Disambig grey.svg Nota: Para o tronco linguístico, veja Macro-tupi. Para a língua falada pelos tupis, veja Língua tupi. Para outros significados, veja Tupi.

O tupi é um tronco linguístico milenar falado por diversos povos localizados em vários países da América do Sul (Brasil, Peru, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai). Apesar da dispersão pelo imenso território sulamericano, a linguagem permanece como significado de uma identidade cultural compartilhada. No território, hoje conhecido como Brasil, esses povos, cujos antepassados saíram há milênios do centro amazônico, expandiram-se ao norte do rio Amazonas, ao sul pelo Paraguai, a leste pelo Tocantins e a oeste pelo rio Madeira.[1] Se nomearam para se distinguir, ao se tornarem grupos diferentes, mesmo sendo descendentes de uma mesma família. Como o povo Tamoio significa “os mais antigos” (os avós); os Tupinambá, “descendentes diretos dos Tupi”, os Tupiniquim, “parentes dos Tupi, que vieram dos Tupinambá”, e os Guarani, “guerreiros”.[2]

Tupis
Homtupinamba.jpg
População total
Regiões com população significativa
litoral do Brasil
Línguas
tupi antigo
Religiões

HistóriaEditar

ArqueologiaEditar

 
Distribuição dos grupos indígenas na costa do Brasil no século XVI. A maior parte deles (mas não todos) eram do grupo tupi.

Estudos demonstram que os tupis teriam habitado originalmente os vales dos rios Madeira e Xingu, que são afluentes da margem meridional do rio Amazonas.[3] É sugerido ainda que diversos povos tupis antigos tenham ocupado as imediações da bacia do Guaporé há pelo menos 5000 anos [1]. Esses povos, que teriam hábitos sedentários, eram, caracteristicamente, agricultores. Se estabeleciam em um dado local e posteriormente, por fatores relacionados ao crescimento demográfico, eram impulsionados a continuar se espalhando pelo território, através do fracionamento das aldeias. As terras originalmente ocupadas não eram deixadas para trás, o que caracterizaria uma dinâmica de “expansão” sedentária. 

Esta dinâmica não ocorria em “saltos”, mas era gradativa. As populações tupis precisavam preparar os ambientes nos quais pretendiam se instalar, transformando as florestas originais em áreas produtivas e cultiváveis para sua agricultura. As novas áreas ocupadas eram geralmente contíguas às anteriores, ou seja, constituíam desdobramentos das aldeias originais. Evidências arqueológicas comprovam estes dados, sugerindo a presença e a ocupação contínua de aldeias durante períodos de mais de 1500 anos entre os Guarani, e mais de 1000 anos entre os Tupinambá [1].  

Numa hipótese alternativa, o folclorista Luís da Câmara Cascudo aponta a região dos rios Paraguai e Paraná como o centro original da dispersão dos tupis-guaranis (incluindo os povos guaranis junto com os tupis).[4]

Alguns autores suspeitam que, nesta trajetória, os tupis tenham enfrentado os tupinambás, que já habitariam o litoral; outros sustentam que apenas se tratava de levas sucessivas do mesmo povo, os posteriores encontrando os anteriores já estabelecidos. Certo é que, nesse processo, as tribos tupis derrotaram as tribos tapuias que já habitavam o litoral brasileiro, expulsando-as, então, para o interior do continente, por volta do ano 1000.[3]

Encontro com os europeusEditar

Nos primeiros anos após a invasão, a presença européia era esporádica, não havia um interesse na colonização da costa brasileira. Por isso, as primeiras relações entre tupis e portugueses se deram através de trocas conhecidas como escambo. Este consistia no intercâmbio da força de trabalho dos tupis, geralmente extraindo pau-brasil para as feitorias lusitanas, por mercadorias manufaturadas vindas de Portugal. Além do trabalho e do Ibirapitanga (mandeira de tintura), os navios portugueses adquiriam através do escambo também papagaios, araras e saguis, dentre outros.[5] Estes animais eram muito populares na Europa de então. É importante ressaltar que os tupis não estavam trocando bens de valor inestimável por “quinquilharias”, pois a visão de valor varia para cada sociedade. Melhores ferramentas ou espelhos eram mais valiosos no contexto indígena quinhentista do que a abundante vegetação de pau-brasil. A carga dessas trocas era muito mais simbólica do que de fato mercadológica.[6]

Conforme os anos foram avançando e os primeiros sinais de fixação portuguesa surgiram, a necessidade de mão de obra aumentou. Os povos tupis, que mantinham uma relação relativamente simétrica nas trocas por escambo, começaram a ser requeridos como força de trabalho para os novos empreendimentos portugueses nos engenhos de açúcar, fixados no nordeste e no litoral paulista. Como o escambo estava longe de ser eficiente como ferramenta de obtenção de mão de obra, uma vez que nem sempre os indígenas sentiam-se dispostos a realizá-los, os lusitanos apelaram para a coerção.[7] Sua estratégia consistiu em apropriar-se do trabalho nativo por meio do incentivo às guerras entre os grupos indígenas rivais, visando usar os cativos do conflito como escravos. No entanto, houve intensa resistência dos povos tupis à venda de seus cativos (tanto os captores quanto os prisioneiros). Isso ocorria devido à tradição da antropofagia, cuja realização era uma honra tanto para os sacrificados quanto para os que consumiam a carne. Por essa razão, os europeus, fortalecidos pela Igreja Católica e seu projeto de catequização, começaram uma forte campanha pelo fim dos rituais antropofágicos.

O projeto colonial português na América, assim como o de outros países europeus, foi extremamente dependente dos povos nativos para seu funcionamento. Portugal não tinha homens suficientes para ocupar propriamente as novas terras encontradas, muito menos para defendê-las dos ataques de nações indígenas hostis. A aliança com povos locais, principalmente os tupis, foi vital para sua permanência no território americano. Portugal necessitava de sua mão de obra para coletar as madeiras de pau-brasil para as feitorias e mais tardiamente para o plantio de gêneros agrícolas. Precisava também de seus guerreiros para defender o território e lutar em suas guerras de conquista, assim como do seu conhecimento da região. Um exemplo disso foi o sucesso das capitanias hereditárias de Pernambuco e São Vicente que, diferentemente das outras, contaram com aliados nativos vitais para o seu sucesso.[8]

As alianças entre indígenas e europeus não foram uma subserviência dos primeiros. Inicialmente, elas atendiam também às demandas dos próprios indígenas. As tentativas de estabelecimento de uma sociedade colonial no Brasil, no entanto, geraram um aumento da expectativa do trabalho nativo. Esses povos resistiram a tais expectativas, ao que os europeus responderam com violência. Os chefes tupis então, buscavam novas alianças ou até trocavam de lado nas guerras conforme suas conveniências.  A própria Confederação dos Tamoios, o mais célebre conflito do período, está repleta de exemplos onde povos rivais se unem para combater um inimigo comum ou se aliam a estrangeiros para enfrentar rivais locais. Essa fluidez das dinâmicas nativas é uma prova de sua agência na tomada de decisões importantes.[9]

AtualmenteEditar

Até hoje, existem, em locais de difícil acesso na Serra do Mar dos estados do Espírito Santo e Bahia, poucos grupos indígenas que se autodenominam tupinambás (vide Tupinambá de Olivença) e tupiniquins. Eles já não falam a sua língua original tupi e somam uns 3 000 indivíduos atualmente.

Organização socialEditar

 
Índia tupi do século XVII, por Albert Eckhout.

Os tupis se compunham de tribos compostas de unidades menores, as aldeias, que mantinham, interesses comuns entre si. Nas aldeias, havia, normalmente, de quinhentas a seiscentas pessoas, que viviam em grandes habitações coletivas, conhecidas como malocas, cuja estrutura de madeira recebia uma cobertura de folhas de palmeira. Em geral, o número de habitações variava de quatro a sete por aldeia, cada uma delas abrigando um grande grupo familiar. A poligamia era prática comum entre os chefes e entre os guerreiros mais destacados.

A organização social dos povos Tupi era determinada pelo sexo e pela idade. As mulheres além de realizar  todos  os serviços  domésticos,  relacionados  com  a  manutenção  da  casa  ou  com  a alimentação, também eram responsáveis pelo trabalho na agricultura (do plantio e semeadura até a conservação e a colheita), pela coleta (de frutas silvestres, de mariscos, etc.), pela domesticação dos animais e colaboravam na pesca. Encarregavam-se da da fabricação de farinhas, da preparação do cauim - bebida fermentada feita à base de mandioca e de outros produtos como caju - e de muitas atividades artesanais, como tecer redes, trançar cestos, fazer tapetes, produzir artigos de cerâmica, etc. Ademais, realizavam outras tarefas, como a depilação e a tatuagem dos homens de seu núcleo familiar e o despiolhamento tanto dos homens quanto das mulheres. Também eram incumbidas de preparar o corpo dos inimigos para o ritual de execução.[10]

Com a chegada dos europeus no século XVI as mulheres indígenas assumiram um papel importante no estabelecimento do sistema colonial, atuando como intermediárias nas relações diplomáticas e comerciais[11].

Além da derrubada da mata e da preparação da terra para o plantio, os homens ocupavam-se da caça, da pesca e da fabricação de canoas também de armas de guerra e instrumentos de trabalho. Deviam erguer as habitações, defender a aldeia, tomar parte da guerra e executar os prisioneiros, se sua tribo praticava a antropofagia. Também eram os homens que exerciam a função de curandeiros.

As crianças ajudavam os pais em algumas atividades e realizavam tarefas correspondentes à sua idade, como cuidar dos irmãos menores ou espantar os pássaros das plantações no período que antecedia a colheita.

A carga de trabalho designada às mulheres era extremamente pesada comparada aos afazeres dos homens. Entretanto, o que prevalecia era a interdependência dos trabalhos, visto que ambos se complementavam e se auxiliavam mutuamente.

ReligiãoEditar

Os diferentes povos tupis acreditavam descender de um personagem mitológico chamado Tupi. Por conta disso, muitas tribos tupis possuíam etnônimos que começavam com "tupi", como os tupinambás, os tupinaquis, os tupiguaés e os tupiminós.[12] Porém o principal culto entre os tupis que habitavam o litoral do Brasil no século XVI não era o de Tupi, mas o de Jurupari. Já Tupã, o trovão, era uma divindade secundária, que não possuía rito próprio. Exatamente por não possuir rito próprio, os padres católicos que procuravam difundir o cristianismo entre os índios escolheram Tupã como um símbolo para o deus cristão, de forma a facilitar a compreensão do cristianismo pelos índios, enxertando, na figura de Tupã, os princípios cristãos. Ao mesmo tempo, associaram Jurupari ao diabo cristão, de forma a desestimular seu culto entre os índios tupis.[13]

Influência na cultura brasileiraEditar

Os tupis foram objeto de poesia e prosa no movimento literário romântico do Brasil do século XIX (ver indianismo). Além disso, a língua tupi exerceu uma grande influência na formação do português brasileiro. Os tupis também influenciaram muitos outros aspectos da cultura brasileira contemporânea, como o uso de redes de dormir, a culinária (pratos como o beiju, a farinha de mandioca etc.), vários mitos do folclore brasileiro (como o boitatá, o saci, o curupira etc.), o esporte da peteca e muitos dos atuais topônimos brasileiros.

Nações indígenasEditar

Tupis NotáveisEditar

  • Martim Afonso Tibiriçá - Cacique tupiniquim que teve fortes relações com os lusitanos, desenvolvidas através de casamentos entre o português João Ramalho e sua filha. Ele foi um dos responsáveis pela fundação da vila que viria a se tornar a atual cidade de São Paulo.
  • Araribóia - Foi o chefe de um grupo de temiminós que habitavam o atual estado do Espírito Santo, depois da catequização de sua aldeia, uniu-se aos portugueses incursões, chegando a acompanhar Estácio de Sá em 1564 na batalha de fundação do Rio de Janeiro.
  • Aimberê - Um dos principais articuladores e líderes da Confederação dos Tamoios, dedicou a vida ao combate aos portugueses, reunindo tribos rivais para um objetivo comum.
  • Felipe Camarão - O potiguar convertido em 1614 foi um dos mais importantes nomes nas guerras de defesa contra a Holanda no nordeste brasileiro, recebendo as mais altas honrarias como o título de “capitão-mor de todos os índios” e “cavaleiro da Ordem de Cristo”.
  • Sepé Tiaraju - Foi um Guarani corregedor, alferes-mor e comandante do aldeamento Jesuíta de São Miguel na região do Prata. Ele foi a principal liderança indígena nas Guerras Guaraníticas, visando impedir o cumprimento do tratado de Madrid e o deslocamento forçado de seu povo.

    Referências

  1. a b c NOELLI, Francisco. «As hipóteses sobre o centro de origem e rotas de expansão dos Tupi.». Revista de Antropologia, São Paulo, v. 39, n. 2, p. 7-53, 1996 
  2. WERÁ, Kaká (1998). A terra dos mil povos: história indígena brasileira contada por um índio. São Paulo: Peirópolis 
  3. a b BUENO, E. Brasil: uma história. 2ª edição. São Paulo. Ática. 2003. p.19.
  4. CASCUDO, L. C. Geografia dos mitos brasileiros. 3ª edição. São Paulo. Global. 2002.
  5. MARCHANT, Alexander “Do Escambo à Escravidão: as relações econômicas de Portugueses e índios na colonização do Brasil’, São Paulo; Rio de Janeiro; Recife; Porto Alegre, Companhia Editora Nacional, 1943.
  6. MONTEIRO, John M. ENTRE O ETNOCÍDIO E A ETNOGÊNESE. Tupis, tapuias e historiadores. 2017. p.53 - 78
  7. MARCHANT, Alexander “Do Escambo à Escravidão: as relações econômicas de Portugueses e índios na colonização do Brasil’, São Paulo; Rio de Janeiro; Recife; Porto Alegre, Companhia Editora Nacional, 1943.
  8. Stuart B. Schwartz, Segredos Internos: Engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550–1835. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
  9. Almeida, Maria Regina Celestino. Metamorfoses Indígenas: Identidade e Cultura nas Aldeias Coloniais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.
  10. FLORESTAN., Fernandes, (1963). Organização social dos Tupinambá. [S.l.]: Difusão Européia do Livro. OCLC 510466 
  11. FERNANES, João (2016). De Cunhã a mameluca. João Pessoa: Editora UFPB 
  12. NAVARRO, E. A. Dicionário de Tupi Antigoː a Língua Indígena Clássica do Brasil. São Paulo. Global. 2013. p. 484.
  13. CASCUDO, L. C. Geografia dos mitos brasileiros. 3ª edição. São Paulo. Global. 2002. p. 57,58.

Ligações externasEditar