O Beijo da Mulher Aranha

(Redirecionado de O Beijo da Mulher-Aranha)

O Beijo da Mulher Aranha (em inglês: Kiss of the Spider Woman) é um filme américo-brasileiro de 1985 do gênero drama dirigido por Hector Babenco[3] e adaptado por Leonard Schrader através de um romance homônimo escrito por Manuel Puig. O filme é estrelado por William Hurt, Raúl Juliá e Sônia Braga, com José Lewgoy, Milton Gonçalves, Miriam Pires, Nuno Leal Maia, Fernando Torres e Herson Capri no elenco de apoio.[4]

O Beijo da Mulher Aranha
Kiss of the Spider Woman (IN)
Cartaz de lançamento brasileiro.
 Brasil Estados Unidos
1985 •  cor •  120 min 
Direção Hector Babenco
Produção David Weisman
Produção executiva Francisco Ramalho Jr.
Roteiro Leonard Schrader
Baseado em El beso de la mujer araña de
Manuel Puig
Elenco William Hurt
Raúl Juliá
Sônia Braga
José Lewgoy
Milton Gonçalves
Miriam Pires
Género drama
Música John Neschling
Nando Carneiro
Direção de fotografia Rodolfo Sanchez
Direção de arte Clóvis Bueno
Edição Mauro Alice
Companhia(s) produtora(s) HB Filmes
FilmDallas Pictures
Sugarloaf Films, Inc.
Distribuição Estados Unidos Island Pictures
Brasil Embrafilme
Lançamento Estados Unidos 26 de julho de 1985
Brasil 13 de abril de 1986[1]
Idioma inglês
português
francês
alemão
Orçamento US$ 1 milhão
Receita US$ 17.005.229
(receita interna estadunidense)[2]

O filme estreou no Festival de Cannes de 1985, onde Willian Hurt ganhou o prêmio de Melhor interpretação masculina e Babenco sendo indicado para a Palma de Ouro, sendo posteriormente lançado nos Estados Unidos em 26 de julho de 1985 e no Brasil em 13 de abril do ano seguinte. O Beijo da Mulher Aranha recebeu elogios da crítica;[5] com Hurt vencendo o Óscar e o BAFTA de Melhor Ator, além do filme ser nomeado ao Óscar de Melhor Filme (perdendo para Out of Africa). Em novembro de 2015, o filme entrou na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, ocupando a posição de número 61.[6]

EnredoEditar

O filme conta a história do prisioneiro político de esquerda Valentín Arregui e Luís Molina, um homossexual efeminado condenado por "corrupção de menor". Os dois dividem uma cela numa prisão brasileira durante a ditadura militar.[7]

Molina relembra, na prisão, um de seus filmes favoritos, um suspense romântico de guerra que também é uma propaganda nazista. Ele tece os personagens do filme numa narrativa que traz conforto a Arregui para distraí-lo da dura realidade da prisão e da separação de sua namorada Marta, a quem ele ainda ama.[7] Arregui permite que Molina penetre sua autodefensiva intimidade e se abre para ele. Apesar de suas discussões sobre a política por trás do filme assistido por Molina, uma improvável amizade se desenvolve entre os dois prisioneiros.[7]

À medida que a história se desenvolve, fica claro que Arregui está sendo envenenado pelos carcereiros para que ele revele o que sabe sobre o seu grupo guerrilheiro. Os agentes da prisão posteriormente prometem uma liberdade condicional a Molina desde que ele consiga arrancar informações de Arregui para as autoridades conseguirem capturar o grupo revolucionário.[7]

Quando Molina se declara apaixonado por Valentin, uma relação sexual ocorre entre os dois na última noite de Molina na prisão. No dia seguinte, Molina é libertado pelos carcereiros, mas é espionado pelos agentes da polícia com o intuito de se descobrir algum paradeiro dos guerriheiros; antes de sair da prisão, Valentin fornece a Molina um número de telefone e uma mensagem para ser passada aos seus camaradas. A princípio, Molina se recusa a aceitar a tarefa, mas ele cede, despedindo-se de Valentin com um beijo.[7]

Agora fora da prisão, Molina liga para o número de telefone que Valentin lhe passara e marca uma reunião com o grupo revolucionário, mas a polícia secreta, que está o vigiando, surge no local do encontro, originando um tiroteio, com os revolucionários atirando em Molina. Enquanto ele vagueia pelas ruas do centro de São Paulo ferido, a polícia secreta o captura e exige o contato dos guerrilheiros, mas Molina se recusa a passar e morre sem falar uma única palavra. Por ordem do chefe de polícia, os policiais jogam o corpo de Molina em um depósito de lixo e inventam uma história sobre sua morte e sua suposta colaboração com o grupo revolucionário.[7]

Na prisão, Valentin está sendo tratado no corpo médico da penitenciária após ser torturado. Um médico simpático arrisca seu trabalho, administrando-lhe morfina para ajudá-lo a dormir; durante o sono, Valentin sonha que está em uma ilha tropical idílica se encontrando com Marta.[7]

ElencoEditar

ProduçãoEditar

DesenvolvimentoEditar

Como observado na biografia de Puig em 2001, Manuel Puig and the Spider Woman: His Life and Fictions, seu romance El beso de la mujer araña havia sido proibido na Argentina e a edição traduzida para o inglês precedeu uma publicação generalizada em espanhol. O romance foi considerado para uma adaptação cinematográfica por vários diretores, incluindo Rainer Werner Fassbinder. Em 1981, o diretor argentino naturalizado brasileiro Hector Babenco esteve em Los Angeles para receber um prêmio da Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles por seu longa-metragem Pixote, a Lei do Mais Fraco; na recepção, o crítico do Los Angeles Times Kevin B. Thomas perguntou a Babenco sobre seus futuros projetos e o diretor mencionou seu desejo de adaptar o romance de Puig, inicialmente previsto para ser estrelado por Burt Lancaster. O ator estava presente no evento e Thomas o apresentou a Babenco.

Quando Lancaster manifestou interesse em atuar numa possível produção, Babenco prometeu enviar-lhe uma cópia do romance. Vários dias depois, o assistente de Lancaster telefonou para Babenco para garantir que El beso de la mujer araña fosse enviado via correio para o ator e o diretor o enviou imediatamente. Os dois se conheceram melhor nas próximas semanas na cerimônia de premiação do New York Critics e Lancaster se comprometeu com o papel de Molina.[8][9]

Babenco conheceu o produtor americano David Weisman no início de 1982, através de um amigo em comum, para discutir a introdução do "realismo mágico latino-americano" no mainstream. Embora Lancaster tenha se apegado ao romance, dando-lhe uma maior possibilidade de comercialização do filme por sua fama, a narrativa não-tradicional do livro se tornou um desafio para o ator poder se adaptar, além de seu tema homossexual ser encarado como um obstáculo para atrair um público amplo; Babenco, uma vez radicado no Brasil, temia uma reação xenofóbica contra a produção de atores norte-americanos. Obstáculos adicionais à produção incluíram o antagonismo de Manuel Puig em relação a Babenco; o escritor não gostava de Pixote e suspeitava que o diretor fosse um "oportunista".

Pré-produçãoEditar

Babenco continuou a desenvolver a trama, apesar das dúvidas do autor, e atraiu potenciais investidores, incluindo o cineasta alemão Frank Ripploh. Richard Gere estava pronto para interpretar Valentin, aumentando ainda mais as expectativas em relação a um eventual sucesso comercial do filme. A socialite da cidade de Nova York Jane Holzer, que apareceu em vários filmes de Andy Warhol e era conhecida por David Weisman, concordou em financiar os custos iniciais de produção, e Leonard Schrader, que havia colaborado com seu irmão Paul Schrader em The Yakuza, foi contratado para escrever o roteiro. No entanto, Babenco permaneceu cauteloso em anglicizar o material de origem e ficou aliviado com a convocação do ator porto-riquenho Raúl Juliá, que substituiu Richard Gere.

Enquanto isso, circulavam rumores na imprensa de que Lancaster tinha uma notória propensão a se vestir como homossexual e Babenco tentou dissipar o escândalo no Festival de Cannes dizendo a um tabloide gay francês que ele não sabia que Lancaster era realmente homossexual quando foi escalado. Embora Babenco pretendesse sugerir que Lancaster não era gay e que sua orientação sexual nada tinha nada a ver com o envolvimento do ator com o filme, sua declaração foi tirada de contexto quando foi publicada e levou a uma investigação mais aprofundada da vida pessoal de Lancaster. Isso, junto com o avanço da idade de Lancaster e uma operação de ponte de safena feita por este em abril de 1983, atrasou a produção, e os cineastas decidiram investir em William Hurt para substituir Lancaster. Na manhã seguinte à aprovação de Hurt, Weisman e Babenco se encontraram com o produtor independente Ray Stark, cujo sua empresa, Rastar Productions, havia sido adquirida pela Columbia Pictures. Stark concordou em assumir o projeto naquele momento, embora tanto a Rastar quanto a Columbia não são creditadas na produção do filme.

O orçamento esperado para O Beijo da Mulher Aranha de US$ 1 milhão foi financiado em parte pela empresa estatal brasileira Embrafilme, que comprou direitos de distribuição no Brasil por US$ 160.000 na época. Outras despesas técnicas foram financiadas pela HB Filmes, de propriedade de Babenco, e os serviços internacionais de produção foram financiados pela Sugarloaf Films, Inc., de Weisman. A equipe do filme era majoritariamente brasileira, acompanhada por vários artesãos nascidos na Argentina; as filmagens ocorreram em uma penitenciária de São Paulo que havia sido desocupada anteriormente devido à rebeliões de detentos, além de outras sequências serem gravadas nos antigos estúdios da Vera Cruz, então abandonados.

RoteiroEditar

O cenário do filme foi transferido da Argentina para o Brasil, com o contexto político adicional da então ditadura militar brasileira. A história apresenta um "filme dentro de um filme", com o personagem Luis Molina dizendo episodicamente a Valentin Arregui o enredo de um fictício filme de ficção chamado "Her Real Glory" ("A Verdadeira Glória Dela" em português), produzido ostensivamente na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial pelos nazistas.

Enquanto o romance original faz alusão a cinco filmes, a adaptação cinematográfica se concentra em um único filme de propaganda nazista. A biógrafa de Puig, Suzanne Jill Levine, identificou o filme como uma compilação de várias produções sobre o Terceiro Reich como o estadunidense Paris Underground e o austríaco Die große Liebe, sendo o segundo um filme de Otto Preminger lançado em 1931 estrelado por Zarah Leander como uma cantora de cabaré que se apaixona por um tenente nazista alemão; Leander serviu de inspiração para Leni Lamaison, a personagem central do filme contado por Molina, que recebeu o mesmo nome da atriz de filmes-propagandas da Alemanha Nazista, Leni Riefenstahl.

Ensaio e filmagensEditar

Durante os ensaios preparatórios, Hurt e Juliá tiveram problemas para encontrar a química necessária para as cenas de seus personagens. Assim sendo, Hurt sugeriu que eles experimentassem trocar de papéis, com Hurt interpretando Valentín e Juliá interpretando Molina; a técnica deu tão certo que Hurt sugeriu a Babenco que os atores deveriam trocar de papéis nas filmagens do filme também. O diretor não aceitou a troca, mas Hurt disse que foi uma experiência muito útil e que isso ajudou os atores a entenderem mais sobre os próprios personagens.

A fotografia principal do filme teve inicio em 13 de outubro de 1983 em São Paulo, Brasil. Como Babenco não falava inglês fluente, Hurt tomou a direção dele através de um diretor assistente.[9] Hurt e Julia concordaram em trabalhar seguindo a escala de remuneração da Screen Actors Guild e diferiram a maior parte de seus salários por uma participação nos lucros na venda dos direitos de distribuição do filme, bem como em suas bilheterias. Enquanto Babenco e Weisman também trabalhavam para o mesmo "plano de investimento diferido", outros atores, incluindo a atriz brasileira Sônia Braga, optaram por receber o pagamento antecipadamente. Ainda sobre Braga, a atriz não sabia falar inglês na época das filmagens e todas as suas falas tiveram que ser decoradas foneticamente. Durante as filmagens no Brasil, Hurt e um amigo foram sequestrados e ameaçados à mão armada, mas foram libertados várias horas depois.[10]

RecepçãoEditar

Resposta críticaEditar

O Beijo da Mulher Aranha recebeu críticas positivas. O site agregador de críticas Rotten Tomatoes dá uma classificação de 86% de aprovação ao filme com base em comentários de 28 usuários.[5]

Roger Ebert deu ao filme três estrelas e meia em quatro, chamando-o de "um filme cheio de surpresas" e comentando que "as performances [dos atores] são maravilhosas".[11] James Berardinelli deu ao filme três estrelas de quatro, chamando de "um fascinante estudo de personagem". Ao revisar o filme em 2009, Berardinelli afirmou que "[o filme] não perdeu seu encanto ao longo dos anos" e sentiu que O Beijo da Mulher Aranha era mais merecedor da estatueta do Óscar de Melhor Filme do que Out of Africa.[12]

Desempenho comercialEditar

Dos dois países envolvidos na produção, os Estados Unidos foi o primeiro a estrear o filme comercialmente em 26 de julho de 1985, conseguindo acumular um pouco mais de dezessete milhões de dólares nas bilheterias locais.

No Brasil, O Beijo da Mulher Aranha estreou somente em 13 de abril de 1986 e atraiu mais de um milhão e setecentas mil pessoas aos cinemas.[13][14]

Prêmios e indicaçõesEditar

William Hurt ganhou o Óscar de Melhor Ator, com o ator utilizando a palavra em português "saudade" para se referir ao que estava sentindo pelo Brasil em seu discurso de agradecimento; o filme também foi indicado na mesma cerimônia na categoria de Melhor Filme (tornando-se o primeiro filme brasileiro e independente a conseguir tal feito), Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado. Assim como no Óscar, Hurt também ganhou diversos prêmios de melhor ator em outras cerimônias como BAFTA e no Festival de Cannes de 1985.[15] O Beijo da Mulher Aranha recebeu o prêmio inaugural Golden Space Needle durante o Seattle International Film Festival.[16] Hurt e Julia ganharam um prêmio conjunto de Melhor Ator pelo National Board of Review.[17]

  Oscar 1986

Ano Categoria Notas Resultado
1986 Melhor Filme Indicado
Melhor Diretor Héctor Babenco Indicado
Melhor Ator William Hurt Venceu
Melhor Roteiro Adaptado Leonard Schrader Indicado

  Festival de Cinema de Cannes 1985

Ano Categoria Notas Resultado
1985 Palma de Ouro (Melhor Filme) Indicado
Melhor Ator William Hurt Venceu

  Prêmios Globo de Ouro 1986

Ano Categoria Notas Resultado
1986 Melhor Filme - Drama Indicado
Melhor Ator - Drama Raúl Juliá Indicado
William Hurt Indicado
Melhor Atriz Coadjuvante Sônia Braga Indicado

  BAFTA 1986

Ano Categoria Notas Resultado
1986 Melhor Ator William Hurt Venceu[18]

Atualmente O Beijo da Mulher Aranha é reconhecido pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema como um dos maiores filmes brasileiros de todos os tempos, integrando a seguinte lista:

Lançamento em DVDEditar

O lançamento em DVD do filme contém um disco bônus com comentários volumosos (acessíveis em inglês por legendas) sobre a produção do filme e sobre as carreiras dos roteiristas, atores e produtores; bem como a história de pós-produção do filme.[carece de fontes?]

Outras adaptaçõesEditar

Manuel Puig foi quem primeiro adaptou sua própria obra, no formato de uma peça de teatro. A adaptação, entretanto, só veio após o lançamento do filme.[19]

Após o sucesso do filme, um musical homônimo da Broadway foi produzido em 1993. A peça foi interpretada 904 vezes no Teatro Broadhurst a partir de 3 de maio daquele ano e recebeu três prêmios Tony nas categorias de melhor peça musical, melhor atriz em peça musical (Chita Rivera) melhor roteiro de peça musical e melhor trilha sonora de peça musical.

Ver tambémEditar

Referências

  1. «O Beijo da Mulher Aranha». no AdoroCinema 
  2. «Kiss of the Spider Woman» (em inglês). no Box Office Mojo  Retrieved July 16, 2013
  3. «O Beijo da Mulher Aranha» (em inglês). no IMDb 
  4. New York Times
  5. a b «Kiss of the Spider Woman». Rotten Tomatoes. Flixster 
  6. André Dib (27 de novembro de 2015). «Abraccine organiza ranking dos 100 melhores filmes brasileiros». Abraccine. abraccine.org. Consultado em 26 de outubro de 2016 
  7. a b c d e f g Sinopse do filme no All Movie Guide.
  8. «William Hurt Looks Back at 'Kiss of the Spider Woman,' the Groundbreaking, Oscar-Winning Drama Turning 30 This Month». Yahoo! Movies. 27 de julho de 2015. Consultado em 27 de julho de 2017 
  9. a b Brooks, Brian (13 de maio de 2010). «A Trailblazer, "Kiss of the Spider Woman" Set to Hit Cannes 25 Years Later». IndieWire. Consultado em 27 de julho de 2017 
  10. «William Hurt: In Every Role, A New Life To Inhabit». NPR. 25 de fevereiro de 2010. Consultado em 27 de julho de 2017 
  11. Roger Ebert. «Kiss of the Spider Woman Movie Review (1985)» 
  12. Kiss of the Spider Woman (1985) - Reelviews Movie Reviews
  13. «Filmes nacionais com mais de um milhão de espectadores (1970-2008 por público)» (PDF). Ancine. Ancine.gov.br 
  14. «Informe Anual 2009» (PDF). Ancine.gov.br 
  15. «Festival de Cannes: Kiss of the Spider Woman». festival-cannes.com. Consultado em 28 de junho de 2009 
  16. IMDb
  17. Cohn, Lawrence (29 de janeiro de 1986). «Nat'l Board of Review Names Winners of Griffiths Awards». Daily Variety. p. 6 
  18. «Actor in a Leading Role in 1986» (em inglês). British Academy of Film and Television Arts. Consultado em 21 de junho de 2017 
  19. Crítica do filme no All Movie Guide.