Hiperinflação

Hiperinflação na Argentina
Uma nota de Cem trilhões de dólares do Zimbábue de 2009 - a nota com maior valor numérico já emitida. O acréscimo de zeros é sinal da desvalorização do poder de compra de uma moeda.

Em Macroeconomia, hiperinflação é uma inflação fora de controle à níveis muito elevados. O que ocorre é um encarecimento rápido dos produtos e desvalorização acentuada da moeda, às vezes acompanhada de recessão.[1]

O caso clássico conhecido é a crise econômica alemã de 1923. Alguns especialistas também costumam dar esta classificação para a inflação brasileira poucos dias antes da vigência do Plano Collor.

DefiniçãoEditar

Segundo Philip Cagan, em seu livro The Monetary Dynamics of Hyperinfllation, a hiperinflação é uma inflação igual ou superior a 50% ao mês.

 
Nota de 100 milhões de marcos na Alemanha em 1923

Em muitos países latino americanos as subidas de preços já alcançaram nas últimas décadas taxas muito elevadas, algumas na ordem de 400% anual e inclusive superiores. Há uma mudança qualitativa, é uma situação substancialmente diferente à inflação normal, com problemas e peculiaridades próprias, que requerem explicações e soluções diferentes. Numa situação hiperinflacionária, as pessoas não estão dispostas a manter seu dinheiro devido à rapidez com que este perde seu valor.[2]

CausasEditar

Embora possa haver mais de uma causa, a hiperinflação normalmente é associada a déficits orçamentários do governo financiados pela emissão de dinheiro, o que provoca uma expansão da base monetária.[3] Outros fatores macroeconômicos também podem levar a inflação alta ou hiperinflação, como câmbio, pagamento de reparações de guerra, etc.

História da hiperinflaçãoEditar

A hiperinflação não é uma novidade. Em diversos países e outros períodos históricos foram conhecidos também processos inflacionistas extraordinários. O mais estudado de todos eles é o sofrido pela Alemanha depois da Primeira Guerra Mundial. A obrigação de pagar fortes indenizações às nações vencedoras e a caótica situação interna que impedia obter pela via fiscal os ingressos necessários, induziram a República de Weimar a financiar-se imprimindo papel moeda sem nenhuma contenção. Entre janeiro de 1922 e dezembro de 1923 a taxa acumulada de inflação ascendeu a um bilhão por cento. No ano de 1923 a situação alcançou um nível tão grande que os trabalhadores das fábricas recebiam a diária antecipada e davam o dinheiro a suas esposas para que fossem no mercado comprar tudo o que puder comprar.[4]

Ainda mais grave foi a hiperinflação sofrida pela Hungria imediatamente depois da Segunda Guerra Mundial. Os preços se multiplicaram por mais de 1027 em doze meses, multiplicando-se duas vezes cada dia. Países como Rússia, Peru, Bolívia, Polônia, Áustria, Grécia, China, Argentina e mais recentemente Equador, Iugoslávia também tiveram hiperinflação.[5]

Casos de Hiperinflação NotáveisEditar

AlemanhaEditar

O governo recém eleito da jovem república de Weimar queria atender a todos os desejos de seus eleitores, mas não havia receitas de impostos suficientes para isso, então o mesmo recorreu a impressora de dinheiro, a republica ainda tinha que pagar reparações de guerra astronômicas aos países vencedores e teve partes de seus territórios produtivos ocupados pelos países vencedores, deixando o estado debilitado.

HungriaEditar

A maior hiperinflação da história foi registrada na Hungria, logo após a Segunda Guerra Mundial, quando sua moeda era o pengő. À época, o país registrou uma taxa de inflação mensal de 41 900 000 000 000 000%, ou 207% ao dia. Assim, os preços duplicavam a cada 15 horas.[6]

América LatinaEditar

A hiperinflação latino-americana nunca alcançou essas taxas extremas, mas já foram muito mais perduráveis no tempo. A taxa média de inflação anual durante o período 1978-1987, por exemplo, foi de:

Mas não foram as propostas estruturalistas senão as mais clássicas (restrição monetária e contenção do gasto público) as que conseguiram deter a espiral inflacionária. Isso sim, com efeitos muito desagradáveis para a população desses países. De fato, como consequência das repercussões de algumas políticas antiinflacionistas excessivamente rígidas, no final dos anos 1980 ocorreram em vários países sul-americanos (Argentina, Peru, entre outros) motins espontâneos com assalto a lojas de alimentação por multidões procedentes dos bairros mais pobres. A cultura popular no México atribui a derrota do Partido Revolucionário Institucional (PRI) nas eleições do ano 2000 em parte às más políticas presidenciais diante da inflação e desvalorização que açoitaram aquele país em 1994, sob a presidência de Ernesto Zedillo Ponce de León.

Recentemente, a inflação na Venezuela passou da casa de um milhão porcento ao ano durante o ano de 2018. Estima-se que ela possa passar dos dez milhões por cento no ano de 2019.[7][8][9][10]

BrasilEditar

 
Base Monetária (M1) e Inflação Mensal no Brasil, a inflação cai de forma brusca devido aos vários congelamentos de preços e a base monetária devido aos sucessivos cortes de zeros na moeda.
 Ver artigo principal: Hiperinflação no Brasil

A Hiperinflação no Brasil ocorreu durante o período da década de 80 e 90, terminando só em 1994 com o Plano Real. A inflação atingiu 2 708% em 1993 e no período de 1980 a 1994 a moeda foi mudada várias vezes.[11]

O Banco Central do Brasil foi criado pelo decreto 4.595, de 31 de dezembro de 1964. A moeda que circulava na época era o cruzeiro. O cruzeiro novo foi implantado no dia 13 de fevereiro de 1967. O cruzeiro, padrão monetário desde 1942, perdia três zeros e se transformava em cruzeiro novo. Portanto, 1 cruzeiro = 0,001 cruzeiro novo. O cruzeiro substituiu o cruzeiro novo em 15 de Maio de 1970, sendo que um cruzeiro valia um cruzeiro novo. Durou até 27 de fevereiro de 1986. O cruzado é proveniente do Plano Cruzado, implantado pelo governo Sarney. A partir do dia 28 de Fevereiro de 1986, mil cruzeiros passaram a valer um cruzado. Para implantar o cruzado o governo aproveitou as cédulas de 10 mil, 50 mil e 100 mil cruzeiros, carimbando-as para o novo padrão. Portanto, 1 cruzeiro de 1986 passou a valer 0,001 cruzado.[12] o cruzado novo entrou em circulação no dia 15 de janeiro de 1989, no Plano Cruzado II. A nova moeda substituía o cruzado, sendo que 1 cruzado novo valia 1 000 cruzados. O cruzeiro foi reintroduzido como padrão monetário em substituição ao cruzado novo, como parte do Plano Collor, em março de 1990, sem ocorrer a perda de três zeros. O cruzeiro real foi implantado no 1º de Agosto de 1993, substituindo o cruzeiro, sendo 1 cruzeiro real equivalente a 1 000 cruzeiros de 1991. O Real foi lançado em 01 de junho de 1994, pelo Plano Real, no governo Itamar Franco. Um real valia 2 750 cruzeiros reais no momento da conversão.[13][14]

ZimbabweEditar

Em 2008, a Economia do Zimbabwe viveu um surto hiperinflacionário que foi um dos maiores da história e o primeiro registrado no século XXI, chegando a 231 000 000% no ano em 2008.[15]

IugosláviaEditar

 
500000000000 dinars da Iugoslávia

Entre 1993 e 1994 a Iugoslávia viveu sua pior crise inflacionária. O aumento de preços chegou a uma taxa de 313 milhões por cento ao mês, ou 64,6% ao dia. A cada dia e meio os produtos dobravam de valor.[5]

As 10 maiores hiperinflações na história mundialEditar

Taxas de inflação mensais mais altas da história[16][17]
# País Moeda Mês com maior taxa de inflação Maior taxa de inflação mensal Taxa de inflação diária equivalente Tempo necessário para os preços dobrarem Denominação mais alta
1 Hungria Pengő Julho de 1946 4,19×1016 % 207,19% 15,6 horas 100 Quintilhões (1020)
2 Zimbabwe Dólar do Zimbábue Novembro de 2008 7,96 × 1010 % 98,01% 24,7 horas 100 Trilhões (1014)
3 Yugoslavia Dinar iugoslavo January 1994 3,13 × 108 % 64,63% 1,4 dias 500 Billion (5×1011)
4 Republika Srpska Dinar da Republika Srpska Janeiro de 1994 2,97 × 108 % 64,3% 1,41 dias 10 Bilhões (10×1010)
5 Alemanha (República de Weimar) Marco de papel Outubro de 1923 29,500% 20,87% 3,7 dias 100 Trilhões (1014)
6 Grécia Dracma Outubro 1944 13,800% 17,84% 4,3 dias 100 Billion (1011)
7 China Yuan April 1949 5,070% 14,1% 5,34 dias 6 Bilhões
8 Armenia Dram arménio e Rublo russo Novembro de 1993 438% 5,77% 12,5 dias 50,000 (rublos)
9 Turcomenistão Manate do Turcomenistão Novembro de 1993 429% 5,71% 12,7 dias 500
10 Taiwan Yen taiwanês Agosto de 1945 399% 5,50% 13,1 dias 1,000

Ver TambémEditar

Referências

  1. «Hiperinflação, o que é isso mesmo? | Por quê? – Economês em bom português» 
  2. N., Gujarati, Damodar. Econometria básica. Porto Alegre: [s.n.] p. 40. ISBN 9788563308320. OCLC 880434695 
  3. von., Mises, Ludwig. As Seis Licoes. Rio de Janeiro, Brazil: [s.n.] p. 45. ISBN 9788562816017. OCLC 1030314382 
  4. Von Mises, Ludwig (2009). As Seis Lições. São Paulo: Instituto Mises Brasil 
  5. a b «Os 6 piores casos de hiperinflação da história | EXAME». exame.abril.com.br. Consultado em 14 de março de 2018 
  6. msn.com/ Como se resolveram os 5 maiores episódios de hiperinflação da história
  7. «Inflação da Venezuela supera 1.000.000% em 12 meses». G1. Consultado em 1 de março de 2019 
  8. Econômico, Brasil (10 de dezembro de 2018). «Venezuela: inflação nos últimos 12 meses ultrapassa 1.000.000% - Home - iG». Economia. Consultado em 1 de março de 2019 
  9. «Inflação na Venezuela ultrapassa 1.000.000% em 12 meses pela primeira vez». Folha de S.Paulo. 11 de dezembro de 2018. Consultado em 1 de março de 2019 
  10. «Bloomberg - Are you a robot?». www.bloomberg.com. Consultado em 1 de março de 2019 
  11. Digital, CacauLimão Comunicação. «História do Dinheiro do Brasil - nome das moedas». www.suapesquisa.com. Consultado em 14 de março de 2018 
  12. Digital, CacauLimão Comunicação. «Plano Cruzado - o que foi, congelamento de preços, 1986, resumo». www.suapesquisa.com. Consultado em 14 de março de 2018 
  13. Jorge Iorio, Ubiratan (2013). Dez Lições Fundamentais de Economia Austríaca. São Paulo: Instituto Mises Brasil. 68 páginas 
  14. «História da Inflação no Brasil». br.advfn.com. Consultado em 2 de setembro de 2018 
  15. «Zimbábue chegou a ter nota de 100 trilhões para combater a inflação». R7.com. 9 de dezembro de 2017. Consultado em 24 de janeiro de 2020 
  16. «World Hyperinflations | Steve H. Hanke and Nicholas Krus | Cato Institute: Working Paper». Cato.org. 15 de agosto de 2012. Consultado em 15 de outubro de 2012 
  17. «World Hyperinflations» (PDF). CNBC. 14 de fevereiro de 2011. Consultado em 13 de julho de 2012 

Ligações externasEditar

O Commons possui imagens e outros ficheiros sobre Hiperinflação
  A Wikipédia possui o
Portal da economia.