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Mariana Vitória de Bourbon

princesa espanhola e rainha consorte portuguesa

Primeiros anosEditar

 
Mariana Vitória por Nicolas de Largillière, 1724.

Mariana Vitória nasceu no Real Alcázar de Madrid e foi lhe dado seu nome em homenagem a sua avó paterna, Maria Ana Vitória de Baviera. Era Infante da Espanha por nascimento e filha mais velha de Filipe V da Espanha e de sua segunda esposa Isabel Farnésio. Na altura de seu nascimento, Mariana Vitória era a quinta na linha de sucessão ao trono espanhol atrás de seus meio-irmãos, o infante Luís, Príncipe das Astúrias, o infante Fernando, o infante Pedro, assim como seu irmão Carlos. Mariana foi a irmã favorita de Carlos, sendo chamada por este afetuosamente de "Marianina". Como uma infanta de Espanha, detinha o estilo de Alteza Real.[1]

Noivado com Luís XVEditar

Após a Guerra da Quádrupla Aliança, França e Espanha decidiram reconciliar-se mediante a um casamento entre a infanta Mariana Vitória com seu primo, o jovem rei Luís XV da França. Organizado por Filipe II, Duque d'Orleães, regente da França durante a a menoridade de Luís, o casamento fazia parte de uma série de alianças que também incluía o casamento de Luísa Isabel e Filipina Isabel de Orleães, ambas filhas do regente, com o infante Luís, Príncipe das Astúrias e o infante Carlos, respectivamente.

O embaixador francês, Louis de Rouvroy, Duque de Saint-Simon, pediu a sua mão em nome de Luís em 25 de novembro de 1721. A troca da jovem infanta teve seu lugar na Ilha dos Faisões, local onde os seus antepassados ​​Luís XIV da França e Maria Teresa da Espanha tinham-se encontrado pela primeira vez antes do casamento. Mariana Vitória chegou a Paris no dia 2 de março de 1721, houve celebração e a mesma se instalou-se no Palácio do Louvre. Na França ela era chamada de "a Infanta Rainha".

 
Mariana Vitória de Bourbon e Luís XV.

De acordo com a mãe do regente, Isabel Carlota do Palatinado, Mariana Vitória era a "coisa mais doce e mais bonita" e tinha grande inteligência para sua idade. Sua educação foi confiada aos cuidados de Madame de Ventadour, antiga governanta de Luís XV.

Sob a influência do primeiro-ministro Luís Henrique, Duque de Bourbon e sua amante Madame de Prie, foi decidido enviar a menina de sete anos novamente para a Espanha em 11 de março de 1725. O duque de Bourbon queria manter sua influência sobre o jovem Luís XV e ofereceu sua irmã Henriqueta Luisa de Bourbon como uma esposa em potencial, que ao contrário de Mariana Vitória, tinha idade suficiente para conceber um herdeiro ao trono.

A notícia foi muito mal recebida na Espanha, que decidiu enviar também de volta a França Luísa Isabel de Orleães, cujo marido tinha falecido após reinar como Luís I de Espanha durante apenas sete meses. Como seu casamento não havia sido consumado Luísa Isabel foi enviada de volta para a França, juntamente com sua irmã Filipina Isabel. Mariana abandonou Versalhes em 5 de abril de 1725 e viajou novamente para a fronteira e seguiu seu retorno para a Espanha.

Posteriormente Luís XV casou-se com Maria Leszczyńska, filha de Estanislau I Leszczyński, rei deposto da Polónia. A irmã de Mariana Vitória, a infanta Maria Teresa Rafaela, casou-se com o filho de Luís XV em 1745 para tranquilizar a insultada corte espanhola.

CasamentoEditar

 
A jovem Infanta Mariana Vitória, antes da Troca das Princesas.

Em 1725, manifestou seu pai, Filipe V, o desejo de estabelecer uma aliança entre as coroas de Espanha e Portugal, a que estaria ligado o casamento de sua filha com D. José, herdeiro do trono português. Para tratar do assunto em Madrid, o rei D. João V nomeou José da Cunha Brochado, que também foi incumbido resolver questões pendentes entre os dois países.

Para evitar novas controvérsias e fortalecer ainda mais a aliança que se pretendia, a diplomacia espanhola propôs então um duplo matrimónio: para além do casamento entre o príncipe herdeiro espanhol e Maria Bárbara, o príncipe herdeiro português poderia casar com a regressada Mariana Vitória. João V aceitou a proposta, e dois anos mais tarde, tendo os príncipes e infantas chegado a idade um pouco mais crescida, firmaram-se então os acordos pré-nupciais: o Príncipe do Brasil e Mariana Vitória a 27 de dezembro de 1727, e o Príncipe das Astúrias e Maria Bárbara de Portugal a 11 de janeiro de 1728.

Por fim, após demorada preparação, a Troca das Princesas realizou-se a 19 de Janeiro de 1729. A troca foi feita no Rio Caia, que faz fronteira entre Elvas no Alentejo, em Portugal, e Badajoz na Extremadura, em Espanha. A cerimónia fez-se literalmente a meio do rio, numa grande ponte-palácio de madeira ricamente decorada construida para a ocasião, com vários pavilhões em ambas as margens também. Praticamente toda a Corte participou, tendo todas as vilas e lugares entre Lisboa e Elvas sido enfeitadas com arte efémera, tal como arcos triunfais, jardins artificiais, fontes, etc., para receber os imensos cortejos na ida e na volta da fronteira. As preparações para a troca das princesas foram de tal modo detalhadas que já em Janeiro de 1727 a Coroa colocava encomendas de berlindas em Paris,[2] e pedia contribuições extraordinárias dos quatro cantos do império para financiar todo o esplendor desejado ― incluindo da Capitania de Minas Gerais no Brasil.[3]

De notar que todo este panorama de arte efémera se voltou a registar meio século mais tarde, aquando do novo consórcio duplo entre Portugal e a Espanha em 1785, com os casamentos do então apenas João e da irmã, Maria Ana Vitória, e foi descrito recentemente em pormenor.[4]

Rainha de PortugalEditar

 
Rainha D. Mariana Vitória por Miguel António do Amaral.

Em 1750, falecia D. João V, e o marido de D. Mariana Vitória subia ao trono. A rainha tinha então trinta e dois anos e D. José I, trinta e seis anos.

O reinado do marido de Mariana Vitória é sobretudo marcado pelas políticas do seu secretário de Estado, o Marquês de Pombal, que reorganizou as leis, a economia e a sociedade portuguesa, transformando Portugal num país moderno.

Em 1755, um terremoto abateu-se sobre Portugal na manhã do dia 1 de novembro (dia de Todos os Santos) de 1755. Nesta data, Lisboa foi abalada por um violento tremor de terra, com uma amplitude que em tempos actuais é estimada em cerca de nove pontos na escala de Richter. A cidade foi devastada pelo tremor de terra, pelo maremoto e ainda pelos incêndios que se seguiram. Isto piorou ainda a mais a saúde mental do marido de Mariana Vitória.

Na sequência do terramoto, em setembro de 1758, a carruagem do rei foi alvejada quando esse voltava da casa de sua amante, a esposa do Marquês de Távora. O monarca foi ferido e a rainha assumiu como regente. As investigações, durante o mês de dezembro, acusaram membros da alta nobreza, os quais foram imediatamente presos; entre eles integrantes da família dos Távoras (o número total de prisioneiros chegou a mais de mil, a maioria dos quais jamais foi julgada formalmente). Em 12 de janeiro de 1759, o José de Mascarenhas da Silva e Lencastre, então Duque de Aveiro, e diversos membros da família dos Távoras foram condenados à morte.[5]

RegênciaEditar

Quando seu marido foi declarado inapto para governar em 1774, devido a loucura, D. Mariana Vitória foi proclamada regente, uma posição que manteve até à morte de seu marido. Após isso, ela tornou-se regente de sua filha mais velha, futura D. Maria I.

Quando a filha assume o poder, D. Mariana Vitória tentou melhorar as relações com a Espanha que era governada por seu irmão mais velho, Carlos III. Os dois países estavam em conflito em relação a posses territoriais nas Américas. Deixando Portugal, D. Mariana Vitória viajou para a Espanha, onde permaneceu por pouco mais de um ano, residindo entre o Palácio Real de Madrid e o Palácio Real de Aranjuez.

Por influência da rainha, assinou-se em 1778 o tratado que estipulou dois casamentos: o do infante Gabriel, filho de Carlos III, com a sua neta D. Maria Ana Vitória, e o da infanta Carlota Joaquina, neta mais velha de Carlos III, com o infante D. João, futuro D. João VI.

MorteEditar

Enquanto se encontrava em Espanha, D. Mariana Vitória teve um ataque de reumatismo e foi confinada a uma cadeira de rodas por algum tempo. Regressou a Portugal em novembro de 1778. Mariana Vitória morreu na Real Barraca da Ajuda, um edifício onde hoje é o actual Palácio Nacional da Ajuda

Foi primeiramente sepultada na Igreja de São Francisco de Paula em Lisboa, a qual mandou restaurar. Foi depois trasladada para o Panteão Real da Dinastia de Bragança da Igreja de São Vicente de Fora também em Lisboa.

LegadoEditar

D. Mariana Vitória era a madrinha de Maria Antonieta, futura rainha da França, que nasceu um dia após o Terremoto de Lisboa que devastou a cidade. Mariana Vitória tem descendentes que vão desde o presente Rei de Espanha, Rei da Bélgica, ao Grão-Duque de Luxemburgo. Em 1822, seu bisneto D. Pedro de Bragança tornou-se o primeiro Imperador do Brasil.

GaleriaEditar

Representações na culturaEditar

  • Troca de Rainhas (2017), interpretada por Juliane Lepoureau. O longa mostra a estadia da infanta na corte francesa.

Títulos, estilos, e honrariasEditar

Estilo de tratamento de
Mariana Vitória de Bourbon
 

Estilo Sua Majestade Fidelíssima
Tratamento direto Vossa Majestade Fidelíssima
Estilo alternativo Senhora

Títulos e estilosEditar

  • 31 de março de 1718 – 19 de janeiro de 1729: "Sua Alteza Real, a Infanta da Espanha"
  • 19 de janeiro de 1729 – 31 de julho de 1750: "Sua Alteza Real, a Princesa do Brasil"
  • 31 de julho de 1750 – 24 de fevereiro de 1777: "Sua Majestade Fidelíssima, a Rainha"
  • 24 de fevereiro de 1777 – 15 de janeiro de 1781: "Sua Majestade Fidelíssima, a Rainha-Mãe"

O estilo oficial de D. Mariana Vitória enquanto Rainha Consorte de Portugal: "Pela Graça de Deus, Mariana Vitória, Rainha Consorte de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhora da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc."

DescendênciaEditar

Nome Retrato Longevidade Notas
Havidos de José I de Portugal

(31 de março de 1718 – 15 de janeiro de 1781; casados a 19 de janeiro de 1729)

Maria I de Portugal   17 de dezembro de 1734 –

20 de março de 1816

Rainha de Portugal, a título próprio, de 1777 a 1816. Casou-se com o Infante D. Pedro, seu tio. Do casamento nasceram 4 filhos (um deles nado-morto) e 3 filhas.
Maria Ana, Infanta de Portugal   7 de outubro de 1736 –

16 de maio de 1813

Seguiu com a restante família real para o Brasil, onde veio a falecer.
Maria Doroteia, Infanta de Portugal   21 de setembro de 1739 –

14 de janeiro de 1771

Foi-lhe proposto casar com Luís Filipe II, Duque de Orleães, mas ela recusou-se.
Benedita, Princesa do Brasil   25 de julho de 1746 –

18 de agosto de 1829

Casou-se com o sobrinho, D. José, Príncipe do Brasil, em 1777. Não houve descendência.

AncestraisEditar

Referências

  1. van de Pas, Leo. «Infanta Mariana Victoria of Spain». Genealogics.org. Consultado em 21 de setembro de 2010 
  2. BESSONE, Silvana: The National Coach Museum - Lisbon, p. 74, 91.
  3. ARAÚJO, Jeaneth Xavier de: "Celebrar os Grandes: os casamentos monárquicos portugueses e a mobilização de recursos na capitania de Minas Gerais."
  4. FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B.: “Formas de arte efémera no duplo consórcio Bragança-Bourbon em 1785.”
  5. A expulsão dos jesuítas do Grão-Pará em 1759 e a Amazônia sob a égide do Marquês do Pombal, acesso em 04 de outubro de 2016.

BibliografiaEditar

  • BRAGA, Paulo Drumond (2013). A Rainha Discreta. Mariana Vitória de Bourbon. Lisboa: Círculo de Leitores.


Mariana Vitória de Bourbon
Casa de Bourbon
Ramo da Casa de Capeto
31 de março de 1718 – 15 de janeiro de 1781
Precedida por
Maria Ana da Áustria
 
Rainha Consorte de Portugal e Algarves
31 de julho de 1750 – 24 de fevereiro de 1777
Sucedida por
Pedro de Portugal


 
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