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Igreja Católica na Etiópia

Igreja Católica
(Redirecionado de Catolicismo na Etiópia)
Disambig grey.svg Nota: Se procura por Igreja Católica de rito oriental, veja Igreja Católica Etíope.
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Flag of Ethiopia.svg
Etiópia
Catedral da Natividade da Bem-Aventurada Virgem Maria, em Adis Abeba, Etiópia.
Ano 2010[1]
Santo padroeiro São Frumêncio[2]
Cristãos 52.070.000 (62,8%)[1]
Católicos 600.000 (0,72%)[1]
População 82.950.000[1]
Paróquia 295[3]
Presbíteros 612[3]
Diáconos permanentes 1[3]
Religiosos 446[3]
Religiosas 714[3]
Presidente da Conferência dos Bispos Católicos Berhaneyesus Demerew Souraphiel[4]
Núncio apostólico Sede vacante[5]
Códice ET

A Igreja Católica na Etiópia é parte da Igreja Católica universal, em comunhão com a liderança espiritual do Papa, em Roma, e da Santa Sé.

HistóriaEditar

A Igreja na Etiópia remonta ao apóstolo Filipe, que, conforme os Atos dos Apóstolos, batizou o eunuco etíope.[6]

 
O "Batismo do Eunuco", um dos episódios narrados em Atos 8. 1626. Por Rembrandt, atualmnente no Museu Catharijneconvent, em Utrecht, nos Países Baixos.
O anjo do Senhor disse a Filipe: "De pé! Dirige-te ao sul, ao caminho que leva de Jerusalém a Gaza (um caminho deserto)". Ele se pôs a caminho. Aconteceu que um eunuco etíope, ministro da rainha Candace e administrador de seus bens, voltava de uma peregrinação a Jerusalém, sentado em sua carruagem e lendo a profecia de Isaías. O Espírito disse a Filipe: "Aproxima-te e junta-te à carruagem". Correndo, Filipe a alcançou. Ouvindo que lia a profecia de Isaías, lhe perguntou: "Entendes o que estás lendo?" Respondeu: "Como vou entender, se ninguém me explica?" E o convidou a subir e sentar junto dele. O texto da Escritura que estava lendo era o seguinte: "Como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda diante do tosquiador, da mesma forma ele não abriu a boca. Humilharam-no, negando-lhe o direito; quem meditou em seu destino? Pois arrancaram da terra sua vida". O eunuco perguntou a Filipe: "Dize-me, por favor: de quem fala o profeta? De si mesmo ou de outro?" Filipe tomou a palavra e, começando por esse texto, explicou-lhe a boa notícia de Jesus. Prosseguindo caminho, chegaram a um lugar em que havia água, e o eunuco lhe disse: "Aí existe água. O que impede de me batizar?" Respondeu Filipe: "Crês de todo o coração?" Respondeu o eunuco: "Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus". Mandou parar a carruagem, desceram os dois à água, o eunuco e Filipe, que o batizou. Quando saíram da água, o Espírito do Senhor arrebatou Filipe, de modo que o eunuco não o viu mais; e continuou sua viagem muito contente.
 
At 8, 26–39, tradução da Bíblia do Peregrino.

A Etiópia foi um dos primeiros países do mundo a adotar o cristianismo como a religião do Estado, no século IV, durante o Império de Axum.[6][7][8] Após a aceitação do cristianismo pela elite governante, a igreja etíope criou um forte relacionamento com a Igreja Ortodoxa Copta. Como resultado, a Igreja Ortodoxa Etíope reconheceu como seu líder o patriarca de Alexandria, até 1959.[8] A crença cristã dominou a vida dos etíopes por séculos. O islamismo foi introduzido pelos árabes nas áreas costeiras do mar Vermelho durante o século VII.[9]

 
São Frumêncio

O primeiro bispo e evangelizador, foi São Frumêncio, e era cidadão romano que sofreu um naufrágio no Mar Vermelho e chegou à Etiópia. Retornou à Europa, e foi ordenado por Santo Atanásio de Alexandria. Com esse primeiro bispo, que foi um sírio, a Etiópia se tornou oficialmente um país cristão. Foi o segundo país a declarar o cristianismo como a religião do estado, depois da Armênia.[6][10]

O catolicismo romano retornou ao país no século XVI, como resultado das relações entre a Etiópia e Portugal. Os portugueses fizeram tentativas de mudar a religião do Estado etíope para a católica, e isso causou o derramamento de sangue, pois os camponeses reagiram com raiva. Na sequência dos mal-sucedidos esforços missionários dos portugueses na Etiópia durante o século XVII, o governo imperial proibiu toda a atividade missionária católica no país, que incluía também a Eritreia. Esse período católico costuma ser considerado o que moldou a identidade da Etiópia em grande medida.[8]

A primeira retomada bem-sucedida dessa atividade começou em meados do século XIX, quando a Santa Sé estabeleceu a Prefeitura Apostólica da Abissínia. Seu primeiro bispo foi o lazarista italiano São Justino de Jacobis (18001860), que chegou em 1839. Grande parte de seu ministério aconteceu na Eritreia e ele morreu na cidade de Hebo.[11]

A partir de 1890 o controle de parte do território etíope passou para a Itália, e passou a receber missionários católicos.[9] Em 1894, foi estabelecida uma prefeitura apostólica separada para a Eritreia. No mesmo ano, o governador italiano convidou a ordem capuchinha para dirigir a evangelização da colônia e supervisionar o recém-criado sistema educacional. Em 1911, a Prefeitura Apostólica tornou-se um Vicariato Apostólico e, em 1930, um Ordinariato. No mesmo ano, um Colégio Etíope foi fundado dentro dos muros do Vaticano, e também recebeu estudantes da Eritreia.[11]

Entre 1951 e 1952, o Ordinariato da Eritreia tornou-se um exarcado apostólico e no ano seguinte a Eritreia entrou em uma união federal com a Etiópia,[11] depois de uma decisão da ONU, anexando assim o país, levando à formação do movimento de libertação eritreu, especialmente liderado pelos muçulmanos, com a intenção de formar uma república. Como a maioria dos cristãos ortodoxos da Eritreia tinha um forte relacionamento com a Igreja Ortodoxa Etíope, eles viram o movimento dos muçulmanos como perigoso. Os muçulmanos também consideravam os cristãos ortodoxos como uma grande ameaça à causa da independência.[9]

Em 1961 a Santa Sé reorganizou as hierarquias da Etiópia e da Eritreia, e Asmara acabou sendo estabelecida como uma única eparquia cobrindo todo o território eritreu. Depois que a Eritreia se tornou uma nação independente, em 1993, os bispos católicos da Etiópia e da Eritreia continuaram a formar uma única Conferência Episcopal.[11]

BoranaEditar

Há cerca de 45 anos a Igreja Católica chegou à Zona de Borana, no extremo sul do país, perto da fronteira com o Quênia. Os Missionários do Espírito Santo (também chamados espiritanos) que trabalham nesta área, estabeleceram três paróquias e dirigem várias escolas. A maior parte dos habitantes da tribo Borana são nômades, porém muitos já optaram por se fixar num lugar por causa das fontes de água e dos poços que os missionários construíram para a população. Às vezes ocorrem conflitos com outras tribos quando o abastecimento de água diminui e o pasto se torna escasso. No passado havia mesmo uma cultura local, que induzia os homens a mostrar sua coragem lutando. Hoje essa mentalidade vem mudando bastante e os membros das tribos que foram cristianizados estão mais propensos à paz.[12]

Outras diferenças conquistadas pela presença da Igreja, foram da questão da dignidade da mulher, e da possibilidade de escolha de seu marido (o que antes não existia); da importância da educação; leitura da Bíblia e educação religiosa com catequistas que vão às aldeias; os grupos de jovens de diferentes tribos, a fim de criar a maior consciência sobre o diálogo entre elas; batizado e matrimônio cristão; importância da participação na Missa e na comunhão; por fim, os cuidados com os doentes e com pessoas com deficiência.[12]

AtualmenteEditar

Os cristãos na Etiópia enfrentam atualmente uma série de desafios, com diferentes tipos de perseguição, como a falta de liberdade religiosa imposta pelo governo; a ação preconceituosa dos muçulmanos, especialmente aos muçulmanos convertidos; o secularismo, um especialista do país diz: "A proibição do estabelecimento de serviços de radiodifusão para fins religiosos, bem como a proibição de atividades religiosas dentro das instituições educacionais restringem a liberdade de adoração, a liberdade de ensinar e pregar"; nas áreas dominadas pela Igreja Ortodoxa Etíope (IOE), os cristãos que mudam de denominação enfrentam perseguição de familiares, comunidades e funcionários do governo, sendo que os perseguidos acabam atuando como perseguidores ao mesmo tempo.[8]

 
Uma igreja católica em Harar

Algumas denominações são mais afetadas pela perseguição do que outras. As prisões são comuns no país, em especial de cristãos não tradicionais que enfrentam a perseguição mais severa, tanto do governo quanto da IOE. Cristãos convertidos do islamismo, particularmente nas regiões leste e sudeste do país, e aqueles que deixam a IOE enfrentam atitudes hostis de suas famílias e comunidades. Em algumas áreas, os cristãos são proibidos de acessar recursos da comunidade e são condenados a viver isolados. Em alguns lugares, multidões atacam as igrejas.[8]

Em entrevista à Agência Zenit, o arcebispo de Adis Abeba foi questionado sobre a vida dos fiéis católicos etíopes, e a resposta foi:

É surpreendente dizer isso, mas o cristianismo é tão inculturado que não dá mais para separar a cultura e a religião na Etiópia. As pessoas vivem a religião, está no sangue, está na nossa história. Ela está na terra da Etiópia porque os monges, no século IX, construíram muitos mosteiros e traduziram muitos escritos espirituais de várias línguas para o etíope; então as pessoas compreenderam o cristianismo desde o início na sua própria língua.
 
Dom Seraphiel à Agência Zenit[6].

Apesar de os católicos formarem somente 0,7% da população, a Igreja Católica administra incríveis 90% das obras sociais. Isso significa ser uma ajuda insubstituível às populações pobres atingidas por problemas cíclicos e muito graves. A obra social da Igreja diz respeito, em primeiro lugar, ao campo sanitário e ao da instrução, mas também ao da construção de obras (poços, aquedutos) para a exploração da água.[13][14]

O atual patriarca da Igreja Ortodoxa Etíope, Abune Matias, foi eleito em 28 de fevereiro de 2013. Ele foi recebido pelo Papa Francisco em audiência no dia 29 de fevereiro de 2016, e também se encontrou com o Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos (PCUC), fazendo uma visita ao túmulo de São Pedro. De acordo com o comunicado do PCUC, as relações entre a Igreja Ortodoxa Etíope e a Igreja Católica "são cordiais e se intensificam". O patriarca precedente, Abuna Paulos, já havia feito duas visitas ao Vaticano: a primeira em 1993, quando foi recebido por São João Paulo II, e a outra em 2009, quando o Papa Bento XVI o convidou a falar na II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a África..[10]

Organização territorialEditar

A Igreja Católica está presente no território com 13 circunscrições eclesiásticas, sendo quatro de rito etíope e nove de rito latino:[3]

Conferência EpiscopalEditar

A Conferência Episcopal Etíope e Eritreia é a reunião dos bispos católicos da Etiópia e da Eritreia, e foi criada no ano 1967.[4]

Nunciatura ApostólicaEditar

 Ver artigo principal: Nunciatura Apostólica da Etiópia

A Delegação Apostólica da Etiópia foi criada em 25 de março de 1937, e elevada a internunciatura apostólica em 1945. Em 1970, tornou-se uma nunciatura apostólica, perdurando assim até os dias atuais.[5]

SantosEditar

Referências

  1. a b c d «Religions in Ethiopia». Pew Forum. Consultado em 9 de maio de 2019 
  2. «St. Frumentius». Catholic.org. Consultado em 9 de maio de 2019 
  3. a b c d e f «Ethiopia». Catholic-Hierarchy. Consultado em 9 de maio de 2019 
  4. a b «Ethiopian and Eritrean Episcopal Conference». GCatholic. Consultado em 9 de maio de 2019 
  5. a b «Apostolic Nunciature - Ethiopia». GCatholic. Consultado em 9 de maio de 2019 
  6. a b c d «A ancestral Igreja na Etiópia». Agência Zenit. 29 de maio de 2011. Consultado em 28 de maio de 2019 
  7. Sarah Cunningham (11 de julho de 2017). «ERITREA: A BRIEF HISTORY OF CHRISTIANITY AND PERSECUTION» (em inglês). Open Doors. Consultado em 2 de maio de 2019 
  8. a b c d e «ETIÓPIA». Portas Abertas. Consultado em 28 de maio de 2019 
  9. a b c «Eritreia». Portas Abertas. Consultado em 2 de maio de 2019 
  10. a b «O papa Francisco receberá o patriarca da Igreja ortodoxa da Etiópia – que Igreja é essa?». Aleteia. 26 de fevereiro de 2016. Consultado em 28 de maio de 2019 
  11. a b c d «The Eritrean Catholic Church». CNEWA. 31 de março de 2015. Consultado em 2 de maio de 2019 
  12. a b «Etiópia: Há apenas 45 anos que a Igreja Católica chegou à região de Borana». Dom Total. 24 de agosto de 2017. Consultado em 29 de maio de 2019 
  13. «ÁFRICA/ETIÓPIA - O fervor social e pastoral de Emdeber, jovem diocese católica da Etiópia, onde a penúria está castigando a população». Agência Fides. 12 de junho de 2006. Consultado em 28 de maio de 2019 
  14. «90% da ajuda social na Etiópia vem de 1% do povo: os católicos». Agência Zenit. 6 de março de 2011. Consultado em 28 de maio de 2019 
  15. «Santo Elesbão». Arquidiocese de São Paulo. 27 de outubro de 2018. Consultado em 9 de maio de 2019 
  16. «HISTÓRIA DE SANTA EFIGÊNIA». Cruz Terra Santa. Consultado em 9 de maio de 2019 
  17. «28 de Agosto: São Moisés, o Etíope, anacoreta (séc. IV)». Ecclesia. Consultado em 9 de maio de 2019 

Ver tambémEditar