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Artabanes (general)

Disambig grey.svg Nota: Para outras pessoas de mesmo nome, veja Artabano.

Artabanes ou Artabano (em grego: Ἀρταβάνης; transl.: Artavánis; em latim: Artabanus; do armênio antigo Artawan; fl. 538–554) foi um general bizantino de origem armênia que serviu sob Justiniano (r. 527–565). Inicialmente um rebelde contra a autoridade bizantina, fugiu para o Império Sassânida mas logo voltou à fidelidade bizantina. Serviu na África, onde ele ganhou grande fama por matar o general rebelde Guntárico e restaurar a lealdade da província imperial.

Artabanes
Morte século VI
Nacionalidade Império Bizantino
Progenitores Pai: João
Ocupação General
Filiação João (irmão)
Gregório (primo)
Religião Catolicismo

Envolveu-se com a sobrinha de Justiniano, Prejecta, mas acabou por não casar com ela devido à oposição da imperatriz Teodora (r. 527–548). Convocado para Constantinopla, envolveu-se em uma fracassada conspiração contra o imperador em 548–549, mas não foi severamente punido após a descoberta do plano. Foi logo perdoado e enviado à península Itálica para lutar na Guerra Gótica, onde participou em uma decisiva vitória bizantina na Batalha do Volturno.

Índice

BiografiaEditar

FamíliaEditar

Artabanes era descendente da dinastia arsácida armênia, um ramo reconhecido como príncipes locais autônomos na margem oriental do Império Bizantino. Seu pai chamava-se João, e teve um irmão homônimo.[1] Também se sabe que teve uma irmã de nome desconhecido que casou-se com Bassaces (identificado por Christian Settipani com Bassaces Mamicônio, pai de Manuel II, Bardanes III e Gregório).[2][3]

Começo da carreiraEditar

 
Dracma de Cosroes I (r. 539–571)

Em 538/539, aparentemente ainda jovem, Artabanes participou numa conspiração contra Acácio, o procônsul da Primeira Armênia, cujos pesados impostos e comportamento cruel causaram grande ressentimento. O próprio Artabanes matou Acádio. Logo depois, numa batalha em Enócalo, o general Sitas, enviado pelo imperador Justiniano (r. 527–565) para sufocar a rebelião, foi morto.[4] Procópio fornece dois registros desse evento, um atribuindo sua morte de Sitas a Artabanes e outro a um armênio desconhecido de nome Salomão.[5]

O pai de Artabanes tentou negociar um acordo com o sucessor de Sitas, Buzes, mas foi morto. O ato forçou Artabanes e seus seguidores a procurar auxílio do Cosroes I (r. 531–579). Atravessando para território persa, nos anos subsequentes Artabanes e seus seguidores participaram das campanhas de Cosroes I contra os bizantinos.[4]

Retorno aos serviço bizantinoEditar

Serviço na ÁfricaEditar

 
África, com as províncias de Bizacena, Zeugitânia e Numídia

Em algum momento cerca de 544, ou talvez logo em 542, Artabanes, seu irmão João e vários outros armênios desertaram em favor dos bizantinos. Junto com seu irmão, foi colocado no comando dum pequeno contingente armênio e enviado à África na primavera de 545 sob o senador Areobindo.[1] Lá, os bizantinos estavam em guerra prolongada com as tribos mouras rebeldes. Logo após a chegada deles, João morreu na Batalha de Sica Venéria com as forças rebeldes do renegado Estotzas.[6] Artabanes e seus homens mantiveram-se leais a Areobindo durante a rebelião do duque da Numídia Guntárico no final de 545. Guntárico, aliado com o chefe mourisco Antalas, marchou sob Cartago e sitiou os portões da cidade. Por insistência de Artabanes e os outros oficiais, Areobindo decidiu confrontar o rebelde. Os exércitos aparentavam equilíbrio, mas Areobindo se assustou e fugir para um mosteiro em busca de refúgio, causando a fuga de suas tropas e a conquista da cidade.[7]

Areobindo foi assassinado por Guntárico, mas Artabanes assegurou garantias de sua proteção e comprometeu-se a servir Guntárico; em segredo, no entanto, planejou derrubá-lo. Em seguida, a Artabanes foi confiada, ao lado de João e Uliteu, uma expedição contra os mouros de Antalas. Marchou ao sul, junto com um contingente mourisco aliado sob Cutzinas. Os homens de Antalas fugiram diante dele, mas Artabanes não os perseguiu e voltou. De acordo com Procópio, ele considerou liderar seus homens para juntar-se com a leal guarnição imperial situada em Hadrumeto sob Marcêncio, mas decidiu retornar para Cartago e ir em frente em seu plano de assassinar Guntárico.[8]

Após seu retorno para Cartago, justificou sua decisão de retornar na necessidade de convocar todo o exército para reprimir os rebeldes, e pediu a Guntárico anunciar ele mesmo. Ao mesmo tempo, conspirou com seu primo, Gregório, e alguns outros de seus guarda-costas armênios para assassinar o usurpador (embora Coripo sugira que foi o prefeito pretoriano Atanásio o verdadeiro mentor do conluio). Na véspera da partida do exército no começo de maio, Guntárico organizou um grande banquete, e convidou Artabanes e Atanásio para compartilhar o mesmo sofá, uma marca de honra. De repente, durante o banquete, os armênios de Artabanes caíram em cima dos guardas de Guntárico, enquanto o próprio Artabanes supostamente conseguiu desferir-lhe o golpe mortal.[9][10]

Este feito valeu-lhe grande honra e fama: Prejecta, viúva de Areobindo e sobrinha de Justiniano, com quem Guntárico havia planejado casar, deu-lhe uma grande recompensa, enquanto o imperador confirmou-o como mestre dos soldados da África (magister militum per Africam). Apesar de já ter casado com uma parente sua, Artabanes envolveu-se com Prejecta. Enviou-a de volta para Constantinopla e pediu a Justiniano para chamá-lo da África, para que pudessem casar.[10][11]

Conspiração contra JustinianoEditar

 
Imperador Justiniano (r. 527–565)

Posteriormente, Artabanes foi chamado para Constantinopla, sendo substituído na África por João Troglita. Recebeu numerosas honrarias de Justiniano e foi nomeado mestre dos soldados na presença (magister militum praesentalis), conde dos federados e cônsul honorário. Apesar disto e sua grande popularidade, não logrou alcançar sua ambição de casar com Prejecta: sua esposa foi à capital imperial e apresentou seu caso à imperatriz Teodora. A imperatriz obrigou Artabanes a ficar com sua esposa e ele esteve incapaz, até a morte de Teodora em 548, de divorciar-se dela. Até lá, contudo, Prejecta já tinha casado novamente.[12][13]

Irritado, logo após a morte de Teodora (final de 548 ou começo de 549), envolveu-se no então chamado "Complô Armênio" ou "Conspiração de Artabanes". O verdadeiro instigador era um parente seu chamado Ársaces, que propôs o assassinato de Justiniano e a elevação de Germano, o primo do imperador, ao trono imperial. Os conspiradores pensaram que Germano seria amigável aos planos deles, já que havia ficado insatisfeito com as intromissões de Justiniano na resolução do testamento de seu recém-falecido irmão Bóredes, que tinha inicialmente nomeado Germano como seu principal beneficiário em oposição a sua única filha.[14][15]

Os conspiradores se aproximaram do varão de Germano, Justino, e revelaram-lhe o conluio. Imediatamente Justino informou a seu pai que, por conseguinte, informou o conde dos excubitores Marcelo. De modo a descobrir mais das intenções deles, Germano encontrou-se pessoal com os conspiradores, enquanto um assessor de confiança de Marcelo, chamado Leôncio, estava escondido nas proximidades para ouvir. Embora Marcelo tenha hesitado em informar Justiniano sem mais provas, acabou revelando-lhe a conspiração. Justiniano ordenou que os conspiradores fossem presos e interrogados, porém foram tratados de forma extremamente branda. Artabanes foi despojado de seus ofícios e confinado no palácio sob guarda, mas logo foi perdoado.[16][17]

Serviço na ItáliaEditar

 
Tremisse emitido em Ticino sob o rei ostrogótico Totila (r. 541–552)

Em 550, Artabanes foi nomeado mestre dos soldados da Trácia (magister militum per Thracias) e enviado para substituir o velho senador Libério no comando duma expedição em curso contra a Sicília, que tinha sido recentemente invadida pelo rei ostrogótico Totila (r. 541–552). Artabanes não conseguiu acompanhar a expedição devido a várias tempestades no mar Jônico.[18] Ao chegar na Sicília, tomou comando das forças bizantinas e sitiou as guarnições góticas deixadas por Totila após ele partir a ilha, forçando-as à rendição. Ao longo dos dois anos seguintes, permaneceu na Sicília. De acordo com Procópio, os habitantes da cidade de Crotona e o comandante da guarnição Paládio, que haviam sido sitiados pelos godos, pediram-lhe ajuda insistentemente, mas ele não fez nada.[19][20]

Em 553, Artabanes atravessou à península Itálica, onde juntou-se com o exército de Narses como um de seus generais. Diante da invasão franca no verão de 553, Narses ordenou que Artabanes e outros generais ocupassem as passagens dos Apeninos e assediassem o avanço inimigo; após um contingente bizantino ser derrotado em Parma, outros generais bizantinos retiraram-se para Favência até um emissário de Narses persuadi-los a se mover novamente à área de Parma.[21] Em 554, Artabanes estava estacionado em Pisauro com tropas bizantinas e hunas. Em Fano, emboscou e derrotou a guarda avançada do exército franco de Leutário I, que estava voltando duma expedição de pilhagem no sul da Itália em direção a Gália. A maioria dos francos pereceu e na confusão muitos cativos escaparam, levando muito do butim franco com eles. Artabanes, contudo, não atacou o corpo principal do exército de Leutário, pois era numericamente superior ao seu.[22] Ele então marchou para o sul e juntou-se com a força principal de Narses, acompanhando-o em sua campanha contra o exército franco restante sob Butilino. Na decisiva vitória na Batalha do Volturno, junto com Valeriano, comandou a cavalaria bizantina no flanco esquerdo. Eles estavam escondidos na mata, como parte do estratagema de Narses para atacar os francos na retaguarda para cercá-los. Nada mais se sabe sobre ele depois disso.[23][24]

Referências

  1. a b Martindale 1992, p. 125.
  2. Martindale 1992, p. 1365.
  3. Settipani 2006, p. 112.
  4. a b Martindale 1992, p. 125, 255, 641.
  5. Martindale 1992, p. 8–9, 125, 1162.
  6. Martindale 1992, p. 108, 643.
  7. Martindale 1992, p. 108–109, 126, 575.
  8. Martindale 1992, p. 126.
  9. Martindale 1992, p. 126–127, 143, 576.
  10. a b Bury 1958, p. 146.
  11. Martindale 1992, p. 125, 127, 576, 1048.
  12. Martindale 1992, p. 127–128; 1048–1049.
  13. Bury 1958, p. 67.
  14. Martindale 1992, p. 128.
  15. Bury 1958, p. 66-67.
  16. Martindale 1992, p. 128-129.
  17. Bury 1958, p. 68.
  18. Bury 1958, p. 69; 255–256.
  19. Martindale 1992, p. 129.
  20. Bury 1958, p. 260.
  21. Martindale 1992, p. 129-130.
  22. Martindale 1992, p. 130; 789–790.
  23. Martindale 1992, p. 130.
  24. Bury 1958, p. 279.

BibliografiaEditar

  • Bury, John Bagnell (1958). History of the Later Roman Empire. From the Death of Theodosius I to the Death of Justinian. 2. Mineola, Nova Iorque: Dover Publications, Inc. ISBN 0-486-20399-9 
  • Martindale, John R.; Jones, Arnold Hugh Martin; Morris, John (1992). The Prosopography of the Later Roman Empire - Volume III, AD 527–641. Cambridge e Nova Iorque: Cambridge University Press. ISBN 0-521-20160-8 
  • Settipani, Christian (2006). Continuité des élites à Byzance durant les siècles obscurs. Les princes caucasiens et l'Empire du vie au ixe siècle. Paris: de Boccard. ISBN 978-2-7018-0226-8