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Leo Felipe em 2011, na abertura de uma exposição na Fundação Ecarta.

Leonardo Azevedo Felipe, mais conhecido como Leo Felipe (Porto Alegre, 27 de agosto de 1973), é um escritor, jornalista, músico, DJ e curador de arte brasileiro.

Ganhou notoriedade primeiro como empresário da noite. Foi um dos fundadores, em 1992, do bar Garagem Hermética, centro de grande atividade musical e o reduto da contracultura porto-alegrense nos anos 1990.

Foi diretor e apresentador por muitos anos de um popular programa musical na TV Educativa de Porto Alegre . Lançou um livro sobre a história do Garagem que teve ótima recepção, A Fantástica Fábrica (2014), e desenvolve intensa atividade cultural como administrador e curador da galeria de arte da Fundação Ecarta, entre vários outros projetos.

Garagem HerméticaEditar

Iniciou sua carreira com cerca de 15 anos como bancário, mas desde jovem era apreciador de arte, rock e literatura underground, e logo o ambiente formal do trabalho de escritório o deixou insatisfeito. Com 19 anos conheceu Ricardo Kudla, e com ele fundou em 1992 o bar Garagem Hermética, instalado em um casarão antigo e decadente da rua Barros Cassal, na esquina com a avenida Independência. A princípio o bar apareceu como uma simples forma de extravasar as pressões que sentiam vir da cultura mainstream, onde pudessem, reunindo amigos de ideias semelhantes, confraternizar e tocar as músicas de que gostavam com as bandas alternativas que integravam.[1][2]

A despeito desta origem despretensiosa, pela sua postura libertária e pela valorização dos artistas locais, o Garagem Hermética desempenhou um papel vital para o desenvolvimento do rock independente e autoral sulino na última década do século XX, tornando-se um centro de revelação de novos talentos e uma espécie de refúgio da contracultura de Porto Alegre, criando um rico folclore em seu redor.[1][3][4][5][6] Fernando Rosa, editor da revista Senhor F, disse que o bar foi "uma das lendas urbanas do rock porto-alegrense e, mesmo, do rock nacional".[5] Segundo Daniel Feix, em matéria para a Zero Hora, "as memórias do 'Velho Garagem' envolvem sexo, drogas e bebedeiras vivenciadas por pelo menos duas gerações de jovens cheios daquela energia que [Leo] sintetiza simplesmente como 'roquenrol'. [...] Artistas, cineastas, músicos, estudantes e quem mais tivesse um dedinho do pé no underground, na Porto Alegre da década de 1990, tem alguma história envolvendo o casarão da Barros Cassal".[1] Para Daniel Galera, o bar era ...

"[...] uma sala de estar que nos recebia noite adentro e madrugada afora. [...] Uma espécie de casa para onde se ia não apenas na esperança de viver experiências limítrofes, terminar a noite 'indo pra casa' de alguém, injetar rock e super-8 no pescoço e extravasar nossa alegria e desespero, mas para simplesmente estar. Era barato, era imprevisível e nos fazia sentir, mesmo nas noites mais geladas e fracassadas, que a vida estava acontecendo e que valia a pena. [...] A gente lotava aquela joça, bebia pra caralho e amava aquele lugar. Ficamos tristes, muito tristes, quando acabou. [...] Eis algo que aconteceu. Foi bem assim. Um bar inventado por dois malucos que eram 'punks e não sabiam' para ser 'o nosso próprio bar na falta de outro melhor' e que se tornou o melhor bar que muita gente já viu. Uma história que marcou centenas de vidas, algumas gerações e uma cidade que nunca tinha visto um lugar parecido e continua órfã dele".[7]

A atriz Cléo de Páris deixou outro testemunho sobre a atmosfera do Garagem e o significado que ele assumiu tanto para a população que o frequentou quanto para a cultura local:

"O Garagem Hermética não foi só um bar; foi um vulcão com lavas incandescentes que nos presenteou com nosso melhor e nosso pior, na condição de artistas inquietos e malucos. Éramos pura poesia; poesia sublime e poesia dos calabouços. Éramos pura beleza; beleza mágica e beleza das trevas. O Garagem nos fez desbravadores de um espaço além mídia, além conformismo, além comercial de margarina. Foi lá que revolucionamos e nos revolucionamos, nos pensamentos e nas atitudes, dando a cara a tapa sempre. Lá, no meio daquelas paredes inadequadas, fomos deuses, visionários e pessoas comuns".[1]

Na sua fase de apogeu ali surgiriam ou fariam importantes shows bandas que se destacaram na cena sulina, como Cachorro Grande, Júpiter Maçã, Graforréia Xilarmônica, Ultramen e Space Rave,[5][8] e ali foram lançados a fita demo da Aristóteles de Ananias Jr.,[9] e o disco A Sétima Efervescência,[10] de Júpiter Maçã, um dos mais emblemáticos álbuns do rock gaúcho e incluído na lista dos 100 melhores discos da música brasileira da revista Rolling Stone,[11] que segundo o autor foi concebido exatamente em função do bar: "Eu estava muito entusiasmado e contagiado pelo clima do early Garagem Hermética e pelas garotas, pela simpatia dos rapazes. Acabei me tornando uma espécie de ícone pra aquela turma. Posso dizer que praticamente fiz o disco para aquela turma".[12]

Além de promover a música alheia, Leo Felipe envolveu-se diretamente na criação musical à frente da banda Moses e como vocalista da Minimaus.[13][2] Ele e Ricardo Kudla comandaram o bar até 2000, quando o venderam. Foi então reformado, e permaneceu em atividade até 2013, mas nesta segunda etapa ele já havia perdido boa parte do seu antigo apelo.[1][6]

Literatura, jornalismo, arte e outras atividadesEditar

Neste ínterim, Leo Felipe tentou ingressar no curso de Artes Visuais, mas não teve sucesso. Então optou pelo Jornalismo, graduando-se em 2003. Depois passou a escrever, publicando os livros AUTO (2004) e O Vampiro (2006),[10][14] e colaborando com a revista Noize e o jornal Pois é com artigos sobre música, arte, cinema e outros temas.[15][16][17][18] Em 2014 lançou A Fantástica Fábrica, que narra sem rodeios a fervilhante trajetória do Garagem Hermética. O livro é produto de dez anos de trabalho. Partes de seu material foram sendo publicadas no seu blog e em outros veículos à medida que iam sendo redigidas. A partir da boa repercussão, o autor decidiu reunir suas histórias em um livro, que recebeu ampla divulgação e muitas críticas positivas.[1][19][20][5][7][21] As psicodélicas ilustrações do livro são de Diego Medina, ex-Video Hits.[21] Segundo o autor, "quando pensei na transição do blog para o livro, vi que não podia me autocensurar. Apesar de ter coisas muito fortes, alterei o mínimo possível".[22] André Araújo, na revista Noize, assim o analisou:

"O livro de Leo Felipe vem de certa forma preencher um vácuo na história da cultura pop porto-alegrense. Enquanto o pessoal da Oswaldo Ver nota [23] recebeu, com méritos, extensa reflexão e registro, a geração dos anos 90 parece que nunca recebeu a atenção necessária em relação aos seus mitos de origem. [...] Interessante na verdade é que Leo Felipe não assume aqui ares de historiador ou jornalista-testemunha do berço de uma cena cultural tão rica como a do Garagem. O livro de Leo Felipe é um legítimo memoir, que conta muito mais a sua história pessoal do que a distanciada de um bar. Sorte que ambas coexistem e se confundem fortemente. [...] Mas não se enganem: poderia ser um saco ficar lendo sobre a ascensão e decadência de um jovem nos seus vinte e poucos anos, seja ela física, moral ou financeira. No caso de A Fantástica Fábrica é sensacional. Muito pela tradução perfeita que Leo Felipe consegue fazer do ethos noventista".[19]

Fabrício Silveira, do grupo de pesquisa CultPop, vinculado ao Programa de Pós-Graduação da UNISINOS, também deixou impressão favorável:

"A Fantástica Fábrica é um livro delicioso. Não consegui parar de ler. Leo Felipe nos apresenta um relato corajosamente franco, irônico, às vezes, hilário, sobre o Garagem Hermética, bar que comandou durante boa parte da década de 1990. Tratava-se de um ponto de encontro obrigatório, um parque de diversões do underground roqueiro do cidade. Por ali passou muita gente (assombrações, Otto Guerra, Edu K perneta, Júpiter Maçã, ilustres conhecidos, ilustres desconhecidos, ilustradores e cineastas independentes). Ali aconteceu muita coisa (brigas, amores, quedas, pinduras, concertos desastrosos, atraques policiais). O livro faz justiça a isto tudo. É como se o Garagem tivesse existido para se tornar um livro. Sem ser nostálgico nem saudosista, A Fantástica Fábrica faz um brinde à memória e à experiência que nos vinculam ao presente. É uma leitura altamente recomendável".[6]
 
Apresentação da banda Aristóteles de Ananias Jr. no Programa Radar, da TV Educativa.
 
Prédio da Fundação Ecarta decorado com pichação e graffiti patrocinados por Leo Felipe.

Logo após sua formatura no Jornalismo passou a apresentar o programa Radar da TV Educativa do Rio Grande do Sul, dirigindo-o por por oito anos, da mesma maneira dando espaço para a produção emergente e alternativa da cena musical gaúcha. Enquanto isso, entre 2006 e 2009 foi curador do projeto República do Rock promovido pela Coordenação de Música da Secretaria Municipal de Cultura, e passou a se interessar mais fortemente pelas artes visuais, que admirava desde a juventude.[10][24]

Ao deixar a TVE em 2011, foi convidado pela Fundação Ecarta para assumir a gerência e a curadoria da sua galeria de arte, imediatamente expandindo suas atividades e projetando o nome do espaço,[10] que em 2012 recebeu o Prêmio Açorianos na categoria Destaque Espaço Institucional de Divulgação Cultural.[25][26] Integrou em 2011 o conselho curatorial da Casa M, projeto da 8ª Bienal do Mercosul, fez da parte da comissão de seleção do Prêmio IEAVI, mantido pelo Instituto Estadual de Artes Visuais,[27][24][28] é diretor da rádio Mínima FM, onde apresenta o programa Elefante, voltado a uma programação cultural, com música e entrevistas,[10][24] ministra palestras e seminários e faz curadorias independentes, entre outros projetos.[29][30][31][32][33][34][35] É também conhecido DJ, há mais de dez anos produtor e animador da festa Pulp Friction, que ocorre uma vez por mês no Bar Ocidente e já se tornou tradicional na noite porto-alegrense.[2][36][37]

O seu interesse pela contracultura se expressou também no ambiente acadêmico. Em 2013 obteve o Mestrado em História, Teoria e Crítica de Arte pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul com a dissertação Rock My Art, ou O Novo Esteticismo de "Por que Choras?", ou O dia em que Edu K entrou para a História da Arte,[10] que analisa a performance Por que Choras?, de Telmo Lanes e Rogério Nazari, que teve acompanhamento do grupo de rock DeFalla, "apontando momentos do século XX em que o campo das artes visuais foi cruzado com o da cultura popular massiva representada pelo rock", propondo "reflexões acerca do fazer da própria História da Arte e das maneiras de produção da chamada pós-crítica".[38]

No texto '"O Legado da Contracultura", relacionado à exposição Um firme e vibrante NÃO, sob a curadoria dele e de Jorge Bucksdricker, que enfocou exatamente este universo e circulou por Pelotas, Caxias do Sul e Porto Alegre,[39] Leo Felipe deixou sua visão sobre a importância de um movimento que ele conhece por dentro:

"A revolução proposta pela contracultura é de uma abrangência que vai do molecular ao social, do psicológico ao ambiental. Não é a revolução vinda da classe proletária, são os filhos burgueses da tecnocracia que se rebelam questionando um modelo desenvolvimentista de progresso que nos desconecta da natureza e do ser. Num contraditório jogo de forças, a transgressão da contracultura não está imune à cooptação, assimilação ou diluição, já que sempre fará parte da cultura contra a qual tentar insurgir-se. [...] A contracultura nos ensinou como criar sistemas alternativos de circulação e difusão da informação: imprensa alternativa, arte postal, os fanzines, modelos que sugerem que para combater o inimigo é preciso aprender a usar suas armas. A informação quer ser livre, o aforismo hacker do escritor Stewart Brand (postulado lá por 68, claro), se torna um axioma para o século digital, a despeito de todas as tentativas de controle".[40]

Referências

  1. a b c d e f Feix, Daniel. "Garagem Hermética é tema de livro de Leo Felipe". Zero Hora, 19/05/2014
  2. a b c Silveira, Fabrício. "Rock gaúcho, cultura urbana e cenas musicais em Porto Alegre. Um exercício metodológico". In: Cadernos da Escola de Comunicação, 2014; (12):35-48
  3. "Em comunicado no Facebook, Garagem Hermética anuncia fechamento". Zero Hora, 20/02/2013
  4. Oliveira, Samir. "Fim do Garagem Hermética deixa órfão rock autoral em Porto Alegre". Sul 21, 02/03/2013
  5. a b c d "A história do lendário Garagem Hermética por um de seus fundadores" Arquivado em 14 de julho de 2015, no Wayback Machine.. Senhor F, s/d.
  6. a b c Silveira, Fabrício. "Garagem Hermética". Grupo CultPop - UNISINOS, 08/09/2014
  7. a b Galera, Daniel. "O melhor bar que muita gente já viu". Livraria Cultura.
  8. Lerina, Roger. "Memórias herméticas". Zero Hora, 03/05/2014
  9. "Gomes, Marco Pinho. "A maluquice do Aristóteles em K-7". Zero Hora, 28/09/1993
  10. a b c d e f Teló, Luiz Paulo. "A Franqueza de Leo Felipe". Culturíssima, 24/05/2015
  11. "Os 100 maiores discos da música brasileira". Rolling Stone, s/d.
  12. Bonfim, Leonardo. "Entrevista – Júpiter Maçã passa a carreira a limpor". Noize, 21/08/20099
  13. Avila, Alisson; Bastos, Cristiano; Muller, Eduardo. Gauleses Irredutíveis: causos e atitudes do rock gaúcho. Buqui, 2012
  14. "Apresentador Leo Felipe é o convidado do Primeira Pessoa". Coletiva, 03/11/2006
  15. Felipe, Leo. "HEROISEMQUERER". In: Noize, 2014; 64 (7):30-38
  16. Felipe, Leo. "Coluna | O resumo dos últimos capítulos: Anna Pavlova e Thurston Moore". Noize, 20/04/2012
  17. Felipe, Leo. "Coluna | Estranho mundo: Die Antwoord". Noize, 06/04/2012
  18. "Leo Felipe no Pois é". Jornal Pois é, 20/03/2008
  19. a b Araújo, André. "Resenha: A Fantástica Fábrica". Noize, 22/06/2014
  20. Galera, Daniel. "Garagem histórica". O Globo, 18/05/2014
  21. a b Santos, Laura Pacheco dos. "O velho Garagem". In: Jornal da Universidade, 2014; XVII (171):12
  22. Pedrazza, Danilo & Velazquez, Matheus. "Garagem Hermética: Entre Bebidas, Festas, Blogs E Livros". Lado B, 2015
  23. Refere-se à avenida Oswaldo Aranha, entre os anos 70 e 80 o centro da contracultura local.
  24. a b c Fundação Ecarta. Leo Felipe Arquivado em 14 de julho de 2015, no Wayback Machine..
  25. "Ecarta ganha Prêmio Açorianos como espaço institucional". SINPRO/RS, 09/05/2012
  26. "Premiados no VI Açorianos de Artes Plásticas". Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre
  27. Bienal Mercosul. Leo Felipe Arquivado em 15 de julho de 2015, no Wayback Machine..
  28. "Eduardo Veras, Léo Felipe e Ana Baldisserotto assinam curadoria do IEAVi". Assessoria de Comunicação da Casa de Cultura Mario Quintana, 24/09/2013
  29. Maya, Bruno. "Leo Felipe ministra o quinto seminário do CEN 2011". Cine Esquema Novo, 2011
  30. "Projeto URBE na Casa de Cultura Mário Quintana". Mundo Cult, 25/09/2014
  31. "Diego Medina (ex-Video Hits) leva seu mundo psicodélico ao Museu do Trabalho" Arquivado em 14 de julho de 2015, no Wayback Machine.. Rock Gaúcho, 19/02/2015
  32. Galeria Arte&Fato. "O Texto de Leo Felipe". Disponível em [http://artefatogaleria.blogspot.com.br/2015/04/o-texto-de-leo-felipe.html]
  33. "Batepapo Caminhos do Rock, com os jornalistas Daniel Soares e Leo Felipe Projeto República do Rock Especial Dia Mundial do Rock". Feest, jul/2013
  34. Sarau Elétrico. Edições anteriores.
  35. "Semana da Cultura do RS no Uruguai abre com Artes Visuais" Arquivado em 14 de julho de 2015, no Wayback Machine.. Casa da Cultura Mario Quintana, s/d.
  36. "Sábado tem Pulp Friction no Ocidente" Arquivado em 14 de julho de 2015, no Wayback Machine.. Mais Porto Alegre, 11/07/2014
  37. Brigatti, Gustavo. "Baladas se firmam na noite de Porto Alegre com personalidade e público fiel". Zero Hora, 06/09/2013
  38. Felipe, Leonardo Azevedo. Rock My Art, ou O Novo Esteticismo de "Por que Choras?", ou O dia em que Edu K entrou para a História da Arte. Dissertação de Mestrado. UFRGS, 2013
  39. "Exposição sobre contracultura chega a Pelotas em itinerância promovida pela galeria Ecarta". Diário da Manhã, 17/06/2015
  40. Felipe, Leo. "O Legado da Contracultura". Nonada, 14/11/2014

Ver tambémEditar

Ligações externasEditar

  • Trechos de A Fantástica Fábrica no blog do autor, disponíveis em
    • [http://fogueteformidavel.blogspot.com.br/2007/04/fantstica-fbrica-de-choclate-captulo-3.html]
    • [http://fogueteformidavel.blogspot.com.br/2007/08/fantstica-fbrica-de-chocolate-captulo_31.html]
    • [http://www.fogueteformidavel.blogspot.com.br/2009/06/entao-era-isso.html]
  • Página oficial da festa Pulp Friction