Cáicidas

Cáicidas[1] ou Cais Ailã (em árabe: قيس عيلان‎; romaniz.: Qays ʿAylān) eram uma confederação tribal árabe que se ramificou na seção modarita dos adenanitas. Não pareciam estar unidos na era pré-islâmica, mas no início do Califado Omíada (r. 661–750), suas tribos constituintes tornaram-se algumas das principais facções do califado. As principais delas foram os hauazinidas, ameridas, taquífidas, soleimitas, ganidas, baílas e muaribidas. Muitas delas ou seus clãs migraram da Arábia ao norte da Síria e Mesopotâmia Superior, que por muito tempo foram sua morada. De lá, governaram em nome dos califas ou se rebelaram contra eles. O poder cáicida como um grupo unificado diminuiu com a ascensão do Califado Abássida (r. 750–1258), que não derivou sua força militar só de tribos árabes. Porém, algumas tribos cáicidas continuaram sendo força potente e migraram para o Magrebe (norte da África) e Alandalus (Península Ibérica), onde conquistaram seu próprio poder.

Nome e genealogiaEditar

O nome completo da confederação era Cais Ailã ou Cais ibne Ailã, embora seja comumente referida apenas como Cais; ocasionalmente na poesia árabe, é referida só como Ailã. Seus membros são referidos como cáicidas (pl. al-Qaysĭyūn; sing. Qaysī) e como grupo etno-político, aparecem nas fontes coetâneas como cáicias (al-Qaysīyya). Diferentemente da maioria das tribos árabes, as fontes raramente usam o termo Banu (filhos de) quando se referem aos cáicidas.[2]

Cais é o homônimo e progenitor da confederação, e a genealogia árabe tradicional sustenta que o pai de Cais era certo Ailã. Segundo alguns historiadores medievais como ibne Caldune (m. 1406), "'Ailã" era na verdade o epíteto de Alnas ibne Modar ibne Nizar ibne Maade ibne Adenã. Tanto ibne Caldune como outros historiadores árabes medievais rejeitam a teoria de que Ailã era o pai de Cais. Esses historiadores sustentam teorias variadas sobre as origens do epíteto; entre eles estão: Ailã era o nome do famoso cavalo de Alnas, seu cachorro, seu arco, uma montanha onde se dizia ter nascido, ou um homem que o criou.[2]

Os cáicidas foram uma das duas subdivisões dos modaritas, a outra sendo os quindifidas (também conhecidos como iacitas). Como descendentes dos modaritas, os cáicidas são considerados adenanitas ou "árabes do norte";[3] a tradição árabe atribui a descendência de todas as tribos árabes a Adenã ou Catã, pai dos "árabes do sul". No início do período islâmico, em meados do século VII, os descendentes de cáicidas eram um grupo tão numeroso e tão significativo que seu nome passou a designar a todos os árabes do norte.[4]

RamosEditar

Os cáicidas consistiam em vários ramos, que foram divididos em outras subtribos. As divisões de primeiro nível, ou seja, os filhos de Cais Ailã, eram Caçafa, Sade e Amer.[5]

CaçafaEditar

De Caçafa descenderam as grandes tribos hauazinidas e soleimitas, cujos fundadores foram filhos de Almançor ibne Icrima ibne Caçafa, e os muaribidas, cujo fundador foi filho de Ziade ibne Caçafa.[5] Os hauazidas eram um grande grupo tribal que incluía várias subtribos grandes, dentre os quais os ameridas, cujo progenitor foi Amer ibne Saça ibne Moáuia ibne Baquir ibne Hauazim, e os taquífidas,[6] cujo progenitor foi Caci ibne Munabi ibne Baquir ibne Hauazim.[7] No entanto, as referências aos hauazinidas frequentemente excluíam os ameridas e taquífidas, limitando-se aos ʿujz Hawāzin (a retaguarda dos hauazinidas). Este último incluía as tribos de Banu Juxã, Banu Nácer e Banu Sade, cujos fundadores eram filhos ou netos de Baquir ibne Hauazim.[6] Os soleimidas se dividiam em três divisões principais, Inru Alcais, Harite e Tálaba.[8]

SadeEditar

Os filhos de Sade, Açur e Gatafã, tinham várias sub-tribos. As maiores sub-tribos de Açur foram os ganidas, cujo fundador era filho de Açur, e os Banu Tufaua, que consistiam nos descendentes de três outros filhos de Açur, Tálaba, Amer e Moáuia, que eram meio-irmãos de Gani; foram chamados coletivamente Tufaua em honra a sua mãe. Baila era outra grande sub-tribo de Açur, e seus fundadores eram filhos de certa Baila, que, em momentos diferentes, foi esposa de dois dos filhos de Açur, Malique e Mã; havia muitos clãs Baila, sendo os maiores os Banu Cutaiba e Banu Uail.[9] As maiores sub-tribos dos gatafânidas foram os Banu Dubiã e Banu Abs, cujos fundadores foram filhos de Baguide ibne Raite ibne Gatafã, e os Banu Axja, cujo fundador foi filho de Raite ibne Gatafã. De Banu Dubiã veio os Banu Fazara, cujo fundador era filho de Dubiã, e os Banu Murra, cujo fundador era filho de Aufe ibne Sade ibne Dubiã.[10]

AmerEditar

As duas principais sub-tribos do ramo Amer foram Aduã e Banu Fame, ambas fundadas por filhos de Amer.[5]

Distribuição geográficaEditar

Segundo a lenda árabe, a terra natal original dos cáicidas ficava nas áreas baixas do Tiama, ao longo do Hejaz. Na época de Maomé (ca. 570), os numerosos ramos dos cáicidas haviam se espalhado às áreas sudeste e nordeste de Meca, a região de Medina, outras áreas de Hejaz, terras altas de Négede e Iamama, Barém e partes da Baixa Mesopotâmia, onde governavam os lacmidas. Como outros grupos árabes, numerosas tribos cáicidas migraram para o norte durante e após as conquistas muçulmanas.[11] Se espalharam por toda a Síria e Mesopotâmia, particularmente nas partes norte dessas regiões nas províncias de Quinacerim (ao redor de Alepo) e Diar Modar.[12] No entanto, também estavam presentes nas planícies de Homs, Damasco, Guta e Haurã, nas colinas de Golã, Palestina, Transjordânia (Balca) e cidades de Cufa e Baçorá.[13]

No século XIV, apenas remanescentes dos cáicidas ainda viviam em suas terras ancestrais na Arábia Central. Vários moravam em todo norte da África e ali chegaram numa série de ondas migratórias. Entre eles estavam os soleimidas na Ifríquia e Fez, os Aduã na Ifríquia, os Fazara e Banu Raua na Cirenaica, Tripolitânia e Fezã, os Banu Axja no Magrebe (atuais Argélia e Marrocos), os hilálios (uma sub-tribo dos ameridas) na Ifríquia, Constantina e Anaba e o Banu Juxã no Magrebe Ocidental (atual Marrocos).[13]

HistóriaEditar

Período pré-islâmicoEditar

De acordo com A. Fischer, a história registrada dos cáicidas, como a maioria das tribos árabes, começa com seus combates no Aiã Alárabe (dias de batalha dos árabes) pré-islâmico, ao qual Fischer se refere como o "épico dos árabes". Se envolveram em inúmeras batalhas e disputas, algumas das quais contra tribos não-cáicidas, mas a grande maioria sendo conflitos intra-cáicida.[13] O historiador W. Mongtomery Watt sustenta que, na história do Aiã Alárabe, apenas as tribos cáicidas foram nomeadas, e não a confederação. Consequentemente, não funcionaram como uma unidade na era pré-islâmica.[14] Entre as batalhas Aiã mais conhecidas estava o Iaum Xibe Jabala entre os cáicidas Amer, Abes, Gani, Baila e Bajila de um lado e os cáicidas Dubiã e não-cáicidas tamímidas, lacmidas, quindidas e assadidas do outro. A longa guerra de Dais e Algabra foi travada entre os Abs e Dubiã. Como outras tribos da Arábia Central, faziam parte do Reino de Quinda.[13]

Período islâmico inicialEditar

No começo, os cáicidas eram hostis a Maomé e seus ensinamentos islâmicos, que conflitavam com sua religião pagã. Os gatafânidas e o soleimidas, em particular, estiveram em conflito com os muçulmanos em Medina entre 622 e 629. No entanto, a sub-tribo Axja fez uma aliança com os muçulmanos em 627. Em 630, os soleimidas e Axja abraçaram amplamente o Islã e apoiaram a conquista de Meca por Maomé em 630. Essas tribos lutaram contra seus parentes hauazinidas logo depois. Na época da morte de Maomé em 632, todas as tribos cáicidas provavelmente haviam se convertido ao Islã, mas após sua morte, muitas, se não a maioria, apostataram e lutaram contra os muçulmanos nas Guerras Rida. A tribo mais ativa que lutava contra os muçulmanos era a dos gatafânidas, que tentou várias vezes capturar Meca antes de se juntar ao líder anti-islâmico Tulaia dos assadidas. As tribos árabes pagãs foram finalmente derrotadas na Batalha de Buzaca, após a qual reabraçaram o Islã e se submeteram ao Califado Ortodoxo de Medina.[15]

Após as Guerras Rida, os cáicidas tiveram papel importante na conquista muçulmana da Pérsia e Levante Mutana ibne Harita.[15] Durante o reinado do califa Otomão (r. 644–656), o governador muçulmano da Síria, o futuro Moáuia I, levou vários quilabidas, ucailidas (ambas subtribos dos ameridas) e soleimidas para habitar a Mesopotâmia Superior, norte da Síria e região fronteiriça com o Império Bizantino e Armênia.[16] Os cáicidas lutaram em grande parte ao lado de Ali contra Moáuia na Batalha do Camelo e na Batalha de Sifim em 656 e 657, respectivamente.[15]

Califado OmíadaEditar

Moáuia fundou o Califado Omíada em 661. Entre isso e o colapso dos omíadas em 750, os cáicidas formaram um dos principais componentes políticos e militares do califado. Seu principais antagonistas eram as tribos iamanidas, lideradas pelos cálbidas. Além da competição pelo poder político, militar e econômico, havia o componente étnico que definia a rivalidade cáicida-iamanida; os cáicidas eram "árabes do norte", enquanto os iamanidas eram "árabes do sul". Moáuia e seu filho e sucessor Iázide I confiaram militar e politicamente nos cálbidas para o desgosto dos cáicidas. Quando Iázide e seu sucessor Moáuia II morreram numa sucessão relativamente rápida em 683 e 684, respectivamente, os cáicidas se recusaram a reconhecer a autoridade omíada. Os cálbidas e seus aliados iamanidas selecionaram Maruane I para suceder Moáuia II, enquanto os cáicidas se uniram amplamente à causa rebelde de Abdalá ibne Zubair. Lutando em nome deste último, os cáicidas ameridas soleimidas e gatafânidas sob Daaque ibne Cais Alfiri lutaram contra Maruane e a facção iamanida na Batalha de Marje Raite em 684.[15]

Depois de Marje Raite, os cáicidas ficaram sob a liderança de Zufar ibne Alarite Alquilabi e Umair ibne Hubabe. De suas respectivas fortalezas em Circésio e Ras Alaine, lutaram tenazmente contra os iamanidas e resistiram à autoridade omíada.[15] A maioria das batalhas contra os cálbidas foram travadas no deserto entre a Síria e o Iraque. Umair também enredou os cáicidas contra os taglíbidas, e os dois lados travaram várias batalhas perto dos rios Cabur, Balique e Tigre. Umair foi morto pelos taglíbidas em 689 e Zufar submeteu-se à autoridade omíada sob o califa Abdal Malique em 691 em troca de alta posição na corte. os cáicidas eram fortes partidários dos poderosos governadores Alhajaje ibne Iúçufe dos taquífidas e Cutaiba ibne Muslim dos Baila. Os cáicidas dominaram o governo omíada durante os reinados de Iázide II e Ualide II. Como resultado, os iamanitas se revoltaram e mataram Ualide II, que foi substituído por Iázide III, que dependia inteiramente dos iamanidas. Os cáicidas encontraram um novo patrono no príncipe Maruane II, que removeu Iázide III e mudou a capital de Damasco para Harrã no território cáicida. Eram a principal fonte militar de Maruane na Batalha do Zabe, em 750, na qual Maruane foi morto; logo depois, o Califado Omíada caiu inteiramente perante o Califado Abássida (r. 750–1258). Os cáicidas não foram capazes de se recuperar das enormes perdas que sofreram durante o final do período omíada, e seu papel político, embora presente, não teve consequências significativas durante a era abássida que se seguiu.[17]

Referências

  1. Coelho 1989, p. 75-77.
  2. a b Fischer 1934, p. 652.
  3. Watt 1978, p. 833.
  4. Rentz 1960, p. 544.
  5. a b c ibne Abde Rabii 2011, p. 259–260.
  6. a b Watt 1971, p. 285.
  7. ibne Abde Rabii 2011, p. 261.
  8. Lecker 1997, p. 817.
  9. Caskel 1960, p. 920.
  10. Fück 1965, p. 1023.
  11. Fischer 1934, p. 653.
  12. Fischer 1934, p. 653-654.
  13. a b c d Fischer 1934, p. 654.
  14. Watt 1978, p. 834.
  15. a b c d e Fischer 1934, p. 655.
  16. Kennedy 2004, p. 79.
  17. Fischer 1934, p. 656.

BibliografiaEditar

  • Caskel, W. (1960). «Bahila». In: Lewis, B; Pellat, Ch; Schacht, J. The Encyclopedia of Islam, Volume 1, A-B (2nd ed.). Leida: Brill. 920 páginas. ISBN 90-04-08114-3 
  • Coelho, António Borges (1989). Portugal na Espanha Árabe: História. Lisboa: Editorial Caminho. ISBN 9722104209 
  • Fischer, A. (1934). «Kais-Ailan». In: Houtsma, M. Th.; Wensinck, A. J.; Levi-Provençal, E. The Encyclopædia of Islam: A Dictionary of the Geography, Ethnography and Biography of the Muhammadan Peoples. Leida: E. J. Brill 
  • Fück, J. W. (1965). «Ghatafan». In: Lewis, B; Pellat, Ch; Schacht, J. The Encyclopedia of Islam, Vol. 2, C-G (2nd ed.). Leida: Brill. 1023 páginas. ISBN 90-04-07026-5 
  • ibne Abde Rabii, Amade ibne Maomé (2011). Boullata, Issa J., ed. The Unique Necklace. III = Al-ʿiqd al-farīd. Reading: Garnet Publishing 
  • Lecker, M. (1997). «Sulaym». In: Bosworth, C.E.; van Donzel, E.; Heinrichs, W. P.; Lecomte, G. The Encyclopedia of Islam, Vol. 9, San-Sze. Leida: Brill. p. 817. ISBN 90-04-10422-4 
  • Kennedy, Hugh N. (2004). The Prophet and the Age of the Caliphates: The Islamic Near East from the 6th to the 11th Century (Second ed. Harlow, RU: Pearson Education Ltd. ISBN 0-582-40525-4 
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  • Watt, W. Montgomery (1978). «Kays ʿAylan». In: Lewis, B.; Pellat, Ch.; Schacht, J. The Encyclopedia of Islam, Volume 4 Ira-Kha (2nd ed.). Leida e Nova Iorque: BRILL. ISBN 90-04-07026-5