Turguexes

Os turguexes ou turguixes (em turco antigo; 𐱅𐰇𐰼𐰏𐰾:𐰉𐰆𐰑, ;[1] em chinês: 突騎施/突骑施, pinyin: tūqíshīWade-Giles: t'u-ch'i-shih; em tibetano antigo: du-rgyas)[2] foram uma confederação tribal turca. Originalmente pertencentes ao ramo Duolu das elites On Oq do Grão-Canato Turco Ocidental, os turguexes emergiram como uma potência independente depois do desmoronamento do estado turco-ocidental e fundaram um grão-canato em 699. O Grão-Canato Turguexe existiu até 766, quando foi derrotado pelos carlucos. A nobreza turguexe estava ligada aos goturcos através de casamentos.[3]

Grão-Canato Turguexe

𐱅𐰇𐰼𐰏𐰾:𐰉𐰆𐰑

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699766 
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Ásia Central
Países atuais Usbequistão

Cazaquistão

Quirguistão

China


Língua dos governantes turco antigo
Religiões tengriismo e maniqueísmo

Forma de governo monarquia
Grão-cã
• 699–706  Wuzhile (*Üç Elig)
• 706–711  Suoge (Sacal)
• 714–738  Suluque
• c. 750–766  Ata Boila

Período histórico Idade Média
• 657  Desmoronamento do Grão-Canato Turco Ocidental
• 699  Fundação
• Década
de 720
  Vitórias frente aos omíadas
• Década
de 720
  Derrotas frente aos omíadas
• 739  Guerra civil
• 766  Destruição pelos carlucos

Sobre a origem do etnónimo, baseando-se em Talât Tekin e facto de ser um sufixo gentílico, Christopher P. Atwood sugere que está relacionado com o lago Türgi-Yarğun mencionado numa das inscrições de Orcom dedicada a Culteguim (c. 684–731), um general e príncipe do Segundo Canato Turco Oriental.[4][5][6]

Composição tribalEditar

Há registo de duas ou três subtribos turguexes no século VII: a Alixi (em chinês: 阿利施) ou Sarï ("amarela") e a Cara ("negra"; em chinês: 娑葛, Suoge < *Soq ou *Saqal, ou 莫賀, Mohe < *Bağa).[7][8] O líder e depois grão-cã Suluque (r. 714–738) pertencia à subtribo negra.[9][10][11][12] O Grão-Canato Turguexe também integrou tribos ou clãs do Grão-Canato Turco Ocidental; por exemplo, o subordinado de Suluque Culchor, que depois foi grã-cã turguexe (r. 739–744), pertencia à tribo Duolu Chumukun (em chinês: 處木昆), que vivia a sul do lago Balcache (atualmente no sudeste do Cazaquistão), entre os territórios turguexes e carlucos.[13] O proeminente general da Dinastia Tangue chinesa Geshu Han era de origem Duolu e turguexe[14] e Geshu (阿舒) era o seu sobrenome tribal Nushibi.[15] [nt 1] Quando nomeavam as tribos turcas Duolu, os historiadores chineses podem ter mencionado os calajes (Khalaj; em turco: Halaçlar), outro povo turco que vivia a oeste dos turguexes, juntamente com estes, sob a denominação comum 突騎施-賀羅施 (Tūqíshī-hèluóshī, do turco antigo Türgeš-Qalač).[7] No final do século VII existiu também um chefe do Canato Uigur chamado Turguexe.[17]

História do Grão-Canato TurguexeEditar

Antes de se tornarem independentes, os turguexes eram governados por um tutuk, depois shad, das elites Onoq do Grão-Canato Turco Ocidental. O líderes turguexes pertenciam à tribo Duolu e ostentavam o título de chur (ou chor). Um comandante turguexe da província de Talas e da cidade de Balu tinha um nome que simbolizava uma espécie de relação com uma esfera divina ou celestial. O primeiro grão-cã (ou cagã, khagan), Wuzhile (烏質; wuzhi significa "substância negra"; em turco antigo: *Üç Elig ou Oçırlıq), foi líder dum grupo maniqueísta chamado yüz er ("cem homens"). Fundou o Grão-Canato Turguexe em 699 e em 703 conquistou a cidade de Suyab à Dinastia Tangue.[18] Morreu em 706 e foi sucedido pelo filho Suoge (também conhecido como Sacal). Como o seu pai, ostentou o título religioso maniqueísta Iuslique (Yuzlik).[19]

Em 708, Suogue atacou a cidade Tangue de Chiuci (em Cucha) e no ano seguinte infligiu uma derrota aos Tangue. Porém, o seu irmão mais novo Zhenu rebelou-se e procurou o apoio militar de Capagã, grão-cã do Segundo Grão-Canato Turco. Capagã derrotou os turguexes em 711 na Batalha de Bolchu, travada no que é hoje o norte do Sinquião, na China, não longe do lago Ulungur, ou talvez mais a norte, no que é hoje território russo. Os irmãos Suoge e Zhenu foram mortos na batalha e os turguexes derrotados fugiram para Zhetysu. Em 714 os turguexes elegeram Suluque (ou Sulu) como seu grã-cã.[20]

Cronologia do reinado de SuluqueEditar

  • 720 — Tropas turguexes comandadas por Culchor derrotaram um exército do Califado Omíada liderado por Saíde ibne Abdulazize perto de Samarcanda.[21]
  • 722 — Suluque desposou a princesa Tangue Jiaohe.[21]
  • 724 — O califa omíada Hixam ibne Abdal Malique enviou um novo governador para a sua província de Coração, Muslim ibne Saíde Alquilabi, com ordens de esmagar os "turcos" duma vez por todas. Muslim por sofreu uma pesada derrota frente a Suluque na batalha que ficou conhecida como "Dia da Sede". Muslim escapou a custo e conseguiu chegar a Samarcanda com um punhado de sobreviventes, enquanto os turguexes continuaram a atacar sem cessar e sem terem resistência.[22]
  • 726 — Os turguexes atacaram novamente Cucha.
  • 727 — Novo ataque a Cucha, desta vez em aliança com o Império Tibetano.[18]
  • 728 — Suluque derrotou tropas omíadas enquanto apoiava uma rebelião de soguedianos e tomou Bucara.[22]
  • 731 — Derrota dos turguexes, com pesadas baixas, frente aos omíadas na Batalha do Desfiladeiro, travada a meio caminho entre Samarcanda e Qués (Xacrisabez).[23]
  • 735 — Ataque dos turguexes ao protetorado chinês de Beiting (atual Jimsar, no Sinquião).[24]
  • 737 — No inverno, Suluque e os seus aliados Alharite, Guraque (um líder soguediano que governou Samarcanda) e tropas de Osruxana, Chache (Tasquente) e do Principado de Cutal atacaram os omíadas. Suluque chegou a entrar em Josjã, mas foi derrotado pelo governador omíada Assade ibne Abdalá na Batalha de Caristão, travada em dezembro perto de Meimané.[18]

Culchor e fim do grão-canatoEditar

A seguir a ter sido derrotado em Caristão, Suluque foi assassinado pelo seu familiar Culchor.[25] Cute Chor, filho de Suluque, foi aclamado grão-cã em Suyab pelos turguexes negros,[26] mas o grã-canato mergulhou numa guerra civil entre as fações negra (Cara), e amarela (Sari). Em agosto de 739, Culchor, líder dos turguexes amarelos, aliou-se ao general Tangue Gai Jiayun (蓋嘉運) e ao rei de Chache Bagatur Tudum e derrotou Kut Chor, que foi enviado para Changan, onde foi simbolicamente sacrificado. Entretanto foi perdoado pelo imperador Tang Xuanzong e tornou-se general ao serviço do imperador chinês.[27]

Após derrotar Tumoche, líder dos Cara, Culchor ficou sem rivais para ocupar o trono. Em 740 tornou-se vassalo da Dinastia Tangue, mas dois anos depois rebelou-se contra o governante fantoche enviado pela corte Tangue. Acabou por ser derrotado e executado pelos chineses em 744.[25]

O último grão-cã turguexe, Ata Boila, declarou-se vassalo do recém estabelecido Canato Uigur. Em 766, os carlucos conquistaram Zhetysu e acabaram com o Grão-Canato Turguexe.[25]

LegadoEditar

Segundo o historiador persa do século XI Abuçaíde Gardizi, os povos tusis (de Zhetysu e áreas vizinhas) e azes podem ter sido descendentes dos turguexes,[19] assim como os calajes (dos quais há registos de terem vivido na região de iraniana de Gásni e na de Zabol, no Afeganistão).[28][29][30] A tribo Suogue, associada aos turguexes, juntamente com os chiguiles e anqingues participaram na etnogénese dos turcos Shatuo que fundaram várias dinastias e um reino do Período das Cinco Dinastias e dos Dez Reinos da China.[31][32]

Segundo o linguista, etnólogo e turcologista russo Nikolai Baskakov, o etnónimo türgesh sobevive no nome dum seok (clã) com esse nome os altaicos.[33]

Grão-cãs turguexesEditar

  1. Wuzhile (*Üç Elig ou *Oçırlıq) (r. 699–706)
  2. Suoge ou Sacal (r. 706–711)
  3. Suluque ou Sulu (r. 716–738)
  4. Cute Chor (r. 738–739)
  5. Culchor (Kül-chor) ou Baga Tarcã (r. 739–744)
  6. El Etemis Cutlugue Bilgue (r. 744–749) [8]
  7. Ibo Cutlugue Bilgue Juchi (r. 749–751) [8]
  8. Tengri Ermixe (r. 753–755) [8]
  9. Ata Boila (r. anos 750–766)

NotasEditar

  1. Nushibi ou Nu-shibi (弩失畢) era o nome que os chineses davam às cinco tribos da parte mais a oeste do Grão-Canato Turco Ocidental.[16]

Referências

  1. «The Bilge Kagan inscription. Face.» (em inglês). Türik Bitig. Comité da Língua do Ministério da Cultura e Informação do Cazaquistão. Consultado em 7 de novembro de 2020 
  2. Venturi 2008
  3. Ergin 1975, p. 80.
  4. Tekin 1968, pp. 107, 269, 387.
  5. Atwood 2013, p. 69, nota 113.
  6. «The Kultegin Inscription (1-40 lines)» (em inglês). Türik Bitig. Comité da Língua do Ministério da Cultura e Informação do Cazaquistão. Consultado em 7 de novembro de 2020 
  7. a b Stark 2016, p. 2122.
  8. a b c d Thierry 2006
  9.   Zizhi Tongjian, vol. 211 no Wikisource em chinês.
  10. Theobald, Ulrich (9 de fevereiro de 2013). «Tuqishi 突騎施, Türgiš» (em inglês). ChinaKnowledge.de -An Encyclopaedia on Chinese History, Literature and Art. Consultado em 7 de novembro de 2020 
  11. Asimov, Bosworth et al. 1999,[falta página]
  12. Inaba 2010, pp. 191-202.
  13. Grousset 1970, p. 115.
  14. Xiong 2016, p. 151.
  15. Kenzheakhmet 2014, p. 303.
  16. Zuev 2004, p. 53.
  17. Golden 2015, p. 530, note 138.
  18. a b c Bregel 2003, p. 18.
  19. a b Zuev 2002, p. 153.
  20. Zuev 2002, pp. 207, 209, 239.
  21. a b Golden 1992, p. 140.
  22. a b Asimov & Bosworth 1998, p. 25.
  23. Shaban 1979, p. 113.
  24. Bregel 2003, p. 19.
  25. a b c Asimov & Bosworth 1998, p. 33.
  26. Gumilev 2002,[falta página].
  27. Gao Dong 1983,[falta página].
  28. Gumilev 1988.
  29. Pylypchuk
  30. Minorsky 1937, pp. 300–304.
  31. Golden 1992, p. 165.
  32. Atwood 2010, pp. 693–621.
  33. Baskakov 1965, p. 9.

BibliografiaEditar