Revolver (álbum)

Álbum de The Beatles

Revolver é o sétimo álbum de estúdio da banda britânica de rock The Beatles. Foi lançado em 5 de agosto de 1966, acompanhado pelo single de duplo lado A "Eleanor Rigby" / "Yellow Submarine". O álbum foi o último projeto de gravação dos Beatles antes de se aposentarem das apresentações ao vivo e marca o uso mais evidente da tecnologia de estúdio pela banda até o momento, aproveitando os avanços de seu lançamento do final de 1965, Rubber Soul. Desde então, passou a ser considerado um dos maiores e mais inovadores álbuns da história da música popular, com reconhecimento centrado na sua variedade de estilos musicais, diversidade de sons e conteúdo lírico.

Revolver
Revolver (álbum)
Álbum de estúdio de The Beatles
Lançamento 5 de agosto de 1966
Gravação 6 de abril – 21 de junho de 1966
Estúdio(s) EMI, Londres
Gênero(s)
Duração 35:00
Gravadora(s)
Produção George Martin
Cronologia de The Beatles
Rubber Soul
(1965)
Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band
(1967)
Singles de Revolver
  1. "Yellow Submarine / Eleanor Rigby"
    Lançamento: 5 de agosto de 1966

A banda gravou Revolver após tirar uma pausa de três meses no início de 1966, e durante um período em que Londres foi festejada como a capital cultural da época. Considerada por alguns comentaristas como o início da fase psicodélica do grupo, as canções refletem seu interesse no LSD, na filosofia oriental e no avant-garde ao abordar temas como morte e transcendência de preocupações materiais. Sem planos de reproduzir seu novo material em concerto, a banda fez uso abundante de técnicas de estúdio, tais quais automatic double-tracking (ADT), variação de pitch, reversão de fitas, e o uso de instrumentos fora de sua configuração padrão ao vivo.

No Reino Unido, as quatorze faixas do álbum foram gradualmente divulgadas às estações de rádio nas semanas anteriores ao seu lançamento. Na América do Norte, Revolver foi reduzido a onze canções pela Capitol, com as três omitidas aparecendo no LP de junho de 1966, Yesterday and Today. O lançamento lá coincidiu com a última apresentação paga dos Beatles e a polêmica em torno do comentário de John Lennon de que a banda havia se tornado "mais popular que Jesus". O álbum liderou a parada britânica por sete semanas e a lista da Billboard Top LPs por seis semanas. A reação crítica foi altamente favorável no Reino Unido porém menor nos Estados Unidos em meio ao desconforto da imprensa com a franqueza da banda sobre questões contemporâneas.

Revolver expandiu as fronteiras da música pop, revolucionou as práticas na gravação em estúdio, avançou os princípios adotados pela contracultura dos anos 1960, e inspirou o desenvolvimento de gêneros como rock psicodélico, electronica, rock progressivo e world music. A capa do álbum, projetada por Klaus Voormann, combinou traços de desenho ao estilo de Aubrey Beardsley com colagem de fotos e ganhou o Grammy Award para Melhor Capa da Álbum em 1967. Foi classificado em primeiro lugar nas edições de 1998 e 2002 do livro All Time Top 1000 Albums de Colin Larkin e em terceiro lugar nas edições de 2003 e 2012 da lista da revista Rolling Stone dos "500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos". O álbum foi certificado em disco de platina duplo pela Indústria Fonográfica Britânica e seis vezes em platina pela Associação Americana da Indústria de Gravação. Uma edição expandida e remixada do álbum foi lançada em 2022.

Contexto editar

Em dezembro de 1965, o álbum Rubber Soul dos Beatles foi lançado para ampla aclamação crítica.[1] De acordo com o autor David Howard, os limites da música pop "foram elevados à estratosfera" por seu lançamento, resultando em uma mudança de foco dos singles para a criação de álbuns com qualidade consistentemente alta.[2] No mês de janeiro seguinte, os Beatles realizaram overdubs em gravações ao vivo retiradas de sua turnê de agosto de 1965[3] para inclusão no filme-concerto The Beatles at Shea Stadium.[4] O empresário do grupo, Brian Epstein, pretendia que 1966 seguisse o padrão dos dois anos anteriores,[5] em termos da banda preparar um longa-metragem e um álbum acompanhante,[6] seguidos por turnês durante os meses de verão.[7] Após os Beatles vetarem o projeto de filme proposto, o tempo alocado para as filmagens passou a ser mais três meses livres de compromissos profissionais.[5][8] Esse foi o período mais longo que os membros da banda vivenciaram fora do coletivo do grupo desde 1962,[9][10] e desafiou a convenção de que bandas pop deveriam trabalhar quase continuamente.[11] O grupo teve assim uma quantidade de tempo até então inédita para se preparar para um novo álbum.[8]

Literalmente qualquer coisa (poderia sair das próximas sessões de gravação). Música eletrônica, piadas (...) uma coisa é certa: o próximo LP será bem diferente.[12]

– John Lennon, Março de 1966

O biógrafo dos Beatles, Nicholas Schaffner, citou 1966 como o início do "período psicodélico" da banda,[13] assim como os musicólogos Russell Reising e Jim LeBlanc.[14][nota 1] A jornalista musical Carol Clerk descreveu Revolver como tendo sido "decisivamente esclarecido pelo ácido", seguindo o uso contínuo do LSD por John Lennon e George Harrison desde a primavera de 1965.[18] Através dessas experiências, os dois músicos desenvolveram um deslumbramento pelos conceitos da filosofia oriental,[18][19] particularmente a respeito da ilusória natureza da existência humana.[20][21] Apesar da insistência de seus companheiros de banda, após Ringo Starr também ter consumido a droga, Paul McCartney se recusou a provar o LSD.[22][23] Com a intenção de melhorar a si mesmo, McCartney inspirou-se no estímulo intelectual que experimentou no cenário artístico de Londres, particularmente na sua próspera comunidade de vanguarda.[24][25] Com Barry Miles como guia, ele mergulhou no nascente movimento da contracultura britânica, que logo emergiu como underground.[26]

Enquanto organizava datas para a turnê mundial da banda,[27] Epstein concordou com a proposta da jornalista Maureen Cleave dos Beatles serem entrevistados separadamente para uma série de artigos que iriam explorar a personalidade e o estilo de vida de cada membro da banda, além de sua identidade como um Beatle.[28] Os artigos foram publicados em edições semanais no jornal Evening Standard de Londres ao longo de março de 1966, e refletiu a transformação que estava em andamento durante os meses de inatividade do grupo.[29][nota 2] Dos dois compositores principais, Cleave considerou John intuitivo, preguiçoso e insatisfeito com a fama e o ambiente no interior de Surrey, enquanto Paul transmitiu convicção e uma fome por conhecimento e novas possibilidades criativas.[31] Em seu livro Revolver: How the Beatles Reimagined Rock 'n' Roll, Robert Rodriguez escreve que, enquanto Lennon tinha sido a força criativa dominante dos Beatles antes de Revolver, McCartney agora alcançava uma posição aproximadamente igual à dele.[32] Em um desenvolvimento posterior, o interesse de George pela música e cultura da Índia, e o seu estudo da sitar indiana, inspiraram-no como compositor.[33] De acordo com o autor Ian Inglis, Revolver é amplamente visto como "o álbum em que Harrison atingiu a maioridade como compositor".[34]

Histórico de gravação editar

 
George, Paul e John com George Martin nos estúdios da EMI em 1966

Os Beatles esperavam trabalhar em espaços mais modernos do que o estúdio Abbey Road da EMI em Londres,[35] e estavam impressionados com o som dos discos produzidos no estúdio Stax em Memphis.[36] Em março de 1966, Epstein apurou a possibilidade deles gravarem seu novo álbum no Stax,[37] onde, de acordo com uma carta escrita por George dois meses antes, o grupo desejava trabalhar com o produtor Jim Stewart.[38] A ideia foi abandonada após os moradores locais invadirem o prédio da Stax. Também houveram planos de usarem os estúdios da Atlantic em Nova Iorque ou o "Hitsville U.S.A." da Motown em Detroit.[39][nota 3]

No entanto, as gravações se iniciaram no Estúdio 3 da EMI em Londres no dia 6 de abril, com George Martin servindo novamente como produtor.[42] A primeira faixa gravada foi "Tomorrow Never Knows" de Lennon,[43] cujo arranjo mudou consideravelmente entre a tomada inicial daquele dia e o remake subsequente.[44] Essa primeira versão de "Tomorrow Never Knows", assim como outros outtakes das sessões do álbum,[45] foi incluída na compilação de 1996, Anthology 2.[46] Também gravadas durante as sessões de Revolver foram as canções "Paperback Writer" e "Rain", lançadas em compacto no final de maio.[47]

 
Swinging London, Carnaby Street, c. 1966. A criação do álbum coincidiu com o reconhecimento internacional do papel de Londres como a capital cultural.

A banda trabalhou em dez canções, incluindo ambos os lados do próximo single, até 1º de maio, quando tiveram que interromper as sessões para se apresentarem no anual Poll-Winners Concert da NME.[48][nota 4] Em um período em que a revista Time apelidou Londres de "a Swinging City", reconhecendo tardiamente a sua ascensão como a capital cultural da época,[50][51] os Beatles se inspiraram ao assistir a shows de artistas visitantes, estreias de filmes, peças de teatro e outros eventos culturais.[52] De fevereiro a junho, esses números artísticos incluíram Stevie Wonder, Roy Orbison, The Lovin' Spoonful, The Mamas & the Papas,[53] Bob Dylan (com quem eles socializaram incessantemente), Luciano Berio e Ravi Shankar.[54][nota 5] Durante meados de maio, Lennon e McCartney participaram de uma festa particular para ouvir ao álbum Pet Sounds dos Beach Boys,[58] e Paul conheceu o diretor italiano Michelangelo Antonioni, que filmou o filme Blow-Up em Londres, inspirado no cenário contemporâneo da moda.[59]

Em 16 de maio,[60] Epstein respondeu a um pedido da gravadora Capitol Records, subsidiária norte-americana da EMI, para prover três novas canções para um próximo lançamento nos Estados Unidos, intitulado Yesterday and Today.[61] Lançado em 20 de junho, esse álbum combinou faixas que a Capitol havia omitido dos lançamentos anteriores dos Beatles na América do Norte com canções que a banda havia originalmente lançado apenas em singles.[60] Das seis gravações concluídas para Revolver, Martin selecionou três canções escritas por Lennon, já que as sessões haviam favorecido suas composições até então.[61] Desejando limitar a interrupção da gravação que múltiplas aparições na televisão criariam,[62][63] os Beatles passaram dois dias produzindo clipes promocionais para o single de "Paperback Writer".[56][64] O primeiro conjunto de filmagens foi gravado no Estúdio 1 da EMI em 19 de maio,[65] por Michael Lindsay-Hogg, diretor do famoso programa de TV Ready Steady Go![66] No dia seguinte, o grupo fez mais clipes para as duas canções no terreno da Chiswick House, no oeste de Londres.[56] Diante das reclamações dos fãs sobre o distanciamento em seu novo trabalho, no entanto, a banda concordou em fazer uma aparição ao vivo no programa Top of the Pops no dia 16 de junho.[67]

O companheirismo entre os quatro Beatles atingiu seu auge durante esse período.[68][69] Mesmo assim, um desentendimento entre McCartney e seus colegas de banda resultou na saída do baixista do estúdio durante a sessão final, para a canção "She Said She Said" de John, em 21 de junho, dois dias antes da banda voar para a Alemanha Ocidental para a primeira etapa de sua turnê mundial.[70][71] Os Beatles passaram 220 horas gravando Revolver – um valor que exclui sessões de mixagem e se compara a menos de 80 horas de Rubber Soul.[72] A mixagem final do álbum ocorreu em 22 de junho.[73] Os Beatles comemoraram a conclusão do projeto comparecendo à inauguração da boate Sibylla's.[74]

Técnicas de produção editar

Estética do estúdio editar

Revolver rapidamente se tornou o álbum onde os Beatles diriam: "Certo, isso parece ótimo, agora vamos tocar (a gravação) ao contrário ou acelerar ou desacelerar." Eles tentaram tudo ao contrário, só para ver como eram as coisas.[43][75]

Geoff Emerick, engenheiro de gravação da EMI

As sessões de Revolver aprofundaram a experimentação em estúdio evidente em Rubber Soul.[76][77] Com os Beatles cada vez mais envolvidos na produção de sua música, o papel de Martin como produtor havia se alterado para um "facilitador", ou colaborador, pelo qual a banda agora contava para tornar suas ideias uma realidade.[69][78][nota 6] Pela primeira vez no EMI, os gravadores de quatro canais haviam sido instalados na sala de controle do estúdio, ao lado do produtor e do engenheiro de balanceamento, ao invés de estar em uma sala dedicada.[80] O novo engenheiro de som dos Beatles no projeto foi Geoff Emerick, na época com dezenove anos de idade.[81] Emerick relembra que não ocorreu nenhum processo de pré-produção ou ensaio para Revolver, em vez disso, a banda utilizou o estúdio para criar cada canção do que muitas vezes era apenas um esboço de uma composição.[82] Falando pouco antes do início das sessões, John disse que consideraram fazer do álbum um fluxo contínuo de faixas, sem intervalos para diferenciar cada canção.[83][nota 7]

 
Abbey Road Studios da EMI (retratado em 2005). A maioria das sessões de Revolver aconteceram no íntimo Estúdio 3 do espaço.

A vontade do grupo de experimentar também ficou evidente na sua dedicação de encontrar e inventar sons que capturassem a percepção elevada que eles experimentaram através das drogas alucinógenas.[86][87] O álbum fez um uso descontraído da compressão e equalização tonal.[88] Emerick contou que os Beatles encorajaram a equipe de estúdio a romper com as normas padrões de gravação,[89] adicionando: "Foi posto quando começamos Revolver de que cada instrumento deveria soar diferente de si mesmo: um piano não deveria soar como um piano, uma guitarra não deveria soar como uma guitarra."[90]

Em busca por novas sonoridades, a banda incorporou pela primeira vez em seu trabalho, instrumentos como a tambura e tabla indianas, o clavicórdio, o vibrafone e o piano de tachinhas.[91] O som da guitarra estava mais robusto do que antes com o uso de novos amplificadores Fender; a escolha de guitarras, que incluiu George utilizando uma Gibson SG como seu instrumento preferido, e a introdução de compressores do modelo Fairchild 660 para a gravação.[92] Sem expectativas de serem capazes de recriar a sua nova música dentro dos limites de seus shows ao vivo,[72][93] os Beatles cada vez mais usaram colaboradores externos ao fazer o álbum.[94] Isso incluiu o primeiro uso de uma seção de sopros pela banda,[69] em "Got to Get You into My Life",[94] e a primeira vez em que eles incorporaram efeitos sonoros extensivamente,[95] em "Yellow Submarine".[96]

Faixas editar

Lado A

N.º Título Duração
1. "Taxman" (Harrison) 2:39
2. "Eleanor Rigby"   2:07
3. "I'm Only Sleeping"   3:01
4. "Love You To" (Harrison) 3:01
5. "Here, There and Everywhere"   2:25
6. "Yellow Submarine"   2:40
7. "She Said She Said"   2:37

Lado B

N.º Título Duração
1. "Good Day Sunshine"   2:09
2. "And Your Bird Can Sing"   2:01
3. "For No One"   2:01
4. "Doctor Robert"   2:15
5. "I Want to Tell You" (Harrison) 2:29
6. "Got to Get You into My Life"   2:30
7. "Tomorrow Never Knows"   2:57

História editar

Os Beatles vinham em uma crescente de qualidade e inovação artística, e queriam produzir um álbum para marcar a entrada definitiva da banda em uma fase de musicalidade madura.[97]. Assim, este álbum fora planejado pelo quarteto para ser um produto de inovação, surpresa e temas mais profundos.[97] A princípio, o álbum se chamaria Abracadabra,[97] e teria uma capa produzida pelo fotógrafo Robert Freeman, composta por colagens de fotos dos músicos em espiral. Mas, próximo ao lançamento, mudou-se de ideia quanto ao nome e à capa, a qual foi aproveitada apenas em parte nas colagens inseridas na capa final. Por fim, batizou-se o álbum como Revolver, não em referência à arma de fogo, mas sim ao movimento de rotação, à rotação do LP na vitrola e à própria rotação (e renovação) de ideias e musicalidades.[97]

Muito da inovação sonora e do estilo das músicas do álbum deve-se ao engenheiro de som Geoff Emerick.[97] Foi dele a ideia de aproximar os microfones dos instrumentos e amplificadores, em especial, da bateria de Ringo, o que produziu um som mais pesado e impactante.[97] Em geral, os microfones sempre ficavam a alguma distância, por imposição da gravadora EMI, sob a justificativa de preservar os instrumentos de captação. Depois de gravadas as músicas, a direção da gravadora se reuniu com os Beatles, querendo vetar este tipo de gravação, mas, após tensões, Paul, falando em nome do grupo, deu um ultimato aos executivos: "De agora em diante, esse é o nosso som! Ou será assim, ou não será de jeito nenhum!".[97] Assim, o Fab Four não só manteve o resultado produzido, como ainda conquistou uma independência e autonomia para as gravações, a qual resultaria em resultados ainda mais marcantes e inovadores nos álbuns seguintes, em especial no Sgt. Peppers.[97]

Sobre as músicas editar

George Harrison aumenta sua participação como compositor editar

Pela primeira e única vez, George consegue colocar três músicas de sua autoria em um álbum dos Beatles. "Taxman" é uma crítica aos altos impostos ingleses cobrados de pessoas com altos ganhos como os Beatles. No trecho em que George canta "Mr. Wilson" e sobre "Mr. Heath" ele refere-se especificamente a Harold Wilson (primeiro Ministro Inglês do Partido Trabalhista) e a Edward Heath (líder da oposição do Partido Conservador) políticos da época. "I Want To Tell You" fala sobre a sua dificuldade em se expressar em um momento que vivia uma avalanche de pensamentos. Em "Love You To", George traz pela primeira vez o uso de instrumentos indianos, a tabla e a cítara e ele é o único a participar da gravação da música.

Influências das drogas editar

Há suposições de que músicas como "She Said, She Said", "Dr. Robert", "Got To Get You Into My Life" tenham sido escritas durante o uso de drogas.

Na música "She Said She Said", John supostamente se inspirou em sua segunda experiênica com LSD. Há um trecho que diz "I know what it's like to be dead" ("Eu sei como é estar morto") frase que Peter Fonda teria lhe dito após tomar ácido. Nela, George assume o baixo após Paul largar as gravações em decorrência de uma briga com John Lennon. Esta música, juntamente com "And Your Bird Can Sing", do mesmo álbum, constitui um dos primeiros registros do que seria conhecido posteriormente como power pop.

"Dr. Robert" fala sobre um médico que receitava anfetaminas a seus pacientes famosos. Paul reconheceria mais tarde que "Got To Get You Into My Life" falava de sua experiência com a maconha e foi feita inspirada na soul music americana com o uso de metais.

Estilo psicodélico editar

"Tomorrow Never Knows" uma das primeiras músicas ao estilo do emergente rock psicodélico. A música foi inspirada no livro de Timothy Leary, O Livro Tibetano dos Mortos. Inicialmente se chamaria "The Void" ou "Mark I". A utilização do loop, aliado à repetição rítmica constante da bateria de Ringo, torna esta faixa como uma das ancestrais da música eletrônica no mundo.

Há ainda grandes influências psicodélicas nas músicas "I'm Only Sleeping", "Love You To", "Doctor Robert" e "She Said She Said", músicas que falam sobre drogas, ou mais especificamente o LSD.

Diversidade musical editar

"Eleanor Rigby" é mais uma música de McCartney com arranjos orquestrados e somente com a participação de Paul (assim como foi feito em "Yesterday"). Iria se chamar "Miss Daisy Hawkins". Mas o nome da música foi mudado para "Eleanor Brown" (Nome de uma das atrizes do filme "Help!") e finalmente, para "Eleanor Rigby". Anos mais tarde foi descoberto um túmulo de uma mulher chamada Eleanor Rigby perto do local onde a antiga banda de John, The Quarrymen, se apresentava, todavia Paul sempre negou ter se inspirado nesse túmulo. "Yellow Submarine" escrita por Paul e cantada por Ringo, tem em sua letra um tema infantil que depois seria aproveitada para dar título a um desenho animado feito pelos Beatles. Traz sons de bolhas, barulho de água e outros barulhos gravados em estúdio.

Em "And Your Bird Can Sing", os Beatles usaram solo duplo de guitarra e era uma das músicas de John que ele não gostava. Em "I'm Only Sleeping", George fez o solo de guitarra e depois tocou o som ao contrário.

Baladas clássicas editar

McCartney novamente escreve suas baladas. "For No One", ele escreveu para sua namorada na época (Jane Asher) e se chamaria inicialmente "What Did It Die?". E a clássica "Here, There And Everywhere" que era uma das músicas preferidas de John.

Capa do álbum editar

Criada pelo alemão Klaus Voormann, amigo dos Beatles desde a época em que eles foram tocar em Hamburgo. A capa traz uma ilustração feita com desenhos e colagens de fotos (feitas pelo fotográfo Robert Whitaker). Ganhou o prêmio Grammy em 1966 pela capa.

Sobre o disco editar

Versões inglesa e norte-americana editar

Como era costume à época, os discos dos Beatles eram lançados com notórias diferenças em diversas partes do mundo. O desmembramento de um álbum em vários outros, ou em álbuns e singles, sem a autorização expressa da banda, acabou por ocasionar a feitura da controvertida "capa de açougueiro" ("butch cover"), presente nas primeiras tiragens do LP norte-americano Yesterday... And Today, que nada mais era do que sobras de faixas outros discos oficiais ingleses (no caso, dos álbuns Rubber Soul, Help!, compacto "We Can Work It Out"/"Day Tripper" e do então inédito álbum Revolver).

Antecipando 3 faixas do álbum ("Dr. Robert", "And Your Bird Can Sing" e "I'm Only Sleeping"), o álbum Yesterday... And Today, lançado cerca de 45 dias antes de Revolver nos Estados Unidos, fez com que estas 3 faixas fossem suprimidas da versão americana, lançada pela Capitol Records. Desta forma, o LP norte-americano, lançado em 8 de agosto de 1966, tinha o seguinte alinhamento de faixas:

Lado A

N.º Título Duração
1. "Taxman" (Harrison) 2:39
2. "Eleanor Rigby"   2:07
3. "Love You To" (Harrison) 3:01
4. "Here, There and Everywhere"   2:25
5. "Yellow Submarine"   2:40
6. "She Said She Said"   2:37

Lado B

N.º Título Duração
1. "Good Day Sunshine"   2:09
2. "For No One"   2:01
3. "I Want to Tell You" (Harrison) 2:29
4. "Got to Get You into My Life"   2:30
5. "Tomorrow Never Knows"   2:57

Lançamento no Brasil editar

Na discografia brasileira, a ODEON (subsidiária da EMI) optou pelo tradicional alinhamento de faixas da versão inglesa. Entretanto, o lançamento brasileiro tinha uma fundamental diferença: embora fosse lançado em mono, a mixagem das faixas era, na verdade, da versão mixada em estéreo, na Inglaterra. Como era praxe brasileira à época, os dois canais do estéreo foram combinados em um único canal, gerando um "fake mono".

Esta diferença é detectada quando comparadas, principalmente, as mixagens mono e estéreo de três músicas presentes no LP: "I'm Only Sleeping", "Yellow Submarine" e "Tomorrow Never Knows". Tais diferenças são determinantes em demonstrar que, muito embora o LP tenha sido lançado em mono, no Brasil, o master tape que o originou era proveniente da versão estéreo inglesa.

A versão oficial mono somente foi lançada no Brasil em 2009, com o lançamento da caixa The Beatles Mono Box Set.

Notas

  1. Alternativamente, George Case, escrevendo em seu livro Out of Our Heads, identifica Rubber Soul como marcando "o início autêntico da era psicodélica".[15] Entre outros comentaristas, Joe Harrington diz que os primeiros "experimentos psicodélicos" dos Beatles aparecem no álbum de 1965,[16] e Christopher Bray reconhece a faixa "The Word" de Rubber Soul como inaugurando o "período altamente psicodélico" do grupo.[17]
  2. De acordo com o escritor Shawn Levy, escrevendo em seu livro sobre a Swinging London, essa transformação ocorreu entre novembro de 1965 e abril seguinte, quando as sessões de Revolver começaram. Ele descreve os Beatles como "os primeiros psicodélicos domésticos do mundo" e "as primeiras estrelas de qualquer meio a se metamorfosear completa e obviamente de alegre e sincero para misterioso e dissimulado".[30]
  3. Em vez de preocupações de segurança, a carta de Harrison cita considerações financeiras como obstáculo.[38][40] Steve Cropper, então membro da banda da Stax e da equipe do estúdio, acreditava que estaria produzindo as sessões, com base em suas conversas com Epstein.[41]
  4. Realizado no Empire Pool, no noroeste de Londres, este foi o último show que os Beatles fizeram para um público pagante no Reino Unido.[49]
  5. Dentre esses encontros, John participou das filmagens do documentário de D.A. Pennebaker sobre a turnê de Dylan em 1966, Eat the Document,[55] em 27 de maio,[56] enquanto Shankar concordou em se tornar professor de sitar de George em 1º de junho.[57]
  6. A mudança na dinâmica entre os Beatles e George Martin começou em 1964.[79] Falando sobre seu papel em 1966, Martin disse: "Eu mudei de ser o gaffer dos quatro "Herberts" de Liverpool para o que sou agora, me agarrando aos últimos vestígios do poder de gravação."[69]
  7. Em vez disso, essa técnica foi usada pela primeira vez em um álbum pop quando os Beatles lançaram o sucessor de Revolver, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band.[84] O autor e crítico Tim Riley, no entanto, identifica as sequências de "I'm Only Sleeping" para "Love You To" e "Doctor Robert" para "I Want to Tell You" como uma antecipação do "fluxo contínuo de som" alcançado em Sgt. Pepper.[85]

Referências

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Fontes

Ligações externas editar