não decisiva, de Licínio. Essa nova vitória permitiu que Constantino exigisse nas negociações resultantes vários dos territórios europeus controlados por seu rival, bem como que ele fosse reconhecido como um monarca superior a Licínio. Três dos filhos deles seriam nomeados Césares e ambos tornar-se-iam cônsules.

Índice

AntecedentesEditar

Após a derrota de Magêncio (r. 306–312) na batalha da Ponte Mílvia em 312 contra as tropas de Constantino,[1][2][3] e a derrota de Maximino Daia (r. 305–313) em Tarso em 313 contra as tropas de Licínio,[4] o Império Romano ficou dividido em duas porções, cada qual sob comando de um dos imperadores vencedores. Durante a guerra de Licínio contra Maximino, Licínio e Constantino mantiveram-se aliados, porém quando tornaram-se governantes únicos a situação deteriorou-se.[5]

Provavelmente devido à nomeação do senador Bassiano, esposo de Anastácia, a meio-irmã de Constantino, como César, ambos confrontaram-se na batalha de Cíbalas em 8 de outubro de 314[6][7] ou 316, na qual Constantino saiu vitorioso.[8][9] Licínio fugiu para Sirmio e então Adrianópolis (atual Edirne), onde agrupou um segundo exército com ajuda do duque Valério Valente, que seria elevado à posição de Augusto. Simultaneamente, Licínio tentou negociar a paz, mas Constantino, confiante por sua vitória, insultou-o pela nomeação de Valente e rejeitou a oferta.[10][11]

Entretanto, Constantino conquistou o importante centro de Sirmio e decidiu reconstruir a ponte sobre o rio Sava que seu rival havia destruído para atrasar sua marcha.[12] Ele moveu-se através da cordilheira dos Bálcãs e estabeleceu sua base em Filipos[11] ou Filipópolis;[13][14] outros autores sugerem que a base teria sido estabelecida a sudoeste de Adrianópolis, na bacia do rio Arda (antigo Harpesso).[11] Dali ele marchou com a maior parte de seus soldados contra seu rival na Trácia e chegou à planície em frente a Márdia (por vezes identificada com Harmanli, na Bulgária).[12]

BatalhaEditar

 
Follis de Alexandria com efígie de Valério Valente (r. 316–317). Ca. 316/317

Na noite em que chegou ao local da batalha, Constantino deslocou suas tropas e ordenou aos soldados que se preparassem para lutar na madrugada do dia seguinte. Quando Licínio o viu agrupando seus homens, ele trouxe o exército do acampamento e o alinhou também. Durante o primeiro ataque dos exércitos, mantendo certa distância, fez-se uso dos arqueiros, e em seguida, esgotadas todas as flechas, lutaram corpo a corpo com lanças, espadas e adagas.[15]

Constantino ganhou a batalha, apesar do equilíbrio (segundo Zósimo a batalha estava muito equilibrada até que, dado o sinal, ambos os exércitos se retiraram[16]), ordenando que um grupo de 5 000 soldados (que tinha sido anteriormente enviados para seguir os movimentos de Licínio[12]) conquistasse uma colina próxima; no momento apropriado esses homens atacaram por trás das tropas de Licínio, causando pesadas baixas ao inimigo. O exército de Licínio conseguiu evitar um desastre, organizando-se em duas frentes e continuou a lutar até a chegada da noite, quando pôde romper ordenadamente pelo inimigo e se refugiar nas montanhas. Aparentemente houve muitos mortos em ambos os lados.[16][10]

RescaldoEditar

 
Soldo de Crispo (r. 317–326) emitido em Sirmio para celebrar a vitória de Constantino sobre os godos em 323
 
Follis de Licínio II (r. 317–324) emitido em Cízico ca. 321-324

Licínio dirigiu-se com suas tropas para norte em direção a Beroia/Augusta Trajana (atual Stara Zagora).[11] Constantino, pensando que ele fugiria para Bizâncio de modo a retirar-se para a Ásia, dirigiu-se nesta direção, ficando numa posição vulnerável devido às forças de Licínio ficarem entre si as suas linhas de comunicação com o Ocidente. Apesar disso, ambos tinham motivos para acordarem a paz, especialmente Licínio, que ainda não havia se recuperado da derrota. Licínio enviou o emissário Mestriano para negociar com Constantino,[17] mas este atrasou as discussões até ter a certeza que era incerto o retorno das hostilidades; uma possível razão para o início das negociações podem ter sido as notícias da captura de sua bagagem e comitiva imperial em um ataque inimigo repentino.[18]

Segundo a paz acordada em Sérdica em 1 de março de 317 (uma data deliberadamente escolhida por Constantino por ser o aniversário da elevação de seu pai[19]), Licínio reconheceu Constantino como seu superior no governo, cedeu a ele todos os territórios europeus orientais, exceto a Trácia, e depôs e executou seu coimperador Valério Valente (r. 316–317). Constantino e Licínio foram nomeados cônsules e Crispo (r. 317–326) e Constantino II (r. 317–340), os filhos de Constantino, bem como Licínio II (r. 317–324), filho de Licínio, foram nomeados Césares.[10]

Referências

  1. Curran 2000, p. 71–74.
  2. Odahl 2004, p. 105–6, 319–20.
  3. Cameron 1999, p. 93.
  4. DiMaio 1996d.
  5. DiMaio 1997c.
  6. Jones 1949, p. 127.
  7. MacMullen 1987, p. 67.
  8. Treadgold 1997, p. 34.
  9. Christensen 1980, p. 23.
  10. a b c Potter 2004, p. 378.
  11. a b c d Odahl 2004, p. 164.
  12. a b c Zósimo século VI, II.19.1.
  13. Lieu 1996, p. 46.
  14. Anônimo Valesiano século VI, 17.
  15. Zósimo século VI, II.19.2.
  16. a b Zósimo século VI, II.19.3.
  17. Odahl 2004, p. 165.
  18. Lieu 1996, p. 57-58.
  19. Lenski 2006, p. 74.

BibliografiaEditar

  • Anônimo Valesiano (século VI). Origem de Constantino 
  • Cameron, Averil; Hall, Stuart G. (1999). Life of Constantine. Oxford: Clarendon Press. ISBN 0-19-814917-4 
  • Christensen, A. S.; Baerentzen, L. (1980). Lactantius the Historian. Copenhague: Museum Tusculanum Press 
  • Curran, John (2000). Pagan City and Christian Capital. Oxford: Clarendon Press. ISBN 0-19-815278-7 
  • DiMaio, Michael (1997c). «Licinius (308-324 A.D.)». Salve Regina University 
  • DiMaio, Michael (1996d). «Maximinus Daia (305-313 A.D.)». Salve Regina University 
  • Jones, A. H. M. (1949). Constantine and the Conversion of Europe. Toronto: University of Toronto Press 
  • Lenski, Noel Emmanuel (2006). The Cambridge companion to the Age of Constantine. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 0-521-52157-2 
  • Lieu, Samuel N. C.; Montserrat, Dominic (1996). From Constantine to Julian: A Source History. Londres: Routledge. ISBN 0-415-09335-X 
  • MacMullen, Ramsey (1987). Constantine. Londres: Routledge. ISBN 0709946856 
  • Odahl, Charles Matson (2004). Constantine and the Christian Empire. Nova Iorque: Routledge. ISBN 0-415-38655-1 
  • Potter, David Stone (2004). The Roman Empire at Bay AD 180–395. Londres/Nova Iorque: Routledge. ISBN 0-415-10057-7 
  • Treadgold, Warren T. (1997). A History of the Byzantine State and Society. Stanford, Califórnia: Stanford University Press. ISBN 0-8047-2630-2 
  • Zósimo (século VI). História Nova. Constantinopla  In Ridley, R.T. (1982). Zosimus: New History (em inglês). Camberra: Byzantina Australiensia 2