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Igreja Católica nos Camarões

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Flag of Cameroon.svg
Camarões
Catedral de Nossa Senhora da Vitória, em Yaoundé, capital dos Camarões
Santo padroeiro Santa Maria
Ano 2010[1]
População total 24.994.885
Cristãos ≅ 17.300.000 (69,2%)
Católicos ≅ 9.600.000 (38,4%)
Paróquias 1.141[2]
Presbíteros 2.239[2]
Diáconos permanentes 22[2]
Religiosos 1.746[2]
Religiosas 2.332[2]
Presidente da Conferência Episcopal Samuel Kleda[3]
Núncio apostólico Julio Murat[4]
Códice CM

A Igreja Católica nos Camarões é parte da Igreja Católica universal, em comunhão com a liderança espiritual do Papa, em Roma, e da Santa Sé.

HistóriaEditar

A evangelização foi iniciada nessa da África na segunda metade do século XIX, antes de o território se converter em protetorado alemão em 1884. Os primeiros a iniciar esses trabalhos foram os missionários protestantes que chegaram a Duala em 1843 e, a partir de 1845, fundaram oficialmente as primeiras missões. O primeiro batizado foi André Mbangue, que mais tarde se converteu, e passou a integrar as primeiras missões católicas.[5]

 
Missão católica em Ngovayang, 1929

Dom Heinrich Vieter trouxe os primeiros missionários católicos, alemães, em 25 de outubro de 1880 e, para não os pioneiros protestantes não se sentissem ameaçados, instalou sua missão no interior, junto ao Cabo Toko, à margem do Rio Sanaga. À missão ele deu o nome de Marienberg, o mesmo nome que daria depois em Yaoundé à que fundou, quando Ntsama Atangana doou aos missionários terras onde depois nasceria a capital do futuro país independente, hoje uma república presidencial. Camarões viu grandes trabalhos evangelizadores em seu território, que culminou na ordenação dos primeiros sacerdotes camaroneses em 1935. Em 1951, colocou-se a primeira pedra da catedral de Yaoundé. Em 30 de novembro de 1955, foi consagrado o primeiro bispo camaronês, Paul Etoga.[5]

Os missionários fundaram dezenas de missões e escolas e formaram mais de 200 professores. A estes docentes se uniu o primeiro batizado, André Mbangue. Depois chegariam outras diversas expedições de missionários, de diferentes ordens religiosas, que sempre contaram com colaboradores autóctones. Além das escolas, levantaram também igrejas e dispensários.[5]

Em 5 de julho de 1989, foi assinado um Acordo entre a Santa Sé e a República dos Camarões, pelo que se reconhecia personalidade civil ao Instituto Católico de Yaoundé, como instituição universitária de educação e pesquisa, constituída pela Santa Sé através da Associação das Conferências Episcopais da Região do Centro da África e, portanto, conferia-se selo oficial a seu caráter pontifício e internacional. Em 2008, o novo embaixador na Santa Sé, Antoine Zanga, agradeceu às autoridades camaronesas em nome do Papa Bento XVI por sua atenção ao trabalho eclesial em educação e saúde.[5]

O país foi visitado por papas em três ocasiões: 1985,[6] 1995[7] e 2009.[8]

AtualmenteEditar

A evangelização, iniciada há pouco mais de um século, hoje, segundo os bispos do país, «tem diante de si muito caminho ainda por percorrer, sobretudo para que se converta também em cultura e permita uma total coerência entre vida e fé». Este é o primeiro desafio, não só de Camarões, mas de toda a África.[5] Em 2009 houve um forte desentendimento entre o governo e os bispos camaroneses, após a aprovação de uma lei por parte do parlamento que autorizaria o presidente, Paul Biya, a ratificar o Protocolo que leva a despenalização do aborto na África. Os bispos rechaçaram energicamente a decisão, enviando uma declaração que expressava sua discordância quanto à legalização do aborto. "A Igreja Católica aprova a intenção de proteger à mulher das injustiças sociais e de qualquer forma de abuso, mas o artigo 14 do Protocolo de Maputo incide realmente na vida que está por nascer, fazendo dos direitos reprodutivos um abuso à mulher. Em outras palavras, este artigo leva à legalização do aborto na África e nós o condenamos". Eles também lembraram que "esta lei é contrária à lei camaronesa que se opõe ao aborto e a sua legalização". Além do mais, acrescentaram que "os fiéis do nosso país, assim como os autênticos africanos, consideram sagrada a vida e condenam tudo o que a ameaça. Para eles o aborto é um crime".[9]

 
Celebração da Missa nos Camarões

O norte do país tem se tornado alvo frequente do grupo terrorista Boko Haram, oriundo da Nigéria, que continua a ganhar força. Agora controlando várias das principais cidades nigerianas, criou um califado com uma rigorosa aplicação da lei radical islâmica, a sharia. No país vizinho, os cristãos vêm sendo perseguidos. Os homens são capturados e decapitados enquanto as mulheres são forçadas à conversão e tomadas como esposas por militantes. Isso tem se refletido nos Camarões, pelo número de pessoas que estão se refugiando no país, e a o aumento da propagação do vírus ebola. Os ataques se intensificaram nos territórios camaronês e nigerianos, especialmente contra os grupos. cristãos. A igreja em Camarões sozinha não pode lidar com as demandas espirituais, físicas e financeiras que podem oferecer uma vida melhor às milhares de pessoas deslocadas[10]

Em 2015 as Conferências Episcopais da Nigéria e Camarões colaboraram para oferecer assistência aos milhares de nigerianos refugiados da violência dos terroristas nos Camarões. Dom Ignatius Ayau Kaigama, arcebispo de Jos e Presidente da Conferência Episcopal da Nigéria, na Assembleia Plenária dos Bispos nigerianos disse que o governo federal da Nigéria se uniu aos esforços da Igreja Católica na assistência aos refugiados nigerianos em Camarões, doando 50 milhões de nairas à conferência episcopal nigeriana, a ser usados com a Conferência de bispos camaronesa para assistir os cerca de 80.000 nigerianos acolhidos em campos para refugiados, isso aliado aos outros 10 milhões de nairas arrecadados pelos bispos nigerianos. Em 3 de maio do mesmo ano uma delegação dos bispos nigerianos visitou Camarões para avaliar as necessidades dos refugiados.[11]

A partir de 2016, a violência do Boko Haram dá sinais de diminuir, ainda que continue espalhada pelo norte camaronês. A Ajuda à Igreja que Sofre (ACN) afirma que não foram poucas as vezes que as dioceses localizadas na fronteira com a Nigéria foram vítimas de ataques do grupo fundamentalista. Os fiéis costumam ficar de mãos dadas durante a celebração das missas, numa forma de corrente humana para tentarem se proteger. Voluntários têm de revistar os participantes da missa, procurando por armas e explosivos. É proibido carregar grandes bolsas de mão. "Muitos dos ataques suicidas são feitos por jovens. Somente em setembro, duas jovens sacrificaram suas vidas explodiram o mercado de Mora. Elas não tinham nem 20 anos de idade. As pessoas vivem em constante medo de novos ataques, já se tornou uma psicose", disse Dom Bruno Ateba Edo à ACN.[12]

 
Instalações de uma igreja católica em Tayap.

Ainda que lugares com grandes concentrações de pessoas sejam considerados mais perigosos, os católicos não deixam de se reunir para rezar. Em fevereiro de 2015, dois homens-bomba mataram pelo menos 20 pessoas e feriram dezenas de outras num mercado de Mémé. Dom Ateba também afirma estar desapontado por essa dramática situação nunca receber atenção da mídia internacional. "Gostaria de ver mais atenção sendo dada para o que está acontecendo aqui em Camarões. Quando algo acontece na Europa, a notícia sai imediatamente em todos os jornais ao redor do mundo. Mas se pessoas morrem aqui em Camarões ou em outros países da África, não é uma questão importante".[12]

Paralelamente aos nigerianos, há mais de 50.000 camaronenses vindos de aldeias próximas à fronteira que tiveram de fugir devido a periculosidade de continuarem vivendo lá.Para o sustento, eles contam somente com a ajuda da Igreja Católica. Por essa razão, a ACN tem apoiado projetos de ajuda de emergência. A diocese não chega a ter uma catedral, já que não sobram fundos para esse fim. Ainda que vivendo tal situação, a diocese recebe muitas vocações sacerdotais. Em 2015 havia 30 jovens da Diocese de Maroua-Mokolo no seminário. O bispo também afirma estar criando um "maravilhoso diálogo" com os muçulmanos, apesar dos problemas com o Boko Haram. Muitas crianças muçulmanas – até filhos e filhas de líderes religiosos – estão estudando em escolas católicas.[12]

No final de 2016, os bispos escreveram uma carta ao Presidente sobre as preocupações da minoria anglófona. O Executivo acusou os bispos de acirrarem o conflito. Mesmo entre os bispos camaroneses ocorrem divisões, entre os francófonos e anglófonos. Os bispos francófonos são considerados mais próximos do Governo. A mídia internacional, em sua pequena cobertura sobre os acontecidos especula que a mediação católica do conflito depende do acordo entre os bispos. Se não conseguirem ultrapassar as divergências, o conflito poderá agravar-se.[13]

A ACN veio a denunciar no dia 23 de julho de 2018 o assassinato a tiros do sacerdote católico Alexander Sob Nougi, pároco em Bomaka, que acentuou o clima de tensão na região anglófona camaronesa. O vigário-geral da Diocese de Buea, padre Asek Bernard, afirmou que desconhece-se a autoria dos disparos, mas tanto militantes separatistas e forças do governo "asseguram que não foram responsáveis". A ACN também destacou que a situação no país vem se deteriorando, com milhares de pessoas em fuga, alertando para o "clima de suspeição gerado em torno da Igreja Católica, que tem assumido um papel de mediação nesta crise". Apenas nove dias antes, um pastor ganês havia sido morto na cidade de Batibo, no noroeste do país.[14][15][16]

EstatísticasEditar

O país possui 18.722 catequistas, 57 missionários leigos e 28 membros de institutos seculares. Há cerca 2.622 católicos por sacerdote, ainda que os católicos por cada agente pastoral sejam 209. O país conta com a esperança de 2.249 seminaristas menores e 1.361 maiores.[5]

A comunidade católica mantém 1.365 escolas de 0-3 anos e de ensino fundamental, com um total de 308.953 alunos atendidos; 151 institutos de ensino médio, com 98.986 alunos, e 14 escolas superiores e universidades, com 3.025 estudantes.[5]

Outra grande obra da Igreja Católica nos Camarões é o serviço de saúde oferecido aos habitantes: são 3.025 hospitais, 28 centros de saúde, 235 leprosários, 12 casas para pessoas idosas ou com deficiência, 11 para crianças órfãs ou creches, e 40 centros de orientação familiar e proteção da vida. Por último, a Igreja mantém 23 centros de educação e reeducação social. Outras instituições somam mais 32 centros, dedicados a diversos fins.[5]

Organização territorialEditar

A organização territorial da Igreja Católica em Camarões consiste em cinco arquidioceses e 21 dioceses:[2]

  • Arquidiocese
    • Diocese
 
Catedral de Edéa

Conferência EpiscopalEditar

Os bispos camaroneses constituem a Conferência Episcopal Nacional dos Camarões (em francês: Conférence Episcopale Nationale du Cameroun, CENC). Seus estatutos, elaborados em 1972, foram definitivamente aprovados pela Santa Sé em 1986.[17]

Nunciatura ApostólicaEditar

A Delegação Apostólica de Dakar, com jurisdição sobre todas as colônias francesas da África continental e insular (com exceção das regiões do Magrebe), foi estabelecida em 22 de setembro de 1948 com o breve Expedit et Romanorum Pontificum do Papa Pio XII. Em 3 de maio de 1960, nasceu a Delegação Apostólica da África Centro-Ocidental com o Ad universae Ecclesiae, do Papa João XXIII, e tinha jurisdição sobre a Igreja em Camarões, Nigéria, Gabão, República Centro-Africana, Congo e Chade. A sede do delegado apostólico era a cidade de Lagos, na Nigéria. Em 3 de abril de 1965, sob o breve Qui res Africanas, do Papa Paulo VI, foi criada a nova Delegação Apostólica da África Central, com jurisdição sobre os Camarões, a República Centro-Africana, o Chade, o Congo e o Gabão. A sede do delegado apostólico era a cidade de Yaoundé. A Nunciatura Apostólica para os Camarões foi instituída em 31 de outubro de 1966 com o breve Quemadmodumum semper pelo Papa Paulo VI.[18]

Referências

  1. «Cape Verde». GCatholic. Consultado em 18 de novembro de 2018 
  2. a b c d e f «Current Dioceses». Catholic-Hierarchy. Consultado em 20 de novembro de 2018 
  3. «Conférence Episcopale Nationale du Cameroun». GCatholic. Consultado em 20 de novembro de 2018 
  4. «Apostolic Nunciature - Cameroon». GCatholic. Consultado em 20 de novembro de 2018 
  5. a b c d e f g h «Igreja em Camarões, reconhecida pelo governo, valorizada pela população». Zenit. 11 de março de 2009. Consultado em 21 de novembro de 2018 
  6. «Special Celebrations in a.d. 1985». GCatholic. Consultado em 21 de novembro de 2018 
  7. «Special Celebrations in a.d. 1995». GCatholic. Consultado em 21 de novembro de 2018 
  8. «Special Celebrations in a.d. 2009». GCatholic. Consultado em 21 de novembro de 2018 
  9. «Bispos de Camarões rechaçam assinatura de protocolo abortista». ACI Digital. 4 de julho de 2009. Consultado em 23 de novembro de 2018 
  10. «Igrejas de Camarões lutam para conter o crescimento do Boko Haram». Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure). 17 de setembro de 2014. Consultado em 23 de novembro de 2018 
  11. «Bispos da Nigéria e Camarões oferecem assistência aos cristãos perseguidos por terroristas islâmicos do Boko Haram». ACI Digital. 6 de março de 2015. Consultado em 23 de novembro de 2018 
  12. a b c «Camarões: "Ainda estamos vivos porque estávamos na igreja"». Ajuda à Igreja que Sofre. 24 de novembro de 2016. Consultado em 23 de novembro de 2018 
  13. Adrian Kriesch (8 de maio de 2018). «Pode a Igreja Católica mediar a "crise anglófona" nos Camarões?». MSN Notícias. Consultado em 23 de novembro de 2018 
  14. «Camarões: Sacerdote assassinado a tiro acentua clima de tensão no país». Agência Ecclesia. 24 de julho de 2018. Consultado em 21 de novembro de 2018 
  15. «Camarões: morte de sacerdote pode estar ligada ao conflito na região anglófona». Vatican News. 23 de julho de 2018. Consultado em 21 de novembro de 2018 
  16. «Clima tenso nos Camarões depois do Assassinato do sacerdote». Rádio Ecclesia. 25 de julho de 2018. Consultado em 21 de novembro de 2018 
  17. «Conférence des Evêques du Sénégal, de la Mauritanie, du Cap-Vert et de Guinée-Bissau». GCatholic. Consultado em 20 de novembro de 2018 
  18. «Apostolic Nunciature Cameroon». GCatholic. Consultado em 20 de novembro de 2018 

Ver tambémEditar