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Santiago Andrade
Nascimento 5 de setembro de 1964
Rio de Janeiro, RJ
Morte 10 de fevereiro de 2014 (49 anos)
Rio de Janeiro, RJ
Ocupação Repórter cinematográfico
Cônjuge(s) Arlita Andrade
Nacionalidade brasileiro

Santiago Ilídio Andrade (Rio de Janeiro, 5 de setembro de 1964Rio de Janeiro, 10 de fevereiro de 2014) foi um repórter cinematográfico brasileiro.[1]

Santiago foi criado em Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro. Antes da carreira de jornalista - que exerceu por 20 anos, foi DJ. Trabalhou durante 10 anos na TV Bandeirantes, onde participou de importantes coberturas, como a das chuvas na região serrana do Rio em 2011, que deixou centenas de mortos, o Massacre de Realengo, que vitimou 12 crianças numa escola, também em 2011, e em conferências internacionais como a Rio+20 e em eventos esportivos, como o Pan-Americano de 2007.[2]

Experiente, ganhou dois prêmios. Em 2010 e em 2012, venceu, junto com o repórter Alexandre Tortoriello, dois prêmios jornalísticos de mobilidade urbana por reportagens sobre as dificuldades enfrentadas pelos usuários de transporte público no Rio de Janeiro. Dificuldades essas que motivaram o início de grandes protestos na cidade em junho de 2013, após o anuncio do reajuste de tarifa. Santiago também participou da cobertura jornalística dessas manifestações.[3][4]

Teve morte cerebral em 10 de fevereiro de 2014, quatro dias após ser atingido por um rojão disparado por um manifestante durante um protesto contra a alta da tarifa de ônibus no Rio, sendo a primeira vítima do ataque de um manifestante desde a onda de protestos pelo país, em junho do ano anterior.[5]

Santiago era casado há 30 anos com Arlita Andrade, com que teve uma filha, também jornalista, e três enteados, que ajudou a criar.[6]

Índice

MorteEditar

 
O corpo do cinegrafista foi velado no Memorial do Carmo, no Rio de Janeiro.[7]

Duas horas depois de sair da redação da Band Rio, em 6 de fevereiro de 2014, para cobrir um protesto contra a alta da tarifa de ônibus, Santiago foi atingido na cabeça por um rojão jogado por um manifestante. Foi socorrido por dois colegas jornalistas e por um socorrista da Cruz Vermelha, sendo então levado - mediante a constatação, pelo socorrista, do estado gravíssimo - para o hospital mais próximo em uma viatura do Batalhão de Choque. Conforme afirma o socorrista, Marcos Cordeiro, a situação de Santiago era gravíssima e ele pode constatar, de imediato, a perda da orelha direita de Santiago. Fotos e gravações de jornais e de TVs ou agências de notícias registraram a tragédia, o que provocou forte repercussão, despertou a reação de autoridades e ajudou a polícia a identificar os suspeitos.

Durante quatro horas, médicos tentaram estancar a hemorragia e reduzir a pressão intracraniana, causadas pelo impacto do rojão. No restante dos três dias em que Santiago esteve internado no CTI do Hospital Municipal Souza Aguiar, seu estado de saúde manteve-se grave. Ele sofreu afundamento do crânio e perdeu parte da orelha esquerda. Em 10 de fevereiro, pouco depois das 12h, a Secretaria Municipal de Saúde anunciou a morte cerebral de Santiago.[8]

A família doou os órgãos do cinegrafista, [9] que foi cremado em 13 de fevereiro.[10]

RéusEditar

 
Caio Silva e Souza, suspeito de soltar o rojão que causou a morte de Santiago.

Fábio Raposo, então suspeito de passar para outro jovem o artefato, se apresentou à Polícia na madrugada de 7 de fevereiro, após veiculação em vários veículos de comunicação de imagens em que ele aparece com rosto coberto por um pano preto. Foi liberado no mesmo dia, mas a Justiça decretou a prisão temporária na manhã de 8 de fevereiro, e Raposo foi preso na casa de sua mãe.[11]

Também através de imagens da mídia e com colaboração do advogado do primeiro preso, a Polícia identificou o suspeito de acender o rojão e, na noite de 10 de fevereiro, a Justiça decretou a prisão temporária de Caio Silva de Souza. Naquele momento, os policiais não podiam buscá-lo e prende-lo, isso só podia ser feito durante o dia. Em 11 de fevereiro, dezesseis policiais, agentes do serviço de inteligência e o Disque-Denúncia foram mobilizados na busca do manifestante, que foi considerado foragido e trabalhava como auxiliar de serviços gerais no hospital estadual Rocha Faria, em Campo Grande, zona oeste do Rio.[12] Caio foi preso no dia 12 de fevereiro em Feira de Santana, na Bahia, e levado para o Rio de Janeiro.[13]

Em 14 de fevereiro, a Polícia Civil entregou ao Ministério Público do Rio o inquérito final, resultado de oito dias de investigações em 175 páginas. Eles foram indiciados por crimes de explosão e homicídio doloso triplamente qualificado com impossibilidade de defesa da vítima e com emprego de explosivo.[14] Em 17 de fevereiro, o MP-RJ encaminhou a denuncia à Justiça e pediu a prisão preventiva de Fábio Raposo e Caio Silva de Souza.[15] Em 20 de fevereiro, o Tribunal de Justiça do Rio aceitou a denúncia contra os jovens e converteu a prisão temporária de 30 dias em prisão preventiva, o que teriam que ficar detidos no Complexo de Gericinó até o julgamento.[16]

No entanto, em 18 de março de 2015, uma decisão da Justiça do Rio de Janeiro mudou esse andamento, e os réus não responderão por homicídio qualificado por motivo torpe, por, segundo a decisão, não haver provas da denúncia do MP de dolo eventual. Com isso, eles foram soltos, o caso deixa o Tribunal do Juri, será julgado em uma das varas criminais criminais comuns da Comarca da Capital e a pena, que variava de 12 a 30 anos, não deve passar de oito anos. O Ministério Público contestou a decisão, disse que as imagens registradas provam que houve dolo eventual e que a decisão provoca sensação de impunidade na sociedade. Um dos defensores dos réus afirmou que eles "digiram o o rojão para a multidão com o escope de causar tumulto".[17]

RepercussãoEditar

 
Homenagem ao cinegrafista realizada na praia de Copacabana.


Representantes dos três poderes e órgãos da sociedade civil condenaram o ato de violência e se solidarizaram com a família se Santiago. Após a morte do cinegrafista, o Senado chegou acelerar a votação da Lei antiterrorismo que podia dar pena de até 40 anos a manifestantes violentos. Polêmico, o projeto saiu da pauta prioritária[18][19][20] O Ministro da Justiça chegou a propor política de proteção para jornalistas.[21]

A Presidente Dilma Rousseff disse que a morte de Santiago "revolta e entristece" e determinou que a Polícia Federal apoie as investigações. Dilma disse também que "não é admissível que os protestos democráticos sejam desvirtuados por quem não tem respeito por vidas humanas. A liberdade de manifestação é um princípio fundamental da democracia e jamais pode ser usada para matar, ferir, agredir e ameaçar vidas humanas, nem depredar patrimônio público ou privado".[22]

No fim da tarde do dia em que foi anunciada a morte cerebral do profissional, jornalistas de várias veículos de mídia se reuniram no Rio de Janeiro para homenageá-lo. Fotógrafos, cinegrafistas e assistentes fizeram uma caminhada por uma das principais avenidas do centro. O gesto se repetiu no local onde Santiago foi atingido pelo rojão. Em Brasília, cinegrafistas deixaram os equipamentos no chão e cruzaram os braços na rampa do Congresso Nacional.[23]

Santiago também foi homenageado no Jornal Nacional, da Rede Globo. No encerramento do telejornal, os créditos subiram, sem a trilha do JN, e sob aplausos, jornalistas e vários cinegrafistas viraram suas câmeras para uma foto do colega, projetada no telão.[24] Minutos antes, William Bonner leu um editorial da Rede Globo em que diz que "não é só a imprensa que está de luto com a morte do nosso colega da TV Bandeirantes Santiago Andrade. É a sociedade" e que "a Rede Globo se solidariza com a família de Santiago, lamenta a sua morte, e se junta a todos que exigem que os culpados sejam identificados, exemplarmente punidos. E que a polícia investigue se, por trás da violência, existe algo mais do que a pura irracionalidade".[25]

Em nota, a Rede Bandeirantes disse que vai acompanhar passo a passo as investigações e o processo e exigir a condenação do assassino e do grupo no qual ele faz parte. "ao fazer isso, estará solidária não só com a família de Santiago Andrade. Mas com toda a família brasileira, que já não suporta viver cercada de tantas e variadas ameaças, sentindo-se numa terra de ninguém".[26]

Em 11 de fevereiro, cerca de 30 profissionais de vários canais de TV fizeram um protesto em frente à delegacia em que investigava o caso. Em um ato simbólico, microfones e câmeras foram colocados no chão por alguns minutos para exigir das empresas mais suporte aos jornalistas escalados para os protestos de rua no Rio. Santiago estava sem capacete ao ser atingido e era também motorista da equipe.[27]

O assassinato do jornalista entrou na lista da revista Veja (2014) de crimes que "chocaram" o Brasil.[28]

Despedida da filhaEditar

Também jornalista, a única filha de Santiago, Vanessa Andrade, fez um texto de despedida em homenagem ao pai e publicou em seu perfil no Facebook.

Referências

  1. Band.com.br Cinegrafista tem morte cerebral confirmada
  2. G1 Cinegrafista atingido por rojão em protesto no Rio tem morte cerebral
  3. G1 Corpo de cinegrafista atingido por rojão no Rio será velado nesta quinta
  4. Jornal da Band Cinegrafista era querido pela família e amigos
  5. Folha de S. Paulo Cinegrafista é o 1º morto por ataque de manifestante
  6. EBC ONU condena morte de cinegrafista Santiago Andrade
  7. G1 Cerimônia de cremação de cinegrafista reúne família
  8. Folha de S. Paulo 'Perdoar? Eles destruíram uma família'
  9. R7 Família autoriza doação de órgãos de cinegrafista atingido por rojão em protesto no Rio
  10. EXAME.com Corpo de cinegrafista é cremado em cerimônia particular
  11. Folha de S. Paulo Manifestante é preso por ataque no Rio e negocia colaboração
  12. Folha de S. Paulo Polícia busca acusado de matar cinegrafista em 3 regiões do Rio
  13. O Estado de S. Paulo Polícia prende na Bahia suspeito de lançar rojão em cinegrafista da Band
  14. G1 Suspeitos da morte de cinegrafista são indiciados por homicídio doloso
  15. EBC MP do Rio encaminha denúncia à Justiça contra suspeitos da morte de cinegrafista
  16. Última Instância - UOL TJ-RJ aceita denúncia contra jovens acusados de matar cinegrafista
  17. G1 Justiça dá liberdade a acusados por morte de cinegrafista em ato no Rio
  18. Folha de S. Paulo Lei antiterrorismo pode dar pena de até 40 anos a manifestantes
  19. Folha de S. Paulo PROPOSTA DE LEI ANTITERRORISMO
  20. Congresso em Foco Senado segura votação da lei antiterrorismo
  21. Folha de S. Paulo Ministro propõe política de proteção para jornalistas
  22. G1 Dilma diz que morte de cinegrafista 'revolta' e manda PF ajudar a apurar
  23. Jornal da Globo Santiago Andrade é homenageado por colegas de profissão pelo país
  24. UOL "Jornal Nacional" faz homenagem a cinegrafista da Band morto
  25. Jornal Nacional Editorial da Rede Globo sobre a morte de cinegrafista
  26. Band.com.br Nota oficial sobre a morte de Santiago Andrade
  27. Folha de S. Paulo Equipes de TV cobram condições para trabalhar
  28. Band Santiago Andrade (14 de dezembro de 2014). «Os serial killers e crimes que chocaram o país em 2014». Veja. Consultado em 16 de agosto de 2019. Cópia arquivada em 1 de novembro de 2017 
  29. VEJA “Os anjos ganharam um pai”, escreve filha de cinegrafista

Ligações externasEditar

 
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