Golpe de Estado na Venezuela de 2002

Golpe de Estado na Venezuela de 2002 foi um golpe de Estado fracassado em 11 de abril de 2002, que durou 47 horas, no qual o chefe de Estado da Venezuela, o presidente Hugo Chávez foi detido por militares e a Assembleia Nacional e o Supremo Tribunal foram dissolvidos, e a Constituição de 1999 do país foi anulada.[1][2][3][4][5]

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

O presidente da Federação Venezuelana de Câmaras de Comércio (Fedecâmaras), Pedro Carmona foi instalado como presidente de facto. Em Caracas, o golpe de Estado levou a um levante dos partidários de Chávez, principalmente em Caracas através dos Círculos Bolivarianos[6].[7][8][9] A Guarda Presidencial pró-Chávez, retomou o palácio presidencial de Miraflores, sem disparar um tiro, levando a reinstalação de Chávez como presidente.

O golpe foi publicamente condenado pelas nações latino-americanas (os presidentes do Grupo do Rio se reuniram em San José, Costa Rica, na época, e foram capazes de emitir um comunicado conjunto) e pelas organizações internacionais. Os Estados Unidos e a Espanha rapidamente reconheceram o governo pró-EUA de facto de Carmona, mas acabou condenando o golpe de Estado após este ter sido derrotado.[10]

HistóriaEditar

Diante do acirramento das posições políticas cada vez maior dentro da sociedade venezuelana, que ficara nítido desde a paralisação de um dia convocada pelo empresariado em dezembro de 2001 e que teria mais uma mostra em 23 de janeiro de 2002, quando houve grandes manifestações em Caracas tanto das oposições quanto dos simpatizantes do Presidente Chávez, muitas da forças da oposição planejavam como tirar Chávez do poder.[11][12][13] Dando continuidade às tentativas de inviabilizar o Governo, entidades como a CTV (Confederação Venezuelana dos Trabalhadores), a Fedecamaras, a Conferência Episcopal e a cúpula da Universidade Católica Andrés Bello firmaram o "Pacto Democrático contra Chávez" em 5 de março de 2002.[14]Esse acordo tinha como objetivo nortear as ações das oposições.[14] No dia 9 de abril a CTV decretou greve geral com duração de um dia.[14] No dia seguinte a Fedecamaras se junta à CTV na greve geral, que então passa a ser por tempo indefinido.[12] No dia 11 de abril ocorrem os eventos decisivos para a eclosão do golpe. Uma marcha composta majoritariamente por pessoas de classe média foi convocada pela CTV e Fedecamaras em direção à sede da PDVSA no leste de Caracas. No entanto o trajeto foi mudado para o Palácio de Miraflores, onde ocorria uma manifestação dos simpatizantes do presidente Chávez. As duas manifestações não chegaram a se encontrar, mas homens da Guarda Metropolitana efetuaram disparos em meio à multidão causando pânico. Na confusão 17 pessoas foram mortas e mais de 100 ficaram feridas. Inicialmente foi amplamente divulgado pela imprensa venezuelana que os tiros foram dados pela Guarda Bolivariana e franco atiradores a mando do governo.[14][15][16][17] No desdobramento da crise no 12 de abril o Alto-comando das Forças Armadas através do Vice-almirante Héctor Ramíres Pérez e dos generais Efraím Vásquez Velasco e Lucas Rincón Romero dá andamento ao golpe que se consumaria com a posse na Presidência do Presidente da Fedecamaras, Pedro Carmona.[14][18] Depois de fortes protestos por partidários de Chávez e de pressão internacional, já que muitos países não reconheceram Carmona, Chávez retomou a presidência, na manhã de 14 de abril de 2002.

O primeiro ato oficial de Carmona foi de dissolver o Parlamento (Assembléia Nacional), o Supremo Tribunal Federal, o Conselho Nacional Eleitoral de todos os governadores, prefeitos e vereadores, destituiu o Procurador Geral, Controladoria, o Provedor de Justiça, todos os embaixadores, cônsules e vice-cônsules, as missões diplomáticas permanentes, e eliminou 48 leis, e consequentemente, anulou a Constituição.[4] A oposição defendeu fortemente o golpe de Estado.[19]

O novo governo de facto foi confrontado com enormes protestos de cidadãos que estavam concentrados em todo o país em favor de Chávez. Em muitas partes da capital e dezenas de cidades em todo o país.[20]

O papel da imprensaEditar

Segundo John Dinges, jornalista da Columbia Journalism Review, nas semanas que antecederam o golpe, a mídia privada venezuelana e, em especial, a rede de televisão RCTV, conferiram ampla cobertura às manifestações anti-Chávez, ao mesmo tempo em que ignoraram as manifestações pró-Chávez.[21] No dia 11 de abril, as mensagens de repúdio a Chávez e a convocação para redirecionar a marcha anti-governista para o Palácio de Miraflores foram "amplamente anunciados, promovidos e cobertos por canais de televisão privados, cujo apoio explícito à oposição tornou-se evidente". Uma série maciça de anúncios não-pagos difundidos pela televisão convocavam os venezuelanos a participarem da insurreição.[22] A edição de 11 de abril do periódico El Nacional trouxe estampada a manchete "A batalha final será no Miraflores".[23] Em um dado momento os golpistas, incluindo Carmona, se reuniram nos escritórios da rede de televisão Venevisión.[24] Jornalistas chamam o acontecimento de um "golpe da mídia", argumentando que a mídia privada da Venezuela teve uma grande parcela de responsabilidade pelo golpe, cometendo auto-censura das informações[25] com os golpistas e até mesmo sendo os principais promotores.

Quando irrompeu o golpe, militares do grupo de oposição ocuparam a rede estatal venezuelana de televisão (Venezolana de Televisión), ao mesmo tempo em que rádios e redes comunitárias de televisão eram fechadas. Dessa forma, a notícia de que Chávez na verdade não havia renunciado não pôde ser difundida, exceto pela informação "boca-a-boca".[26] Somente uma rede de rádio ligada à Igreja Católica continuou a noticiar os eventos.[21] Graças à cooperação de funcionários do Palácio de Miraflores ainda fiéis a Chávez, a filha do presidente deposto conseguiu falar com o pai por meio de um telefonema. Informada de que Chávez não havia renunciado, conseguiu contatar Fidel Castro e em seguida, a televisão cubana.[27] O Procurador-Geral da República Venezuelana tentou informar ao público que Chávez não havia renunciado, convocando uma conferência de imprensa, mas a seu pronunciamento foi cortado.[28] Após a prisão de Chávez, protestos ocorreram em diversos pontos de Caracas, resultando na morte de 19 pessoas. Entretanto, repórteres da RCTV foram enviados para pontos tranquilos da cidade para fazer "tomadas ao vivo de ambientes calmos", ignorando tais eventos.[21]

A imprensa venezuelana não informou o público sobre as tentativas dos militares que se opuseram ao golpe de Estado de retomar o Palácio de Miraflores. As quatro maiores redes de televisão pararam simultaneamente de transmitir quaisquer notícias sobre a instabilidade política..[21] Dois dos maiores jornais do país, o El Universal e o El Nacional, cancelaram suas edições de domingo, alegando tratar-se de "medidas de segurança". Um terceiro, o Ultimas Noticias, imprimiu uma versão limitada relatando os eventos. Alguns tablóides e redes regionais também noticiaram os fatos. Ao transmitir a notícia de que uma divisão importante das Forças Armadas venezuelanas em Maracay havia se rebelado contra o golpe, a rede norte-americana de televisão CNN disse estar surpresa com o fato da imprensa local "não dizer nada" a respeito.[24] Então, as forças leais a Chávez emitiram uma declaração conjunta demandando a "restauração da democracia". A declaração, entretanto, foi difundida somente pela CNN.[29] Somente por volta das oito horas da manhã do dia 13 de abril, Chávez, já restituído à presidência da nação, conseguiu informar a população do que havia ocorrido por meio da rede de televisão estatal.[28]

Os chavistas também mencionam que foi um golpe empresarial, já que o efêmero presidente Carmona não era apenas empresário, mas era presidente da maior organização empresarial, a chamada Fedecamaras; e também foi dito que o golpe foi apoiado pela Igreja Católica.[30]

Em um artigo publicado pelo Le Monde diplomatique, o jornalista Maurice Lemoine afirmou que "nunca, mesmo na história latino-americana, a imprensa esteve envolvida tão diretamente em um golpe [de estado].". Ele acrescentou que "embora as tensões do país pudessem facilmente conduzir a uma guerra civil, a mídia ainda está encorajando diretamente os dissidentes do governo a derrubar o presidente democraticamente eleito - se necessário, pela força".[24]

Ver tambémEditar

Referências

  1. Rey, J. C. (2002), "Consideraciones políticas sobre un insólito golpe de Estado" Arquivado em 3 de janeiro de 2009, no Wayback Machine., pp. 1–16; cited in Cannon (2004:296); "In 2002, Venezuela's military and some of its business leaders ousted President Chavez from power and held him hostage." (N. Scott Cole (2007), "Hugo Chavez and President Bush's credibility gap: The struggle against US democracy promotion", International Political Science Review, 28(4), p498)
  2. «Veneconomía» (PDF) (em espanhol). Veneconomía. 15 de março de 2006. Consultado em 29 de janeiro de 2010 
  3. «Esposa de Gebauer espera publicación en gaceta de Ley de Amnistía». eluniversal.com. 2 de janeiro de 2008 
  4. a b «Novo presidente dissolve Poderes». Folha de São Paulo. 13 de abril de 2002. Consultado em 22 de agosto de 2020 
  5. Interim Venezuelan president sworn in. BBC News. (13 April 2002). URL last accessed on 30 May 2007
  6. «Grupo civil pró-Chávez promete impedir novo golpe». Folha de São Paulo. 6 de outubro de 2002. Consultado em 24 de agosto de 2020 
  7. «Círculos bolivarianos protestaron» (em espanhol). Últimas Noticias. 13 Abril 2002. Consultado em 11 de abril de 2008 
  8. «Insurrección civil y militar termina con el golpe; Chávez, en Miraflores» (em espanhol). La Jornada. 14 de abril de 2002. Consultado em 4 de março de 2007 
  9. «Cecilia Sosa no ha sido notificada formalmente medida privativa de libertad» (em espanhol). Unión Radio. 21 de outubro de 2005. Consultado em 4 de março de 2007 
  10. Official U.S. Government Statements — Venezuela. Retrieved 10 April 2006.
  11. Tomayo, Juan O. (26 de abril de 2002). «Venezuelans linked to coup attempt said to be in Miami». The Miami Herald. Consultado em 8 de setembro de 2020 
  12. a b «Cronologia política de Hugo Chávez». Folha de São Paulo. 14 de abril de 2002. Consultado em 22 de agosto de 2020 
  13. «Chávez e oposição medem força em Caracas». Folha de São Paulo. 24 de janeiro de 2002. Consultado em 24 de agosto de 2020 
  14. a b c d e «Hugo Chávez Frias». CIDOB - Barcelona Centre for International Affairs. 24 de janeiro de 2019. Consultado em 22 de agosto de 2020 
  15. «Chávez enfrenta rebelião após megaprotesto». Folha de São Paulo. 12 de abril de 2002. Consultado em 22 de agosto de 2020 
  16. «Governo busca simpatizantes de Chávez». Folha de São Paulo. 13 de abril de 2002. Consultado em 20 de agosto de 2020 
  17. «Venezuelan coup victims try to get on with their lives». CNN. 28 de julho de 2002. Consultado em 8 de setembro de 2020 
  18. «Novo presidente interino, Carmona é representante do empresariado neoliberal». Folha de São Paulo. 13 de abril de 2002. Consultado em 22 de agosto de 2020 
  19. [1] Arquivado em 29 de setembro de 2007, no Wayback Machine. Renuncia de Hugo Chávez solicitada por el Alto Mando Militar
  20. http://www.imdb.com/title/tt0363510/
  21. a b c d Dinges, John. "Soul Search", Columbia Journalism Review, vol. 44, julho-agosto de 2005, pp. 52-58
  22. A citação (no original, [...]widely announced, promoted, and covered by private television channels, whose explicit support for the opposition became evident) e a informação sobre os anúncios não pagos estão disponíveis em: Maya, Margarita López. "Venezuela 2002-2003: Polarization, Confrontation, and Violence", in: Goumbri, Olivia Burlingame: The Venezuela Reader, Washington DC, EUA, 2005, pp. 14-15. julho-agosto de 2005, pp. 52-58. O valor do tempo doado para os anúncios foi estimado em aproximadamente três milhões de dólares.
  23. Golinger, Eva. «A Case Study of Media Concentration and Power in Venezuela». Venezuelanalysis. Consultado em 24 de julho de 2010 
  24. a b c Lemoine, Maurice. «Venezuela's press power». Le Monde diplomatique. Consultado em 24 de julho de 2010 
  25. La Prensa Venezolana a la Defensiva Arquivado em 9 de junho de 2007, no Wayback Machine. por Medios y Libertad en las Américas.
  26. Jones, Bart. Hugo!, 2008, pp. 356
  27. Jones, Bart. Hugo!, 2008, pp. 345
  28. a b Jones, Bart. Hugo!, 2008, pp. 346-347
  29. Jones, Bart. Hugo!, 2008, pp. 358
  30. Venezuela: un obispo golpista por Red Voltaire, red de prensa de carácter izquierdista