Francisco Tenório Júnior

pianista brasileiro
Francisco Tenório Júnior
Nascimento 4 de julho de 1940
Rio de Janeiro
Morte Desconhecido
Buenos Aires
Cidadania Brasil
Progenitores Mãe:Alcinda Lourenço Cerqueira
Pai:Francisco Tenório Cerqueira
Ocupação pianista
Causa da morte assassinato

Francisco Tenório Cerqueira Júnior, mais conhecido como Tenório Jr. (Rio de Janeiro, 4 de julho de 1941[1] - Buenos Aires, 27 de março de 1976) foi um pianista brasileiro de samba-jazz, bastante ativo nos anos 1970.

No dia 18 de março de 1976, quando acompanhava os artistas Toquinho e Vinícius de Moraes em show na Argentina, desapareceu misteriosamente em Buenos Aires, depois de deixar no hotel um bilhete no qual estava escrito: "Vou sair para comer um sanduíche e comprar um remédio. Volto logo.". Nunca mais voltou.[2]

Segundo testemunhas, Tenório Jr. teria sido sequestrado pelo serviço secreto da Marinha da Argentina, na madrugada de 18 de março (poucos dias antes do golpe militar) e torturado durante nove dias. Após ter ficado claro que o pianista não tinha envolvimento em atividades políticas, foi morto com um tiro na cabeça.[3]

BiografiaEditar

Nascido e crescido no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, foi considerado uma dos músicos mais importantes da bossa nova. Costumava apresentar-se no Beco das Garrafas, no Rio de Janeiro. Seu piano pode ser ouvido em álbuns antológicos da música brasileira como É Samba Novo, de Edson Machado, a Arte Maior de Leny Andrade, com Tenório Jr. Trio, Desenhos, de Victor Assis Brasil, O Lp, de Os Cobras e Vagamente, de Wanda Sá.

Ele tinha 21 anos quando gravou seu primeiro e único disco, Embalo, em 1964.

Cursou a Faculdade Nacional de Medicina, enquanto se dedicava paralelamente ao piano, tornando-se nos anos 1970 um dos profissionais brasileiros mais requisitados pelos artistas.

Em 1976, após um show em Buenos Aires, onde acompanhava ao piano Vinicius de Moraes e Toquinho, Tenório Júnior (ou Tenorinho, como era conhecido) desapareceu sem deixar rastros. A princípio, após o desaparecimento, não se sabia se ele estava em alguma prisão da Argentina ou morto.

Na época várias versões corriam, como a citada pela cantora Elis Regina em entrevista dada à Folha de S.Paulo, em 3 de junho de 1979.[4] Segundo Elis, Tenorinho havia sido visto em 1977, numa prisão de La Plata.

Somente dez anos após o seu desaparecimento, Cláudio Vallejos, ex-cabo e integrante do Serviço de Informação Naval, o serviço secreto da Marinha Argentina, revelou à extinta revista Senhor (n° 270, maio de 1986) , no Rio de Janeiro, que Tenório Jr. havia sido abordado na rua, por uma patrulha militar e preso. Segundo Vallejos, as autoridades brasileiras haviam sido informadas do sequestro e morte de Tenório Júnior. Vallejos afirmou que Tenório foi encarcerado na ESMA (Escola de Mecânica da Armada), aparato clandestino de repressão da Marinha argentina que existiu entre 1976 e 1979 e, segundo relatos e denúncias, foi palco de quase cinco mil assassinatos.[5]

No livro Operación Condor: Pacto Criminal, lançado no México em 2001, a jornalista Stella Calloni afirma que Tenório Jr. foi torturado por agentes brasileiros e argentinos, entre eles o major do Exército Souza Baptista Vieira. O relato de Stella converge com a entrevista de Claudio Vallejos publicada na revista Senhor, na qual o ex-militar argentino afirmara que agentes do SNI tinham estado presentes durante a execução de Tenório Jr, ocorrida nove dias após sua prisão. O executor teria sido Alfredo Astiz, ex-capitão de fragata da Marinha Argentina, também implicado no assassinato e desaparecimento forçado de dezenas de pessoas e condenado à prisão perpétua em 2011, por crimes contra a humanidade.[5][6]

Francisco Tenório Júnior tinha 34 anos. Deixou quatro filhos e a esposa, Carmen Cerqueira Magalhães, grávida. A quinta criança nasceu um mês após o seu desaparecimento.[3]

O grupo Tortura Nunca Mais confirmou que a morte de Tenório ocorreu em março de 1976, em Buenos Aires.[7]

Logo após o desaparecimento de Tenório Jr. o cineasta Rogério Lima produziu o curta metragem "Balada para Tenório", no qual narra o desaparecimento de Tenório Jr. e entrevista seus familiares e amigos.

Em 1986 quando Cláudio Vallejos veio ao Brasil e concedeu a reveladora entrevista à revista Senhor, a produtora Videcom de São Paulo, juntamente com Rogério Lima, conseguiu gravar seu depoimento, que foi usado como base para o documentário Tenório Jr., que conta a tragédia ocorrida com o músico. Vallejos foi preso logo após a entrevista, por determinação do então Ministro da Justiça, Paulo Brossard, dias após a publicação da entrevista. Em agosto de 1987, em nova entrevista à Senhor, o ex-agente afirmou ter sofrido, durante sua breve prisão, ameaças de homens da Polícia Federal e recebido a recomendação de não insistir nas referências à omissão da embaixada brasileira e ao envolvimento de agentes do SNI na morte de Tenório.[5]

O documentário teve sua estreia no Festival de Cinema e Vídeo do Rio de Janeiro. Na mesma semana, Cláudio Vallejos foi expulso do Brasil, após três meses de prisão, sem contudo ter sido submetido a um processo.

Em 1996, o documentário foi atualizado com imagens de arquivo inéditas, reeditado e apresentado pela TV Cultura de São Paulo. No filme, o advogado Luís Eduardo Greenhalgh diz acreditar que a prisão de Tenório Júnior tenha sido preso por engano.[8]

Segundo pessoas próximas ao pianista,Tenório, embora fosse filho de militar, jamais expressara preferências político-ideológicas. Numa entrevista concedida em 2003, o violonista Toquinho declarou que a aparência de Tenório deve ter contribuído para a sua prisão. "Tenório era um tipo original, muito alto, de barba, cabelos longos, usava um capote comprido, foi confundido com alguém."[5]

O cineasta espanhol Fernando Trueba tem o projeto de realizar um outro documentário, de longa metragem, sobre o desaparecimento do pianista brasileiro.

Cláudio Vallejos voltou ao Brasil (supõe-se que por volta de 2002) e se instalou na região de Chapecó, em Santa Catarina. Foi preso em 2010 por estelionato e falsificação. Liberado, tempos depois foi novamente preso por estelionato, em janeiro de 2012.[9]. A sua prisão havia sido pedida à Interpol pelo procurador federal argentino que cuida da ação penal ligada à Operação Condor (aliança político-militar entre as ditaduras de Argentina, Brasil, Chile e Uruguai, nas décadas de 1970 e 1980). Quando a identidade de Vallejos foi confirmada, o procurador pediu sua extradição ao governo brasileiro. Em 27 de março de 2013, Vallejos foi entregue pela Polícia Federal à polícia argentina, no aeroporto de Florianópolis.[10]

DiscografiaEditar

  • Embalo (1964)

Artistas relacionadosEditar

Referências

Ligações externasEditar