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Guy Hocquenghem (3 de dezembro de 194628 de Agosto de 1988) foi um ensaísta, romancista e militante homossexual francês.

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Dados biográficosEditar

Guy Hocquenghem foi aluno [1] do tradicional Lycée Lakanal, em Sceaux. Na época, sua família morava em Châtenay-Malabry. Sua mãe era professora no Liceu Marie-Curie de Sceaux. Seu pai era matemático. Durante seus anos de liceu, foi aluno de filosofia de René Schérer, com quem manteve sua primeira relação sentimental, em 1959.[2]

Hocquenghem ingressa na École normale supérieure em 1965, participa da ocupação da Sorbonne em maio de 1968. Ingressa no Partido Comunista Francês, do qual mais tarde seria expulso por ser homossexual. Também participa do jornal estudantil Action e, nos anos 1970, de diversos movimentos gays, no Front homosexuel d'action révolutionnaire (FHAR). Hocquenhem foi o primeiro homem gay a ser admitido na FHAR, movimento fundado em 1971 por dissidentes lésbicas do Mouvement Homophile de France.[3] Estabelece amizade com muitos estudantes estrangeiros, sobretudo tunisianos, que participaram do movimento de emancipação dos homossexuais.

Em 10 de janeiro de 1972, publica uma longa carta no Nouvel Observateur, na qual declara publicamente ser homossexual. Assim, depois de Paul Verlaine (La Cravache parisienne, Journal Littéraire, Artistique et Financier, 29 de setembro de 1888) foi o segundo homossexual a usar a imprensa para anunciar sua orientação sexual. Sua mãe lhe responde em uma carta aberta na mesma revista, em 17 de janeiro. No mesmo ano publica Le désir homosexuel, livro-manifesto da revolução homossexual. Em 1973, contribui para a edição sob a direção de Félix Guattari, de um número da revista Recherches intitulado Trois milliards de pervers : grande encyclopédie des homosexualités.[4]

Em 1979 colabora com o jornal Libération e, entre 1979 e 1986, é responsável pelo curso de filosofia na Université de Vincennes-Paris VIII, ao lado de René Schérer.[5]

Escreveu e produziu o documentário Race d'Ep! Un siècle d'image de l'homosexualité[6] sobre a história da imagem da homossexualidade no século XX. O filme foi lançado em 1979.

Hocquenghem morreu aos quarenta e um anos, em consequência de complicações advindas da AIDS. Suas cinzas são conservadas no Cemitério do Père-Lachaise.

RelevânciaEditar

Embora Hocquenghem tenha tido um impacto significativo sobre o pensamento da esquerda em França, a sua reputação não ultrapassou as fronteiras do seu país. Apenas o primeiro dos seus ensaios teóricos, Le désir homosexuel, e o seu primeiro romance, L'amour en relief, foram traduzidos para inglês e, embora Race d'Ep! tenha sido publicado nos Estados Unidos com o título The Homosexual Century, tanto os livros como o autor permaneceram virtualmente desconhecidos fora da França.[7]

O ensaio de 1972 de Guy Hocquenghem, Le désir homosexuel, terá sido provavelmente a primeira obra de Teoria Queer. Aprofundando o trabalho teórico de Gilles Deleuze e Félix Guattari, Hocquenghem criticou os modelos generalizados na época, do desejo e psicologia sexual de Lacan e Freud. O autor também discutiu a relação entre o capitalismo e a sexualidade, as dinâmicas do desejo e os impactos políticos das identidades de grupo gay.

O prefácio de 1978 de Jeffrey Weeks à primeira edição em língua inglesa do ensaio Le désir homosexuel enquadra muito bem o ensaio de Hocquenhem nas várias teorias de subjectividade e desejo, sobretudo de origem francesa, que influenciaram o pensamento do autor.

ObraEditar

  • Le désir homosexuel, 1972 (a sua primeira obra sobre teoria queer). Versão inglesa: Homosexual desire.
  • L'Après-Mai des faunes, 1974 (o segundo texto sobre teoria queer)
  • Co-ire, album systématique de l'enfance, 1976 (examina a sexualidade infantil sobre uma perspectiva marxista. Escrito em co-autoria com René Scherér
  • Comment nous appelez-vous déjà ?: ces hommes que l'on dit homosexuels, 1977 (co-autor Jean-Louis Bory)
  • La Dérive homosexuelle, 1977 (o terceiro texto sobre teoria queer)
  • La Beauté du métis: réflexions d'un francophobe, 1979 (analisa a xenofobia antiÁrabe francesa e a homofobia)
  • Race d'Ep!: un siècle d'images de l'homosexualité, 1979 (livro que acompanha o documentário de Lionel Soukaz)
  • Le Gay voyage: guide et regard homosexuels sur les grandes métropoles, 1980
  • L'Amour en relief, romance, 1981 (o mais conhecido romance do autor, em que um jovem tunisino cego descobre a sociedade francesa e percebe de que forma o prazer pode servir como arma de resistência contra o totalitarismo)
  • Les Petits garçons, romance, 1983
  • La Colère de l'Agneau, romance, 1985 (experiência em narrativa apocalíptica e milenar, colocando S. João Baptista no centro da acção)
  • Lettre ouverte à ceux qui sont passés du col Mao au Rotary, Marseille, Agone, 1986 (prefácio de Serge Halimi à reedição de 2003)
  • Vienne, 1986
  • L'Âme atomique : pour une esthétique d'ère nucléaire, 1986 (com René Schérer, defende uma filosofia dandi, gnóstica e epicurista, quando o autor já se encontrava doente)
  • Ève, romance, 1987 (narrativa que combina o Genesis com uma descrição das alterações provocadas pelo SIDA no corpo humano)
  • Les Voyages et aventures extraordinaires du frère Angelo, romance, 1988 (explora a mente de um monge italiano) que acompanha os conquistadores do Novo Mundo)
  • L'amphithéâtre des morts: mémoires anticipées, 1994
  • Oiseau de la nuit, novela, 1998 (baseada na novela publicada inicialmente em Comment nous appelez-vous déjà ?)

Sobre HocquenghemEditar

Referências

  1. Foto escolar, aos doze ou treze anos. Hocquenghem está no centro da foto na 3ª fila.
  2. Julian Bourg, French pedophiliac discours of the 1970s, in Between Marx and Coca-Cola: youth cultures in changing European societies, 1960-1980, Berghahn Books, 2005, pages 208-209
  3. O filme Ma saison super 8 de Alessandro Avellis (França, 2005) foi dedicado a ele. O mesmo autor realizou em 2006 o documentário La Révolution du désir, que traça um retrato de Guy Hocquenghem, mostrando seu papel no interior do FHAR e a influência que o movimento exerceu sobre seu próprio percurso.
  4. «Trois milliards de pervers». Consultado em 25 de setembro de 2007. Arquivado do original em 8 de junho de 2007 
  5. Vídeo: Guy HOCQUENGHEM, journaliste militant à Libération. Apostrophes, 20 de abril de 1979.
  6. Imdb. Race d'Ep! Un siècle d'image de l'homosexualité
  7. "Utopia Aborted: May '68 in the Philosophy of Guy Hocquenghem, por Ron Haas. Rice University.

Ligações externasEditar