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A mente observa e interpreta a realidade

Mente é o estado da consciência ou subconsciência que possibilita a expressão da natureza[1] humana. 'Mente' é um conceito bastante utilizado para descrever as funções superiores do cérebro humano relacionadas a cognição e comportamento[2]. Particularmente aquelas funções as quais fazem os seres humanos conscientes[3], tais como a interpretação, os desejos, o temperamento, a imaginação, a linguagem, os sentidos, embora estejam vinculadas as qualidades mais inconsciente como o pensamento, a razão, a memória, a intuição, a inteligência, o arquétipo, o sonho, o sentimento, ego e superego. Por isso, o termo também descreve a personalidade e costuma designar capacidades humanas, ou mesmo, empregado para designar capacidades de seres sobrenaturais, como na expressão "A mente de Deus".

Etimologicamente, o termo vem da raiz verbal protoindo-europeia *men-, que tem o significado de "pensar, lembrar", dando origem ao sânscrito manas "mente", ao grego μένος e ao latim mens, mèntem, este último verbo para "pensar, conhecer, entender" e significa também medir, visto que alguém que pensa não faz outro que medir, ponderar as ideias.[4] Os gregos utilizavam o termo nous para indicar a mente, a razão, o pensamento, a intuição.[5]

Funções mentaisEditar

De um modo geral, as faculdades mentais são as várias funções da mente, ou coisas que a mente pode "fazer".

O pensamento é um ato mental que permite aos humanos entender as coisas no mundo, representá-las e interpretá-las de maneiras significativas ou que estejam de acordo com suas necessidades, apegos, metas, compromissos, planos, fins, desejos, etc. O pensamento envolve a mediação simbólica ou semiótica de ideias ou dados, como quando formamos conceitos, nos envolvemos na resolução de problemas, no raciocínio e na tomada de decisões. Palavras que se referem a conceitos e processos semelhantes incluem deliberação, cognição, ideação, discurso e imaginação.

Às vezes, o pensamento é descrito como uma função cognitiva "superior" e a análise dos processos de pensamento faz parte da psicologia cognitiva. Também está profundamente conectado à nossa capacidade de criar e usar ferramentas; entender causa e efeito; reconhecer padrões de significância; compreender e revelar contextos únicos de experiência ou atividade; e responder ao mundo de maneira significativa.

Memória é a capacidade de preservar, reter e, posteriormente, recuperar conhecimentos, informações ou experiências. Embora a memória tenha sido tradicionalmente um tema persistente na filosofia, o final do século XIX e o início do século XX também viram o estudo da memória emergir como um assunto de investigação dentro dos paradigmas da psicologia cognitiva. Nas últimas décadas, tornou-se um dos pilares de um novo ramo da ciência chamado neurociência cognitiva, um casamento entre a psicologia cognitiva e a neurociência.

A imaginação é a atividade de gerar ou evocar novas situações, imagens, idéias ou outros qualia na mente. É uma atividade caracteristicamente subjetiva, em vez de uma experiência direta ou passiva. O termo é tecnicamente usado na psicologia para o processo de reviver na mente percepções de objetos anteriormente dados na percepção sensorial. Alguns psicólogos podem falar dele como "reprodutivo" em oposição à imaginação "produtiva" ou "construtiva". É dito que as coisas imaginadas são vistas no "olho da mente". Entre as muitas funções práticas da imaginação estão a capacidade de projetar futuros possíveis (ou histórias), "ver" as coisas da perspectiva de outra pessoa e mudar a maneira como algo é percebido, inclusive tomar decisões para responder ou encenar o que é necessário. imaginado.

Estados de afeto, emoções e paixões, como amor, ódio, medo, tristeza e felicidade, são também componentes psíquicos.

A consciência nos mamíferos (isso inclui os seres humanos) é um aspecto da mente geralmente pensado para incluir qualidades como subjetividade, senciência e capacidade de perceber a relação entre si e o ambiente. É um assunto de muita pesquisa em filosofia da mente, psicologia, neurociência e ciência cognitiva. Alguns filósofos dividem a consciência em consciência fenomênica ou fenomenal, que é a própria experiência subjetiva, e consciência de acesso, que se refere à disponibilidade global de informações para os sistemas de processamento no cérebro. A consciência fenomênica tem muitas qualidades experimentadas diferentes, frequentemente chamadas de qualia. A consciência fenomênica é geralmente a consciência de algo ou sobre algo, uma propriedade conhecida como intencionalidade na filosofia da mente.

História do conceitoEditar

Durante tempos o ser humano tenta explicar sua existência no mundo explorando sua própria mente. Muitos foram os pensadores, filósofos, sábios que se indagaram sobre as questões existenciais e montaram um conjunto de opiniões, sobre os propósitos humanos, dentro de várias perspectivas ora metafisica, ora cosmológica, ora filosófica, ora psicológica.

Em seus primórdios, a descrição da mente é estreitamente relacionada à alma. Na Grécia Antiga, esse conceito foi chamado de psique. Heráclito formou uma das correntes de sábios que buscava uma compreensão cosmológica criacional, e considerou no problema das naturezas do Ser e do Devir o papel cósmico da mente, por exemplo no princípio que ele chamou de Logos.[1] Anaxágoras definia Nous (Mente) como uma substância criadora universal. Nessa mesma vertente, Platão[6] considerou a mente como fundamental na divisão do mundo inteligível e perceptível, na formulação de suas teoria da alma, Teoria das Ideias e dos (p. ex. na Alegoria da Caverna), e a investigação dos fenômenos mentais foi seguida de forma mais empírica por Aristóteles, particularmente em suas obras Metafísica e Sobre a Alma. É marcante da posição platônica a questão da interpretação que influenciaria nos conceitos humanos, ou seja, a interpretação do perceptível favorecida pelo inteligível, segundo Platão, está de acordo com as capacidades da mente humana. Por isso, existem várias posições sobre a realidade e a existência, desde das mais absurdas ou imaginárias até as mais céticas ou radicais, de acordo com a visão particular e receptiva de cada mente.[carece de fontes?]

Há também o surgimento de correntes materialistas na filosofia entre os gregos e hindus antigos, por exemplo.[carece de fontes?] Na Idade Moderna, diversas interpretações materialistas surgiram no Iluminismo, por exemplo com La Mettrie. Na Idade Contemporânea, foi inspirada por conceitos do século XIX de Karl Marx, Charles Darwin e Sigmund Freud, entre outros, além do cientificismo pelos avanços da biologia moderna. Esta visão focou em concepções que limitaram o significante "natureza" a um sujeito material, determinado por um contexto estrutural de seu meio social, histórico e biológico, alegando facilidade e coerência com os instrumentos científicos.[7]

Na psicologiaEditar

 Ver artigo principal: História da psicologia

O termo psicologia significa literalmente "estudo da mente". William James, Alexander Bain, Maine de Biran, dentre outros foram pioneiros teóricos da psicologia. Sigmund Freud é considerado um dos principais formuladores da teoria e ciência psicológica aplicada, tendo influenciado em noções de inconsciente, da divisão da mente em id, ego e superego e descrição das funções mentais associadas a esquemas restritos de pulsões e libido[8]. Suas hipóteses retomam alguns conceitos já utilizados por Platão,[9] a psicanálise foi amplamente contestada e seguida de inúmeros avanços (ver História da psicologia). Carl G. Jung foi um importante sucessor que fundou a psicologia analítica, interpretando as funções da mente humana de uma forma mais livre, apesar da preocupação com o empirismo prático na análise de seus pacientes. Jung deu relevância ao simbolismo na mente, visto por exemplo em sonhos, e muitos deles, segundo sua, originam-se no inconsciente pessoal, isto é, dizem respeito a problemas cotidianos, relações interpessoais; outros, segundo sua dedução, derivariam de um inconsciente coletivo, envolvendo conceitos de mitos, alquimia e arquétipos transmitidos através das gerações no substrato mental.

No budismo, o estudo da mente é essencial em suas doutrinas, que avançaram diversos conceitos de psicologia e filosofia da mente séculos antes da era moderna (ver Budismo e psicologia).

Filosofia da menteEditar

 Ver artigo principal: Filosofia da mente

A filosofia da mente é o ramo da filosofia que estuda a natureza da mente, eventos mentais, funções mentais, propriedades mentais, consciência e sua relação com o corpo físico. O problema mente-corpo, isto é, o relacionamento da mente com o corpo, é comumente visto como a questão central da filosofia da mente, embora existam outras questões relativas à natureza da mente que não envolvam sua relação com o corpo físico.

Dualismo e monismo são as duas principais escolas de pensamento que tentam resolver o problema mente-corpo. O dualismo é a posição em que a mente e o corpo estão de alguma forma separados um do outro. Ela pode ser rastreada até Platão,[10] Aristóteles[11][12][13] e as escolas Nyaya, Samkhya e Yoga da filosofia hindu[14], mas foi mais precisamente formulada por René Descartes no século XVII.[15] Os dualistas de substância argumentam que a mente é uma substância existente independentemente, enquanto os dualistas de propriedade sustentam que a mente é um grupo de propriedades independentes que emergem e não podem ser reduzidas ao cérebro, mas que não é uma substância distinta.[16]

O filósofo do século XX Martin Heidegger sugeriu que a experiência e a atividade subjetiva (isto é, a "mente") não podem ser entendidas em termos de "substâncias" cartesianas que possuem "propriedades" de todo (se a própria mente é considerada um tipo distinto, separado de substância ou não). Isso ocorre porque a natureza da experiência subjetiva e qualitativa é incoerente em termos de - ou semanticamente incomensurável com o conceito de - substâncias que possuem propriedades. Esse é um argumento fundamentalmente ontológico.[17]

O filósofo da ciência cognitiva Daniel Dennett, por exemplo, argumenta que não existe um centro narrativo chamado "mente", mas que, em vez disso, existe simplesmente uma coleção de entradas e saídas sensoriais: diferentes tipos de "software" rodando em paralelo.[18] O psicólogo B. F. Skinner argumentou que a mente é uma ficção explicativa que desvia a atenção das causas ambientais de comportamento;[19] ele considerou a mente uma "caixa preta" e pensou que os processos mentais podem ser melhor concebidos como formas de comportamento verbal secreto.[20][21]

O filósofo David Chalmers argumentou que a abordagem de terceira pessoa para descobrir mente e consciência não é eficaz como olhar para o cérebro de outras pessoas ou observar a conduta humana, mas que é necessária uma abordagem em primeira pessoa. Essa perspectiva em primeira pessoa indica que a mente deve ser conceituada como algo distinto do cérebro.

A mente também foi descrita como um fluxo de consciência, manifestando momento a momento, um momento de pensamento de cada vez como uma corrente que flui rapidamente, onde as impressões sensoriais e os fenômenos mentais estão mudando constantemente.[22][23]

A natureza da menteEditar

 Ver artigos principais: Problema mente-corpo e Dualismo mente-corpo

Grosso modo, há três posições sobre a natureza da mente. Os dualistas defendem a tese da distinção entre mente e corpo. Os monistas defendem a tese da identidade entre mente e corpo. Os epifenomenalistas defendem a tese da superveniência da mente sobre o corpo.

DualismoEditar

De acordo com o dualismo, a mente é uma substância distinta do corpo. Há dois tipos de dualismos: o dualismo de propriedades e o dualismo das substâncias. Entre os defensores do dualismo de substâncias encontramos os filósofos René Descartes e John Locke. No dualismo, o conceito de mente pode ser aproximado ao conceitos de intelecto, de pensamento, de espírito e de alma do ser humano.

René Descartes propós o dualismo das substâncias (que seriam uma entre duas coisas: res cogitans ou res extensa). Para ele o espírito e o corpo seriam nitidamente distintos. Espírito e matéria constituiriam dois mundos irredutíveis, assim não seriam nunca uma substância só, mas sempre duas substâncias distintas. Espírito seria do mundo do pensamento, da liberdade e da atividade; e matéria seria do mundo da extensão, do determinismo e da passividade.

O dualismo metafísico cartesiano deixou como herança à posteridade uma série de problemas graves. Por exemplo, como explicar inter-relações entre as substâncias tão heterogêneas entre si. Para ele, somente em Deus elas poderiam ser reunidas e formar uma só substância. Corpo e alma seriam substâncias finitas que de Deus proviriam, isso é, seriam fruto de um ser de substância infinita. Como uma substância finita poderia derivar de uma substância infinita? E ainda por analogia, somente no ser humano se encontrariam, com se amalgamadas, a alma e o corpo, que ao sentido parecem quase indistintas e não separadas. Mas Descartes não considera verossímil algo apreendido dos sentidos.

O espírito (com seu pensamento e o intelecto) estaria para o corpo assim como a mente estaria para a alma. Assim a mente seria aquilo que do espírito parece distinto mas realmente não é distinto, continua sendo res cogitans. A dualidade espírito-mente seria uma falsa dualidade, seguindo o pensamento de Descartes. Somente a mente pareceria distinta porque apresenta-se quase estática, já que é reflexiva, por sinal, quase palpável; enquanto o espírito aparece aos sentidos como ativo, criativo, mutável etc. Enquanto o espírito seria o ativo da substância res cogitans, a mente seria seu ângulo potencial, aquilo que o pensamento tem de ponderável, como um pensamento que se adensa ou se aprofunda em um assunto, talvez o subjetivo do pensamento. A mente seria ao sentido como um imponderável que seria mensurável.

Uma outra analogia seria pensar no corpo saudável que seria a condição para a manifestação do espírito vibrante. Assim também, a alma já salva seria a condição suficiente desta se manifestar espiritual (mente). Sem que esse modo ou maneira (mente também remete a modo, por exemplo, rapidamente, lentamente) possa ser confundida com alguma medida ou limite do espírito.

MonismoEditar

De acordo com o monismo, não há distinção entre mente e corpo. Portanto, ambos os termos não possuem sentido tratados como entidades distintas. Dentro do campo filosófico do monismo, B. F. Skinner possui importante destaque. Fundador do Behaviorismo Radical, Skinner fez importantes contribuições sobre os processos dito "psíquicos" sob uma perspectiva científica.

Dentre outras escolas do pensamento monista, há imaterialismo, preconizado por George Berkeley, e o materialismo, adotado por diversos filósofos, psicólogos e cientistas cognitivos.

EpifenomenalismoEditar

De acordo com o epifenomenalismo, há uma única coisa, o corpo, e a mente é algo que sobrevém ao corpo.

O monismo anômalo do filósofo Donald Davidson é considerado um tipo de epifenomenalismo.

NeurociênciaEditar

A neurociência é um termo que reúne as disciplinas biológicas que estudam o sistema nervoso. Muitas descobertas da neurociência trazem intrigantes fatos a respeito da mente.

Calosotomia completa e duplo cérebroEditar

O estudo de pessoas que tiveram os dois hemisférios cerebrais separados (o que se chama de calosotomia, resultado de cirurgia para tratar casos graves de epilepsia, ou devido a traumatismos ou derrames) têm trazido importantes implicações para o entendimento do funcionamento da mente. Os hemisférios direito e esquerdo são, em muitos aspectos, simétricos. O hemisfério direito controla o lado esquerdo do corpo e o hemisfério esquerdo controla o lado direito e as funções mentais são distribuídas nos dois. No entanto, na maioria das pessoas, algumas funções mentais são mais concentrados no hemisfério esquerdo (linguagem, raciocínio linear), enquanto outras são mais concentradas no direito (emoções intensas, intuição espacial do próprio corpo, expressão emocional no rosto). Além disso, o campo visual esquerdo de cada olho é recebido pelo hemisfério direito e o campo visual direito é recebido pelo esquerdo. O corpo caloso permite a comunicação entre os dois hemisférios.

Ocorre que nos pacientes que tiveram seu corpo caloso completamente dividido (calosotomia), os hemisférios perdem a comunicação entre si (embora com o tempo o cérebro tenda a encontrar outras maneiras de estabelecer comunicação entre os dois hemisférios através de outras conexões nervosas que existem no cérebro além do corpo caloso). Com isso, o hemisfério esquerdo, que controla o lado direito do corpo e é especializado na linguagem, passa a funcionar de modo separado do hemisfério direito, que controla o lado esquerdo do corpo e é especializado nas emoções.[24]

Embora o hemisfério direito não tenha acesso aos centros de línguagem e, portanto, não possa falar, ele pode rearranjar cartas com letras dispostas numa mesa com a mão esquerda. Por exemplo, em um estudo, a um sujeito que havia sofrido calosotomia foi perguntado sobre qual é sua profissão ideal. Verbalmente (ou seja, usando o hemisfério esquerdo), o paciente respondeu que ele gostaria de ser desenhista. No entanto, com a mão esquerda (isto é, usando o hemisfério direito), ele rearranjou as letras formando as palavras "corrida automobilística" ("car race", em inglês) sem que seu hemisfério esquerdo (o que fala) tivesse consciência disso.[25].

Roger Sperry, sobre numa pesquisa com pacientes com o cérebro dividido, relata que, quando foi mostrada ao hemisfério direito do paciente (por meio de óculos especiais que bloqueiam o campo visual direito de cada olho) uma foto de uma pessoa familiar, a mão esquerda apontou a primeira letra do nome dessa pessoa, embora o paciente dissesse (o hemisfério esquerdo) que não via foto alguma e que tampouco movia o braço esquerdo. Quando uma foto do próprio paciente foi mostrada ao hemisfério direito, o paciente respondeu com reações emocionais tais como gargalhadas e sorriso autoconsciente, além de frases emocionais simples como "Oh, não! Oh, Deus!". O hemisfério direito também respondeu com polegar para cima ou para baixo de modo socialmente correto para fotos de personalidades famosas tais como Winston Churchill e Hitler. Tudo isso com o paciente dizendo (seu hemisfério esquerdo) que não via foto nenhuma.[26]

O hemisfério direito do cérebro, funcionando independentemente e isolado do esquerdo, demonstra inteligência. Ele pode perceber, analisar, lembrar, realizar raciocínio complexo, compreender emoções e expressá-las, demonstrar conhecimento cultural e responder criativamente a novas situações.[27]

Essas pesquisas mostram que, em alguns casos de cérebro dividido, o cérebro gera o que parece ser duas consciências separadas. A pesquisa sobre pacientes com cérebro dividido levou o neurocientista e ganhador do prêmio Nobel Roger Sperry a concluir: "Tudo o que vimos indica que a cirurgia deixou essas pessoas com duas mentes distintas, isto é, duas esferas separadas de consciência. O que é experimentado no hemisfério direito parece estar totalmente fora do âmbito do que é experimentado pelo hemisfério esquerdo."[28]

Uma das consequências mais dramáticas e evitadas da calosotomia é a síndrome da mão alheia. Uma das mãos "ganha vontade própria" (em geral a esquerda) após a cirurgia e se opõe ao que o paciente deseja, desfazendo o que a mão direita faz (conflito intermanual). Por exemplo, tarefas como abrir uma porta com a mão direita é desfeita pela esquerda. Ao se vestir, a mão esquerda pode se opor, e luta para tirar a roupa que a mão direita por sua vez luta para colocar. Em outro caso, a mão esquerda (hemisfério direito) de um paciente preferia alimentos diferentes e até mesmo programas de televisão diferentes, intervindo contra a vontade expressa pelas ações da mão direita que é verbalizada pelo paciente. Há ainda o caso de um paciente cuja mão esquerda se opunha sempre que o paciente tentava acender um cigarro e fumar, a mão esquerda frequentemente arrancava o cigarro ou o esqueiro e os atirava longe. Outro caso relatado é a de um paciente cuja mão estranha apalpava o seio de todas as mulheres que se aproximavam dele, provocando um grande constrangimento para ele.[29]

Esses estudos científicos colocam sérias questões ao dualismo, pois seus resultados parecem inconciliáveis com a ideia da existência de uma alma individual (isto é, indivisível) independente do cérebro, já que fornecem fortes evidências de que uma divisão física do cérebro produz como que duas almas diferentes que possuem propósitos, gostos, opiniões, personalidade e pensamentos diversos, embora compartilhem lembranças de fatos anteriores à separação dos hemisférios. Se a mente se torna duas mentes ao nível físico do cérebro dividido em dois, como não concluir que, durante o momento da morte física do cérebro e a ruptura cada vez maior das conexões neuronais, o que chamamos de mente se multiplica em numeráveis "mentes" cada vez mais dispersas até que todas as conexões se desfazem?[30]

Regras mentaisEditar

Grosso modo, há duas posições sobre o tipo de regra que rege os fenômenos mentais. De acordo com os naturalistas, a mente segue estritamente as leis da natureza. De acordo com os normativistas, a mente segue regras racionais distintas das leis naturais.

NaturalismoEditar

Segundo o naturalismo, as leis naturais são tudo o que precisamos para explicar os fenômenos mentais. Tal posição reduz os fenômenos mentais aos fenômenos biológicos, os quais, por sua vez, são reduzidos aos fenômenos físicos.

O naturalismo é bastante popular entre psicólogos e cientistas. Marcel Mauss e (provavelmente) Sigmund Freud são naturalistas.

NormativismoEditar

Segundo os defensores da normatividade, os fenômenos mentais do tipo racionais não podem ser explicados pelas leis naturais.

Atualmente, o normativismo tem ganhado popularidade entre os filósofos. John McDowell defende, seguindo Wilfrid Sellars, a distinção entre o espaço lógico das razões, típico da racionalidade, e o espaço lógico das leis, típico da natureza.

Outras abordagensEditar

Na física moderna, a interpretação de muitos mundos (IMM) e a interpretação de Copenhagen da mecânica quântica são associadas a possíveis interações mentais na determinação de eventos a nível das partículas, devido ao chamado fenômeno do "observador", levantado na experiência da dupla fenda.[31] Devido à interação provocada pelo "observador", há, segundo essas interpretações, um colapso da função de onda que leva a um determinado seguimento das probabilidades e do resultado. Alguns já associaram o "observador" à própria mente em si daqueles que observam o experimento, o que é amplamente criticado como uma má interpretação da definição de observador na física quântica. Diante deste fato, outra possibilidade afirma que os estados quânticos são diferentes "mentes" do observador, armazenados no sistema físico (corpo do observador ou memória).[31] A abordagem destas hipóteses também ultrapassa os limites da física quântica e já foram comentadas de maneira interdisciplinar pela neurociência e pela filosofia, sendo abordado por exemplo por J.A. Barret[32] e M. Lockwood[33], além de ser infame sua apresentação indiscriminada no misticismo quântico.

Referências

  1. a b Historia da filosofia, Wilhelm Dilthey . Hemus, 2004. Página 27-28
  2. Humanos antes da humanidade, Robert Foley . UNESP (pág 210)
  3. Liguagem e cognição, Edwiges Maria Morato . Plexus Editora, 2002 (pág 15)
  4. PIANIGIANI, Ottorino. Vocabolario etimologico della lingua italiana. Roma: Albrighi, Segati e C., 1907.
  5. ROMIZI, Renato. Greco antico. 3.ed. Bolonha: Zanichelli, 2007. ISBN 978-88-08-06793-7.
  6. Republica, Platão . Edipro, 2006.
  7. Ruiz, João Alvaro. Metodologia Científica. Editora Atlas, 1978.
  8. Mezan, Renato. Freud Pensador da Cultura. Editora Companhia das Letras, 2006.
  9. Stok, Fabio (2011). «Sigmund Freud's Experience with the Classics». Classica (Brasil). 24 (1/2)
  10. Platão (1995). E.A. Duke; W.F. Hicken; W.S.M. Nicoll; D.B. Robinson; J.C.G. Strachan (eds.). Phaedo. Clarendon Press.
  11. Robinson, H. (1983): ‘Aristotelian dualism’, Oxford Studies in Ancient Philosophy 1, 123–44.
  12. Nussbaum, M.C. (1984): ‘Aristotelian dualism’, Oxford Studies in Ancient Philosophy, 2, 197–207.
  13. Nussbaum, M.C. and Rorty, A.O. (1992): Essays on Aristotle's De Anima, Clarendon Press, Oxford.
  14. Sri Swami Sivananda. «Sankhya:Hindu philosophy: The Sankhya». Cópia arquivada em 15 de maio de 2006  Parâmetro desconhecido |url-status= ignorado (ajuda)
  15. Descartes, René (1998). Discourse on Method and Meditations on First Philosophy. [S.l.]: Hacket Publishing Company. ISBN 978-0-87220-421-8 
  16. Hart, W.D. (1996) "Dualism", in Samuel Guttenplan (org) A Companion to the Philosophy of Mind, Blackwell, Oxford, 265–267.
  17. Hubert Dreyfus, "Critique of Descartes I" (recorded lecture), University of California at Berkeley, September 18, 2007.
  18. Dennett, Daniel (1991). Consciousness Explained. Boston, Massachusetts: Little Brown. ISBN 978-0-316-18065-8  Parâmetro desconhecido |title-link= ignorado (ajuda)
  19. Skinner, B.F. About Behaviorism 1974, pp. 74–75
  20. Skinner, B.F. About Behaviorism, Chapter 7: Thinking
  21. Uma tese contra a qual Noam Chomsky avançou uma considerável polêmica
  22. Karunamuni N.D. (May 2015). «The Five-Aggregate Model of the Mind». SAGE Open. 5 (2). 215824401558386 páginas. doi:10.1177/2158244015583860  Verifique data em: |data= (ajuda)
  23. Karunamuni N, Weerasekera R (Jun 2017). «Theoretical Foundations to Guide Mindfulness Meditation: A Path to Wisdom». Current Psychology (Submitted manuscript). 38 (3): 627–646. doi:10.1007/s12144-017-9631-7 
  24. Gazzaniga, M. S. (2005). Forty-five years of split-brain research and still going strong. [Review]. Nature Reviews Neuroscience, 6(8), 653-U651.
  25. Hock, Roger. Forty Studies That Changed Psychology. Prentice Hall: 2002
  26. Neurology of cognitive and behavioral disorders By Orrin Devinsky, Mark D'Esposito [1]
  27. Neurology of cognitive and behavioral disorders By Orrin Devinsky, Mark D'Esposito
  28. Newberg, Andrew and D'Aquili, Eugene. Why God Won't Go Away: Brain Science and the Biology of Belief. Ballantine, 2001
  29. Neurology of cognitive and behavioral disorders By Orrin Devinsky, Mark D'Esposito [2]
  30. [3]
  31. a b Pinto Neto, Nelson. Teorias e interpretações da Mecânica Quântica. São Paulo: Editora Livraria da Física. Rio de Janeiro: CBPF - Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. 2010 - (Coleção tópicos em física). Página 78-79.
  32. Barret, J.A. The quantum mechanics of minds and worlds. Oxford University Press, Oxford. 1999.
  33. Lockwood, M. British Journal for the Philosophy of Science 47, 159. 1996

Ver tambémEditar

 
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