Quinta de Barbosa

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A atual torre de Barbosa, situada na antiga honra e quinta do mesmo nome, é provavelmente um dos mais antigos testemunhos de arquitetura militar medieval de Portugal. A tradição tem apontado o ano de 866 como o da construção de uma primitiva estrutura militar neste local, na sequência da doação do lugar de Bordalo, feita por Afonso III das Astúrias para o conde D. Hermenegildo. No século XII,no reinado de D. Afonso Henriques, a Terra de Penafiel esteve na posse de D. Mem Moniz de Ribadouro (irmão de D. Egas Moniz, o aio), nobre a que se atribui a construção de um paço fortificado no local. Por testamento, a propriedade passou a sua filha, D. Teresa Mendes e, por casamento desta, para a mão de D. Sancho Nunes de Barbosa, o primeiro nobre a usar este nome em Portugal e cuja existência se deve a alteração do topónimo.

O aspecto atual da torre medieval data de meados do século XIV e, posteriormente, de duas reformas levadas a cabo nos reinados de D. João I e de D. Manuel. O conjunto edificado no território da honra - a torre, a casa, a antiga casa da Câmara, a cadeia, o pelourinho e a capela do Menino do Deus - conheceu assim várias evoluções construtivas ao longo dos séculos, tendo passado de torre militar a casa nobre rural, e desempenhado funções defensivas, administrativas, jurisdicionais e religiosas[1].

Neste período desde a sua fundação na primeira metade do século XII até a primeira metade do século XIV a torre e casa (de Barbosa) terá permanecido na linhagem da família de Mem Moniz, perdendo-se porém o rasto dos proprietários durante a segunda metade desse século.

A honra - propriedade independente na qual se exerciam poderes jurisdicionais e administrativos[1] - surge depois na posse de D. Inês de Sousa [2](nascida cerca de 1385 e falecida entre 1449 e 1451), filha de Martim Afonso de Sousa, 2º senhor de Mortágua, denominado "o da Batalha Real" e de sua mulher e prima, D. Maria de Sousa ou de Briteiros, esta por sua vez neta de Gonçalo Anes de Briteiros. Estes Briteiros eram descendentes por várias linhas dos primitivos senhores da honra de Barbosa. D. Inês de Sousa foi casada com Pedro Peixoto, alcaide de Sabugal e senhor de Gouveia de Riba Tâmega.

Este Pedro Peixoto vendeu o senhorio de Gouveia de Riba Tâmega por 140.000 reais de prata, após licença real, a Fernão Gonçalves de Miranda, do Conselho de D. Afonso V e marido de D. Branca de Sousa (filha de Afonso Vasques de Sousa, "o Cavaleiro" e assim prima co-irmã da referida D. Inês de Sousa). Fernão Gonçalves de Miranda comprou também a honra de Barbosa[2] à mulher deste Pedro Peixoto, a referida D. Inês de Sousa.

Em 1462 há assim novos registos, onde a Honra surge na propriedade do referido Fernão Gonçalves de Miranda, casado com D. Branca de Sousa.

Os herdeiros deste casamento venderam os seus domínios de Gouveia e Barbosa, no ano de 1473[2], a Fernão de Sousa, que veio assim a ser o 1º senhor de Gouveia (cujo senhorio continuou nos seus descendentes na linha primogênita, que mais tarde foram condes de Redondo[2]) na família dos Sousa Chichorro - e também senhor da honra de Barbosa. Fernão de Sousa era filho de Martim Afonso de Sousa, e neto do outro Martim Afonso de Sousa, 2º senhor de Mortágua, "o da Batalha Real", acima referido. Era por isso sobrinho de D. Inês de Sousa e primo como sobrinho de D. Branca de Sousa.

Assim, ao longo do século XV a honra de Barbosa esteve na posse de três membros da família Sousa, começando em D. Inês de Sousa, cujo bisavô Gonçalo Anes de Briteiros tinha laços de ascendência familiar com os primitivos senhores da honra.

Nos primeiros anos do século XVI, a posse desta propriedade está já no domínio de D. Joana de Castro[1], filha do casamento do referido Fernão de Sousa com D. Mécia de Castro (filha do 1º conde de Atouguia). Uma sentença do Rei D. Manuel I, datada de 10 de janeiro de 1503, ordena esta D. Joana de Castro a cessar abusos que teriam sido por ela praticados contra os residentes da Honra de Ataíde[3], em Santa Cruz de Riba Tâmega e da Honra de Barbosa, em Penafiel de Sousa, de que D. Joana era proprietária[4].

D. Joana de Castro teve vários filhos com o 31º bispo do Porto, D. João de Azevedo, destacando-se entre estes D. Manuel de Azevedo (cerca de 1486 - 16 de janeiro de 1578)[5], que foi sucessor no senhorio da Honra de Barbosa, por carta régia de D. João III, de 29 de maio de 1543[6]. Foi ainda comendatário dos mosteiros de Bustelo e Alpendurada e pai de pelo menos 12 filhos, entre os quais o mártir jesuíta, Beato Inácio de Azevedo e o capitão-geral de Ceilão e vice-rei da Índia portuguesa, D. Jerónimo de Azevedo.

Partindo do relato precedente, a conclusão mais plausível é ter sido o seguinte o esquema de transmissão do senhorio da honra de Barbosa, por sucessão em linha feminina, desde o século XII até o século XVI: da linhagem de Mem Moniz para a família Briteiros, depois para a família Sousa e finalmente para a família Ataíde Azevedo Malafaia[1].

D. Manuel de Azevedo, já depois de confirmado no senhorio da honra, fez testamento, outorgado em 17 de setembro de 1559[5], em que deixou a sua herança, incluindo os domínios de Barbosa e Ataíde, cujas quintas davam na época uma renda anual de 100 mil reais cada uma, a um outro dos seus filhos, D. Francisco de Azevedo e Ataíde (c. 1554 - 11.05.1619)[5].

Os descendentes deste último - que duas gerações mais tarde, na sequência de uma aliança matrimonial, viriam ainda a ter a representação de um ramo da varonia da família dos Brito e Nogueira[7], senhores dos morgados de Santo Estevão e de São Lourenço ou Santa Ana[8], e também a de um ramo dos Teles da Silva, alcaides de Campo Maior e Ouguela - continuaram na posse do senhorio da honra de Barbosa até 1834 e da propriedade da quinta e torre de Barbosa até a atualidade.

Exerceram assim vastos poderes judiciais e administrativos na região abrangida pela Honra de Barbosa (uma área de 6 km quadrados, nos anos de 1527 e cerca de 1700, segundo o historiador António Manuel Hespanha[9][10]) desde meados do século XVI até meados do século XIX, conforme documentos no arquivo da casa, que relatam essas atividades jurisdicionais até à data da sua extinção, com a abolição final dos senhorios em Portugal, em 1834[6].

ReferênciasEditar

  1. a b c d Garcês, Patrícia Maria Rocha (2016). Correia, Jorge. «A Honra de Barbosa: para uma retrospeção construtiva do seu Solar». Biblioteca da Universidade do Minho, Dissertações de Mestrado.: V, 3, 36, 37. Consultado em 15 de novembro de 2018 
  2. a b c d Soveral, Manuel Abranches de (2000). «Origem dos Souza ditos do Prado». Consultado em 18 de agosto de 2019 
  3. Carvalho da Costa, António (1706). «Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso Reyno de Portugal» (PDF). Lisboa: Valentim da Costa Deslandes. p. 130. Consultado em 16 de novembro de 2018 
  4. «Gisa – Documento/Processo – [Carta régia de D. Manuel I, em que delibera acerca de uma contenda entre os povos da comarca de Entre Douro e Minho e D. Joana]». gisaweb.cm-porto.pt. Arquivo Municipal do Porto. Consultado em 16 de novembro de 2018 
  5. a b c Cardoso, Augusto-Pedro Lopes (2018). «Um abade viajante do séc. XVI. Dom Manuel de Azevedo, senhor da honra de Barbosa». Armas e Troféus, separata, IX série, Tomo XX, 2018: 455, 444 
  6. a b Cardoso, Augusto-Pedro Lopes (2005). A Honra de Barbosa - subsídios para a sua História Institucional (séc. XII - 1834). Porto: Livraria Esquina. p. 30, 69 - 74 
  7. «Autos de conta da capela de Lopo de Brito e sua mulher, administrador Dom Miguel Vaz Guedes de Ataíde Azevedo Brito Malafaia». Arquivo Nacional Torre do Tombo. 19 de outubro de 2011. Consultado em 25 de agosto de 2019 
  8. «Morgado de Santa Ana». Arquivo Nacional Torre do Tombo. 29 de abril de 2011. Consultado em 18 de agosto de 2019 
  9. Cardoso, Augusto-Pedro Lopes (1998). «Honras e Coutos: o contributo do Livro do Milhão - A Honra de Barbosa e o Couto de Bustelo». Cadernos Vianenses, 23, 1998, 113 - 148: 14 
  10. Hespanha, A. M. (1986). As Vésperas do Leviathan. Instituições e Poder Político em Portugal - Séc. XVII. II. Lisboa: Edição do Autor. p. 263