Bandeira do Uzbequistão Bucara

BuxoroБухороБухараبخاراBoxaraBuhara

 
  Cidade  
Mesquita Kalan, em Bucara
Mesquita Kalan, em Bucara
Localização
Bucara está localizado em: Uzbequistão
Bucara
Localização de Bucara no Uzbequistão
Coordenadas 39° 46' N 64° 26' E
Província Bucara
História
Fundação século VI a.C.
Características geográficas
Área total 73 km²
População total (2016) [1] 247 644 hab.
Densidade 3 392,4 hab./km²
Altitude 225 m
Sítio www.buxoro.uz

Bucara[2] (em uzbeque: Buxoro, em cirílico: Бухоро; em russo: Бухара; em persa: بخارا; em tártaro: Boxara; Buhara) é a quinta maior cidade do Uzbequistão[1] e capital da província homónima (Buxoro viloyati). Em 2016 tinha 247 644 habitantes[1] (densidade: 3 392,4 hab./km²),[carece de fontes?] a maior parte deles falantes de tajique, uma variante do persa.[3] A área de Bucara é habitada pelo menos desde há 5 000 anos e a cidade existe desde o século VI a.C.[3] É uma cidade histórica, situada na Rota da Seda, que durante muito tempo foi um centro de comércio, estudo, cultura e religião. Foi capital do Império Samânida e do Canato de Bucara e nela nasceu o proeminente erudito e teólogo islâmico al-Bukhari (810–870).[4] Conta com cerca de 140 monumentos importantes do ponto de vista arquitetónico e histórico e em 1993 o seu centro histórico, onde se encontram várias mesquitas e madraças, foi declarado Património Mundial pela UNESCO.[5][6]

Pix.gif Centro histórico de Bucara *
Welterbe.svg
Património Mundial da UNESCO

Closeup of Mir-i-Arab Madrasa.jpg
Madraça Mir-i Arab
País Uzbequistão
Tipo cultural
Critérios (ii) (iv) (vi)
Referência 602 en fr es
Região** Ásia e Pacífico
Histórico de inscrição
Inscrição 1993  (17.ª sessão)
Extensão 2016
* Nome como inscrito na lista do Património Mundial.
** Região, segundo a classificação pela UNESCO.

EtimologiaEditar

O nome exato de Bucara na Antiguidade é desconhecido. O oásis onde se situa tinha esse nome e possivelmente foi só no século X que a cidade tomou o nome.[7]

Há várias teorias para a origem do nome. Uma delas é que deriva do sânscrito vihāra ("mosteiro budista"), muito próxima dos termos usados pelos uigures e chineses budistas apar designar os seus locais de culto. No entanto, não foram encontrados quaisquer artefatos relacionados com cultos budistas ou maniqueístas na cidade ou no seu oásis.[carece de fontes?] No século XIX e início do século XX, a cidade era referido como Bokhara nas publicações em inglês e como Buhe ou Puhe (捕喝) entre os chineses han.[8]

Segundo a Encyclopædia Iranica, o nome Bucara deriva possivelmente do termo sogdiano βuxārak ("Lugar de Boa Fortuna").[9] Na sua História de Bucara, terminada em 943 ou 944, Maomé ibne Jafar Narshakhi escreveu: «Bucara tem muitos nomes. Um deles era Numijkat. Também se chamou Bumiskat. Tem dois nomes em árabe. Um é "Madinat al Sufriya", que significa cidade do cobre e outro "Madinat al Tujjar", que significa cidade dos mercadores. Mas o nome Bucara é mais conhecido do que todos os outros nomes. No Grande Coração não há outra cidade com tantos nomes».[10]

Segundo Ali-Akbar Dehkhoda, Bucara significa "cheio de conhecimento", uma referência ao facto da cidade ter sido um importante centro de conhecimento, ciência e estudo.[carece de fontes?] Desde a Idade Média que a cidade aparece como Buḫārā (بخارا) nas fontes árabes e persas.[carece de fontes?] Na grafia uzbeque atual, escreve-se Buxoro. No poema épico italiano Orlando Innamorato, publicado em 1483 por Matteo Maria Boiardo, a cidade aparece com o nome de Albracca e é descrita como uma das maiores cidades de Catai. Nessa cidade muralhada e na fortaleza, Angélica e os cavaleiros de quem se torna amiga enfrentam o ataque de Agricã (Agricane em italiano), imperador da Tartária. A descrição deste cerco por Agricã assemelha-se ao cerco histórico de Gengis Cã a Bucara em 1220.[11]

HistóriaEditar

A cidade foi fundada no século VI a.C. numa área onde há vestígios de povoamento que remontam ao 3.º milénio a.C.. O oásis de Bucara atraiu o interesse dos estados vizinhos muito cedo. O mais tardar no século VI a.C., durante o reinado de Dario, o Grande, já tinha sido conquistado pelos persas aqueménidas. Em 329 a.C., após a conquista da Pérsia por Alexandre, o território de Sogdiana, do qual fazia parte Bucara, tornou-se uma possessão grega até ao século II a.C. Entre o fim do século I a.C. e meados do século IV d.C., a cidade fez parte do Império Cuchana; foi no início desta época que se começou a estabelecer o comércio com os países a ocidente e a oriente. No século V Bucara foi integrada no Império Heftalita.[12]

Em 710 a cidade foi ocupada pelas tropas árabe-islâmicas durante o Califado Omíada: o general Cutaiba ibne Muslim, governador da província omíada de Coração, estabeleceu a sua autoridade sobre o príncipe local.[13] Aparentemente, o herdeiro do trono de Bucara, Tuguechada, converteu-se rapidamente ao islão e reinou entre 710 e 739. Nesse período a cidade tornou-se um importante centro de cultura e fazia parte da província de Coração, cuja capital era Merv. Bucara ocupava então cerca de 30 a 35 hectares e tinha uma muralha com sete portas; as ruas estavam orientadas segundo os pontos cardeais e estavam organizadas como um tabuleiro de xadrez.[12]

No final do século IX[12] ou em 903[14] a cidade tornou-se a capital da dinastia persa dos samânidas e o seu aspeto modificou-se. A muralha passou a ter onze portas, o rabade (arrabalde) expandiu-se em volta da parte muralhada (chakhristan) e a população aumenta significativamente, com as profissões a determinarem o local de residência. Foram construídos numerosas mesquitas e mausoléus, entre eles o Mausoléu Samânida. A capital samânida foi um polo intelectual e religioso de primeira importância no mundo islâmico,[15] onde residiram numerosos eruditos, poetas e escritores, como Avicena (Abu Ali ibne Sina; 980–1037), Rudaqui (ca. 859–940 ou 941) e Albiruni (973–1048).[12]

 
moeda de ouro de 20 estáteres do Reino Greco-Báctrio com a efígie do rei Eucrátides I (ca 171–145 a.C.), a maior moeda de ouro conhecida da Antiguidade, encontrada em Bucara; atualmente no Cabinet des Médailles, Paris

Em 999 Bucara foi invadida pelos turcomanos caracânidas. Durante o domínio caracânida foram cosntruídos vários monumentos que ainda existem atualmente, como o minarete de Arslan-Khana (de Kalyan), as mesquitas de Magok-i-Attari e de Namezgokh e o mausoléu de Chashma-Ayub.[12] Entre 1102 e 1238, a cidade foi governada pela família de cádis dos Ali-Burã.[carece de fontes?] Sendo um entreposto comercial importante, na Idade Média a cidade teve uma comunidade de mercadores indianos da cidade de Multan (atualmente no Panjabe paquistanês).[16]

Em 1220, foi tomada por Gengis Cã após um cerco de 15 dias[17][18] e em 1370 foi integrada no Império Timúrida. Há registo, embora sem detalhes, dum encontro ocorrido na cidade entre o monarca timúrida Ulugh Beg e uma embaixada do Tibete no inverno de 1420-1421. Bucara foi perdendo importância a favor de Samarcanda, a capital timúrida, mas voltou a prosperar e a ganhar protagonismo após ter sido tomada pelos xaibânidas em 1506 e, principalmente, quando Abdulá Cã II a tornou capital do Canato de Bucara, na segunda metade do século XVI.[12] Este estado, do qual também fez parte Samarcanda, foi um dos três canatos uzbeques formados na sequência do colapso do Canato de Chagatai; os outros dois foram o de Kokand e o de Quiva.

Em 1599 subiu ao poder no Canato de Bucara uma nova dinastia, de ascendência astracânida, que rapidamente foi abalada em querelas internas marcou o início do declínio do canato. Em 1740 o canato foi invadido pelo rei persa Nader Xá, que nomeou como governador Maomé Raquim Cã. Este proclamou-se emir e fundou a dinastia manguita e o Emirado de Bucara.[12]

 
“Bazar em Bucara”, uma pintura do russo Vasily Verechagine datada da década de 1870, atualmente no Museu Nacional de Varsóvia

Apesar de ter perdido grande parte do seu território para o Império Russo em 1868 e se ter tornado um protetorado russo em 1873, o emirado manteve a cidade até 1920, quando foi cercada pelo Exército Vermelho, durante a Guerra Civil Russa. As tropas soviéticas comandadas pelo general bolchevique Mikhail Frunze atacaram Bucara em 31 de agosto o emir Maomé Alim Cã fugiu para Duchambé, na parte oriental do emirado e atualmente no Tajiquistão; mais tarde fugiu para Cabul, no Afeganistão. A 2 de setembro, depois de quatro dias de combates, a cidadela do emir (a "Ark") foi destruída e a bandeira vermelha foi desfraldada no cimo do minarete da Mesquita Kalan. A 14 de setembro, foi formado o Comité Revolucionário de Bucara, chefiado por A. Mukhitdinov. À frente do governo — o Conselho dos Nazires do Povo — ficou Fayzulla Khodzhayev.

A República Popular Soviética de Bucara existiu entre 1920 e 1925, ano em que a cidade foi integrada na República Socialista Soviética Uzbeque. Fitzroy Maclean, na altura um jovem diplomata na embaixada britânica em Moscovo, fez uma visita subreptícia a Bucara em 1938, onde passeou e dormiu em jardins públicos. Nas suas memórias Eastern Approaches descreveu-a como uma "cidade encantada com edifícios que rivalizavam com a melhor arquitetura da Renascença italiana". Na segunda metade do século XX, a guerra no Afeganistão e a guerra civil do Tajiquistão provocou uma vaga de refugiados de falantes de dari e tajique em Bucara e Samarcanda. A integração desses refugiados na população tajique local contribuiu para a criação dum movimento para anexação dessas cidades pelo Tajiquistão, país com o qual as cidades não fazem fronteira.[19]

Principais monumentos históricosEditar

 
Pátio do Po-i-Kalyan, com a respetiva madraça e minarete
 
Pátio da Mesquita Kalyan

Conjuntos arquitetónicosEditar

Po-i-KalyanEditar

O Po-i-Kalyan, também chamado ou escrito Po-i-Kalan (em persa: پای کلان, que significa "Grande Fundação") é o conjunto arquitetónico da Mesquita Kalyan, conhecida especialmente pelo seu grande minarete. (Minâra-i Kalân, "grande minarete" em persa e tajique).

Minarete Kalyan

O Minâra-i Kalân ("grande minarete" em persa e tajique), também conhecido como Torre da Morte, devido a segundo a lenda ser o local onde os criminosos eram executados ao ser atirados do cimo. O minarete, que domina o centro histórico da cidade, tem uma função principalmente decorativa, pois as suas dimensões excedem a principal função dos minaretes, que é a de proporcionarem um ponto vantajoso para o muezim chamar os fiéis para as orações. Para esse propósito bastava ir para o telhado da mesquita, o que era uma prática comum nos primeiros tempos do islão. A palavra minarete deriva do árabe minara, que significa farol ou, literalmente, "local onde alguma coisa arde". É possível que os minaretes da região fossem adaptações da "torres de fogo" ou faróis dos períodos zoroastrista anteriores.[20]

O arquiteto do minarete, cujo nome era Bako, desenhou-o como uma torre-pilar circular ligeiramente cónica em tijolo. O diâmetro da base é 9 metros e no topo é 6 m. Tem 45,6 m de altura e é visível a longa distância nas planícies em volta. No interior há uma escada de tijolo em espiral, que dá acesso a um terraço circular com 16 arcos, sobre os quais assenta uma cornija (ou xarife).[21]

Mesquita Kalyan

A Masjid-i Kalân (Grande Mesquita) é um edifício cuja construção terminou supostamente em 1514, com lotação para 12 000 pessoas. Embora seja semelhante à Mesquita de Bibi Hanim em Samarcanda, nomeadamente nas dimensões, tem diferenças na construção. O pátio que a circunda tem galerias com um teto com múltiplas abóbadas suportado por 280 pilares monumentais. O eixo longitudinal termina num portal que dá acesso à câmara principal (maksura), a qual tem uma sala em forma de cruz que é encimada por uma grande cúpula azul que assenta sobre uma base cilíndrica revestida a mosaicos. O edifício apresenta várias curiosidades arquitetónicas, como por exemplo um furo numa das abóbadas, através do qual se podem ver as fundações do minarete; recuando, conseguem-se contar todas as filas de tijolos do minarete.[22]

Madraça Mir-i Arab
 
Madraça Mir-i Arab

A construção desta madraça é atribuída ao xeque Abdullah Yamani do Iémen, conhecido como Mir-i-Arab, o mentor espiritual de Ubaidullah-khan e do seu filho Abdul-Aziz-khan. Ubaidullah-khan esteve envolvido em guerras permanentes e vitoriosas com o Irão, tendo cercado Herat pelo menos três vezes. Os seus raides de saque no Irão eram acompanhados pela captura de numerosos cativos. Diz-se que Ubaidullah-khan gastou o dinheiro ganho com o resgate de mais de 3 000 prisioneiros persas na construção da Madraça Mir-i Arab. Era um homem muito religioso, que tinha sido educado para ter um grande respeito pelo islão sufista. O seu pai deu-lhe o nome dum proeminente cheque do século XV, Ubaidullah al-Ahrar (1404–1490), originário da região de Tasquente.[23]

A construção da madraça foi concluída na década de 1530, numa época em que os soberanos locais erigiam esplêndidos mausoléus para si e para os seus familiares. Os cãs da xaibânidas eram muito ciosos das tradições corânicas e davam tanta importância à religião que até um cã poderoso como Ubaidullah foi enterrado junto ao seu mentor, debaixo do centro da abóbada (gurhana) da madraça. Perto desse túmulo está enterrado Maomé Cacim, mudarris (professor sénior) da madraça, que morreu em 1637 ou 1638. O portal da madraça situa-se num eixo que passa pelo portal da Mesquita Kalyan. No entanto, devido à parte oriental do pátio, a madraça está sobre uma plataforma.[23]

Labi HovuzEditar

 
Labi Hovuz e khanqa de Nadir Divanbegi

O conjunto de Labi Hovuz (também escrito Labi-Hauz, Lyab-i Hauz, Lyab-i Khauz e Lab-e hauz; do persa لب حوض,, que significa "junto ao lago") é uma área que rodeia um dos últimos hauz (lagos ou tanques) em Bucara. Antes do período soviético existiam vários desses lagos, que funcionavam como as principais fontes de água da cidade, mas também contribuíam para a propagação de doenças, o que levou a que fossem drenados durante as décadas de 1920 e 1930. O Labi Hovuz foi mantido devido a ser o centro dum conjunto arquitetónico datado dos séculos XVI e XVII. Dele fazem parte a Madraça Kukeldash, do século XVI, a maior da cidade,[24] situada na margem norte do lago.[25] Nas margens oriental e ocidental do lago encontram-se o khanqa (albergue para sufis itinerantes) de Nadir Divanbegi e a madraça de Nadir Divanbegi, ambos do século XVII.[26]

Há também uma escultura de metal representando Nasrudin Hoca, o sábio popular e satírico, perspicaz e de espírito caloroso, que é personagem de numerosos contos infantis da Turquia, Ásia Central e Paquistão. Nasrudin está montado numa mula, com uma mão no coração e a outra segurando uma tabuleta acima da cabeça onde se lê "tudo bem".

Complexo arquitetónico BahoutdinEditar

 
Entrada do Mausoléu de Bahoutdin

Este conjunto arquitetónico é uma necrópole em homenagem a Shaykh Bohoutdin (ou Bahoutdin; 1318–1389), o fundador da tariqa (ordem sufista) Naqshbandi, considerado o patrono espiritual dos governantes de Bucara. Os principais monumentos do conjunto são a dahma (estela funerária) de Bahoutdin, o khanqa de Abdul-Lazizkhan e as mesquitas de Khakim Kushbegi e de Muzaffarkan. O conjunto é candidato a Património Mundial desde 2008.[27]

MausoléusEditar

 
Mausoléu de Chashma-Ayub
Mausoléu de Chashma-Ayub

Construído durante o reinado de Tamerlão (r. 1370–1405), o seu nome significa "Fonte de Jó", uma referência à lenda segundo a qual o profeta (Ayub no Alcorão) visitou o local e fez brtar uma fonte batendo com o seu cajado no chão. Diz-se que a água da nascente é excecionalmente pura e suspostamente tem propriedades curativas. O edifício, candidato Património Mundial desde 2008 tem a particularidade de ter uma cúpula cónica ao estilo de estilo corásmio, o que é incomum na região.[28]

Mausoléu Samânida
 
Mausoléu Samânida

O mausoléu de Ismail Samani, o proeminente soberano do Império Samânida do virar do século IX para o século IX, é uma das obras mais importantes da arquitetura da Ásia Central. Situado perto do complexo de Bahoutdin, foi construído entre 892 e 943 e é único pelo seu estilo arquitetónico, que combina motivos islâmicos e zoroastrista. A fachada é coberta de tijolos ricamente decorados, com padrões circulares reminiscentes do sol, uma imagem comum na arte zoroastriana da região, que evocam o deus Aúra-Masda, tipicamente representado por fogo e luz. O edifício tem forma cúbica e tem reminiscências da Caaba de Meca; o teto em abóbada é típico da arquitetura das mesquitas. O estilo sincrético do santuário reflete o panorama religioso do período em que foi construído, quando a região ainda tinha uma população numerosa de zoroastristas, que começaram a converter-se ao islão nessa altura.

O mausoléu é considerado um dos monumentos mais antigos da região de Bucara. Diz-se que na altura da invasão de Gengis Cã já estava enterrado em lama devido a cheias, pelo que foi poupado da destruição.

O Mazar-e-Quaid, o mausoléu do fundador do Paquistão, Ali Jinnah, em Carachi, teve como modelo o Mausoléu Samânida.

MesquitasEditar

Mesquita Bolo Haouz

Construída em 1712 no bairro de Registan no lado oposto da citadela de Ark, a Mesquita Bolo Haouz (ou Bolo-Hovuz), está incluída na lista de Património Mundial da UNESCO juntamente com outras partes da cidade histórica. Serviu como mesquita de sexta-feira quando o Emirado de Bucara estava a ser subjugado pelos bolcheviques na década de 1920.

Chor Minor
 
Chor Minor

O Chor Minor, Char Minar (que significa "quatro minaretes") ou Madraça de Khalif Niyaz-kul é um edifício que fica quase escondido numa rua a nordeste do complexo de Labi Hovuz. Foi construído no século XIX por Khalif Niyaz-kul, um natural de Bucara abastado de origem turcomena.[29] A estrutura com quatro torres é por vezes confundida como uma entrada para a madraça que em tempos existiu atrás dela, mas na realidade o Chor Minor é um complexo de edifícios que tinha funções rituais e de abrigo.[carece de fontes?]

O edifício principal é uma mesquita, que apesar do aspeto exterior incomum, temm um interior típico duma mesquita da Ásia Central. Graças cúpula, a sala de oração tem boas carateríticas acústicas, o que a torna muito adequada para ser um dhikr-hana, ou seja um local para cerimónias dhikr sufistas, que frequentemente incluem recitação, cantos e música instrumental. Em cada um dos lados do edifício há divisões de habitação, algumas delas arruinadas, apenas com as fundações visíveis.[29]

Cada uma das quatro torres tem motivos de decoração diferentes. Para alguns autores, os elementos decorativos refletem as quatro religiões presentes na Ásia Central. Há elementos de evocativos do cristianismo, que têm reminiscências de cruzes e peixes, uma roda de oração budista, além de motivos zoroastrista e islâmicos.[30]

Em 1995 uma das torres desmoronou-se devido a um regato subterrâneo e foi pedida assistência de emergência ao Fundo do Património Mundial da UNESCO. O colapso causou instabilidade em toda a estrutura e as autoridades esforçaram-se para que o desastre fosse pouco divulgado; sem qualquer explicação, o edifício desapareceu da lista de atrações turísticas e a torre foi reconstruída apressadamente usando materiais não tradicionais, como cimento de baixa qualidade e aço, algo que não foi divulgado oficialmente.[31]

 
Mesquita Magok-i-Attari

No terreiro à direita do Chor Minor há um tanque, provavelmente construído na mesma altura do resto do complexo, que atualmente está rodeado principalmente por pequenas casas e lojas ao longo do seu perímetro.

Mesquita Magok-i-Attari

A primeira Mesquita Magok-i-Attari foi construída no século IX sobre as ruínas daquilo que pode ter sido um antigo templo zoroastrista. A mesquita foi destruída e reconstruída mais do que uma vez e a sua parte mais antiga é a fachada sul, que data do século XII, o que faz dela um dos edifícios mais antigos de Bucara e um dos poucos que sobreviveu à destruição de Gengis Cã. Foi escavada abaixo do piso térreo na década de 1930. Atualmente já não funciona como mesquita e ali funciona um museu de tapetes.

Fortaleza (Ark)Editar

A Ark é uma cidadela originalmente construída c. século V d.C. Além de ser uma fortaleza militar, é também uma pequena cidade que ao longo da história foi a sede de várias cortes reais que existiram em Bucara e na região em volta. Foi usada comom fortaleza até ser tomada pelos soviéticos em 1920 e atualmente é uma atração turística onde há vários museus que mostram a sua história.[32]

 
Flanco sul da muralha da Ark

Em grande parte arruinada, na cidadela destacam-se a Mesquita Juma (de sexta-feira), do século XVII e o palácio. Ao lado da mesquita ficam os aposentos do kushbegi (primeiro-ministro do emir), onde os embaixadores estrangeiros eram recebidos. Atualmente estão ali expostas peças dos sítios arqueológicos de Paikend, Varakhsha e Romitan, em tempos entrepostos importantes da Rota da Seda.[32]

No palácio destaca-se o amplo salão de receções, onde também eram realizadas as cerimónias de coroação dos emires; a última coroação, de Alim Cã, teve ali lugar em 1910. Ao lado de uma das paredes desse salão há um câmara subterrânea onde estava o tesouro e a casa da moeda; atrás desta encontra-se o harém. Junto ao salão situavam-se as cavalariças reais e o noghorahona, uma sala para tambores e outros instrumentos musicais usados nos espetáculos públicos realizados na praça que se encontra abaixo.[32]

Em volta do Salamhona (salão de protocolo) encontram-se o que resta dos apartamentos reais. Aparentemente, estes ficaram de tal forma arruinados que os últimos emires preferiram habitar permanentemente o palácio de verão. As peças museológicas em exposição ilustram a história desde os xaibânidas até aos czares russos. A coleção de peças inclui um grande chicote que supostamente pertenceu ao herói lendário persa Rostam, o cadeado que era usado nos portões da Ark, uma caixa usada para fazer petições ao emir, o trono do emir e os retratos dos oficiais britânicos Stoddart e Conolly, executados em 1842 na Praça Registan, em frente à fortaleza, acusados de espionagem.[32]

ClimaEditar

Dados climatológicos para Bucara (1981–2010)
Mês Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Ano
Temperatura máxima média (°C) 6,6 10,1 16,4 24,5 30,4 35,9 37,2 35,5 29,9 22,9 15,5 8,4 22,8
Temperatura mínima média (°C) -2,5 -0,6 4,2 10,2 15,0 19,4 21,2 18,9 12,9 6,7 2,3 -1,2 8,9
Precipitação (mm) 19,1 18,9 29,5 20,1 12,4 1,8 0,7 0,2 1,0 2,0 12,0 17,3 135
Dias com precipitação 10 10 10 8 7 2 1 1 1 4 7 9 70
Humidade relativa (%) 80 75 72 59 46 38 40 44 48 56 64 79 58

Fontes: Centro do Serviço Hidrometeorológico da República do Uzbequistão (Uzhydromet) [33]
Serviço Meteorológico Alemão (Deutscher Wetterdienst) [34]

TransportesEditar

O Aeroporto Internacional de Bucara (IATA: BHK, ICAO: UTSB) tem voos regulares para cidades no Uzbequistão e Rússia. A fronteira com o Turquemenistão encontra-se 100 km a sudoeste da cidade por estrada e a cidade turquemena mais próxima é Türkmenabat, que dista 132 km pela autoestrada M37, que continua para outras cidades do Turquemenistão, nomeadamente a capital Asgabate. Samarcanda fica 270 km a leste de Bucara pela autoestrada M37. A cidade é o polo de transportes ferroviários e rodoviários mais importante do Uzbequistão a seguir a Tasquente e tem ligações para todas as cidades importantes do Uzbequistão e países vizinhos e até para Mazar-e Sharif, no Afeganistão, através da autoestrada M39. A cidade tem 45 linhas de autocarros urbanos.

DemografiaEditar

 
Jovens em trajes tradicionais no Festival da Seda e das Especiarias

Segundo as estatísticas oficiais, a população da cidade é constituída por 82% de uzbeques, 6% russos, 4% tajiques, 3% de tártaros, 1% de coreanos, 1% de turquemenos, 1% de ucranianos e 2% de outras etnias.[35] No entanto, os dados oficiais uzbeques há muito que são criticados e refutados por vários observadores e fontes ocidentais[36][37] e para muitos autores a maioria da população é formada por falantes de tajique, e os uzbeques são uma minoria em crescimento.[38] Os números exatos são difíceis de estimar, porque muitas pessoas do Uzbequistão identificam-se como uzbeques apesar de usarem o tajique como primeira língua ou porque são registadas como uzbques pelo governo central não obstante a sua língua materna e identidade étnica tajique. As estimativas soviéticas do início do século XX, baseadas em dados de 1913 e 1917, registavam uma esmagadora maioria de tajiques na cidade.[37]

Até ao século XX, Bucara foi também a terra dos judeus bukharan, cujo idioma, o buhori é um dialeto do tajique. Os seus antepassados instalaram-se na cidade durante o período romano. A maior parte dos judeus de Bucara abandonaram a cidade entre 1925 e 2000, emigrando para Israel e Estados Unidos.[carece de fontes?]

Pessoas nascidas a Bucara ou com ligações à cidadeEditar

 
Gravura de Avicena num manuscrito medieval

Notas e referênciasEditar

  1. a b c «Uzbekistan - 10 Largest Cities» (em inglês). www.geonames.org. Consultado em 5 de agosto de 2020 
  2. Fernandes, Ivo Xavier (1941). Topónimos e Gentílicos. I. Porto: Editora Educação Nacional, Lda. 
  3. a b Masov, Rahim (1991), A história da delimitação desajeitada (em russo), Duchambé: Irfon . Tradução em inglês por Iraj Bashiri: «The History of a National Catastrophe». Arquivado do original em 10 de dezembro de 2016 
  4. Города Узбекистана, Таш.. 1965; Ашуров Я. С., Гелах Т. Ф., Камалов У. Х., Бухара, Таш., 1963; Сухарева О. А., Бухара XIX—начала XX вв., М., 1966; Пугаченкова Г. А., Самарканд, Бухара, 2 изд., [М, 1968]; Бухара. Краткий справочник, 4 изд., Таш., 1968
  5. Historic Centre of Bukhara. UNESCO World Heritage Centre - World Heritage List (whc.unesco.org). Em inglês ; em francês ; em espanhol. Páginas visitadas em 5 de agosto de 2020.
  6. «21 World Heritage Sites you have probably never heard of» (em inglês). Daily Telegraph 
  7. Abdukhalikov F. (2016), Bukhara; Architectural epigraphy of Uzbekistan (em inglês), Tasquente: Uzbekistan Today 
  8. «General Info» (em inglês). Fundação UMID. Cópia arquivada em 26 de janeiro de 2001 
  9. Frye, Richard N., «Bukhara i. In Pre-Islamic Times», Encyclopædia Iranica (em inglês), consultado em 4 de julho de 2018 
  10. Narshakhi, The History of Bukhara (em inglês), traduzido por Fyre, Richard N. 
  11. Matteo Maria Boiardo (1995), Orlando Enamorado, ISBN 9780192824387 (em inglês), traduzido por Stanley Ross, Charles, Oxford University Press . Livro I, Cantos 10-19 e Notas Explicatórias, pp. 401-402
  12. a b c d e f g Goldenchtein, Youri; Melkoyan, Sylvia (1995), Samarcande, Boukhara, Chakhrisiabz, Khiva, ISBN 2-86770-074-4 (em francês), Courbevoie, ACR éditions 
  13. Sourdel, Dominique; Sourdel, Janine (1996), Dictionnaire historique de l'islam (em francês), Paris: PUF 
  14. «Information about Bukhara». www.people-travels.com 
  15. Sen, Sailendra (2013), A Textbook of Medieval Indian History, ISBN 978-9-38060-734-4, Primus Books 
  16. Levi, Scott (2016), Caravans: Punjabi Khatri Merchants on the Silk Road, Penguin UK 
  17. Walker, Stephen, «Genghis Khan and the Mongol Empire – The Brake on Islam», History of the World, arquivado do original em 13 de agosto de 2018 
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BibliografiaEditar

Ligações externasEditar

 
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  «Bokhara (city)» na edição de 1911 da Encyclopædia Britannica no Wikisource em inglês.

  «Bokhara» na edição de 2014 do The New Student's Reference Work no Wikisource em inglês.