Aurélia de Sousa

pintora portuguesa
Aurélia de Sousa
"Auto-retrato" de Aurélia de Sousa (c.1900)
Nome nativo Maria Aurélia Martins de Souza
Nascimento 13 de junho de 1866
Valparaíso, Chile Chile
Morte 26 de maio de 1922 (55 anos)
Porto, Portugal Portugal
Nacionalidade Luso-Chilena
Cidadania Portuguesa
Progenitores Mãe:Olinda Peres
Pai:António Martins de Souza
Irmão(s) Sofia Martins de Souza
Alma mater Academia Julian
Ocupação pintora
Escola/tradição Academia Portuense de Belas Artes e Academia Julian
Movimento estético Naturalismo com influências realistas, impressionistas e pós-impressionistas

Maria Aurélia Martins de Souza, conhecida como Aurélia de Sousa (Valparaíso, Chile, 13 de Junho de 1866Porto, Portugal, 26 de Maio de 1922) foi uma pintora luso-chilena. Era irmã da pintora Sofia Martins de Souza e tia da pintora e colecionadora de arte Marta Ortigão Sampaio, detentora original do espólio exposto na Casa-Museu Marta Ortigão Sampaio do Porto.

Biografia

Filha de emigrantes portugueses no Brasil e no Chile, Maria Aurélia Martins de Souza nasceu a 13 de junho de 1866, dia de Santo António, em Valparaíso, Chile, filha de António Martins de Souza, que tentava fazer fortuna com a construção do caminho-de-ferro na América do Sul, e de Olinda Peres, sendo a quarta dos sete filhos do casal. Em 1869, com apenas 3 anos de idade, acompanhou o regresso da sua família a Portugal, fixando residência na cidade do Porto e passando a residir na Quinta da China, junto ao rio Douro, comprada por seu pai com o dinheiro ganho durante a sua emigração. Em 1874, quando Aurélia tinha apenas oito anos, o seu pai faleceu. Após a morte do pai, a sua mãe voltou a casar-se em 1880.[1]

Aos dezasseis anos, Aurélia de Sousa começou a ter lições de desenho e pintura com Caetano Moreira da Costa Lima, distinto discípulo de Auguste Roquemont, tendo realizado o seu primeiro auto-retrato durante esse período. Em 1893, entrou, juntamente com a sua irmã Sofia de Souza, na Academia Portuense de Belas-Artes, onde foi aluna de João Marques de Oliveira, o qual muito influenciou a sua obra. Entre 1893 e 1896 integrou diversas exposições, como as Exposições dos Trabalhos Escolares dos Alunos da Academia Portuense de Belas-Artes Considerados Dignos de Distinção, as Exposições de Belas-Artes do Ateneu Comercial do Porto e vários certames promovidos por António José da Costa, João Marques de Oliveira e Júlio Costa. No seu percurso académico provou ser uma aluna exemplar e talentosa, tendo estudado Desenho Histórico e num só ano completado o primeiro e segundo ano do curso de Pintura Histórica, para além de ter terminado o terceiro ano com a classificação final de dezasseis valores. Apesar desses esforços, por ter mais de 25 anos e não ter direito a bolsas financeiras, Aurélia não chegou a terminar o quarto e último ano para completar o curso.[2]

 
"Auto-retrato" (1900) de Aurélia de Sousa

Em 1898, com a ajuda monetária das suas irmãs mais velhas Helena Souza Dias, casada com José Augusto Dias, influente empresário e fundador de uma das mais conhecidas casas bancárias do Porto, e Maria Estela Souza Sampaio, casada com Vasco Ortigão Sampaio, engenheiro, colecionador e mecenas das artes, sobrinho do escritor Ramalho Ortigão, Aurélia mudou-se para Paris, França, onde frequentou, na Academia Julian, os cursos de Jean-Paul Laurens e de Jean-Joseph Benjamin-Constant. Durante a sua estadia, Aurélia realizou as suas primeiras exposições além fronteiras, pintou o famoso "Auto-retrato", com o casaco vermelho, entre outras ilustres obras, e ganhou alguns concursos de pintura.[3]

 
Santo António (1902), da autoria de Aurélia de Sousa. Trata-se de um auto-retrato da artista enquanto Santo António.

Em 1900, a sua irmã e pintora Sofia de Souza juntou-se a ela em Paris, financiada pela sua sobrinha D. Lucinda Augusta Dias Gaspar e da sua irmã mais velha Maria Estela Souza Sampaio. Um ano depois as duas irmãs dedicaram-se a viajar pela Europa, tendo visitado inúmeras galerias de arte e os principais museus de Bruxelas, Antuérpia, Berlim, Roma, Florença, Veneza, Madrid e Sevilha.[4] Durante essas viagens, Aurélia de Sousa aprofundou o seu gosto pela pintura flamenga, tomando-a como inspiração em algumas obras.

De regresso a Portugal, Aurélia desenvolveu uma intensa actividade artística e profissional como ilustradora, colaborando com vários periódicos e publicações literárias, como a revista Portugália: Materiaes para o Estudo do Povo Portuguez[5] dirigida por Ricardo Severo, ou o a obra "Elegia Pantheista a uma Mosca" do poeta Manuel Duarte de Almeida[6], continuou a participar regularmente na vida artística portuense, expondo na Sociedade de Belas-Artes do Porto (de 1909 a 1911), na Galeria da Misericórdia (1908-1909 e 1911-1912), no Palácio de Cristal (1917), no Ateneu Comercial do Porto ou ainda no Salão de festas do Jardim Passos Manuel (1921), assim como também a participar, anualmente, nas exposições da Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa (de 1916 a 1921). Participou ainda em diversas exposições colectivas, deu aulas particulares de pintura no seu atelier e aventurou-se noutros meios artísticos, tais como na pintura do azulejo e na fotografia, utilizando os seus auto-retratos e composições fotográficas como rascunhos ou estudos de poses e luz para depois realizar as suas pinturas.

Em 1907, foi convidada por António Teixeira Lopes a presidir à Sociedade de Belas-Artes do Porto, contudo declinou a oferta. Anos mais tarde, rejeitou novamente o convite para sócia da sociedade, por ausência de sala de exposição.[7]

Devido à sua saúde frágil, a artista portuguesa passou os últimos anos de sua vida na Quinta da China, onde possuía um atelier e um laboratório de revelação fotográfico. Até à sua morte, continuou a produzir novas obras de carácter mais intimistas, representando maioritariamente cenas do quotidiano, quase sempre interiores, onde a figura feminina estava sempre presente, ora exercendo tarefas do dia a dia ou contemplando o seu redor em silêncio e em paz, reflectindo assim sentimentos como a solidão ou a saudade.

Aurélia de Sousa faleceu a 26 de maio de 1922, com cinquenta e cinco anos de idade. Apesar da causa ser desconhecida, estudos recentes apontam para que tenha sido vítima de tuberculose prolongada.

Obra

 
Retrato de rapaz, obra de Aurélia de Sousa

Referida na história da pintura portuguesa da segunda metade do século XIX e início do século XX como uma presença inquestionável, figurando o seu nome ao lado dos pintores António da Silva Porto, João Marques de Oliveira, Columbano Bordalo Pinheiro, José Malhoa, José Júlio de Sousa Pinto, Artur Loureiro, João Vaz, Henrique Pousão, Eugénia Moreira ou António Carneiro, a sua obra denota influência dos estilos de pintura mais inovadores do seu tempo. Desenvolveu um estilo naturalista muito pessoal, não se prendendo a definições de movimentos estilísticos, apesar de retirar influências dos estilos realistas, impressionistas e pós-impressionistas.[8] Realizou obras de diferentes géneros, sendo a maioria retratos e autoretratos, cenas do quotidiano popular, interiores, paisagens, naturezas-mortas e flores.

Nas palavras da biógrafa e historiadora Raquel Henriques da Silva, a obra de Aurélia de Sousa "regista a silenciosa narrativa da casa: a presença da velha mãe, os afazeres das mulheres e das crianças, os cantos escuros da cozinha e do atelier, as tardes em que a luz se confunde com os fatos de verão, os caminhos campestres ou as vistas do rio. Pratica uma pintura vigorosa, raramente volumétrica, detida na análise das sombras para nelas captar a luz".

Entre as suas principais obras, caracterizadas pela força da expressão técnica e artística, encontram-se "Santo António" (1902), para a qual a artista fotografou-se vestida de santo de modo a depois o retratar, "Cabeça de italiano", "Cena familiar" (1911), "No Atelier" (1916), "À Sombra" (1910), "Moinho-Granja", também referido como "Moinho de Vento", "Porcelanas antigas", "Cristo ressuscitando e a filha de Jairo", "Rio Douro-Areinho", "Auto-retrato da Gola Branca" (1895), "Auto-retrato do Laço Negro" (1895) e "Auto-retrato" (1900), uma das obras-primas mais reconhecidas da pintura portuguesa de todos os tempos.[9]

Parte da sua obra encontra-se hoje em colecções privadas, nomeadamente na colecção José Caiado de Sousa, ou ainda expostas no Museu Nacional de Soares dos Reis, na Casa-Museu Marta Ortigão Sampaio, ambos na cidade do Porto, assim como no Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, em Lisboa.[10]

Homenagens e Legado

 
Escola Aurélia de Sousa, Bonfim, Porto

Desde o seu falecimento, várias localidades portuguesas adoptaram o seu nome na sua toponímia, sendo possível encontrar ruas e pracetas com o nome da artista nos concelhos de Gondomar, Matosinhos, Porto, Seixal e Tavira.

Postumamente, em 1936, foi realizada a primeira exposição retrospectiva da sua obra, denominada Exposição de Homenagem Póstuma à Grande Pintora Aurélia de Souza, no Salão de Belas Artes do antigo Palácio de Cristal, que contava com 266 obras, quase todas provenientes de colecções particulares. Desde então várias exposições foram realizadas com a intenção de expor e homenagear a obra da artista portuguesa, nomeadamente no Museu Nacional de Soares dos Reis, na Livraria Portugália, na Fundação Calouste Gulbenkian ou no Palácio Nacional da Ajuda.

Destinando-se inicialmente ao ensino feminino, a Escola Industrial Aurélia de Sousa, no Bonfim, Porto, foi criada em 1948, fruto de várias iniciativas para reformar o sistema de educação e apoiar o ensino técnico, ficando também a administrar a Escola de Artes e Ofícios de Vila do Conde e as suas oficinas. Actualmente, com o nome de Escola Secundária Aurélia de Sousa, a escola tem sido considerada das escolas públicas mais bem classificadas, nomeadamente nos anos de 2009 e 2010.[11][12]

 
"A Visitação", pintura de Aurélia de Sousa

Em 1973, após ser organizada uma exposição no Museu Nacional de Soares dos Reis, com 161 peças da artista, crê-se que o evento arrancou o movimento mais contemporâneo de consagração de Aurélia de Sousa.

Em 1984, a artista e a sua irmã de Sofia de Souza foram novamente homenageadas com a retrospectiva Exposição de Obras de Aurélia de Souza e Sophia Martins de Souza Pertencentes à Casa-Museu de Artes Decorativas SOSS, na Casa Tait do Porto.

Em 1986, a sua obra esteve presente na exposição Os Naturalistas, em Macau.

Em 1987, o seu "Auto-retrato" foi integrado e exposto na exposição "Soleil et Ombres, l’Art Portugais du XIXème" em Paris, organizada pelo historiador José-Augusto França. Segundo o historiador a artista "é considerada um dos mais importantes artistas portugueses de 1900, não por ser uma mulher, mas por ser tão boa como [Henrique] Pousão, António Carneiro ou Columbano [Bordalo Pinheiro]".

Em 2002, foi realizada a obra e tese de doutoramento de Maria João Lello Ortigão de Oliveira, publicada em 2006, "Aurélia de Souza em Contexto: a Cultura Artística no Fim de Século", cujo trabalho revelou várias obras da artista até então desconhecidas.[13]

Em 2016, comissariada pela historiadora de arte Filipa Lowndes Vicente, a dupla-exposição "Aurélia, mulher artista"[1], co-organizada pelas autarquias do Porto e de Matosinhos e com a colaboração do Centro Português de Fotografia, assinalava os 150 anos do nascimento de Aurélia de Sousa. Dividida entre a Casa-Museu Marta Ortigão Sampaio, no Porto, e o Museu da Quinta de Santiago, em Leça da Palmeira, Matosinhos, a exposição contava com várias pinturas, desde paisagens e naturezas mortas a retratos e auto-retratos, interiores intimistas ou ainda cenas do quotidiano a cenas de rua pintadas em Paris ou na Bretanha, para além de desenhos a carvão, fotografias e objectos do espólio pessoal da artista.[14][15]

Entre 2017 e 2018, a historiadora Raquel Pelayo realizou dois artigos de investigação, em colaboração com as Faculdades de Arquitectura e de Belas Artes da Universidade do Porto e o Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade, denominados "Aurélia de Souza: O Feminismo ao Espelho", tendo como base as obras da artista e a relação com o preconceito ou discriminação de género vivida pelas mulheres artistas na sociedade oitocentista portuguesa,[2] e "Aurélia de Souza: Pelo Brilho da Penumbra", uma análise da obra "Santo António" e as pistas que apontavam que a artista padecia de tuberculose.[3]

Referências

  1. Girão Ribeiro, Maximina. «Aurélia de Sousa (1866-1922)». Jornal Etc e Tal 
  2. «U. Porto - Antigos Estudantes Ilustres da Universidade do Porto: Aurélia de Souza». Universidade do Porto 
  3. Queirós, Luís Miguel. «Aurélia de Sousa: a consagração de uma pintora, a descoberta de uma fotógrafa». Jornal Público 
  4. «Aurélia de Sousa | Biografia». Museu Nacional de Soares dos Reis 
  5. «Portugalia: materiaes para o estudo do povo portuguez, Porto, 1899-1908 - Biblioteca Nacional Digital». Biblioteca Nacional Digital 
  6. d'Almeida, Duarte (1889). Elegia pantheista a uma mosca morta, 1874-1889. [S.l.]: Casa Editora Alcino Aranha 
  7. Aires Silveira, Maria. «Aurélia de Sousa». Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado 
  8. Sombra e luz. [S.l.: s.n.] 1900 
  9. Ocidente. [S.l.: s.n.] 1939 
  10. «Aurélia de Sousa: No atelier». Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado 
  11. «Ranking das melhores escolas secundárias portuguesas». Correio da Manhã 
  12. «ES Aurélia de Sousa». Agrupamento de Escolas Aurélia de Sousa 
  13. Oliveira, Maria João Lello Ortigão de (2006). Aurélia de Sousa em contexto: a cultura artística no fim de século. [S.l.]: Imprensa Nacional-Casa da Moeda 
  14. «Nova Casa Portuguesa: Aurélia de Sousa: Memórias de uma Exposição». Nova Casa Portuguesa 
  15. «Aurélia de Sousa, mulher artista». Câmara Municipal de Matosinhos 

Bibliografia

 
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  • SILVA; Raquel Henriques da, Aurélia de Souza, Col. Pintores Portugueses. Lisboa: Edições Inapa, 2004.

Ligações externas