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História de Castelo Branco

Castelo Branco, na Colina da Cardosa

Castelo Branco terá tido a sua origem no local de um castro pré-romano situado no cimo da Colina da Cardosa.

ReconquistaEditar

Durante a Reconquista cristã da Península Ibérica, em 1165, a imensa região da Egitânia foi doada por D. Afonso Henriques aos Templários, para que a Ordem a conquistasse aos muçulmanos, a povoasse e a defendesse. Uns anos mais tarde, D. Afonso Henriques viria a ordenar à Ordem que recolhesse a Tomar, pensa-se que descontente com a actuação dos Templários.[1] Em 1186 foi destacada do termo da Covilhã uma propriedade conhecida como Herdade da Cardosa, ou Vila Franca da Cardosa, onde existia já uma povoação no cimo de uma colina[2] e, mudando o paradigma de povoamento, foi doada a um particular.

 
Território da Egitânia

No ano de 1190 os muçulmanos iniciaram uma contra-ofensiva que colocou em causa todo o esforço até então desenvolvido pela cristandade. A fronteira portuguesa regrediu para o rio Tejo (já se encontrava pelo Algarve) e D. Sancho I, que viu tão facilmente ameaçado o seu reino e temendo que os muculmanos renovassem as suas iniciativas, decidiu reforçar e prolongar a acção que o seu pai iniciara na Beira Baixa e povoar a região, consolidando a fronteira do Tejo para o apoio de novas empresas a sul. Não foi aos Templários que inicialmente encarregou essa tarefa e em 1194 entregou aos Hospitalários o território da Guidintesta (com cerca de metade do território da Egitânia).

Em 1199, porém, D. Sancho I voltou-se de novo para os Templários e doou-lhes a vastíssima área da Açafa (criada à custa de territórios da Guidintesta hospitalária e prolongada até às terras da Idanha),[3] continuando a Herdade da Cardosa como uma pequena ilha privada em território templário. Aceita-se natural esta nova confiança nos Templários, muito mais vocacionados para a missão a executar na Beira Baixa - povoar e defender uma área potencialmente muito perigosa do ponto de vista militar.

A vilaEditar

Não se sabe se a Herdade da Cardosa foi doada logo em 1186, mas sabe-se que no início do séc XIII o senhor de Vila Franca da Cardosa era Fernando Sanches. De acordo com algumas opiniões, Fernando Sanches era o próprio infante D. Fernando,[4] filho de D. Sancho I,[5] que, inimistando-se com o seu irmão, D. Afonso II, viria depois a exilar-se na Flandres[nota 1]. A povoação da Herdade da Cardosa tinha o nome de Moncarche e pensa-se que era uma pequena comunidade cristã que se estabeleceu após a queda do Império Romano do Ocidente e resistiu ao domínio muçulmano.[6]

Dez anos depois de tomarem conta da Açafa, os Templários ter-se-ão apercebido do potencial que Moncarche tinha para o cumprimento da missão que D. Sancho I lhes confiara e, talvez procurando um local estratégico para construir um castelo ou simplesmente para ficarem senhores de toda a Açafa, terão pressionado Fernando Sanches para lhes ceder a Cardosa.[7] Existe um documento de 1209 segundo o qual Fernando Sanches fez uma doação aos Templários de Moncarche (metade da Herdade) e, por morte, lhes doava o resto da Vila Franca da Cardosa.[nota 2]

O ForalEditar

Em 1213 Moncache, que em quatro anos floresceu beneficiando da presença templária,[8] recebeu foral de Pedro Alvito, mestre Templário.[nota 3]

O Foral de Castelo Branco encerra um enigma do qual deram conta os investigadores do passado que a ele se dedicaram e que, inclusivamente, os fez duvidar da autenticidade da data (1213): é que o foral de Castelo Branco remete para o foral de Elvas[nota 4] e Elvas só foi definitivamente conquistada aos muculmanos em 1229.

”O que parece, em relação a muitos forais, é que a redução dos diplomas a escrito foi posterior à constituíção do concelho. Mas essa circunstância está longe de ser prova contra a espontaniedade da doação, podendo essa circunstância explicar-se plausivelmente ou pelo facto, já demonstrado, da existência de concelhos que não tinham foral ou porque um foral mais antigo, que não chegou até nós, havia já legalizado a fundação do concelho ou finalmente porque a redução a escrito, posterior a essa fundação, não excluia a possibilidade de que a anuência do Senhor a tivesse precedido"[10]

Como se referiu anteriormente, D. Afonso Henriques levou a Reconquista Cristã até ao Algarve e em 1190 os muçulmanos, numa contra-ofensiva, fizeram regredir a fronteira de Portugal até ao rio Tejo. Pegando nas palavras de Gama Barros podemos admitir que D. Afonso Henriques teria concedido um primeiro (e deconhecido) foral a Elvas e, depois da conquista definitiva, D. Sancho II teria concedido um segundo foral (ou ter-se-ia limitado a confirmar e passar a escrito o Foral de Rei Conquistador).[11]

A regiãoEditar

Em 1214 os Templários receberam de D. Afonso II a totalidade da herdade[nota 5] e ficaram finalmente senhores de toda a região: D. Afonso II reivindicou para si a herdade - mesmo a parte que Fernando Sanches doara em 1209 - e nessa ocasião redoou-a aos Templários para fazer de Vila Franca da Cardosa uma doação real e poder reclamar o direito à colheita (foro ou pensão que os vassalos pagavam ao rei ou senhor) sobre Castelo Branco; recorde-se que a metade da herdade onde se situava Moncarche não havia sido doado por D. Afonso II[nota 6].[12] O Papa Inocêncio III viria, em 1215, a confirmar essa doação.

“A doação da Cardosa foi feita no ano de 1214 por El-Rey D. Afonso II com sua mulher, a Rainha D. Urraca, e seus filhos, D. Santio e D Afonso, e a infanta D. Alionore, marcando-lhe os limites com toda a exacção reservando para si unicamente a colleita[13]
— Frei Rosa Viterbo

O nomeEditar

 
Brasão da cidade
 
Catraleucos

Desconhece-se qual é a origem do nome da cidade e tão pouco porque é que os templários, ou o próprio Fernando Sanches, o alteraram (de Moncarche para Castelo Branco). A hipótese mais aceite assenta na convicção existente de que Moncarche estaria situado no lugar de uma antiga povoação[14] fundada pelos Celtas[15] - Catraleucos - possivelmente em honra de Leucoteia[nota 7], a deusa branca e protectora dos marinheiros. [nota 8]

“ …Herdade da Cardosa, sobre cuja arruinada capital [Moncarche] fundaram os Templários uma fortaleza e uma povoação notável, a que desde logo puseram o nome de Castelo Branco, persuadidos que a povoação da Cardosa [Moncarche] era a antiga Catraleucos, cidade de que faz menção Ptolomeu."[18]
— Frei Rosa Viterbo

Enrique Florez, em Hespaña Sagrada, escreveu: "apenas Ptolomeu mencionou Castraleuca, ou Catraleucos, na Lusitânia. Mas como as suas tabelas não têm rigor, não é possível assegurar a localização da cidade"[19]. Seja ou não Castelo Branco a antiga Cattaleucos, a verdade é que, embora outros autores proponham outras localizações para a antiga Catraleucos, é apenas em Castelo Branco que existe uma tradição muito antiga que considera ser Castraleuca o nome antigo da cidade, o que parece ser uma forma popular e corrompida de Catraleucos[nota 9]

O casteloEditar

 Ver artigo principal: Castelo de Castelo Branco
 Ver artigo principal: A cerca da vila e a barbacã
 Ver artigo principal: Cidadela do bispo

Após 1209 os Templários mandaram edificar o castelo. Cerca de um século depois, no reinado de D. Afonso IV,[21] a Ordem de Cristo iniciou a construção da cerca da vila. Noséculo XV, sob o reinado de João I de Portugal, foi erguida a barbacã.[22]

Vila NotávelEditar

Em 1535 a vila adquiriu, de D. João III, o título de Notável.

"D. Joham etc. A quamtos esta minha carta vijrem ffaço saber que auendo eu respeito ao nobrecimento da minha vijla de Castello Branco e a srerr ella hûûa das primeiras do meu rregno e de muy grande povoação e nella viuverem pessoas muy homrradas e de merecimento e asy ao servjço que hos rreix passados e eu dela temos rreçebidos e ao diante espero rreçeber e como por todas estas rrezõões he digna de rreçeber a omrra merçe e favor queremdo lhe fazer graça e merçe tenho por bem e a ffaço notável e quero e me praz que asy se chame posa chamar notável daqui em diante... "[23]
 
Vista do centro da cidade

MemóriaEditar

  • 1209 - Fernando Sanches doou Moncarche aos Templários;
  • Outubro de 1213 - D. Pedro Alvito, Mestre Templário, concedeu Foral à Vila;
  • 1214 - D. Afonso II doou aos Templários a totalidade da Herdade da Cardosa;
  • Início do séc. XVI - Foi fundada a Santa Casa da Misericórdia de Castelo Branco;
  • 1 de Junho de 1510 - D. Manuel I concedeu a Castelo Branco o segundo foral;
  • Em 1519 foi inaugurado o Conventinho;
  • Em 1535 a vila adquiriu, de D. João III, o título de Notável;
  • Final do séc. XVI - Bartolomeu da Costa fundou um hospital;
  • Em 1642 a Vila tornou-se cabeça de comarca (Vila Notável e das melhores da Beira Baixa);
  • Em 1771 Castelo Branco foi elevada a cidade por D. José e nessa acasião o Papa Clemente XIV criou a Diocese de Castelo Branco;
  • 1787 - Em sessão da Câmara Municipal, Nossa Senhora do Rosário foi declarada a padroeira de Castelo Branco[24];
  • 20 de Novembro de 1807 - Entrou em Castelo Branco o Exército Napoleónico, chefido por Junot;
  • 1835 - A reforma administrativa do território fez de Castelo Branco a capital do recém criado Distrito.
  • 2 de Dezembro de 1849 - Iniciou-se a construção da primeira estrada de Mac Adam;
  • 16 de Agosto de 1858 - inaugurou-se a linha telegrfica Abrantes - Castelo Branco;
  • 14 de Dezembro de 1860 - a cidade inaugurou a sua iluminação pública, passo importante para o desenvolvimento da cidade;
  • 30 de Outubro de 1880 - Leão XIII extinguiu a Diocese de Castelo Branco;
  • 11 de Maio de 1893 - a cidade recebeu a visita de D. Carlos e de D. Amélia para a inauguração da Linha de Caminho de ferro da Beira Baixa;
  • 1929 - Castelo Branco viveu o Congresso Beirão;[25]
  • 22 de Setembro de 1931 - Castelo Branco foi feita Membro-Honorário da Ordem Militar de Cristo;
  • 1947 e 1950 -- foram organizados, pela Santa Casa da Misericórdia de Castelo Branco, dois grandes Cortejos de Oferendas;
  • 1954 - a cidade foi assolada por um intenso tufão, que causou muitos danos;

ver tambémEditar

Notas

  1. "As circunstâncias que precederam as discórdias de D. Afonso II com os infantes Sancho e Fernando, circunstâncias que poderiam absolver ou culpar o Rei, ignoram-se; apenas sabemos que os dois príncipes saíram de Portugal. D. Fernando retirou-se para a Flandres. (...). É certo que por esse tempo vários fidalgos saíram de Portugal, a nobreza não ficou indiferente à contenda da Família Real", in Alexandre Herculano, História de Portugal, tomo IV
  2. "Ferando Sanches doou aos Templários, sendo seu Mestre D.Gomes Ramires, metade da Herdade de Vila Franca da Cardosa, com toda a sua povoação, foros e direitos. Metade de tudo isto em vida e a outra por sua morte", in Rosa Viterbo, Elucidário
  3. "Castelo Branco fundou-se numa herdade cujo nome antigo era Vila Franca da Cardosa""[9]
  4. "Eu, mestre de milícia do templo, Pedro Alvito, com todo o convento de Portugal queremos restaurar e povoar Castel-Branco, concedendo-vos o foro e costumes de Elvas, tanto presentes como futuros", in Foral de Pedro Alvito
  5. Se considerarmos que Ferando Sanches era o Infante D. Fernando, podemos admitir que perante a indefinição do paradeiro de D. Fernando, que se tinha exilado na Flandres e em 1214 tinha sido feito cativo pós a Batalha de Bouvines, os Templários tivessem pedido a intervenção do monarca para resolver o problema da posse da segunda metade da herdade ou até que D. Afonso II se tenha aproveitado do destino do irmão para se apoderar da Cardosa nessa data. Podemos admitir inclusivamente que a maneira como D. Afonso II resolveu a questão foi negociada com a Ordem do Templo
  6. "Possuia a vastíssima Herdade da Cardosa um certo Fernande Sanches. Buscou o auxílio dos Templários, os quaes fez meeiros nos encargos da empresa [povoar e restaurar a povoação que ali já existia] e nos direitos que dela resultassem mas, ou porque falecesse [ou porque estava ausente do Reino, se admitirmos que Fernando Sanches era o infante D. Fernando] ou porque os ambiciosos cavaleiros aproveitassem a própria influência para se assenhorearem de tudo, em 1214 a Ordem do Templo recebia de D. Afonso II uma ampla mercê de todos aqueles terrenos", in Alexandre Herculano, História de Portugal, tomo IV
  7. Gaspar Álvares Lousada (1554-1634), referiu que Castraleuca era o antigo nome de Castelo Branco e opinou que Castraleuca se compunha em duas partes: uma latina e outra grega, leucothon (comum a Catraleucos e Pyrgileucos), que significa branco e identificou com Leucoteia, a deusa branca, a protectora dos marinheiros.[16]
  8. Em Hespaña Sagrada, Enirique Florez (1702-1773) escreveu: "Junto a Catraleucos Ptolomeu descreveu outra povoação com o nome de Pyrgileuci, palavra grega que significa Torres Brancas". É possível, pois, que o moderno nome da cidade tenha a sua origem numa confusão entre duas cidades - Pyrgileucos e Catraleucos. De facto, Ptolomeu descreveu as duas povoações perto uma da outra (perto de Castelo Branco existem vestígios de uma povoação antiga). A proximidade geográfica das duas povoações descritas por Ptolomeu terá gerado alguma confusão e a convicção de que seria Catraleucos que, de facto, significava Torres Brancas. De acordo com escritores do passado, o termo Castraleuca alude ao antigo castro celta e podemos, então, admitir que a tradição que considera ser Castelo Branco a herdeira da antiga Catraleucos (ou Pyrgileuci) é anterior aos tempos de Moncarche[17]
  9. Castraleuca - o castro da deusa branca[20] - é uma palavra que não tem cabimento: é formada por uma parte latina, castra, e uma parte grega, leuca, mas traduzindo-a à letra significa, de facto, Castelo Branco

Referências

  1. António Lopes Pires Nunes, Os Castelos Templários da Beira Baixa, pág. 21, ed. Almondina, 2005
  2. Ribeiro Cardoso, Castelo Branco e o seu Alfoz, ed. do autor, 1953
  3. António Lopes Pires Nunes, Os Castelos Templários da Beira Baixa, pág. 26, ed. Almondina, 2005
  4. Como foi Vila Franca da Cardosa à posse de Fernando Sanches, Tenente-Coronel Pina Lopes, Estudos de Castelo Branco, Janeiro de 1962
  5. Artigo Wikipedia
  6. Anacleto da Silva Pires Martins, Esboço Histórico da cidade de Castelo Branco, 1979
  7. António Lopes Pires Nunes, Castelo Branco - das origens à actualidade, ed. Almondina, 2015
  8. António Lopes Pires Nunes, Castelo Branco - das origens à actualidade, ed. Almondina, 2015
  9. Leal, Manuel Pereira da Silva (1729). Memórias para a história eclesiástica do bispado da Guarda, voI. [S.l.: s.n.] 
  10. Henrique da Gama Barros, História da Administração Pública em Portugal, tomo I, p. 48, Lisboa, 1885
  11. António Lopes Pires Nunes, Castelo Branco – das Origens à actualidade, ed. Almondina, 2015
  12. António Lopes Pires Nunes, Castelo Branco - das origens à actualidade, pág. 38, ed. Almondina, 2015
  13. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, Elucidáio, tomo II, Typographia Régia Silviana, Lisboa, 1799
  14. "...vila que depois se denominou Castelo Branco, devido, ao que parece, à convicção, já existente do séc. XII ou XIII, pelo menos, de que ali existira a cidade de Castraleuca"; Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol 35, ed. Enciclopédia, anos 50
  15. Chao, Eduardo; Cuadros de la geografia histórica de España desde Los Primeros Tiempos Históricos Hasta El Día Obra auxiliar de todas las historias de España, Imp. Tomas Fortanet M.Ruano y Cª, 1849
  16. Gandara, Felipe de la; El Cisne accidental, primeira parte, Madrid, 1678
  17. António Lopes Pires Nunes, Castelo Branco - das origenas à actualidade, pág. 26, ed. Almondina, 2015
  18. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, Elucidáio, tomo II, Typographia Régia Silviana, Lisboa, 1799
  19. Henrique Florez, Hespaña Sagrada, tomo 14, Oficina de Pedro Martin, Madrid, 1786
  20. segundo o raciocínio de Lousada
  21. Manuel da Silva Castelo Branco, Estudos de Castelo Branco
  22. António Lopes Pires Nunes, Castelo Branco, uma cidade templária
  23. Carta de 1535, de D.João III. Publicada em Estudos de Castelo Branco, por Manuel da Silva Castelo Branco, 1961
  24. Reunião da Câmara Municipal de Castelo Branco, de 15 de Jullho de 1787
  25. António Lopes Pires Nunes,O Livro do V Centenário da Santa Casa da Misericórdia de Castelo Branco, 2016