Abrir menu principal

Joaquim Eugênio de Lima

engenheiro brasileiro
Joaquim Eugênio de Lima
Nascimento 6 de setembro de 1845
Montevidéu
Morte 13 de junho de 1902 (56 anos)
São Paulo
Cidadania Uruguai
Ocupação engenheiro

Joaquim Eugênio de Lima (Montevidéu, 6 de setembro de 1845 - São Paulo, 13 de junho de 1902), foi o homem que idealizou a Avenida Paulista. Filho de Dom Joaquim Miguel Pereira Lima e de Dona Maria Polonia Moreyra Rios, diplomou-se em agronomia na Alemanha, viajou por vários países da Europa e percorreu diversos estados do Brasil até estabelecer-se em São Paulo.[1]

Já na capital, focou o seu trabalho em atividades comerciais, principalmente na compra e venda de terrenos. Após consolidar-se no mercado imobiliário, passou a desenvolver projetos que visavam solucionar carências urbanas que cidade enfrentava, como por exemplo o Viaduto da Esperança, passagem destinada a eliminar o vale existente entre o Largo do Palácio e a Rua da Boa Vista, além de sua grande participação na construção do Viaduto do Chá.[2] Sua ânsia de produzir, cooperar e criar resultaram em ações na cidade de São Paulo que ficaram registradas através do tempo.[3]

Além de seu principal feito como urbanista, a Avenida Paulista, Joaquim Eugênio de Lima também atuou e se destacou em outras áreas como jornalista, colaborador da Santa Casa da Misericórdia e empresário do ramo imobiliário.[4]

Joaquim Eugênio de Lima foi casado com Dona Margarida Joaquina Alvares de Toledo e teve apenas um filho. Ele faleceu em 13 de junho de 1902, aos 56 anos, em São Paulo[1] e seu corpo foi sepultado no Cemitério da Consolação.[5]

Carreira de jornalistaEditar

Como homem de imprensa, publicava seus textos, periodicamente, em seus dois jornais: o Omnibus (circulação começou em 21 de novembro de 1872) e Cidade de São Paulo (início da distribuição em 1º de janeiro de 1891). Seu artigos abordavam, principalmente, problemas de sua atualidade e questões sobre gestão pública.[6] Neles, era possível notar a preocupação de Joaquim Eugênio de Lima com o homem do campo e da fábrica, com o desenvolvimento da indústria e as instalações das siderúrgicas, com a criação de um Banco da Lavoura para amparar o agricultor e, principalmente, com a política que, para ele, deveria ser a imagem da sociedade em seus elementos de inteligência, trabalho e moralidade.[7]

As preocupações de Joaquim Eugênio de Lima também se estendiam para os problemas da educação pública. Ele defendia a emancipação intelectual do povo, uma vez que, para ele, os poderes públicos deveriam viver da opinião do povo. Nas palavras dele: “Instruída a cabeça e educado o coração, o homem é livre”, escreveu em uma de suas publicações no Omnibus, em 1873.[8]

Colaborador da Santa Casa da MisericórdiaEditar

Seus trabalhos como jornalista, urbanista e empresário não impediram Joaquim Eugênio de Lima de dedicar parte da sua vida à projetos sociais.[9] Ele foi eleito Irmão Mesário da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia no ano de 1891 e reeleito no ano de 1892, consequência de suas constantes colaborações com a instituição, principalmente no que diz respeito a medidas que melhoraram a assistência médica aos enfermos, além de custear despesas de seu próprio bolso.[10]  Eugênio de Lima também ocupou os cargos de Mordomo dos Lázaros e membro da Comissão de Obras do hospital.[11]

Avenida Paulista: da ideia à abertura do cartão postal de São PauloEditar

Inaugurada em 8 de dezembro de 1891, a Avenida Paulista foi fruto de um empreendimento de um grupo de empresários, liderados por Joaquim Eugênio de Lima que estabeleceu as concepções básicas da avenida, além de se tornar proprietário de todos os terrenos da da área, juntamente com João Augusto Garcia e José Borges Figueiredo. O planejamento, por sua vez, foi responsabilidade do agrimensor Tarquínio Antonio Tarant, que ficou encarregado do arruamento, arborização e criação de alamedas transversais,[12] que receberam nomes de cidades paulistas como Amparo (hoje Alameda Campinas), Ribeirão Preto, Rio Claro, Casa Branca, Limeira (atual Peixoto Gomide), Jundiaí (atual Ministro Rocha Azevedo) e no sentido longitudinal Alameda Santos, Jaú, Itu, Tietê e Lorena.[13]

A ideia era dar à cidade uma grande “artéria”, como as existentes nas grandes metrópoles da Europa. [1] O local escolhido para a realizar a grande avenida foi o espigão divisor dos vales dos Pinheiros e Tietê, o Alto do Caaguaçu[14] (do tupi guarani, quer dizer "caa"- mato; "guaçu"- grosso).[15] Sua posição foi uma das características que mais marcaram a Paulista: localizada em um dos pontos mais altos de São Paulo, a avenida tinha uma visão privilegiada da cidade.[16]

Joaquim Eugênio de Lima exigiu que a Avenida Paulista fosse toda plana e a mais larga da cidade.[17] Como o terreno era irregular, foi necessária a realização do movimento de terras e do aterro do vale por onde passa hoje o Túnel 9 de Julho, além da execução do arruamento e pavimentação da avenida.[18] Eugênio de Lima e seus sócios José Borges de Figueiredo e João Augusto Garcia adquiriram os terrenos necessários para concretizar o empreendimento, entre a Consolação e o Paraíso.[19] A princípio, ele tinha em mente que a avenida se chamasse “Prado de São Paulo”, ou “Avenida das Acácias”, mas seus colegas e sócios tiveram a ideia de das à avenida o seu nome. Ao se opor, Joaquim Eugênio de Lima declarou “Será Paulista, em homenagem aos Paulistas”[20]

Pouco antes da inauguração, a avenida ainda carecia de infraestrutura. O Governador do Estado, juntamente com Senador Rangel Pestana, o Presidente da Intendência, Dr. Clementino de Souza e Castro, e o Dr. Júlio de Mesquita, redator do jornal O Estado de S. Paulo, foram convidados por Joaquim Eugênio de Lima para apresentar-lhes as obras em andamento, em maio de 1891. Nessa ocasião, ele  também foi o responsável por negociar a extensão da iluminação e da rede de água e esgoto até a nova via, além do policiamento, e linhas de bondes.[21]

Criada por um investimento privado e acompanhada de melhorias providas pelo poder público,[22] a Paulista era um espaço único e exclusivo: não havia nenhuma avenida similar em toda a cidade.[23] As primeiras décadas desde a inauguração da avenida foi destinada a moradores de altíssimo nível de poder aquisitivo (primeiramente por fazendeiros do café e, em seguida, por milionários ligados ao comércio e a indústria). Nesse contexto, o Trianon se configurou como um espaço de encontro dessa elite e de manifestações culturais da mesma.[22]

Alguns anos mais tarde, o lote que abrangia o parque e o belvedere do Trianon foi doado por Joaquim Eugênio de Lima à prefeitura. Ele exigiu que qualquer construção que fosse feita no local não poderia obstruir a vista que ali se tinha da cidade.[24] Lina Bo Bardi escolheu o local para a instalação do Museu de Arte de São Paulo (MASP) no ano de 1951 e a construção respeitou as condições preestabelecidas por Eugênio de Lima. O projeto não apenas seguiu as exigências de preservação da vista como também fez questão de valorizar a área vazia em frente ao Parque Trianon.[25] O vão livre do MASP foi projetado, justamente, com a função do antigo belvedere. A estrutura do museu foi suspensa sob quatro colunas ligadas por duas vigas de concreto , formando um vão de oito metros de altura e setenta metros de extensão.[26]

A visão empreendedora de Joaquim Eugênio de Lima, bem como sua aguçada visão de mercado, deu origem à mais larga e moderna avenida de São Paulo.[27] O prestígio dentro da metrópole, bem como seu alto valor imobiliário foram mantidos ao longo dos anos e permanece até hoje como uma realidade da Avenida Paulista e de seus arredores. [22]

Inovação, modernidade e urbanizaçãoEditar

No final do século XIX, São Paulo experimentava os efeitos de uma urbanização acelerada, além das novas atividades alavancadas pelo processo de industrialização, ainda que em ritmo menos intenso. Nesse contexto, a Avenida Paulista foi um marco de modernidade e inovação na cidade.[28] A antiga “Estrada da Real Grandeza”, como era até então conhecida, uma trilha destinada para os tropeiros e carros de boi, se transformou no mais importante marco de modernidade da cidade na época.[29]

É atribuída à Joaquim Eugênio de Lima essa grande expressão de inovação que foi a inauguração da Avenida Paulista. Com seus 2.800 metros de extensão e 30 metros de largura,[29] a via representa uma das providências estruturais que acompanhava a rapidez do crescimento da cidade. Isso significava que, naquele contexto, para Eugênio de Lima, o passado colonial não representava mais a realidade paulistana e o presente, bem como o futuro, necessitavam de uma especial urgência, tomando como referência básica as grandes cidades europeias que conhecia muito bem.[30]

Não à toa, após a inauguração da avenida, o local foi ocupado por moradias de altíssimo poder aquisitivo da sociedade paulistana da época, atendendo a demanda por terras urbanas bem localizadas por parte de uma crescente classe de ricos negociantes, empresários e fazendeiros do café.[31]

O busto de Joaquim Eugênio de LimaEditar

 
Busto, localizado em São Paulo.

Na ocasião do cinquentenário da morte de Joaquim Eugênio de Lima, foi encomendado pela Escola Superior de Agricultura  “Luiz de Queiroz” o seu busto em bronze. Com a licença concedida pelo Prefeito do município, o busto foi colocado no então Parque da Avenida Paulista (atualmente, Parque Trianon), no dia 13 de junho de 1952, em homenagem ao homem que idealizou e realizou a Avenida Paulista.[32] A obra de autoria do escultor Roque de Mingo trás em sua placa a seguinte mensagem[33]:

A cerimônia do cinquentenário contou com a presença do Prefeito municipal, Armando de Arruda Pereira, do secretário dos Negócios Jurídicos, Nelson Marcondes do Amaral, além de membros da família do homenageado.[34]

Alameda Joaquim Eugênio de LimaEditar

A  Alameda Joaquim Eugênio de Lima está localizada nos bairros Jardim Paulista e Bela Vista. A rua é uma das travessas mais importantes da Avenida Paulista e a Prefeitura de São Paulo concedeu seu nome em homenagem à Joaquim Eugênio de Lima.[35]

Considerando a sua importância histórica e urbanística na cidade de São Paulo, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (CONPRESP) determinou o tombamento da Alameda Joaquim Eugênio de Lima, em conjunto com outros espaços e elementos constituidores do ambiente urbano do bairro da Bela Vista, conforme o artigo 2º da Resolução nº. 22/2002.[36]

BibliografiaEditar

  • FRÚGOLI JR., Heitor.Centralidade em São Paulo: trajetórias conflitos e negociações na metrópole. São Paulo: Cortez Editora da Universidade de São Paulo, 2000.
  • AZEVEDO FILHO, Rocha. Um pioneiro em São Paulo: Joaquim Eugênio de Lima. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1954.
  • TOLEDO, Benedito Lima de. Álbum Iconográfico da Avenida Paulista. São Paulo: Ex-Libris/ J. Fortes Engenharia, 1987.

Ver tambémEditar

ReferênciasEditar

  1. a b c AZEVEDO 1954, p.9
  2. MORAES 1995, p.50
  3. AZEVEDO 1954, p.165
  4. MORAES 1995, p.49
  5. «Popó, o 'guardião' do Cemitério da Consolação». Catraca Livre. 12 de setembro de 2014 
  6. MORAES 1995, p.51
  7. AZEVEDO 1954, p. 198-199
  8. AZEVEDO 1954, p.199
  9. AZEVEDO 1954, p.117
  10. AZEVEDO 1954, p.118
  11. AZEVEDO 1954, p.119
  12. FRÚGOLI JR 2000, p.113
  13. AZEVEDO 1954, p.197
  14. AZEVEDO 1954, p.192
  15. MORAES 1995, p. 56
  16. TOLEDO 1987, p.16
  17. AZEVEDO 1954, p.20
  18. AZEVEDO 1954, p.18
  19. AZEVEDO 1954, p.194
  20. AZEVEDO 1954, p.23
  21. SHIBAKI 2007, p.47
  22. a b c FRÚGOLI JR. 2000, p.116
  23. SHIABAKI 2007, p. 40
  24. GONÇALVES 2010, p. 111
  25. GONÇALVES 2010, p. 115
  26. GONÇALVES 2010, p. 122
  27. TOLEDO 1987, p.12
  28. GONÇALVES 2010, p.98
  29. a b GONÇALVES 2010, p.97
  30. MORAES 1995, p.53
  31. FRÚGOLI JR. 2000, p.114
  32. AZEVEDO 1954, p.163
  33. AZEVEDO 1954, p.164
  34. AZEVEDO 1954, p.212
  35. «Alameda Joaquim Eugênio de Lima | Portal do Bixiga». Portal do Bixiga 
  36. «Resolução nº. 22/2002 do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo» (PDF)