Christine Ladd-Franklin

Christine Ladd-Franklin (Windsor, 1 de dezembro de 1847 - Nova Iorque, 5 de março de 1930) foi uma psicóloga, lógica e matemática estadunidense. Foi a primeira mulher a conseguir os requisitos para a obtenção de um doutorado na Universidade Johns Hopkins, em 1882. Por ser mulher, ela não conseguiu obter o título pelos 44 anos seguintes, até 1926, com quase 80 anos.

Christine Ladd-Franklin
Conhecido(a) por teoria sobre a visão em cores
Nascimento 1 de dezembro de 1847
Windsor, condado de Hartford, Connecticut
Morte 5 de março de 1930 (82 anos)
Nova Iorque, Estados Unidos
Nacionalidade norte-americana
Alma mater Vassar College
Orientador(es) Charles Sanders Peirce
Campo(s) Lógica, Psicologia e matemática
Tese On the Algebra of Logic (1883)

BiografiaEditar

Primeiros anosEditar

Christine nasceu em 1847, em Windsor, Connecticut. Era filha de Eliphalet Ladd, comerciante e Augusta Niles Ladd, dona de casa. Tinha um irmão mais novo, Henry, nascido em 1850 e morou com a família ainda criança na cidade de Nova Iorque.[1][2][3] Em 1853, a família retornou para Windsor, onde sua irmã Jane Augusta nasceu no ano seguinte.[1]

Ainda criança, Christine era levada pela mãe e pela tia, Juliet Niles, em grupos femininos de leitura e em reuniões de sufragistas, pois ambas acreditavam firmemente na igualdade de direitos da mulher.[4] Sua mãe, Augusta, acreditava que as mulheres tinham o direito a ter as mesmas posições e cargos que os homens tinham e que pertenciam a todos os lugares que os homens também frequentavam.[4] Augusta queria instigar os mesmos princípios nas filhas para que elas pudessem crescer e ter sucesso em suas escolhas, e não apenas atender às expectativas da sociedade.[1][2]

Augusta morreu em 1860 devido à uma pneumonia. Assim Christine foi morar com a avó paterna em Portsmouth, New Hampshire, onde passou a ir à escola.[3] Seu pai se casou novamente em 1862 e lhe deu uma meia-irmã, Katherine, nascida no mesmo ano e um meio-irmão, George, em 1867.[3] Christine cresceu com bastante autonomia e os desejos de sua mãe de lhe dar a melhor educação possível foram atendidos por seu pai, quando ele a matriculou em um curso de dois anos em Wilbraham, Massachusetts. Lá ela teve aulas que hoje consideraríamos pré-vestibulares, que preparava os alunos para ingressar nas melhores universidade.[5]

Em 1865, ela se formou como oradora da turma e decidiu continuar os estudos no Vassar College[6] com o apoio de sua família.[7] Cartas de sua família mostram apoio incondicional, inclusive com apoios aos direitos das mulheres. Seu pai sendo professor era um de seus grandes apoiadores.[7]

No outono de 1866, ela se matriculou no Vassar College com um empréstimo da tia, mas os problemas financeiros a impediram de continuar o curso, tendo estudado lá até a primavera. Enquanto estava sem estudar, ela trabalhou como professora de escolas públicas, até que a ajuda da tia a fez retornar para o Vassar College em 1869, onde trabalhou como assistente da professora de astronomia, Maria Mitchell, famosa por ter sido a primeira mulher a descobrir um cometa, usando um telescópio, em 1847.[8]

Christine apoiava o sufrágio e lutou para inspirar mulher a ter mais autoestima e prosseguir em ramos dominados por homens enquanto estudava no Vassar. Com o auxílio de Maria Mitchell, ela perseverou e rapidamente desenvolveu um encanto pela física e pela matemática.[9] No entanto, mulheres no século XIX não eram permitidas em laboratórios dominados por homens e assim ela não pode prosseguir na física, tendo que escolher a matemática no lugar.[8]

Depois da formatura, Christine passou a ensinar física e matemática no ensino médio, em Washington, na Pensilvânia. Nesta época, ela contribuiu na resolução de dezessete problemas matemáticos no livro Educational Times. Também publicou em revistas de matemática e periódicos da área.[5]

Johns Hopkins UniversityEditar

Em 1878, Christine foi aceita na Johns Hopkins University com a ajuda de James Joseph Sylvester, matemático inglês que lembrou-se de seus trabalhos no Educational Times.[5] Sua matrícula para a universidade foi escrita com a abreviação "C. Ladd", e a universidade ofereceu-lhe uma bolsa de estudos sem saber que era uma mulher.[2] Ela estudou por três anos com a bolsa, mas os decanos a impediram de ter o nome impresso nas circulares do campus por medo de abrir um precedente e serem obrigados a aceitar mais mulheres.[2] Sua presença no campus acabou gerando discórdia entre os decanos, causando a demissão de alguns deles.[2]

Como a universidade não permitia co-orientação, Christine foi autorizada a ter aulas com James Joseph Sylvester. Depois de mostrar excelência nas aulas dele, ela foi autorizada a ter aulas com diferentes professores. Entre 1879 e 1880, ela teve aulas com Charles Sanders Peirce, que se tornaria o primeiro psicólogo experimental dos Estados Unidos.[5] Sua tese, On the Algebra of Logic, foi publicada em 1883 e saiu com o nome do orientador, Charles Sanders Peirce.[10] Por seus estudos com Peirce e Sylvester, Christine se tornou a primeira mulher nos Estados Unidos a obter graduação tanto em matemática quanto em lógica.[8] Como mulheres não tinham permissão para se graduar, a universidade não lhe concedeu o título de doutora em Matemática e Lógica, mesmo tendo todos os requisitos e créditos para isso. O doutorado só lhe foi concedido em 1827, 44 anos depois, aos 78 anos de idade.[5]

Christine se apaixonou e se casou com um colega, Fabian Franklin, doutor em matemática e se tornou Christine Ladd-Franklin. O casal teve dois filhos, sendo que um morreu ainda na infância. A outra, Margaret Ladd-Franklin, se tornaria figura central no movimento sufragista americano.[5] Christine escrevia com frequência sobre as injustiças que observava sobre o sexo feminino. Em uma das passagens de seu diário, ela descreve seu desapontamento com as visões da sociedade sobre as mulheres.

Em outra passagem, ela fala sobre a falta de reconhecimento de mulheres que obtiveram títulos em escolas e universidades:

Em 1893, ela tentou um cargo de professora na universidade onde fez o doutorado, mas não conseguiu.[1] Mesmo com todos os revezes, ela persistiu.[7] Onze anos depois, em 1904, ela finalmente conseguiu a autorização necessária para dar aulas, mas apenas uma por ano. Pelos próximos cinco anos, seu cargo na Johns Hopkins tinha que ser renovado anualmente, até 1909. Mulheres que tivessem a sorte de se formar em uma universidade muitas vezes tinham a chance de lecionar, ainda que sem salário, assim como Christine.[1] Muitos dos cargos de professora que ela teve foram baseadas no voluntariado, o que gerou uma crise financeira para ela e a família.[7]

ContribuiçõesEditar

Depois de deixar Johns Hopkins, Christine trabalhou com o psicólogo alemão, Georg Elias Müller, que conduzia um trabalho experimental sobre a visão. Ainda que a presença de mulheres em laboratórios fosse mal vista nos Estados Unidos, ela persistiu no trabalho.[11] Ela também trabalhou com Hermann von Helmholtz, de quem assistiu a várias palestras sobre a visão colorida. Depois dessas palestras, ela desenvolveu sua teoria sobre a visão em cores, publicada em 1929.[5]

Visão coloridaEditar

A teoria sobre a visão em cores foi uma de suas grandes contribuições para a ciência e para a psicologia, que baseou inteiramente na evolução. Ela notou que muitos animais não enxergar as cores, assumindo-se então que a visão em preto e branco surgiu primeiro e a visão em cores apareceu depois. Christine também indicou que a visão humana detinha fragmentos desta evolução. Ela observou que a parte mais evoluída do olho é a fóvea, onde, pelo menos à luz do dia, a acuidade visual e a sensibilidade à cor são maiores. A visão periférica (fornecida pelos bastonetes da retina) era mais primitiva do que a visão da fóvea (proporcionada pelos cones da retina), porque a visão noturna e a detecção do movimento são cruciais para a sobrevivência.[12]

Assim, ela concluiu que a visão em cores se desenvolveu em três estágios: acromática (preto e branco); sensitividade para azul e amarelo e; vermelho e verde.[12] Como a sensitividade para vermelho e verde se desenvolve por último, isso explica porque tantas pessoas sofrem de daltonismo, que afetam a percepção de verde e vermelho. Uma pequena parcela da população não consegue enxergar azul e amarelo. Como a visão em preto e branco se desenvolve primeiro, isso explica porque a maioria da população não é afetada pela cegueira destes tons.[12]

Matemática e lógicaEditar

Christine foi a primeira mulher a publicar um artigo na revista Analyst. Ela logo se tornaria a primeira mulher a obter um doutorado em matemática e lógica. Grande parte de suas publicações eram nessas áreas e nos processos visuais. Suas visões sobre lógica influenciaram os trabalhos de Charles S. Peirce.[5]

PsicologiaEditar

Christine foi uma das primeiras mulheres a ingressar na American Psychological Association, em dezembro de 1893. De 1894 a 1925, Christine apresentou trabalhos em todos os encontros da associaçaõ. Foi também uma das primeiras mulheres na Optical Society of America (OSA), em 1919. Foi um membro proeminente e atuante no movimento pelos direitos da mulher até sua morte.[5]

MorteEditar

Christine morreu em 5 de março de 1930, em sua casa, em Nova Iorque, aos 82 anos, devido à uma pneumonia.[2][7][11]

Referências

  1. a b c d e Emily Bergbower (ed.). «Christine Ladd-Franklin». The Women of Hopkins. Consultado em 24 de setembro de 2018 
  2. a b c d e f Agnes Scott College (ed.). «Christine Ladd-Franklin». Biographies of Women Mathematicians. Consultado em 24 de setembro de 2018 
  3. a b c Scarborough, Elizabeth; Furumoto, Laurel (1989). Untold lives: the first generation of american women psychologists. Nova York: Columbia Univ. Press. 120 páginas. ISBN 9780231051552 
  4. a b Agler, David W.; Durmuş, Deniz (2013). «Christine Ladd-Franklin: Pragmatist Feminist». Bloomington: Indiana University Press. Transactions of the Charles S. Peirce Society: 299-321. Consultado em 24 de setembro de 2018 
  5. a b c d e f g h i Cadwallader, J.V.; Cadwallader, T.C. (1990). «Christine Ladd-Franklin (1847-1930)». Women in Psychology: A Bio-bibliographic Sourcebook. New York: Greenwood Press. pp. 220 – 225 
  6. Samantha Ragsdale (ed.). «Christine Ladd-Franklin». Women's Intellectual Contributions to the Study of Mind and Society. Consultado em 6 de abril de 2015 
  7. a b c d e Furumoto, Laurel (1992). «Joining separate spheres: Christine Ladd-Franklin, woman-scientist (1847-1930)». American Psychologist. 47 (2): 175-182. doi:10.1037//0003-066x.47.2.175 
  8. a b c Kelli Vaughn (ed.). «Profile of Christine Ladd-Franklin». Psychology's Feminist Voices. Consultado em 6 de abril de 2015 
  9. «Christine Ladd-Franklin». Encyclopedia of World Biography Online. Consultado em 6 de abril de 2015 
  10. Charles Sanders Peirce (ed.). «On the Algebra of Logic». American Journal of Mathematics. Consultado em 24 de setembro de 2018 
  11. a b c d Vassar Encyclopedia (ed.). «Christine Ladd-Franklin». American Journal of Mathematics. Consultado em 24 de setembro de 2018 
  12. a b c Hergenhahn, B.R. (2009). An introduction to the history of psychology 6ª ed. Austrália: Wadsworth Cengage Learning. pp. 243 – 244. ISBN 9780495506218 

Ligações externasEditar

 
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