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Grifo é uma criatura lendária de origens asiáticas milenares. Sua descrição mais corrente o mostra como um híbrido metade águia e metade leão, mas foi uma imagem comum em uma ampla gama de civilizações do Oriente e Ocidente, onde sua representação e atributos variaram significativamente. No Oriente, no Egito e na Grécia arcaica manteve durante longos séculos uma forte ligação com o sagrado, sendo representante de deuses e invocado em rituais e cerimônias, associado à justiça, à luz e à autoridade divinas e ao ciclo da morte e renascimento.

Um grifo em gravura de Wenceslas Hollar

No Ocidente tem se mantido como um apreciado ícone desde seu aparecimento nos primórdios da civilização grega, mas já no período clássico havia quem duvidasse da sua existência. Permanece até hoje, porém, num lugar destacado entre os animais fabulosos no imaginário popular, na arte e no folclore, além de desempenhar um papel na cultura como alegoria e símbolo, aparecendo em uma infinidade de representações visuais e obras literárias, geralmente associado a conceitos de poder, força, dignidade e proteção.

Origem e dispersãoEditar

 
Um grifo em um relevo da cultura hitita
 
Reprodução da decoração de uma ânfora da Cítia com dois grifos atacando um cavalo
 
Capitel de coluna com cabeças de grifo em palácio da antiga Persépolis

Não se sabe ao certo qual a origem da figura do grifo, sendo propostas várias teorias. A que recebeu maior aceitação diz que a figura possivelmente é uma interpretação fabulosa de ossadas de dinossauros vistas por povos pré-históricos.[1][2] Há evidências de que a criatura já estava presente na mitologia de povos nômades pré-históricos que viviam na região das Montanhas Altai.[1]

Os mais antigos registros iconográficos foram encontrados no Egito e Elão, a leste da Mesopotâmia, em meados do IV milênio a.C.,[3] e depois a figura se dispersou em uma larga área do Oriente Próximo, incluindo a Mesopotâmia, Síria e Anatólia, com datações que variam de três a dois mil anos a.C.[1][4][5] O grifo pertence a uma grande família de seres híbridos alados encontrados nessas civilizações antigas, que incluem a esfinge, o touro alado, o leão alado, homens alados com cabeças de ave e suas variantes.[3]

No Antigo Egito a figura parece ter derivado de combinações variáveis do leão, do falcão e da esfinge, atestadas desde o período pré-dinástico,[3][6] e em sua forma clássica o mais antigo registro foi encontrado na Tumba Abusir, da 5ª Dinastia (2491–2477), onde o faraó é representado sob a forma de grifo derrotando seus inimigos.[3] O grifo egípcio é também interpretado como uma manifestação do deus Hórus, que tinha a função de proteger os faraós,[1] além de ter funções de guardião de lugares sagrados e das fronteiras entre o mundo visível e invisível.[3] Foi associado ao poder real e, através da sua condição de símbolos dos deuses Osíris e Seth, aos pares de opostos luz/trevas e vida/morte. Aparecem descritos num papiro como os seres mais poderosos da Terra e como representantes da dividade solar, e em tal qualidade eram os dispensadores de bênçãos e executores da vontade divina.[7]

O grifo egípcio parece ter sido uma das origens das formas primitivas dos querubins e serafins da tradição semita e palestina, pois as palavras usadas para descrevê-los nos textos mais antigos parecem derivar de uma mesma raiz, assim como parecem ter desempenhado funções semelhantes no mito.[3] Na Síria aparecem várias vezes em cilindros de argila com uma crista a partir do II milênio a.C., e se tornaram um motivo proeminente na arte assíria e mitanita, onde as características leoninas predominaram e seu simbolismo estava ligado à destruição, possivelmente associado ao poder régio.[3]

Foi também particularmente comum na Pérsia desde o Império Aquemênida, assim como em parte da Índia e regiões asiáticas influenciadas pelo zoroastrianismo e o lamaísmo,[8][9] sendo um personagem importante em festividades, sacrifícios e rituais e na mitologia relacionada à morte e sepultamento, pois como predadores terríveis eram os responsáveis simbólicos pela destruição do corpo possibilitando o renascimento espiritual. Neste sentido sua imagem muitas vezes era fundida à de outros animais necrófagos, como os lobos e abutres, e nas tradições orais e literárias persas seu caráter régio, benéfico e miraculoso é invariavelmente enfatizado.[8] Também eram-lhes atribuídas qualidades como mediadores entre o céu e a terra e guardiães e protetores contra a calúnia, o mau-olhado e a feitiçaria.[9]

 
Placa de bronze grega do período arcaico

A figura foi introduzida na cultura minoica provavelmente através da Síria,[6] e na Grécia continental se consolidou a imagem clássica ocidental do grifo como um híbrido de águia e leão, com a cabeça, asas e patas dianteiras da ave e a parte posterior do corpo e cauda leoninos. Pode ter chifres, orelhas ou uma crista ao longo do pescoço. Nos séculos VII e VI a.C. se tornara um motivo decorativo muito comum em uma vasta região, encontrado sob a forma de pintura, gravura, tapeçaria ou escultura em monumentos, templos e altares, palácios, sepulturas, habitações, vasos, espelhos, arreios, joias e outros objetos utilitários da Grécia, Levante, Cáucaso, Pérsia, Síria, sul da Rússia, Afeganistão, Cazaquistão e outras regiões asiáticas.[1]

É difícil interpretar com precisão o significado do grifo em todas essas várias culturas, e provavelmente desempenhava funções diferentes em cada uma delas, embora algumas características tenham sido muito comuns na maioria delas.[1][3] Sua forma também teve variações. Às vezes o aspecto da águia é dominante, e noutras vezes tem mais características leoninas. Parecem ter sido mais comuns as associações mágicas e religiosas, aparecendo como criaturas protetoras de ambientes sagrados e como companheiros de deuses ou heróis,[4][3] também foram um emblema frequentemente carregado de atributos de poder, dignidade e majestade, sendo usado por famílias reais ou pela nobreza, ou podiam ser um identificador de certos clãs, tendo associações com a ancestralidade e tradições familiares.[1][3]

Grécia e RomaEditar

 
Relevo no antigo palácio de Cnossos, c. 1600–1 450 a.C.
 
Um grifo luta com um arimaspo, detalhe de um vaso grego do século IV a.C.

O grifo está presente no imaginário grego desde as origens minoicas e micênicas da sua civilização, provavelmente introduzido através de diversas fontes da Síria, Anatólia e Egito,[6][10] quando aparece com ou sem asas, geralmente tem uma crista de plumas de pavão sobre o pescoço e pode ser adornado de joias.[10] No período arcaico geralmente é representado com um bico proeminente, orelhas pontiagudas, chifres, cabeça e asas de ave de rapina e corpo de leão.[1]

No período clássico os chifres tendem a desaparecer e um pescoço coberto por uma crista se torna comum. Nesta época surgem as primeiras citações literárias do grifo. Na tragédia Prometeu acorrentado de Ésquilo os grifos são criaturas que devem ser temidas. Heródoto fala várias vezes dos grifos, mencionando que eram guardiãos do ouro de Plutão, defendendo-o da cobiça dos arimaspos, guerreiros de um só olho.[1] Diz também que foram mencionados em um poema (perdido) de Aristeas de Proconeso, que foram usados como motivo decorativo pelos samianos, e que viviam em montanhas da Índia também guardando ouro, descrevendo-os como "aves de quatro patas tão grandes como lobos, suas patas e garras parecem com as do leão, as penas de seu peito são vermelhas, e as do corpo são pretas. Embora haja muito ouro nessas montanhas, é difícil obtê-lo por causa dessas aves".[11] Os dois autores usam a palavra γρυψ (gryps) para designá-los, significando "gancho" ou "curvo", possivelmente uma referência ao seu bico curvo.[1]

Pausânias disse que seu corpo tinha manchas como o leopardo. Filóstrato referiu que os grifos da Índia eram venerados como animais sagrados de Hélio, o Sol. Disse que tinham as patas palmadas com membranas vermelhas, sua força excedia a dos elefantes e dragões, mas eram superados pelos tigres, e embora fossem alados não eram excelentes no voo, sendo capazes apenas de voos curtos por causa da forma inadequada das suas asas.[11]

 
Grifo romano em relevo do Fórum de Trajano

Em Roma Cláudio Eliano os descreveu como nativos da Índia,

"[...] quadrúpedes como um leão, têm garras de enorme força que se parecem com as do leão. Usualmente os relatos os mostram com asas, as penas de seu dorso são negras, e as da frente são vermelhas, enquanto que as asas são brancas. Clésias disse que seu pescoço é decorado com penas de um azul escuro, que seu bico é como o da águia, assim como a cabeça, da forma como os artistas os retratam na pintura e escultura. Os olhos, diz ele, são como fogo. Constrói seu ninho entre as montanhas, em embora não seja possível capturar um animal adulto, os jovens podem ser capturados. E os povos da Báctria, vizinhos dos indianos, dizem que os grifos guardam o ouro naquelas regiões, que constroem seus ninhos com ele, e que os indianos pegam todo ouro que cai dos ninhos".[11]

No mundo clássico foram muitas vezes associados à realeza, à coragem e à proteção,[4] também estavam ligados a ritos de passagem da vida para o mundo dos mortos, havia uma forte conexão com a luz e deuses solares como Hélio e Apolo,[7] acreditava-se que seus ovos eram capazes de neutralizar venenos, e foram associados a outros deuses como Hera, Dioniso, Nêmesis e Ártemis,[4][7] mas nem todos os autores clássicos os aceitavam como seres reais. Plínio, o Velho, assim como Estrabão, questionaram sua existência.[4]

Idade Média e ModernaEditar

 
Figura de um grifo em mosaico paleocristão na Catedral de Bitondo
 
O grifo heráldico de Perúgia, adotado como símbolo da cidade, no Oratório de San Bernardino, obra de Agostino di Duccio

O grifo continuou um motivo popular nos séculos seguintes. Isidoro de Sevilha na obra Etimologias os descreveu como um animal quadrúpede com corpo de leão coberto de penas e como inimigo dos homens e cavalos. Foram representados guardando tesouros, nos bestiários medievais aparecem frequentemente predando grandes animais, e no Romance de Alexandre são os animais que carregam a biga voadora do rei, sendo impelidos por pedaços de carne colocados diante de si, como uma alegoria contra o orgulho. Na canção de gesta Huon de Bordeaux o herói é carregado por um grifo até seu ninho, onde é atacado por matar os filhotes; Huon vence as feras e leva uma garra de presente para o imperador Carlos Magno.[4] Alberto Magno repetiu a tradição clássica de que viviam no país dos hiperbóreos, e livros de viagens que foram muito lidos, como as crônicas de Odorico de Pordenone, Johannes de Plano Carpini e John Mandeville, traziam narrativas de tais animais vivendo em países longínquos do Oriente. Mandeville, por exemplo, disse que embora tivessem corpo de leão e águia, eram maiores e mais fortes que oito leões e mais poderosos do que cem águias juntas.[12]

Com o surgimento da heráldica o grifo foi rapidamente adotado como um símbolo de valor, força e heroísmo. A guilda dos mercadores de Perúgia mostrava um grifo em seu brasão como uma garantia do comércio seguro.[4] Na filosofia cristã foi muitas vezes interpretado positivamente como um símbolo de coragem e poder, reunindo as melhores qualidades dos mundos celeste e terrestre, já que a águia era vista como a rainha dos animais voadores e o leão como o rei dos animais pedestres, ou como uma alegoria da natureza ao mesmo tempo humana e divina de Jesus, e é neste sentido que ele é figurado na arte cristã medieval e na Divina Comédia de Dante, onde levam a heroína Beatriz para o céu.[4][12] Grifos aparecem até hoje na arte judaica como manifestações angélicas e guardiãos da Torá.[13][14]

À medida que o espírito científico se desenvolveu os grifos foram sendo cada vez mais considerados elementos irreais da fantasia e do folclore. O escritor polonês Matias Michovius no século XVI duvidou da sua existência, o humanista Ulisse Aldrovandi incluiu os grifos em sua lista de criaturas fabulosas, e Thomas Browne dedicou todo um capítulo no seu livro Popular Errors (1646) para provar seu caráter puramente fictício. Os céticos geralmente os explicavam como interpretações errôneas de animais verdadeiros.[4]

Mas embora o cientificismo avançasse abalando os fundamentos da crença, a transição foi lenta, e na Idade Moderna alguns gabinetes de curiosidades e coleções ainda conservaram fósseis, ovos de avestruz, garras, peles e chifres de animais pouco conhecidos identificando-os como partes de grifos. Eles tampouco perderam seu apelo como símbolo e como figurantes ilustres em narrativas de ficção e na arte. John Milton usou a lenda dos grifos em busca do ouro roubado pelos arimaspos como uma metáfora da incansável perseguição da humanidade pelo Diabo.[4] O iluminista Voltaire o incluiu na novela filosófica Zadig, ou O Destino ao ironizar as superstições religiosas,[15] e em A princesa da Babilônia dois grifos levam a princesa Formosanta em uma carruagem aérea em sua busca por Amazan.[16]

Cultura popularEditar

 
Um grifo ilustrando uma edição de Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll

No século XX o grifo foi amplamente assimilado pela cultura popular, aparecendo em romances e novelas, filmes, jogos, histórias em quadrinhos e outros meios,[4] incluindo logotipos de grandes empresas como a Saab e Vauxhall.[3] Às vezes ele conserva uma natureza maligna, feroz e agressiva, mas na literatura e arte voltada ao público infanto-juvenil ele tende a aparecer como uma criatura benevolente e amigável, muitas vezes responsável pela proteção dos protagonistas, ou como um sábio conselheiro, ou como um ajudante fundamental para a realização de uma conquista ou um achado.[4]

Em God of War II, jogo para PlayStation 2, Kratos monta Pégaso e enfrenta vários grifos em batalhas aéreas.[17] Na série de tokusatsu Changeman o membro de uniforme preto é Change Grifon.[18] Na série Harry Potter o grifo também está presente.[3]

Ver tambémEditar

O Commons possui imagens e outros ficheiros sobre Grifo

Referências

  1. a b c d e f g h i j Lymer, Kenneth. "Griffins, Myths and Religion — a review of the archaeological evidence from ancient Greece and the early nomads of Central Asia". In: Art of the Orient, 2018 (7)
  2. Tsujita, Cameron J. "Mythology as a Conceptual Bridge for Teaching Science". In: The Western Conference on Science Education. Western University, 2019
  3. a b c d e f g h i j k l Wyat, Nicolas. "Grasping the Griffin: Identifying and Characterizing the Griffin in Egyptian and West Semitic Tradition". In: Journal of Ancient Egyptian Interconnections, 2009; I (I):29-39
  4. a b c d e f g h i j k l Wood, Juliette. Fantastic Creatures in Mythology and Folklore: From Medieval Times to the Present Day. Bloomsbury Publishing, 2018, pp. 99-106
  5. Basic, Rozmeri. "Between Paganism and Christianity: Transformation and Symbolism of a Winged Griffin". In: Ikon — Journal of Iconographic Studies, 2009; 2
  6. a b c Morgan, Lyvia. "An Aegean griffin in Egypt: The hunt frieze at Tell el Dab'a". In: Ägypten Und Levante / Egypt and the Levant, 2010; 20: 303–323
  7. a b c Taylor, Glen. Yahweh and the Sun: Biblical and Archaeological Evidence for Sun Worship in Ancient Israel. A&C Black, 1993, pp. 35-36
  8. a b Cheremisin, D. V. "On the Semantics of Animal Style Ornithomorphic Images in Pazyryk Ritual Artifacts". In: Archaeology Ethnology & Anthropology of Eurasia, 2009; 37 (1): 85–94
  9. a b Adhikari, Swati Mondal. "Winged Animals: Mediator between Celestial and Terrestrial World". In: Journal of the Centre for Heritage Studies, 2018; 1: 7-18
  10. a b Rosch, Heather. "Emerging Evidence about Neolithic Western Anatolia: What can be Gained from Studying Architecture?" In: Chronika, 2017; VII: 1-10
  11. a b c "Gryps". The Theoi Project
  12. a b Florea, Luminita. "The Monstrous Musical Body: Mythology and Surgery in Late Medieval Music Theory". In: Philobiblon, 2013; XVIII (1)
  13. "Yaniv, Bracha. "The Sun Rays on Top of the Torah Ark: A Dialogue with the Aureole, the Christian Symbol of the Divinity on Top of the Altarpiece". In: Poorthuis, Marcel; Schwartz, Joshua Jay; Turner, Joseph (eds.). Interaction Between Judaism and Christianity in History, Religion, Art, and Literature. Brill, 2009, p. 483
  14. Fraiman, Susan Nashman. "The Torah Ark of Arthur Szyk". In: Arts, 2020, 9 (2)
  15. McGregor Jr., Rob Roy. "Voltaire's animaux fabuleux of the Old Testament". In: Romance Notes, 1967; 8 (2)
  16. Voltaire. "Princess of Babylon". In: Voltaire's Romances Complete in One Volume. Eckler, 1889
  17. Vardeman, Robert E. God of War II. Random House, 2013, pp. 128-129
  18. "Dengeki Sentai Changeman". TV Time,