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Real e Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento de Mafra


REAL E VENERÁVEL IRMANDADE DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO DE MAFRA
 
Brasão REAL E VENERÁVEL IRMANDADE DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO DE MAFRA
sigla
R.V.I.S.S.M.
Tipo: Irmandade religiosa
Local e data da fundação: MafraSéculo XVI



Atividades: Religiosa e Cultural
Sede: Real Basílica de Nossa Senhora e de Santo António de Mafra - Portugal Portugal
Site oficial: https://pt-pt.facebook.com/ISSMafra
Projeto Catolicismo · uso desta caixa

A Real e Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento de Mafra (RVISSM) é uma associação pública de fiéis católicos, canonicamente estabelecida na Real Basílica de Nossa Senhora e de Santo António de Mafra, classificada pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade[1].

Tem, entre outras atribuições, a missão de promover a Festa do Corpo de Deus e a respectiva procissão, e ainda a de efectuar as 4 tradicionais procissões da Quaresma da vila de Mafra: a Procissão do Senhor Jesus dos Passos de Mafra; a Procissão de Penitência da Ordem Terceira de São Francisco (dita dos Terceiros); a Procissão das Sete Dores de Nossa Senhora (dita da Burrinha); e a Procissão do Enterro do Senhor.

O conjunto de imagens de vestir custodiado por esta Irmandade é o maior existente em Portugal, imagens essas que, na sua maioria, continuam a processionar nas funções religiosas organizadas pela RVISSM.

É, presentemente, a instituição mais antiga do concelho de Mafra ainda existente, depois das várias paróquias dispersas pelo território do concelho (com excepção das paróquias da Malveira e Venda do Pinheiro, de criação mais recente).

Índice

HistóriaEditar

A Colegiada de Santo André da Vila de Mafra e instituição da Irmandade do Santíssimo SacramentoEditar

 
Vista panorâmica da Igreja de Santo André de Mafra, antiga Colegiada e antiga sede da Irmandade, c. 1900.

A Real e Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento de Mafra tem as suas origens sepultadas num passado indocumentado, não existindo no arquivo documentação anterior a 1725[2], sendo desconhecida a data exacta da sua instituição. Presume-se que a sua “antiquissima” fundação[3] remonte ao último quartel do século XVI, circunstância confirmada por um documento proveniente do arquivo da então antiga e nobre Colegiada de Santo André de Mafra, no qual por verba testamentária de Jorge Rodrigues foi dada ordem para que se:

“faça dar a Comfraria do Samto Sacramento os mil e cem reaes que estavão depositados pera o que levasse mandado pera ler o que se pasa nesta verba ao cartoreo da igreja”[4].

A supracitada verba foi inscrita a 14 de Março de 1597, o que faz deste documento a mais antiga referência que nos atesta a existência da então confraria, que mantinha as suas dependências e Casa do Cabido num anexo da Igreja de Santo André, pelo lado do Evangelho. Estas dependências existiram até aos últimos anos do século XIX, tendo provavelmente desaparecido definitivamente no decurso das demolições iniciadas em 1904. A ausência de documentação anterior ao primeiro compromisso da Irmandade poderá ser justificada com um facto relatado no diário de Francisco Militão Pereira, sacristão da Real Basílica de Nossa Senhora e de Santo António de Mafra, que a 12 de Março de 1860 registou:

“Vieram de Lisboa dois sujeitos no omnibus … , e hoje pelas 7 horas da manhã foram à Egreja com o Prior abrir-se o archivo e tomaram conta de todos os papeis que pertenciam a Collegiada e passaram recibo ao Prior.”[5].

A transferência da documentação da Colegiada de Santo André para o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, onde com forte probabilidade se encontrariam os fundos documentais da Confraria do Santíssimo Sacramento, terá sido efectuada no âmbito do artigo primeiro do decreto de 2 de Outubro de 1862, pelo qual os arquivos e cartórios de todas as igrejas e corporações religiosas deveriam ser transferidos para o Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Presume-se que por esse motivo não exista documentação anterior à data do compromisso no arquivo da Irmandade, facto confirmado pela inexistência de documentação paroquial anterior ao século XVIII[6].

Alguns anos mais tarde, em 1871, o mesmo sacristão volta a registar no seu diário:

“Novembro 23 - O Prior mandou fazer arranjos na Egreja da Villa, mandou vender a pezo os livros de coro da Colegiada”[7].

Não obstante a ausência de documentos que nos permitam estabelecer uma data aproximada da instituição da confraria, o remanescente permite aceitar de forma inequívoca que se trata da mais antiga instituição que actualmente existe na vila de Mafra, sendo por esse motivo considerada um dos mais importantes repositórios da memória histórica do concelho[6].

O lançamento da primeira pedra do Real Edifício e o compromisso de 1725Editar

 
A fachada principal do Real Edifício de Mafra, que serve de sede à RVISSM.

Aquando da decisão tomada pelo “Magnanimo e religioso Monarcha Rei de Portugal o Senhor Dom João Quinto de Gloriosa Memoria”[8], de iniciar as reais obras no Alto da Vela, a nascente da vila de Mafra, foi designado pelo monarca o dia 17 de Novembro de 1717[9] para o lançamento da primeira pedra no local onde seria edificada a nova igreja. Na manhã do dia determinado, em barraca armada no largo fronteiro ao local onde nasceria o Real Edíficio, o Cardeal-Patriarca de Lisboa revestido com as vestes pontificais saiu em procissão para a igreja de madeira que havia sido edificada no local, sendo o cortejo aberto pela cruz processional da freguesia de Santo André de Mafra[10], que na actualidade continua a ser custodiada pela Irmandade[6].

 
Frontispício dos estatutos da Irmandade, 1725.

Entre os anos 1717 e 1730 terão trabalhado na construção para cima de cinquenta mil operários[11], tendo um número considerável terminado os seus dias no decorrer das obras. Em consequência da chegada do grande número de operários, artesãos e militares, o já naquele tempo vetusto templo de Mafra terá verificado o aumento de fiéis assistentes na paróquia, que até então não ultrapassariam as duas centenas. A testemunhar o referido facto, verificam-se numerosos pedidos de admissão à Irmandade por parte de residentes “no citio da Real Obra”[12]. A então Confraria do Santíssimo Sacramento decerto terá beneficiado deste aumento populacional, assim como do favor do Magnânimo que em diversas ocasiões terá mantido residência na Quinta da Cerca, propriedade da família dos então viscondes de Vila Nova de Cerveira. Todavia importa referir que, já em 1726, faziam parte da Mesa Administrativa António Baptista Garvo[nota 1] como escrivão, e o capitão mor Máximo de Carvalho como secretário da Irmandade e simultaneamente escrivão da receita e despesa da Real Obra. Desconhecem-se as datas de ingresso dos supracitados irmãos, assim como todos os que foram aceites em data anterior a 1725[6].

Em 19 de Março de 1725, de acordo com o que informa o preâmbulo do compromisso do mesmo ano, os membros da Confraria reunidos na Casa do Cabido, reconhecendo que anualmente existiam muitas despesas, sem que pelas suas mortes houvesse o benefício de sufrágios pela salvação das suas almas, decidiram passar de confraria a irmandade com compromisso ao qual todos os irmãos ficariam obrigados “para que assim uniformes todos os irmãos em tão santo exercício possamos triunfar de nossos inimigos guardando a forma do que nele se contém”[13]. No dia dezanove de Julho do mesmo ano, D. Tomás de Almeida, primeiro Cardeal-Patriarca de Lisboa, por petição dos irmãos confirmou o compromisso que lhe havia sido apresentado para a Irmandade do Santíssimo Sacramento da Paroquial Igreja de Santo André da Villa de Mafra, que alegavam sujeitar-se ao Cardeal-Patriarca e seus sucessores, e volvidos duzentos e noventa e dois anos, o décimo sétimo Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, concedeu a distinta honra à Irmandade de ser inscrito no número dos seus Irmãos de Honra[6].

O contributo da Real Irmandade do Santíssimo Sacramento de Mafra para a história localEditar

 
O Rei D. Manuel II, Juiz Honorário e Perpétuo da Irmandade.

Alguma da documentação inédita existente no arquivo da Irmandade do Santíssimo Sacramento permite lançar novos dados sobre diversos personagens que intervieram na construção e gestão do Real Edifício de Mafra, assim como na participação da Irmandade em diversos factos que tiveram lugar na vila. O compromisso de 1725, que regeu os destinos da Irmandade desde a data da sua aprovação até 1913, no seu primeiro artigo imediatamente ordenava que o Juiz deveria ser pessoa de autoridade e prudência para que os irmãos o “reconheção por cabeça principal desta Irmandade obedecendolhe em tudo o q. por elle lhe for ordenado q. respeite a cauza desta Irmandade”. Por este motivo encontramos inscritos nas Mesas Administrativas um número considerável de capitães mores de Mafra, assim como outros importantes personagens do enquadramento local, que vieram a ter ou já o teriam projeção social per si fora do contexto mafrense. Neste sentido destaca-se particularmente o Rei D. Manuel II, juiz honorário e perpétuo da Irmandade, D. Tomás Xavier de Lima, décimo terceiro Visconde de Vila Nova de Cerveira e primeiro Marquês de Ponte de Lima, assim como o Capitão-Mor de Mafra, José Máximo de Carvalho, a quem William Beckford se refere no seu diário[nota 2], descrevendo a opulência com que foi recebido na casa deste último[6].

 
D. Tomás Xavier de Lima, Marquês de Ponte de Lima e Juiz da Irmandade.

No que à Igreja de Santo André diz respeito, por verbas inscritas nos livros de despesas, podemos constatar que a capela-mor seria mantida pela Irmandade, enquanto as restantes obras seriam custeadas a meias com a Colegiada e as restantes irmandades. O primeiro averbamento de despesas que o arquivo conserva, refere uma despesa feita com as “obras que se fizerão como foi o arco da pia do batismo, Caza do Cabido e escada do Coro em que entrarão com meya despeza os Reverendos Padres desta Igreja”[14], do mesmo modo que os inventários demonstram que as armações da igreja, frontais, candelabros, tocheiros e demais alfaias pertenciam na sua quase totalidade à Irmandade e não à fábrica da Colegiada. Actualmente um número considerável dos ornatos e imagens descritos nos antigos inventários, ainda se encontram em uso nas funções litúrgicas que têm lugar na Real Basílica de Nossa Senhora e de Santo António, perpetuando deste modo a memória da Igreja de Santo André[6].

Chegado o ano de 1911, em consequência da expulsão da Família Real, uma grande parcela do Real Edifício de Mafra ficou devoluta e sem utilização imediata. No seguimento da sessão solene de abertura do IV Congresso Internacional de Turismo, o ministro José Relvas apresentou ao governo o projecto para que fosse organizada uma exposição em Mafra, que deveria servir para preencher o programa de visitas a monumentos nacionais, que seriam apresentados aos membros estrangeiros. Em acta inscrita no arquivo da Irmandade, a 30 de Abril do mesmo ano, o juiz António Duarte da Silva informou a restante Mesa Administrativa de que José Queiroz, director do museu que se iria estabelecer em Mafra, verbalmente lhe havia feito o “pedido que diz respeito ao emprestimo temporario da meza das sessões d’esta Irmandade, afim de figurar no dito Museu, especialmente agora no seu principio”[15]. Por resolução na mesma sessão, a Mesa Administrativa determinou que considerando que a criação daquele museu levaria a Mafra inúmeros turistas, que decerto concorreriam para a prosperidade da terra, desenvolvendo sobretudo a vida comercial, e atendendo a que a Junta da Paróquia, assim como a direcção do Hospital da Santa Casa da Misericórdia já haveriam acedido ao mesmo pedido, o juiz e restantes irmãos, “resolveu attender gostosamente o pedido”, tendo o director do museu entregue um recibo à Irmandade pelo empréstimo da mesma mesa, e 106 anos depois, ainda pode ser admirada no percurso expositivo do palácio[6].

Um dos aspectos mais interessantes que ressaltam no historial da Irmandade é o facto de não obstante ser a mais antiga a ser estabelecida em Mafra, no decorrer do século XIX e XX incorporou os bens de algumas das irmandades e confrarias que se extinguiram por falta de irmãos, tornando-se por esse motivo o escrínio que conserva a memória e as tradições religiosas de Mafra, assegurando deste modo a manutenção do património histórico-artístico legado pelas extintas[6].

A transferência da Paróquia de Santo André para a Real Basílica de Nossa Senhora e de Santo AntónioEditar

Em consequência da publicação do decreto de 30 de Maio de 1834, que decretou a extinção das ordens religiosas em Portugal, a basílica terá ficado sem culto regular, e a convite da rainha D. Maria II, a paróquia de Santo André foi convidada a transferir-se da igreja paroquial para a basílica. Não podemos deixar de referir que de acordo com o inquérito pombalino de 1758, os paroquianos já rareavam na igreja de Santo André, sendo maioritariamente atraídos pelo novo centro da vila, a basílica, no entanto esta informação não nos parece merecedora de crédito atendendo a que a maioria da população de Mafra se encontrava a residir na vila velha, assim como se verifica que as solenidades religiosas após a transladação canónica para a basílica continuariam a ter lugar na igreja de Santo André ao mesmo tempo que decorriam na basílica. Não obstante, como testemunha o diário de Francisco Militão de Almada Pereira, ao longo de todo o século XIX o culto terá continuado em Santo André, facto atestado por verbas inscritas nas despesas da Irmandade no ano 1849[16]. nas quais foram registadas gastos nos arranjos dos telhados de Santo André, despesas que verificamos existir até à última década do mesmo século. O abandono definitivo datará de 1903 quando a ruína da abóbada da igreja já seria eminente[6].

Na manhã do dia 4 de Junho de 1835[17], foi baptizada a última criança na Igreja de Santo André, tendo ministrado o sacramento o Padre Manuel António de Sousa. Terminada a cerimónia, a pia baptismal foi retirada da igreja e transportada para a capela do Santo Cristo da basílica, tendo sido transportada por António Lourenço na sua carroça, e colocada no local onde ainda hoje se encontra pelo Mestre Ângelo, natural de Cheleiros. A pia baptismal que foi transferida para a basílica já não seria a original, a que eventualmente seria coeva da construção do templo, que foi condenada na visitação efectuada pelo Padre Rodrigues Bicho, e que veio a ser enterrada no terreno da igreja “por estar pouco aceiada e ser de ruim pedra”[18].

 
Membros da Irmandade antecedidos pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel II, 1930.

Nos três dias seguintes “se esteve acartando cousas para o convento”[19], entenda-se, os bens da paróquia, assim como os da Irmandade do Santíssimo Sacramento, e no dia seis foram preparados cinco andores. Para a função da transferência das imagens, a basílica foi armada com os ornatos de primeira ordem, à noite foram acessas fogueiras na praça do Real Edíficio, tocaram os carrilhões, e foi contratada música de orquestra em Torres Vedras, como era habitual nas festas saloias foram lançados foguetes[6].

Chegado o dia sete, dia do Espírito Santo, tudo foi preparado com a maior pompa possível, que de acordo com o que relata Francisco Militão, com pouco gosto dos paroquianos, a procissão saiu de Santo André para a basílica pelas onze horas da manhã, tendo assistido o vigário da vara, escrivão e meirinho, assim como um numeroso concurso de padres de fora e todos os da terra. Na frente do cortejo saiu o andor de São Sebastião seguido de São Miguel, Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora da Graça[nota 3] e finalmente Santo André[nota 4], tendo o último sido transportado pela Irmandade do Santíssimo Sacramento. Atrás dos andores seguia o clero, o pálio, a orquestra de Torres Vedras e uma grande quantidade de povo. O préstito terá chegado ao convento ao meio dia, com toque dos carrilhões e foguetes, de seguida foi feita exposição solene do Santíssimo Sacramento, após a qual houve missa e festa todo o dia[6].

A Câmara Municipal de Mafra no mesmo ano de 1835 após a transferência da paróquia, escreveu uma carta de agradecimento à Rainha D. Maria II, na qual em nome do povo de Mafra, relatou à soberana a cerimónia da transferência e tomada de posse da basílica, assim como agradeceu à soberana a decisão de “dar para Parochia o Magnifico, e Magestoso Templo do extinto e Real Convento de Mafra”[20]. Dois anos depois, em 1837, o órgão da igreja de Santo André viria a ser transferido para a igreja do Sobral da Abelheira, tendo a respectiva entrega sido efectuada pelo escrivão da Câmara de Mafra, Francisco Miguel da Silva. A 18 de Novembro de 1858, Joaquim Possidónio Narciso da Silva, arquitecto da Casa Real, terá estado na igreja de Santo André para efectuar o levantamento arquitectónico do edifício[21], no entanto não é conhecido o paradeiro deste levantamento[6].

Em 1866, a Irmandade recebeu do então Governo Civil o espólio da extinta Venerável Irmandade de Penitência da Ordem Terceira de São Francisco de Mafra[22] e, mais tarde, recebeu também o da extinta Irmandade do Senhor dos Passos de Mafra, assumindo assim, em virtude da transferência desse património para a sua guarda, a missão e responsabilidade de organizar as procissões que eram levadas a cabo por essas duas irmandades – a Procissão de Penitência da Ordem Terceira de São Francisco e a Procissão do Enterro do Senhor, que eram promovidas pela primeira, e a Procissão do Senhor Jesus dos Passos de Mafra, que era realizada pela segunda[23].

De acordo com informação registada no diário de Francisco Militão, o Padre Tomás Joaquim de Almeida[nota 5], no dia 16 de Fevereiro de 1886, data na qual foram celebradas exéquias solenes por alma de D. Fernando, foi “o primeiro dia em que o prior calçou meias encarnadas como capelão da Caza Real honorario”[24], presumimos que este privilégio advenha do facto de a basílica ser considerada capela real, o que eventualmente permitiria ao prior ser revestido com o privilégio referido no diário[6].

Apesar da transferência de um grande número de bens para o Real Edifício de Mafra, muitos foram os que foram mantidos na igreja de Santo André, que como já ficou dito foi utilizada até 1903, tendo sofrido diversos melhoramentos ao longo do restante século XIX como testemunham os livros de despesa da Irmandade, e não pouca contestação de alguns populares que desejavam que a paróquia fosse restituída à antiga igreja paroquial. Na segunda metade do século XIX, graças a diversas instâncias movidas por José Maria Dias da Silva Saldanha, em diversas ocasiões juiz da Irmandade, a Escola Prática de Infantaria veio a ser instalada nas antigas dependências conventuais do Real Edifício de Mafra[6].

Em 1953, após o regresso da Procissão das Sete Dores de Nossa Senhora, foi entregue à Irmandade o espólio e a responsabilidade pela organização anual dessa procissão, que pertencera à extinta Irmandade de Nossa Senhora das Dores de Mafra[25].

As tradicionais procissões da QuaresmaEditar

 
Imagem do Senhor Jesus dos Passos de Mafra.

As procissões da Quaresma na vila de Mafra são um conjunto único no país e uma das mais originais e relevantes manifestações culturais da grandiosidade e prestígio que Mafra atingiu no século XVIII. Estas cerimónias mantêm, no essencial, as características conferidas na época barroca, melhoradas ao longo dos tempos com pontuais intervenções de conservação e restauro, assim como algumas revitalizações, que constituem, por si só, capítulos enriquecedores da sua história[26].

Para além das ligações ao período da construção do Real Edifício de Mafra, e a destacados artistas radicados na vila, que deixaram o seu nome na História da Arte em Portugal, subsiste ainda um rico património imaterial associado a estas manifestações de piedade, preservado pela RVISSM[26].

Reconhecendo que estas celebrações são uma relevante expressão da cultura religiosa que faz parte da identidade local, as procissões da Quaresma de Mafra foram declaradas, pela Câmara Municipal, como Património Cultural Imaterial de Interesse Municipal[27].

Procissão do Senhor Jesus dos Passos de MafraEditar

 
Imagem de Nossa Senhora da Soledade, Mafra.

É uma das mais antigas expressões de piedade da vila de Mafra, tendo surgido na antiga Colegiada de Santo André de Mafra, decerto desde o século XVII. Realiza-se no segundo Domingo da Quaresma e é também conhecida como Procissão do Encontro, uma vez que era constituída por dois cortejos que se uniam a determinado momento do percurso[23].

A Procissão do Senhor dos Passos saía da basílica do Real Edifício de Mafra e a de Nossa Senhora da Soledade tinha origem na Capela do Campo Santo, também no Real Edifício de Mafra[23].

Actualmente, a imagem do Senhor Jesus dos Passos parte da basílica, encontrando-se com a imagem de Nossa Senhora da Soledade próximo da parte final do percurso, realizando-se depois, no final da procissão, o sermão do encontro[28].

Procissão de Penitência da Ordem Terceira de São Francisco (dita dos Terceiros)Editar

Esta procissão, que se realiza no quarto domingo da Quaresma, é representativa da solenidade e grandeza do período barroco em Portugal, sendo, do conjunto, a única que mantém os protocolos processionais inalterados desde a sua instituição por Frei Matias da Conceição, bibliotecário do Convento de Mafra[22].

A primeira procissão foi realizada no dia 27 de Março de 1740, sendo, por isso, a festividade religiosa que mais directamente se relaciona com a grandiosa obra de D. João V, que foi o principal mecenas ao tempo da instituição da procissão[29].

 
Andor da Estigmatização de São Francisco no Monte Alverne.

As imagens dos seus 10 andores, alusivos à história dos Franciscanos, foram na sua totalidade executadas pelo escultor Manuel Dias, conhecido como “O Pai dos Cristos”. Estão, na sua maioria, revestidas com as vestes e alfaias originais adquiridas naquele tempo por João Pedro Ludovice, filho do arquitecto do Real Edíficio de Mafra, por ordem de D. João V[22].

Faz parte do património desta procissão a camisa com a qual foi sagrado rei de França Luís XV, doada à imagem de São Luís por D. João V e que actualmente já não é utilizada nas procissões[30].

A procissão é enriquecida com diversos objectos artístico-religiosos notáveis, dos quais se destaca o denominado "Sol do Apocalipse", uma peça de latão dourado, de 1740, da oficina de António Rodrigues Leão, ourives da prata da Casa Real, e a "Cruz de Penitência", uma cruz que D. João V mandou vir de Roma em 1740 e que ainda hoje é transportada por um só homem, presumindo-se que seja a maior cruz de penitência do mundo em uso regular[31].

A mais monumental das esculturas representa Cristo Crucificado, atribuída ao genovês Anton Maria Maragliano e oferecida à Ordem Terceira de Mafra por Domenico Massa, carpinteiro responsável pela instalação dos carrilhões nas torres da basílica[32] [33].

Procissão das Sete Dores de Nossa Senhora (dita da Burrinha)Editar

 
Procissão do Enterro em Sexta-Feira Santa, Mafra.

A Irmandade de Nossa Senhora das Dores, instituída em 1779 na antiga Colegiada de Santo André de Mafra, promoveu a primeira procissão no ano de 1793[34].

Esta procissão realiza-se no Domingo de Ramos, por ser o Domingo seguinte à Sexta-Feira da Paixão em que se celebra a Festa das Sete Dores de Nossa Senhora[25].

O cortejo é composto por 7 andores alusivos às 7 dores da Mãe de Jesus, e um oitavo, com a imagem de Nossa Senhora das Dores, dele fazendo parte cerca de 50 imagens, atribuídas ao escultor Joaquim José de Barros Laborão, um dos últimos mestres da Escola de Escultura de Mafra, de acordo com Armindo Ayres de Carvalho[25].

O nome popular desta procissão, conhecida como a Procissão da Burrinha, tem origem no andor da Fuga para o Egito, no qual a Mãe de Jesus é representada montada numa burrinha[25].

A procissão foi suprimida em 1894 e retomada em 1954[25].

Procissão do Enterro do SenhorEditar

É imemorial o início da realização desta procissão, que se realiza na noite de Sexta-Feira Santa. Em 1773, a Ordem Terceira da Penitência de São Francisco procedeu ao pagamento de uma nova imagem de Nossa Senhora da Soledade, que é a mesma que ainda hoje processiona nas ruas da vila de Mafra[23].

Esta é uma das mais solenes procissões, uma vez que assinala a morte de Jesus[35].

O cortejo fúnebre, feito em silêncio, é apenas acompanhado pelos lamentos da Verónica e das Três Marias. Esta antiga tradição mafrense é acompanhada pelo Centurião, revestido com as suas vestes originais do século XVIII, figura típica da memória popular mafrense[23].

Notas

  1. António Baptista Garvo, filho do milanês Carlos Baptista Garvo, primeiro mestre pedreiro do Real Edifício de Mafra. Veja-se: VALE, (2013b), pp. 180-182.
  2. Sobre a casa do Capitão-Mor diz William Beckford que “dirigindo-nos para casa do capitão-mor, cuja jurisdição se estende por toda a tapada e região de Mafra. Ganha setecentas ou oitocentas coroas por ano e a sua casa tem todo o aspecto de pertencer a quem vive à larga e na opulência. Os sobrados são cobertos com asseadas esteiras, das portas pendem reposteiros de damasco vermelho e as nossas camas, novas em folha, estavam cobertas de colchas de cetim ricamente bordadas. Tivemos um excelente jantar preparado pelos cozinheiros e confeiteiros do marquês, e uma sobremesa muito melhor do que aquela que os próprios frades nos poderiam dar. O capitão-mor assistiu ao jantar, de pé, por detrás das nossas cadeiras, e tomava os pratos das mãos dos criados para no-los colocar na mesa”, in BECKFROD (2009), p. 118.
  3. Actualmente a imagem de São Sebastião e de Nossa Senhora das Dores encontram-se à guarda da Real e Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento da Paróquia de Santo André de Mafra, a imagem de Nossa Senhora da Graça existe na Igreja de Santo André e a de São Miguel é guardada pela Santa Casa da Misericórdia de Mafra. Vide HENRIQUES, Tiago, "A Real e Venerável Irmandade (...)".
  4. A imagem do padroeiro de Mafra desapareceu no primeiro quartel do século XX em circunstâncias pouco claras. Vide HENRIQUES, Tiago, "A Real e Venerável Irmandade (...)".
  5. O Padre Tomás Joaquim de Almeida foi prior de Mafra entre 1878 e 1902. Vide HENRIQUES, Tiago, "A Real e Venerável Irmandade (...)".

Referências

  1. «UNESCO World Heritage Centre - nominations to be examined at the 43rd session of the World Heritage Committee (2019)». UNESCO World Heritage Centre (em inglês). Consultado em 7 de julho de 2019 .
  2. ARVISSM (Arquivo da Real e Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento de Mafra), Compromisso da Irmandade [1725].
  3. ARVISSM, Correspondência [1835-1900].
  4. VENTURA (2002), pp. 135-136.
  5. AJI (ARQUIVO JÚLIO IVO), Memórias de Francisco Militão Almeida Pereira, fl. 146.
  6. a b c d e f g h i j k l m n o HENRIQUES, Tiago, "A Real e Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento da Paróquia de Santo André de Mafra – A Antiga e Nobre Colegiada de Santo André da Vila de Mafra e a Instituição da Irmandade do Santíssimo Sacramento", in Mafra Sacra : memória & património, 1717-2017 (…), pp. 167-177.
  7. AJI, Memórias (…), fl. 230.
  8. ARVISSM, Livro donde se lansão os acordaos e rezollusoins da menza, fl. 156 v.
  9. PIMENTEL (2002), p. 127.
  10. Cf. PRADO (1751), p. 5-6. Sobre a cruz veja-se PEREIRA (2000), pp. 61-62.
  11. Cf. CARVALHO (1992), p. 17; e ainda em PIMENTEL (2002) pp. 142-143.
  12. ARVISSM, Livro donde se asentão os Irmaos desta Irmandade, fls. 27, 30, 31, 33, 33 v., 34, 39, 40, 40 v., 158 v., 162, terminando o volume no ano 1761, nos volumes subsequentes podem ser encontrados mais pedidos de irmãos que residiam e trabalhavam na Real Obra.
  13. ARVISSM, Compromisso da Irmandade [1725], fl. 3.
  14. ARVISSM, Livro [que] serve das contas da Irmandade da meza, fl. 3.
  15. ARVISSM, Livro de Actas [1910-1914], fl. 4.
  16. ARVISSM, Livro da receita e despeza, [1839-1849], fl. 15.
  17. AJI, Memórias (…), fl. 13.
  18. GALRÃO (O Concelho de Mafra, n.º 372).
  19. AJI, Memórias (…), fl. 13.
  20. AMM (Arquivo Municipal de Mafra), Rascunho de uma carta de agradecimento dirigida à rainha D. Maria II, sobre a transladação da paróquia da igreja de Santo André para a Basílica de Mafra.
  21. AJI, Memórias (…) fl. 121.
  22. a b c CHAVES, Duarte Nuno, "A Procissão de Penitência da Venerável Ordem Terceira e as Suas Imagens de Vestir – Memórias Franciscanas da Sacra e Real Basílica de Nossa Senhora e Santo António", in Mafra Sacra : memória & património, 1717-2017 (…), pp. 305-325.
  23. a b c d e COSTA, Alexandre, e FELGUEIRAS, António, Paixão e Morte do Senhor Jesus – Expressões de Piedade na Vila de Mafra, in Mafra Sacra : memória & património, 1717-2017 (…), pp. 371-390.
  24. AJI, Memórias (…), fl. 288v.
  25. a b c d e FIGUEIREDO, Padre Ricardo, "A Devoção às Sete Dores de Nossa Senhora: História, Piedade e Teologia", in Mafra Sacra : memória & património, 1717-2017 (…), pp. 393-407.
  26. a b «Procissões da Quaresma». Câmara Municipal de Mafra. Consultado em 12 de agosto de 2019 .
  27. «Procissões da Quaresma de Mafra em conferência». Câmara Municipal de Mafra. Consultado em 2 de agosto de 2019 .
  28. «Procissões da Quaresma - Missa e Procissão do Senhor dos Passos». Câmara Municipal de Mafra. Consultado em 12 de agosto de 2019 .
  29. «Procissões da Quaresma - Missa e Procissão de Penitência da Ordem Terceira de São Francisco (Terceiros)». Câmara Municipal de Mafra. Consultado em 12 de agosto de 2019 .
  30. SALDANHA LOPES, A camisa (…).
  31. «Sol do Apocalipse, peça litúrgica única em Portugal, mostra-se no domingo em Mafra». Diário de Notícias. Consultado em 2 de agosto de 2019 .
  32. SALDANHA, Sandra Costa, Um crucifixo (…).
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BibliografiaEditar

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  • VENTURA, Margarida Garcez - A Colegiada de Santo André de Mafra (Séculos XV-XVIII) . Mafra: Câmara Municipal de Mafra, 2002. - ISBN 972-8204-30-2.

Ligações externasEditar