Ulrich Beck

professor académico alemão

Ulrich Beck (Pomerânia, 15 de maio de 1944Munique, 1 de janeiro de 2015)[1] foi um sociólogo alemão. Sua produção literária mais proeminente, a obra Sociedade de Risco ultrapassou divisões disciplinares da sociologia, minando para os campos do ambientalismo e sustentabilidade[2], direito, ciências da saúde[3][4][5], agricultura[6], política e filosofia da ciência[7][8]. Os pontos de referência para a produção teórica de Beck foram cada vez mais as manifestações e consequências de problemas transfronteiriços ambientais e sociais decorrentes da globalização. A produção moderna de riscos, a incontrolabilidade cientifico-tecnológica, a sociologia do conhecimento, bem como o papel da ignorância, e o cosmopolitismo são algumas das questões discutidas, dentre muitas outras. Alguns dos principais eixos da rica produção teórica de Beck tratam da "destradicionalização das formas de vida industriais", da "despadronização do trabalho assalariado" e da "individualização das situações de vida e padrões biográficos", isto é, da dissolução de marcos da sociedade industrial tradicional[9], das novas questões do universo do trabalho[10] (por exemplo, o empreendedorismo e a terceirização) e da teoria social contemporânea[11]. Beck se considerava um "acadêmico radical" e criticou ativamente as teorias sociológicas que persistiam nas terminologias e marcos do Estado-nação. Em lugar disso, propunha uma investigação social na perspectiva do cosmopolitismo, valorizando a interconectividade do mundo moderno.

Ulrich Beck
Ulrich Beck em maio de 2012, na Universidade de São Galo.
Nascimento 15 de maio de 1944
Pomerânia, Alemanha
Morte 1 de janeiro de 2015 (70 anos)
Munique, Alemanha
Nacionalidade alemão
Ocupação Sociólogo e professor

Beck foi professor de sociologia na Universidade de Munique, na London School of Economics e na Fondation Maison des Sciences de l'Homme (FMSH), em Paris. A pesquisa e produção teórica de Beck esteve envolvida em muitos compromissos políticos ativos[12]. Em 2012, o Conselho Europeu de Pesquisa aprovou um projeto de cinco anos intitulado "Cosmopolitismo metodológico no exemplo das mudanças climáticas". Ainda em 2012, Beck redigiu um manifesto chamado "Somos a Europa!" em resposta à crise financeira de 2007 e à crise da dívida na zona do euro, com o propósito de fundar a Europa "de baixo" através da cooperação ativa de seus cidadãos[13].

VidaEditar

Beck nasceu em 1944 na cidade de Stolp, Pomerânia, território alemão que hoje é denominado Słupsk, na Polônia.[14] Cresceu na cidade de Hanôver. Iniciou sua formação superior com foco em direito na Universidade de Freiburg. Em 1966 recebeu uma bolsa de estudos e estudou sociologia, psicologia, filosofia e ciências políticas na Universidade de Munique. Lá obteve seu doutorado, em 1972, especializando-se em sociologia.

Ulrich Beck foi casado com a socióloga Elisabeth Beck-Gernsheim, pesquisadora com foco em sociologia da família. Juntos escreveram três livros: The normal chaos of love (1990), Individualization (2002) e Distant Love (2014), tratando dos temas da individualização e/ou da cosmopolitanização da família.

Beck foi professor de sociologia de 1979 a 1981 na Universidade de Münster, e de 1981 a 1992 na Universidade de Bamberg. Trabalhou por muitos anos na administração e direção da Associação Sociológica Alemã. De 1995 a 1997 foi membro da Kommission für Zukunftsfragen der Freistaaten Bayern und Sachsen (Comissão para as Questões do Futuro).

De 1999 a 2009, foi o porta-voz de um programa de pesquisa colaborativo sobre modernização reflexiva da Fundação Alemã de Pesquisa (DFG). Tratava-se de um consórcio interdisciplinar de quatro universidades de Munique, financiado e acompanhado pela Fundação Alemã de Pesquisa. Nele, a teoria de Beck sobre a modernização reflexiva, com base em um amplo espectro de tópicos de pesquisa, foi empiricamente testada. A teoria da modernização reflexiva tem como base a ideia de que a era industrial moderna e sua ampliação produzem efeitos colaterais por todo o mundo, questionando, modificando e abrindo as coordenadas, fundamentos e bases institucionais dos Estados-nação moderno para a ação política.

Beck faleceu em 1 de janeiro de 2015, aos 70 anos, em decorrência de um infarto cardíaco.[15] Está enterrado no cemitério norte de Munique.

TrabalhoEditar

O trabalho de Ulrich Beck esteve concentrado nas seguintes temáticas: globalização, individualização, modernização, problemas ambientais, sociedade de risco, transformações no mundo do trabalho e desigualdades sociais. Após a publicação da obra Sociedade de Risco, de 1986, Beck publicou um grande número de artigos sobre a questão que determinaria sua pesquisa nos próximos 25 anos: como abrir o pensamento e a atuação social e política diante de mudanças globais radicais (degradação ambiental, crise financeira, aquecimento global, crise da democracia e das instituições nacionais) em uma modernidade historicamente entrelaçada?

As pesquisas, publicações e iniciativas políticas de Beck focaram principalmente em relações sociológicas transnacionais e globais. Ele prestou atenção especial às oportunidades e problemas da integração européia, às tendências e desafios da globalização e às perspectivas de uma política doméstica global. No final de sua carreira, esteve engajado no estudo das mudanças das condições de trabalho no contexto da difusão e aprofundamento do capitalismo global.

Seus escritos comumente tomaram a forma de um grande ensaio. Neles Beck conseguiu desenvolver de forma concisa temas abrangentes como o questionamento sobre os princípios do desenvolvimento social moderno.

Beck possuiu uma posição crítica, se contrapondo às correntes do pós-modernismo. Em concordância com outros autores, tais como Anthony Giddens, defendeu uma sociologia reflexiva que não abandonasse uma análise crítica mediante os problemas da sociedade contemporânea. Afirmou que os problemas da sociedade atual não são os mesmos que os descritos pela sociologia de momentos históricos anteriores.

PensamentoEditar

O pensamento de Beck se centrou na caracterização de um novo tipo de sociedade submetida à fortes riscos e processos de individualização. São elementos centrais de identificação desta sociedade as catástrofes ambientais, as crises financeiras, o terrorismo e as guerras preventivas.

Beck distinguiu dois processos de modernização na história recente das sociedades. A primeira modernização é identificada como aliada ao processo de industrialização e construção da sociedade de massas. Nesta era industrial o centro da estrutura cultural e social era a família. Já a segunda modernização ou modernização reflexiva, própria da sociedade atual, tende à globalização e está em constante desenvolvimento tecnológico, rompendo com a centralidade do núcleo familiar e dando lugar à individualização. No bojo deste processo aumenta a incerteza do indivíduo e instaura-se a sociedade do risco. Estas mudanças afetam não só o plano pessoal como o plano das instituições, a partir de novas políticas de governo muitas vezes aliadas à concepção econômica neoliberal.

Quanto a seu pensamento no campo político, Beck explicitou que não é necessário construir novas normas, mas sim readaptar as antigas à nova realidade social, política e econômica. Defendeu a necessidade de diminuir a força e o peso do mercado na vida das pessoas e ampliar o círculo social e cultural do indivíduo, com o objetivo de alcançar um maior equilíbrio e diminuir a incerteza. Beck defendeu uma economia política popular que seja capaz de estabelecer novas prioridades.

Para Beck, o pleno emprego não seria mais alcançável devido à crescente da automatização das atividades produtivas, as soluções nacionalistas são irrealistas, e a medicina neoliberal é um remédio sem eficácia diante da grandeza dos problemas gerados pelo programa desenvolvimentista. Diante disso o estado deveria garantir uma renda básica e mais empregos na sociedade civil. Diversos problemas da sociedade atual poderiam ser solucionados se a União Europeia, ou no melhor dos casos as diversas uniões transnacionais, conseguissem fazer valer os projetos de universalização dos padrões econômicos e sociais.

Beck considerou fundamental que os Estados nacionais fizessem um esforço de mudança no sentido de maiores cooperação e coesão entre os Estados, sem deixar de lado o reconhecimento da diversidade e das individualidades. Só a partir da construção de um estado transnacional seria possível controlar as empresas transnacionais. A construção e o acabamento de novas leis e instâncias jurídicas internacionais possibilita também de mediação amigável de conflitos transnacionais (que Beck chamou de pacifismo jurídico).

Atividades recentesEditar

Suas atividades de pesquisa mais recentes incluíram estudos empíricos de longa duração das implicações sociológicas e políticas da modernização reflexiva, que exploraram as complexidades e incertezas do processo de transformação da primeira para a segunda modernidade. Mais especificamente seu trabalho estava voltado para uma nova teoria social embasada no conceito de cosmopolitanismo.

Posicionamento políticoEditar

Beck exprimiu numerosas vezes posições em favor da construção de um estado supranacional e de um parlamento mundial. Seguindo a lógica destas posições, Beck se colocou através da imprensa a favor da aprovação da constituição europeia submetida ao voto popular na França em 2005. Ele considerou deplorável a leviandade do “não” de numerosos europeus e exigiu que houvesse uma segunda votação que admitisse uma reformulação no texto mas que provocasse uma união maior entre as nações no que diz respeito ao voto: desta vez seria necessário que a votação ocorresse em todos os estados membros ao mesmo tempo.

ConceitosEditar

ObrasEditar

Beck foi editor do jornal de sociologia Soziale Welt, sendo autor de mais de 150 artigos e coautor de outros.

Editou e publicou vários livros, entre eles:

(1974) BECK, U. Objectivity and normativity. The theory-practice debate in modern German and American sociology. (sem tradução para o português)

(1980) BECK, U, BRATER, M, HANSJÜRGEN, H. Sociology of work and professions. Basics, problem areas and research results. (sem tradução para o português)

(1986) BECK, U. Sociedade de Risco: Rumo a uma Outra Modernidade. São Paulo: Editora 34, 2011.

(1988) BECK, U. Antidotes. Organized irresponsibility. (sem tradução para o português)

(1990) BECK, U, BECK-GERNSHEIM, E. O caos totalmente normal do amor. Petrópolis: Editora Vozes, 2017.

(1991) BECK, U. Politics in the risk society. Essays and analyzes. (sem tradução para o português)

(1993) BECK, U. The invention of the political. A theory of reflexive modernization. (sem tradução para o português)

(1995) BECK, U, WILHELM, V, ZIEGLER, E.Z. Own life. Trips to the unknown society we live in. (sem tradução para o português)

(1995) BECK, U. Ecological Politics in an Age of Risk. (sem tradução para o português)

(1995) BECK, U. Ecological Enlightenment. (sem tradução para o português)

(1996) BECK, U, GIDDENS, A, LASH, S. Modernização reflexiva. São Paulo: Editora Unesp, 1997.

(1997) BECK, U. O que é globalização?, trad. André Carone, São Paulo: Paz e Terra, 1999.

(1999) BECK, U. Brave new world of work. Vision: global civil society. (sem tradução para o português)

(1999) BECK, U. World Risk Society (sem tradução para o português)

(2000) BECK, U, WILLMS, J. Liberdade ou capitalismo. São Paulo: Editora Unesp, 2003.

(2002) BECK, U, BECK-GERNSHEIM, E. Individualization: Institutionalized Individualism and its Social and Political Consequences. (sem tradução para o português)

(2002) BECK, U. Power and counterpower in the global age. New world political economy. (sem tradução para o português)

(2003) BECK, U, SZNAIDER, N, WINTER, R. Global America: The Cultural Consequences of Globalization (sem tradução para o português)

(2004) BECK, U. The cosmopolitan outlook or: war is peace. (sem tradução para o português)

(2004) BECK, U, GRANDE, E. Cosmopolitan Europe. Society and politics in the Second Modern Age. (sem tradução para o português)

(2005) BECK, U. What to choose. (sem tradução para o português)

(2007) BECK, U. Sociedade de Risco Mundial. Em busca da segurança perdida. Lisboa: Edições 70, 2018.

(2008) BECK, U. O Deus de cada um. A capacidade das religiões de promover a paz e o seu potencial de violência. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2016.

(2008) BECK, U. The re-measurement of inequality among people: sociological education in the 21st century. (sem tradução para o português)

(2010) BECK, U. News from world domestic politics. (sem tradução para o português)

(2011) BECK, U, BECK-GERNSHEIM, E. Fernliebe (Distant Love). Life forms in the global age. (sem tradução para o português)

(2012) BECK, U. A Europa alemã: De Maquiavel a “Merkievel”. Estratégias de poder na crise do euro. Lisboa: Edições 70, 2013.

(2016, póstumo) BECK, U. A metamorfose do mundo: Novos conceitos para uma nova realidade. São Paulo: Zahar, 2018.

Referências

  1. Kaldor, Mary; Selchow, Sabine (6 de janeiro de 2015). «Ulrich Beck obituary». The Guardian (em inglês). ISSN 0261-3077 
  2. Guivant, Julia S. (2001). «A teoria da sociedade de risco de Ulrich Beck: entre o diagnóstico e a profecia». Estudos Sociedade e Agricultura. ISSN 2526-7752 
  3. Ianni, Aurea Maria Zöllner (2011). «Desafios para um novo pacto sanitário: biotecnologia e risco». Ciência & Saúde Coletiva. 16: 837–846. ISSN 1413-8123. doi:10.1590/S1413-81232011000700015 
  4. Luiz, Olinda do Carmo; Cohn, Amélia (2006-11). «Sociedade de risco e risco epidemiológico». Cadernos de Saúde Pública. 22: 2339–2348. ISSN 0102-311X. doi:10.1590/S0102-311X2006001100008  Verifique data em: |data= (ajuda)
  5. Caron, Eduardo; Ianni, Aurea Maria Zöllner; Lefevre, Fernando (2018-04). «A saúde como ciência e o corpo biológico como artefato: o caso do Jornal Nacional». Ciência & Saúde Coletiva. 23: 1333–1342. ISSN 1413-8123. doi:10.1590/1413-81232018234.13682016  Verifique data em: |data= (ajuda)
  6. Guivant, Julia S. (2001). «A teoria da sociedade de risco de Ulrich Beck: entre o diagnóstico e a profecia». Estudos Sociedade e Agricultura. ISSN 2526-7752 
  7. B. M. de Albuquerque Navarro, Marli; de Oliveira Cardoso, Telma Abdalla (2005-11). «Percepção de risco e cognição: reflexão sobre a sociedade de risco». Ciências & Cognição. 6 (1): 67–72. ISSN 1806-5821  Verifique data em: |data= (ajuda)
  8. Jacobi, Pedro Roberto (2007). «Educar na sociedade de risco: o desafio de construir alternativas». Pesquisa em Educação Ambiental. 2 (2): 49–65. ISSN 2177-580X. doi:10.18675/2177-580X.vol2.n2.p49-65 
  9. Latour, Bruno (1 de abril de 2003). «Is Re-modernization Occurring - And If So, How to Prove It?: A Commentary on Ulrich Beck». Theory, Culture & Society (em inglês). 20 (2): 35–48. ISSN 0263-2764. doi:10.1177/0263276403020002002 
  10. Beck, Ulrich (5 de novembro de 2014). The Brave New World of Work (em inglês). [S.l.]: John Wiley & Sons. ISBN 978-0-7456-9439-9 
  11. Westphal, Vera Herweg (2010). «A individualização em Ulrich Beck: análise da sociedade contemporânea». Emancipação. 10 (2): 419–433. ISSN 1982-7814 
  12. Guivant, Julia Silvia; Guivant, Julia Silvia (2016-03). «Ulrich Beck's legacy». Ambiente & Sociedade (em inglês). 19 (1): 227–238. ISSN 1414-753X. doi:10.1590/1809-4422asoc150001exv1912016  Verifique data em: |data= (ajuda)
  13. «We need a different Europe - Ulrich Beck». Peščanik (em inglês). 15 de novembro de 2014. Consultado em 21 de janeiro de 2020 
  14. RODRIGUES JUNIOR, Otavio Luiz. «Morre Ulrich Beck, um sociólogo influente na área do Direito». Consultor Jurídico. São Paulo, 21.1.2015. Consultado em 23 de janeiro de 2015 
  15. «Renowned sociologist Ulrich Beck has died» (em bretão). Deutsche Welle. 3 de janeiro de 2015. Consultado em 4 de janeiro de 2015. Cópia arquivada em 4 de janeiro de 2015. According to the newspaper Süddeutsche Zeitung on Saturday, Beck passed away on January 1 following a heart attack. 

Ligações externasEditar

 
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