Argumentum ad hominem

Argumentum ad hominem (latim, argumento contra a pessoa) é uma falácia identificada quando alguém procura negar uma proposição com uma crítica ao seu autor, e não ao seu conteúdo.[1][2][3]

A falácia ocorre porque conclui sobre o valor da proposição sem examinar seu conteúdo. De acordo com Stephen Downes:

"Ataca-se pessoa que apresentou um argumento e não o argumento que apresentou. A falácia ad hominem assume muitas formas. Ataca, por exemplo, o carácter, a nacionalidade, a raça ou a religião da pessoa. Em outros casos, a falácia sugere que a pessoa, por ter algo a ganhar com o argumento, é movida pelo interesse. A pessoa pode ainda ser atacada por associação ou pelas suas companhias. [Todavia] o carácter ou as circunstâncias da pessoa nada tem a ver com a verdade ou falsidade da proposição defendida."[4]

O argumento contra a pessoa é uma das falácias caracterizadas pelo elemento da irrelevância, por concluir sobre o valor de uma proposição através da introdução, dentro do contexto da discussão, de um elemento que não tem relevância para isso, que neste caso é um juízo sobre o autor da proposição.

Pode ser agrupado também entre as falácias que usam o estratagema do desvio de atenção, ao levar o foco da discussão para um elemento externo a ela, que são as considerações pessoais sobre o autor da proposição.

Estrutura lógicaEditar

  • O autor X afirma a proposição P;
  • Há alguma característica considerada negativa em X;
  • Logo, a proposição P é falsa.

TiposEditar

Pode-se distinguir entre alguns tipos do argumento contra a pessoa, que lançam mão de estratégias ligeiramente diferentes:

  • Argumento ad hominem abusivo[5]: é o ataque direto à pessoa, colocando seu caráter em dúvida e, portanto, a validade de sua argumentação.
A preocupação é em sublinhar e chamar a atenção para as características pessoais do debatedor no lugar de se analisar seus argumentos.
Exemplo:
“As afirmações de Richard Nixon a respeito da política de relações externas em relação à China não são confiáveis pois ele foi forçado a abdicar durante o escândalo de Watergate.”
O mesmo vale para outros casos semelhantes em que se sublinham as características pessoais e as experiências subjetivas do debatedor no lugar de se tentar refutar seus argumentos e apresentar contraprovas às evidências que ele apresentou.
  • Argumento ad hominem circunstancial[5] (ad hominem circustantiae): coloca em foco a parcialidade do adversário, sugerindo que o último tem algo a ganhar com a defesa daquele ponto de vista.[carece de fontes?] Exemplo:
A: Fumar não causa nenhum tipo de mal.
B: É dono de uma grande empresa de cigarros, é claro que dirá isso.
 Ver artigo principal: Bulverismo
  • Tu quoque (falácia do apelo à hipocrisia): o adversário é acusado de praticar algo muito semelhante ao que ele critica. Tu quoque significa em latim "você também". É um argumento muito comum e eficaz, pois tende a colocar o oponente na defensiva.[5] Exemplo:
A: As pessoas devem aprender a viver com o que ganham.
B: Mas você está completamente endividado e não faz qualquer esforço para mudar isso.
  • Falácia de associação (culpa por associação): Neste caso, a crítica não é dirigida diretamente ao autor da proposição, mas a uma terceira pessoa, que tem uma imagem negativa, à qual a tese que o autor original está defendendo é associada.

Um exemplo comum dessa falácia é a associação à figura de Hitler, apelidada de Reductio ad Hitlerum.

ExemplosEditar

Clássicos ataques à figura de Charles DarwinEditar

Em 2015, um artigo intitulado Experiential Thinking in Creationism - A Textual Analysis, publicado na Plos One, demostrou claramente um acervo de textos criacionistas que apelam pela demonização de cientistas evolucionistas como Charles Darwin na tentativa de invalidar as suas proposições científicas[6] :

"A teoria evolutiva foi associada a questões morais ao demonizar cientistas e ligar a teoria evolutiva às atrocidades (63-93% dos textos amostrados). As reações evolutivas das reivindicações criacionistas também continham depoimentos (93% dos textos amostrados) e referiam-se a implicações morais (80% dos textos amostrados), mas apresentavam menor prevalência de pensamento estereotipado (47% dos textos amostrados), viés de confirmação (27% dos textos amostrados ) e pseudodiagnósticos (7% dos textos amostrados). Os aspectos do pensamento experiencial também podem ser interpretados como falácias argumentativas. Os depoimentos lideram, por exemplo, o ad hominem e apelo às autoridades." - Plos One, 2015.

Clássicos ataques à figura de Karl MarxEditar

Embora os três trabalhos de Karl Marx sejam a base para os sociólogos e antropólogos entenderem os sistemas políticos capitalista, comunista e socialista[7], ataques à sua figura [8] pessoal são costumeiramente realizados pelos opositores do sistema comunista que tentam refutar dadas proposições. Uma matéria da revista The Economist relata que demonização de Marx em grande parte do Ocidente é lamentável[9], dada a importância de seus pensamentos para as ciências sociais.

Ver tambémEditar

Referências

  1. Leônidas Hegenberg; Flávio E. Novaes Hegenberg (2009). Argumentar. Editora E-papers. p. 376. ISBN 978-85-7650-224-1.
  2. «Britannica» (em inglês). Britannica.com. Consultado em 3 de maio de 2009 
  3. «Dicionário escolar de filosofia - falácia ad hominem». Defnarede.com. Consultado em 3 de maio de 2009. Arquivado do original em 13 de abril de 2009 
  4. DOWNES, Stephen. «Fugindo do Assunto». Crítica na Rede 
  5. a b c «Galilean library - Introducing Philosophy 16: A Guide to Fallacies» (em inglês). Galilean-library.org. Consultado em 3 de maio de 2009. Arquivado do original em 5 de fevereiro de 2009 
  6. Nieminen, Petteri; Ryökäs, Esko; Mustonen, Anne-Mari (3 de março de 2015). «Experiential Thinking in Creationism—A Textual Analysis». PLOS ONE. 10 (3): e0118314. ISSN 1932-6203. doi:10.1371/journal.pone.0118314 
  7. Mundo Esatranho, Redação (2011). «Qual a diferença entre comunismo e socialismo?». Superinteressante. Consultado em 25 de abril de 2020 
  8. McBride, William L. (28 de novembro de 2016). «Evil in the philosophy of Karl Marx». Journal of Chinese Studies (em inglês). 1 (1). 1 páginas. ISSN 2199-868X. doi:10.1186/s40853-016-0003-y 
  9. «What would Marx say?». The Economist. ISSN 0013-0613 


Ligações externasEditar

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