Álvaro Gonçalves de Ataíde, 1.º Conde de Atouguia

Álvaro Gonçalves de Ataíde (c. 1385 - 14 de fevereiro de 1452[1]), 1.º conde de Atouguia, foi um fidalgo e militar português do século XV.

Álvaro Gonçalves de Ataíde
1.º Conde de Atouguia
Armas do chefe da linhagem dos Ataídes (Livro do Armeiro-mor, de 1509)
Nascimento c. 1385
Morte 1452
Ocupação Fidalgo, Militar
Pai Martim Gonçalves de Ataíde, alcaide-mór de Chaves
Mãe D. Mécia Vasques Coutinho

Em 1450, era mencionado em documentos como "rico-homem, membro do Conselho Real, escrivão da puridade e coudel-mor do Reino[2]".

Foi ainda alcaide dos castelos de Atouguia, Vinhais e Monforte de Rio Livre, além do de Coimbra[2].

Terá sido um dos primeiros vinte e sete cavaleiros a receber a Ordem da Torre e Espada[3][4].

BiografiaEditar

Era filho de Martim Gonçalves de Ataíde (falecido em Espanha, cerca de 1392[2]), alcaide-mór de Chaves, e de D. Mécia Vasques Coutinho, aia dos Infantes da Ínclita Geração, filhos de D. João I.

O seu pai (descrito em fontes da época como sendo "de uma mansidão misturada com muita prudência e conversação graciosa[2]") seguira o partido de Castela na crise de 1383 - 1385, o que levou a que seus bens (incluindo o senhorio de Gouveia) fossem confiscados em agosto de 1385[5]. Em abril de 1386, depois de 4 meses de cerco, entregou a D. João I o castelo de Chaves e partiu para o exílio em Espanha, onde viria a falecer[5].

Após a morte de Martim Gonçalves, Mécia Vasques - que era irmã do vencedor de Trancoso, Gonçalo Vasques Coutinho - foi autorizada por D. João I a regressar a Portugal, juntamente com toda a família, e foi nomeada aia dos Infantes. Os filhos também ingressaram no serviço da corte e anos mais tarde, em 1415, Álvaro Gonçalves de Ataíde teve participação destacada na tomada de Ceuta, ao lado do seu irmão Vasco Fernandes de Ataíde, que faleceu durante o assalto, sendo o único fidalgo português a perder a vida na ação contra a praça[2].

Em 1416, foi nomeado - juntamente com seu cunhado D. Fernando de Castro (f. 1440), senhor do Paúl do Boquilobo e filho segundogênito do senhor do Cadaval - para representar Portugal no Concílio de Constança, que durou até 1418. Depois partiu para o Sacro Império onde, em nome do Infante D. Pedro, veio a receber a marca de Treviso, doada pelo rei da Hungria, Sigismundo (de quem Álvaro Gonçalves fora companheiro de armas, na Bósnia[2]), tendo ficado por um tempo administrador da mesma. De seguida, rumou para a Terra Santa e, já de regresso ao reino, ainda participou na ação de socorro a Ceuta, em 1419[2].

Depois deste ano, Álvaro Gonçalves só volta a ser mencionado em documentos em 1428, quando aparece no rol das testemunhas dos casamentos dos Infantes D. Pedro e D. Duarte, o que abre a possibilidade de que tenha voltado a viajar pela Europa entre as duas datas, nomeadamente para acompanhar o célebre périplo do Infante D. Pedro.[6]

Em 1429, foi enviado a Castela com Nuno Martins da Silveira, numa ação para conciliação do monarca castelhano com os reis de Navarra e Aragão e, na sequência dessa missão, foi testemunha, em nome do Infante D. Pedro, do Tratado de Paz de 1432, selado entre Portugal e Castela[2]. Em documento coevo é referido como sendo homem de quem "El Rey de Portugal mucho fiaba".[7]

Em 1445 armou uma das 26 caravelas e naus[2] que se destinavam à Guiné, da qual nomeou capitão João de Castilha, e segundo a obra «Nobreza de Portugal» (tomo II, página 331), "...esteve em Palma e na Gomeira, onde realizou proezas com ajuda de dois capitães, Bruco e Piste, que ali residiam e se tornaram serviçais do Infante".

Foi figura política proeminente durante os governos do Regente D. Pedro, Duque de Coimbra, de quem foi governador da casa (com 8300 libras de moradia[8]), e de D. Afonso V, de quem foi aio.

Com ligação privilegiada a ambos, esteve em posição central na corte, servindo por vezes de agente mediador nos conflitos que despontavam entre o herdeiro da coroa e o tio. Foi o Duque D. Pedro quem lhe concedeu a alcaidaria de Coimbra, sede militar do seu ducado. Entretanto, como aio de D. Afonso V e com posição privilegiada junto do monarca, que muito valorizava o seu apoio político[2], dele recebeu o título de Conde de Atouguia (em 17 dezembro de 1448), que incluía não só o senhorio da vila - com seu castelo, termo e toda a jurisdição - como o padroado da respectiva Igreja. Depois de ser conde, e tal como era a regra na época, abandonou o patronímico e usou também o título de Dom, passando a ser referido nos documentos como D. Álvaro de Ataíde[1]. Por carta de D. Afonso V, de 29.09.1449, foi-lhe também confirmada a coutada da mata e terra da Azenha, no termo de Benavente[9].

Em 1448 - 1449, após constatar que não conseguia convencer o Infante D. Pedro a aceitar a passagem do Duque de Bragança pelo seu território[2], acabou por alinhar pelo partido do Rei contra o Duque de Coimbra, no conflito que terminou na Batalha de Alfarrobeira (20 de Maio de 1449) e nesta participou, juntamente com seu filho D. Martinho, ao lado do monarca.

Faleceu em fevereiro de 1452, sendo sepultado na Igreja de São Leonardo, na Atouguia da Baleia; o epitáfio da sepultura, mandada construir por sua mãe, exalta os principais marcos da carreira do conde, nomeadamente os guerreiros (participação na tomada de Ceuta e nas guerras do Imperador Sigismundo) e os políticos (peregrinação à Terra Santa, participação no Concílio de Constança e nomeação para aio de D. Afonso V).[10]

Casamento e descendênciaEditar

Casou em 1412[5] com Dona Guiomar de Castro (? - c. 1469[1]), que foi aia da Infanta Dona Leonor, depois imperatriz da Alemanha, e era filha de D. Pedro de Castro, senhor de Cadaval, e sua mulher D. Leonor Teles de Menezes. Depois de viúva, a condessa D. Guiomar recebeu da coroa uma tença anual de 60 mil reais brancos.[11]

Do seu casamento, teve o 1.º conde de Atouguia os seguintes filhos[2]:

  • D. Vasco de Ataíde (n. ? - f. 1483), Prior do Crato, sem geração;
  • D. Joana de Castro, que casou c. 1442[2] com D. Fernando Coutinho, 4.º marechal de Portugal, com geração, nomeadamente nos condes de Redondo;
  • D. Filipa de Castro, casada com D. João de Noronha, alcaide-mor de Óbidos, com geração;
  • D. Leonor de Menezes, que casou com Gonçalo de Albuquerque, 3.º senhor de Vila Verde dos Francos (recebendo da coroa um atença anual de 20 mil reais brancos, a partir de 05.04.1451[14]), com geração, nomeadamente o famoso governador da Índia Afonso de Albuquerque, que foi um dos filhos deste casamento.

Fora do casamento, teve um filho ilegítimo:

O seu filho D. Martinho de Ataíde foi assim o 2.º conde de Atouguia [15], sucedendo de imediato no título[1], em 1452.

Referências

  1. a b c d Freire, Anselmo Braamcamp (1921). Brasões da Sala de Sintra, Livro Terceiro. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra. p. 274 - 275. Consultado em 11 de setembro de 2019 
  2. a b c d e f g h i j k l m n Campos, Nuno Luís de Vila-Santa Braga (2013). A Casa de Atouguia, os Últimos Avis e o Império. Dinâmicas entrecruzadas na carreira de D. Luís de Ataíde (1516-1581). Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa. p. 38, 47, 40, 51 (n. 223), 41, 41, 45, 48, 48, 49, 50, 441, 56 (n. 268), 56 (n. 270). Consultado em 9 de setembro de 2019 
  3. Sousa, António Caetano, História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Tomo III, pág. 7
  4. A Torre e Espada para o piloto Nascimento Costa, por António do Valle-Domingues, A Voz, 18 de Março de 1961
  5. a b c Freire, Anselmo Braamcamp (1921). Brasões da Sala de Sintra, Livro Primeiro. Coimbra: Livraria da Universidade. p. 77, 80, 418. Consultado em 19 de setembro de 2019 
  6. Campos, Nuno Luís de Vila-Santa Braga, op. cit., p. 41
  7. Campos, Nuno Luís de Vila-Santa Braga, op. cit., p. 42
  8. Campos, Nuno Luís de Vila-Santa Braga op. cit., p. 39
  9. «Carta de confirmação de coutada de D. Afonso V a D. Álvaro de Ataíde, conde de Atouguia e conselheiro régio, da mata e terra de Azenha, termo de Benavente. - Arquivo Nacional da Torre do Tombo - DigitArq». digitarq.arquivos.pt. Consultado em 29 de novembro de 2019 
  10. Campos, Nuno Luís de Vila-Santa Braga, op. cit., p. 51
  11. «Carta de doação de vitalícia de D. Afonso V à condessa Dona Guiomar, por morte de seu marido o conde de Atouguia, uma tença anual, de 60.000 reais brancos, quantia que o dito conde usufruía . - Arquivo Nacional da Torre do Tombo - DigitArq». digitarq.arquivos.pt. Consultado em 26 de novembro de 2019 
  12. Pelúcia, Alexandra (2007). Martim Afonso de Sousa e a sua linhagem: a elite dirigente do Império Português nos reinados de D. João III e D. Sebastião. Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa. p. 70. Consultado em 10 de setembro de 2019 
  13. «Carta de confirmação de D. Afonso V contrato de casamento entre Mécia de Castro, filha do conde de Atouguia e Fernão de Sousa, fidalgo da casa do duque de Bragança. - Arquivo Nacional da Torre do Tombo - DigitArq». digitarq.arquivos.pt. Consultado em 26 de novembro de 2019 
  14. «Carta de doação de D. Afonso V a Dona Leonor de Meneses, filha do conde de Atouguia...uma tença anual de 20.000 reais brancos, até prefazer 2.000 coroas de bom ouro de justo peso do cunho da moeda do rei da França, que lhe havia sido concedida por dote de casamento, a partir de Janeiro de 1451. - Arquivo Nacional da Torre do Tombo - DigitArq». digitarq.arquivos.pt. Consultado em 26 de novembro de 2019 
  15. Atouguia (D. Álvaro Gonçalves de Ataíde, 1.º conde de), Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume I, pág. 851, Edição em papel © 1904-1915 João Romano Torres - Editor, Edição electrónica © 2000-2012 Manuel Amaral

Ligações externasEditar


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