Abrir menu principal

Teresa Soares de Ribadouro

Senhora de Sousa

Primeiros anosEditar

Teresa era filha do magnate Soeiro Viegas de Ribadouro, filho mais novo de Egas Moniz, o Aio, e da sua sua esposa Sancha Bermudes de Trava, sobrinha do primeiro rei de Portugal, Afonso Henriques. Estava, portanto, estreitamente aparentada à família real portuguesa[3]. Herdou do pai, enquanto tenente de Lamego, muitas honras nesta região[4].

CasamentoEditar

Teresa Soares terá desposado, em data incerta, o poderoso magnate Gonçalo Mendes II de Sousa. É provável que tenham casado em data anterior a 1211.

O conflito sucessório de 1211ː divergência nobiliárquicaEditar

Companheiro de armas e mordomo de Sancho I, o marido de Teresa fora, juntamente com o irmão dela. Lourenço Soares de Ribadouro, e ainda Gonçalo Soares, Pedro Afonso de Ribadouro, e Martim Fernandes de Riba de Vizela, executor testamentário daquele rei. Teria de fazer valer os direitos do rei no caso de o seu testamento não se cumprisse como o mesmo havia estipulado. O infante não concordou com o testamento deixado pelo pai, no qual teria de ceder terras às suas irmãs, equiparadas a ele em título, e recusou cumpri-lo.

Desta forma, os primeiros anos do reinado do sucessor, Afonso II de Portugal, foram marcados por violentos conflitos internos entre o rei e as suas irmãs Mafalda, Teresa e Santa Sancha de Portugal, a quem Sancho legara em testamento, sob o título de rainhas, a posse dos castelos de Montemor-o-Velho, Seia e Alenquer, com as respectivas vilas, termos, alcaidarias e rendimentos. Ora, Afonso, tentando evitar a supremacia da influência dos nobres no seu governo, pretendia centralizar o seu poder, mas para isso incorria contra as irmãs e em último caso contra o testamento paterno, do qual Gonçalo ficara encarregue de defender. Este, como executor testamentário, e talvez por ter sido um grande companheiro do rei, foi o que mais agiu em defesa das últimas vontades de Sancho, empenhando-se em fazê-las cumprir e jurá-las solenemente[5]. Assim é perfeitamente compreensível que Gonçalo tivesse defendido intensamente a posição das infantas, sobretudo nas terras onde dominava como tenente: Montemor-o-Novo, Sesimbra, Lisboa, Sintra, Torres Vedras, Abrantes e Óbidos, além das já referidas, inaugurando um período no qual os Sousas, firmes apoiantes da realeza portuguesa, se lhe opunham pela primeira vez.

Alguns dos cinco grandes nobres citados juntaram-se a ele na defesa da posição das três rainhas de Portugal. Contudo, alguns permaneceram do lado do rei: sabe-se que Lourenço Soares, irmão de Teresa, se terá mantido do lado do novo rei, sendo esta posição também compreensível dado o estreito vínculo que unia a Casa de Ribadouro à Casa Real: Afonso I de Portugal fora pupilo de Egas Moniz, o Aio; e mais tarde várias damas daquela família haviam educado infantes (como o caso de Urraca Viegas de Ribadouro, tia de Lourenço, que educara a Rainha Mafalda).

A posição de Gonçalo teve consequências imediatasː foi retirado do cargo de mordomo, e a sua hegemonia na corte viu também um fim, sendo afastado. Na mordomia é substituído por Martim Fernandes, um dos executores testamenteiros que, como se pode depreender, terá ficado do lado do rei, como Lourenço Soares. Despeitado, e talvez até então receoso de se opor ao rei, Gonçalo encontrou neste ato a justificação para se assumir abertamente como dedicado defensor dos direitos das infantas irmãs do rei, e como acérrimo inimigo da política centralizadora de Afonso II[6].

No ano seguinte, em 1212, Afonso II intimou as irmãs para que que lhe fizessem restituição das terras herdadas. Em respostas, as três infantas-rainhas, Teresa, Sancha e Mafalda, recolheram-se ao fortíssimo e quase inexpugnável castelo de Montemor-o-Velho, que era da primeira e estava guardado por Gonçalo. As tropas reais, sob comando de Martim Anes de Riba de Vizela, combateram as hostes das infantas, junto aos pântanos próximos do castelo[7].

Este conflito seria resolvido somente com intervenção do Papa Inocêncio III; o rei indemnizaria as infantas com uma soma considerável de dinheiro, e a guarnição dos castelos foi confiada a cavaleiros templários, mas era o rei que exercia as funções soberanas sobre as terras e não as infantas. Porém os Sousas (e com eles Teresa) seriam renegados durante todo o reinado, e assim sendo saíram de Portugal, refugiando-se em outras cortes peninsulares.[8] Gonçalo nunca chegaria a gozar de influência na corte de Afonso II.

Problemas matrimoniaisEditar

Desconhecendo-se as causas, mas havendo uma probabilidade de se dever às posições opostas do irmão e do marido, Teresa começou a enfrentar problemas no seu matrimónio, a tal ponto que, ainda durante o reinado de Afonso II, Gonçalo terá duvidado da sua fidelidade: magoada pela desconfiança do marido, Teresa sujeitou-se voluntariamente a uma prova caldária, na presença da pessoa do rei, da qual felizmente saiu ilesa. Porém tal prova não a perdoou ao marido: apesar de este desejar a reconciliação, esta virou-lhe as costas, e nunca mais lhe quis falar e muito menos ver. Permaneceram separados durante o resto da sua vida, tendo Teresa entrado no Mosteiro de Arouca[4].

O florescer da corte sousãEditar

 
Trovadores, representados no Cancioneiro da Ajuda.

RegressoEditar

A morte prematura de Afonso II em 1223 permitiu o regresso da família de Gonçalo, aproveitando a menoridade de Sancho II de Portugal para readquirirem influência. De facto, no assento da demanda entre as infantas e a coroa, estabelecida em 1223, reinando já Sancho II, e com a qual afirmava a infanta-rainha Mafalda que o castelo de Montemor poderia ser entregue a oito fidalgos, entre eles Gonçalo Mendes. Este no entretanto herdara várias tenências do cunhado, Lourenço Soares de Ribadouro[6][7], sobretudo na região da Beira.

O patrocínio da culturaEditar

A família de Sousa seria a maior patrocinadora da trovadorismo, e o próprio Gonçalo estava ligado a variados trovadoresː o seu irmão, Garcia Mendes II, os sobrinhos Gonçalo Garcia e Fernão Garcia, e um seu genro, Afonso Lopes de Baião. O trovador D. Abril confirma uma doação de Gonçalo Mendes II, que ainda arma cavaleiro Gonçalo Gomes de Briteiros, irmão do trovador Rui Gomes de Briteiros[9].

O ambiente geralmente régio em que se centrava esta atividade deparava-se em Portugal com um ambiente mais senhorial, que era o que de facto recebia e fazia florescer o trovadorismo, na língua vernácula (galego-português), em oposição à preferência da cúria régia pelo latim tradicional que continuava a manifestar-se em documentos desta proveniência[9].

Viuvez e morteEditar

O seu marido, de quem se separara havia vários anos, acabou por falecer, a 25 de abril de 1243[1]. Sabe-se que Teresa sobreviveu ao marido pois conhecem-se vários atos enquanto senhora e herdeira do seu esposoː revelou-se, como viria a ser também a sua filha Maria Gonçalves de Sousa, uma grande usurpadora de bens fundiários[10] atuando sobretudo perto de Travassos, a sua zona de herança[10]. Um caso de destaque é o de Lavandeira, perto da honra que Teresa herdara, mas também existiam relatos de outros casos semelhantes em povoações vizinhasː esta pedira um empréstimo de um casal pertencente à igreja de Santa Tecla, pagando 26 maravedis por ele, mas não o voltou a devolver quando assim fora instada pelo pároco[10]. Desta forma Teresa usurpou também o tributo da vila destinado ao rei de Portugal[10].

Terá falecido em data incerta, posterior de 1243, deixando os seus bens às filhas[10].

Casamento e descendênciaEditar

Teresa Soares desposou Gonçalo Mendes II de Sousa (c.1170 - 25 de abril de 1243), de quem se separou entre 1211 e 1223. O casal teve a seguinte descendênciaː

Referências

  1. a b Sottomayor-Pizarro 1997, p. 211, vol.1.
  2. Mattoso 1981, p. 194-195.
  3. Sottomayor-Pizarro 1997.
  4. a b GEPB 1935-57, p. 339, vol.29.
  5. GEPB 1935-57 vol.17, p. 889.
  6. a b Pizarro 1997.
  7. a b GEPB 1935-57 vol.17, p. 889.
  8. Há várias referências, neste período, a membros da família em outras cortesː Garcia Mendes II, o irmão de Gonçalo, ter-se-ia refugiado em Leão ou na Galiza; há notícias também do sobrinho, Gonçalo Garcia, na corte aragonesa.
  9. a b Oliveira 2001.
  10. a b c d e Krus 1994, p. 24-25.
  11. Pizarro 1997, p. 212.
  12. Ventura 1992.

BibliografiaEditar

  • D. António Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Atlântida-Livraria Editora, Lda, 2ª Edição, Coimbra, 1946, Tomo XII-P-pg. 147
  • Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira - 50 vols. , Vários, Editorial Enciclopédia, Lisboa. vol. 16-pg. 887.
  • Krus, Luís (1994). «O Rei herdeiro dos Condes: D. Dinis e a herança dos Sousas». Patrimonia. pp. 59–99 
  • Mattoso, José (1985). Identificação de um País. I. Lisboa: Editorial Estampa 
  • Oliveira, António Resende de (2001). O trovador galego-português e o seu mundo. I. Lisboa: Editorial Notícias. ISBN 972-46-1286-4 
  • Sottomayor-Pizarro, José Augusto (1997). Linhagens Medievais Portuguesas: Genealogias e Estratégias (1279-1325). I. Porto: Universidade do Porto 
  • Manuel José da Costa Felgueiras Gayo, Nobiliário das Famílias de Portugal, Carvalhos de Basto, 2ª Edição, Braga, 1989. vol. X-pg. 322 (Sousas).
  • Ventura, Leontina (1992). A nobreza de corte de Afonso III. II. Coimbra: Universidade de Coimbra