Paulistânia (região)

expansão cultural paulista

Paulistânia
Gentílico: paulista ou paulistânico(a)

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Localização da Paulistânia na América do Sul
Cidade mais populosa São Paulo (12.000.000 hab.)
Línguas regionais Português e Paulista[nota 1]
Moeda Real

Paulistânia é a denominação geográfica do povo caipira, sendo uma uma região cultural.[1][2] É composta pelos estados de São Paulo, partes do Paraná, por partes do Triângulo Mineiro, pelo sul de Minas Gerais e de Goiás, pelos estados de Mato Grosso do Sul e partes de Mato Grosso, campo de influências e de exploração dos bandeirantes.[3]

EtimologiaEditar

O nome "Paulistânia" é um topónimo composto de "Paulista" ("Paulo" composto pelo sufixo latino "ista", que vem do sufixo grego antigo "istes" (ιστεσ), define o povo originário de São Paulo), e 'ia', que significa "Terra" (lugar) em latim.[4] O nome foi criado para ser interpretado como "Terra dos Paulistas", como Lusitânia, "Terra dos Lusitanos", Germania, "Terra dos Germanos" e Lituânia, "Terra dos Lituanos". O termo foi cunhado por Antônio Candido em 2010.[5]

HistóriaEditar

A Paulistânia surgiu através das expedições bandeirantes em caminho ao sertão sul-americano, dando origem a Capitania de São Vicente, posteriormente dividida na Capitania de São Paulo, até chegar nos territórios administrativos, estes sendo partes dos estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná e São Paulo.

Hermes Fontes, em algumas crônicas escritas para o jornal Correio Paulistano entre 1917 e 1918, serviu-se da Paulistânia como sinônimo para São Paulo. O editor Heitor de Moraes que a Fontes o título soprou: nos ouvidos de Moraes, "Paulistânia" soava como "Terra Paulista", tal qual os portugueses tinham sua Lusitânia e os povos germânicos sua Germânia. O termo Paulistânia fixou-se graças a uma historiografia de cunho conservador, ligada ao espírito provinciano dos intelectuais paulistas, querendo definir para a 'raça paulista' um determinado território, foi Alfredo Ellis Jr. que, a partir de 1930, mais trabalhou o conceito de uma Paulistânia.[6]

Mas foi Joaquim Ribeiro, na obra Folklore dos Bandeirantes, de 1946, quem propôs que Paulistânia era termo seu, um neologismo criado "para designar o espaço vital dos antigos paulistas",[7] um substantivo a ser usado, a partir de então, para se fazer referência à região que, em sua opinião, foi "uma das células fundamentais da formação territorial do Brasil."[8] O autor acreditava que, além de útil, Paulistânia era um nome que vinha "de encontro à compreensão geográfica e histórica da região do bandeirismo."[7]

 
Os tropeiros foram fundamentais para expandir a cultura caipira no Brasil — Tropeiro Paulista, Charles Landseer, 1827.

A condição necessária para o alargamento da extensão geográfica da América portuguesa, as expedições bandeirantes, por si só, não chegaram a ser condição suficiente para a criação de uma Paulistânia. Foi a partir dos bandeirantes que, por razões históricas, partiram e não voltaram ao Planalto do Piratininga que a "região bandeirante" tornou-se uma "Terra Paulista" e, posteriormente, "o espaço vital dos paulistas." Da fixação ao solo surgiu a região paulistânica; desta, a Paulistânia; e então, seu povo, cultura, experiência história. Ainda que administrativa e politicamente os recortes e fronteiras desta Paulistânia foram sendo alterados, reconfigurando-se ao longo do tempo, para desdobrar-se no que hoje são os estados de São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Goiás,Mato Grosso do Sul e partes de Mato Grosso,[9] pode-se assumir que a região formada pelo "grande território devassado pelas bandeiras e entradas"[10] conservou uma unidade cultural expressiva, unificada por um corpo comum de compreensões, valores e tradições de que todos participavam, numa realidade em que as variações regionais nunca chegaram a ameaçar a essência do todo.

Pode-se dizer que, a partir de meados do século XVIII, espalhou-se e consolidou-se um lençol de cultura caipira, com variações locais, que abrangia, além da Capitania de São Paulo, partes das capitanias de Minas Gerais, Goiás, e mesmo de Mato Grosso.[11] Atualizando a geografia, não seria exagero afirmar-se que o traçado da cultura caipira se expandiu e abrangeu as áreas que hoje correspondem a vários estados, incluindo a Região das Missões, no noroeste do Rio Grande do Sul, estado fortemente influenciado pelos tropeiros que partiam de Sorocaba.

ImigraçãoEditar

A presença do italiano em território paulista contribui igualmente para reforçar a sugestão do local onde se ambientava a narrativa, dado que os milhões de italianos que entraram no Brasil se dirigiram, em esmagadora maioria, às fazendas de café que à época da grande imigração se espalhavam por significativas partes da Paulistânia. Esse dado, para além de sua indicação geográfica, propõe algo, também, em relação ao tempo histórico da narrativa. De sua parte, o imigrante, principalmente sendo ele um imigrante italiano, sinaliza a hora da virada do século XIV para o XX, momento em que muitos grupos étnicos, sobretudo europeus, migraram como colonos para trabalhar, sendo que nenhum deles foi tão numeroso como os italianos.

O estado de São Paulo não só dispunha de meios para subsidiar a viagem dos imigrantes, como contava com uma corrente espontânea de imigrantes, atraídos ou pelo sucesso de seus compatriotas ou pela propaganda que os cafeicultores e o próprio estado faziam na Europa, em grandes porções da antiga Paulistânia a imigração destinava-se a fornecer principalmente braços para a grande lavoura.[12] Desse modo, apesar do grande número de nacionalidades que partiram a São Paulo, quem marcou foi sem dúvida, o italiano, que, desde sua chegada, contribuiu para moldar não só a economia da região, como também sua cultura, costumes, modos de ser e ver.[13]

Muitos colonos europeus, acaipiraram-se, dos italianos, uma parcela regrediu culturalmente, acabando por se tornar verdadeiros nômades, mudando-se ao final da colheita em busca de vida melhor, de melhores terras e condições de trabalho.[14]

CulturaEditar

A base da Paulistânia é a identidade caipira. Mas diferente de outras culturas regionais, que se manifestam com orgulho, como as do sertanejo ou do gaúcho, a cultura caipira é sempre envergonhada e dissimulada, algo que não se explicita, nem se celebra. O escritores Carlos Alberto Dória e Marcelo Corrêa Bastos lembram o episódio conhecido de "revolta dos habitantes de Cunha", por ocasião da publicação de um livro de Emilio Willems, no qual retratava os habitantes daquela pequena cidade do Vale do Paraíba paulista, valendo-se daquela categoria. Talvez se deva a Monteiro Lobato a fixação desta imagem deletéria do caipira, por meio do seu personagem Jeca-Tatu, em Urupês. Mesmo com o atenuante de que não seria sua culpa estar assim, o caipira de Lobato é apresentado como um homem "mumbava, sujo e ruim", lento, simplório, atrasado, sinônimo do passado agrário a ser superado. Em Candido os adjetivos dão lugar a substantivos menos valorativos: a cultura caipira é aquela da sociabilidade marcada por certa forma de conduta moral da vida cotidiana, ratificada por práticas de solidariedade assentadas predominantemente na obtenção dos mínimos vitais para a subsistência das famílias, algo coerente e consistente com a rusticidade e a carência herdadas de sua condição periférica na formação territorial e social. A culinária caipira seguiria então essa linha, de apoiar-se no precário, no transitório, no periférico, no rústico, no simples, no improvisado.

Ritmos musicaisEditar

O ritmo musical tradicional da Paulistânia é o sertanejo, chamado também de "música caipira", "sertanejo tradicional", "sertanejo raíz", "moda de viola", as vezes a chamam de "sertanejo antigo", passando a falsa imagem de que o sertanejo universitário, seria o sucessor da música caipira, um "novo estilo", devido a sua popularidade.

Nessa região e dessa cultura nasceu uma modalidade de música popular, Alberto Ikeda, autor do livro "Música Na Terra Paulista: Da Viola Caipira À Guitarra Elétrica" considerou como sendo "a música da Paulistânia". Nas palavras do autor, trata-se de uma musicalidade se relaciona à própria formação histórica de São Paulo, singularizando-se como paulista. Para além de símbolo, a viola caipira foi fiadora da expansão desta música dos caipiras. Configurando-se como porta-voz desta musicalidade, o instrumento se espalhou por toda a Paulistânia e, tendo sua identificação com os primeiros habitantes da região à medida que o tempo passou, chegou ao ponto de fazer do violeiro um indivíduo de grande importância na comunicação onde habitasse.[15]

Embora a música caipira esteja predominantemente relacionada a outras expressões, alguns ritmos acabaram se fixando também de forma autônoma, como gênero musical em si, predominantemente para audição, como expressão musical popular de concerto, com autoria reconhecida e expressa. Entre eles se incluem: o cururu, a catira/cateretê[16] e o xote, que originalmente são formas dançadas, com cantorias muitas vezes de improviso; a toada e moda de viola, gêneros apenas vocais, e, o pagode caipira, inicialmente um tipo de música instrumental solista, de grande virtuosismo, executado na viola caipira, e que passou a ser apresentado também na versão cantada.[17]

CulináriaEditar

Paulistânia é o espaço no qual se deu o encontro dos guaranis com os portugueses, por meio das bandeiras paulistas e do estabelecimento de assentamentos humanos, alguns temporários, outros permanentes, onde ocorreu tanto a assimilação recíproca dos hábitos dos dois grupos sociais como diferenciações que, no entanto, não apagaram os traços comuns, reivindicados como fundamentais da culinária caipira. Entre eles: a utilização ampla e variada do milho como ingrediente fundamental, a predileção da carne suína perante a carne bovina, o gosto pela galinha, de preferência galinha caipira, o uso diversificado de hortaliças, tudo isso dando os contornos de uma gastronomia original e de sabor ímpar. Nela, o milho e o porco reinam. A condição de provisoriedade de certas paragens, no avanço em direção ao interior favorecia a cultura deste grão, de ciclo mais curto do que a mandioca.

Mencionando o registro dos autores quanto às nuances da culinária caipira, exemplificada na assimilação de certos produtos locais como o pequi nas áreas de cerrados, o pinhão nas zonas serranas e mais ao sul, ou ainda o peixe e o uso mais corrente da mandioca nas áreas litorâneas, naquilo que se convencionou chamar de cozinha caiçara. Mas tudo isso como se fosse um tempero adicional a uma base que se impõe e apenas enriquece a complexidade desta culinária caipira. Emergem desta base comum as variações locais: como o tutu de feijão mineiro em contraste com o virado de feijão paulista; o arroz de suã, o arroz de frango com quiabo, o arroz com linguiça, o arroz de pequi, todos eles vindo do hábito de misturar arroz a uma carne de produção local ou, no caso do pequi, ao fruto, para "aumentar" a comida; o barreado do litoral paranaense; as várias farofas e os tantos derivados do milho como o curau, a pamonha, os bolos e bolinhos, o viradinho, os angus; os mexidos cuja base é o aproveitamento das sobras de um almoço ou outra refeição; as empadas e empadões, como o goiano; mas também as cambuquiras e as conservas sempre presentes, ainda que em modos de preparo ou com ingredientes diferentes aqui e acolá.[18]

Ver tambémEditar

Notas

  1. Língua extinta totalmente no século XX, influenciando nos dialetos caipira e sulista da língua portuguesa.

Referências

  1. Congresso de História Nacional. [S.l.]: Imprensa Nacional. 1950. p. 492 
  2. Victal, Jane; Cordova, Vitor Sartori (8 de maio de 2016). «Territorialidades Caipiras: o ser e a identidade do lugar». ILUMINURAS (41). ISSN 1984-1191. doi:10.22456/1984-1191.64560. Consultado em 5 de fevereiro de 2022 
  3. Cordova, Vitor Sartori; Victal, Jane (23 de setembro de 2017). «O território paulistânico: um olhar existencial para além dos mapas antigos». Labor e Engenho (3): 263–279. ISSN 2176-8846. doi:10.20396/labore.v11i3.8649202. Consultado em 3 de fevereiro de 2022 
  4. «Atlas etimológico - a origem dos nomes dos países». Super. Consultado em 3 de fevereiro de 2022 
  5. Hugo Mateus Gonçalves Rocha (2017). "Os Parceiros do Rio Bonito" em diálogo com a literatura, a historiografia, a sociologia e a antropologia: reflexões sobre a obra de Antonio Cândido. (PDF). 9 páginas 
  6. Dória, Carlos Alberto (2018). A culinária caipira da Paulistânia. [S.l.: s.n.] p. 69 
  7. a b Ribeiro, Joaquim (1946). Folklore dos Bandeirantes. Rio de Janeiro: [s.n.] p. 185 
  8. Ribeiro, Joaquim (1946). Folklore dos Bandeirantes. Rio de Janeiro: [s.n.] p. 13 
  9. Vilela, Ivan (2015). Cantando a própria história: Música Caipira e Enraizamento. [S.l.: s.n.] p. 42 
  10. CANDIDO, Antonio (2001). Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida. [S.l.: s.n.] p. 45 
  11. CANDIDO, AntOnio (2001). Os Parceiros do Rio Bonito. [S.l.: s.n.] p. 45 
  12. PETRONE, Maria Thereza Schörer (1978). Imigração. [S.l.: s.n.] p. 99, 100 e 103 
  13. CASTELLANI, José (1978). São Paulo na década de trinta. [S.l.: s.n.] 
  14. SETUBAL, Maria Alice (2004). Vivências caipiras: pluralidade cultural e diferentes temporalidades na terra paulista. [S.l.: s.n.] p. 26 
  15. VILELA, Ivan (2015). Cantando a própria história: Música Caipira e Enraizamento. [S.l.: s.n.] p. 45 
  16. «Catira ou cateretê - dança do folclore brasileiro» (PDF). Consultado em 23 de setembro de 2016. Cópia arquivada (PDF) em 17 de abril de 2016 
  17. IKEDA, Alberto (2004). Música Na Terra Paulista: Da Viola Caipira À Guitarra Elétrica. [S.l.: s.n.] p. 151-152 
  18. Favareto, Arilson (2019). «A culinária caipira da Paulistânia – a história e as receitas de um modo antigo de comer, de Carlos Alberto Dória e Marcelo Corrêa Bastos». Estudos Sociedade e Agricultura (1): 207–214. Consultado em 3 de fevereiro de 2022