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Antonio Candido

escritor, professor, sociólogo e crítico literário brasileiro
Disambig grey.svg Nota: Este artigo é sobre o literato e crítico brasileiro. Para outros significados, veja António Cândido (desambiguação).
Antonio Candido Gold Medal.svg
Antonio Candido na 9ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), em 2011
(Foto: André Gomes de Melo)
Nome completo Antônio Cândido de Mello e Souza
Nascimento 24 de julho de 1918
Rio de Janeiro, RJ
Morte 12 de maio de 2017 (98 anos)
São Paulo, SP
Nacionalidade Brasileiro
Cônjuge Gilda de Melo e Sousa
Alma mater Universidade de São Paulo
Ocupação Crítico literário, ensaísta, sociólogo, professor
Prémios Prêmio Jabuti (1965, 1993)

Prémio Machado de Assis (1993)
Prêmio Anísio Teixeira (1996)
Gold Medal.svg Prémio Camões (1998)
Prêmio Juca Pato (2007)

Filiação Partido dos Trabalhadores
Magnum opus Formação da literatura brasileira
Religião nenhuma (ateísmo)[1]

Antonio Candido de Mello e Souza (Rio de Janeiro, 24 de julho de 1918 – São Paulo, 12 de maio de 2017) foi um sociólogo, crítico literário e professor universitário brasileiro. Estudioso da literatura brasileira e estrangeira, é autor de uma obra crítica extensa, respeitada nas principais universidades do Brasil. À atividade de crítico literário somou-se a atividade acadêmica, como professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), onde, entre outros feitos, introduziu, em 1962, a literatura comparada, transformando a disciplina de Teoria Literária em Teoria Literária e Literatura Comparada.[2] Foi também professor emérito da USP e da Universidade Estadual Paulista (UNESP), e doutor honoris causa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade da República do Uruguai (2005).[3]

É considerado um dos grandes expoentes da crítica literária brasileira pelo fato de suas obras terem se tornado base essencial para o debate da formação literária nacional associada a uma construção sociológica e ao humanismo.[4] De método dialético, comparatista e sociológico, antecipou a interdisciplinaridade para entender a literatura como expressão da cultura brasileira. Como militante político, foi um dos vários precursores do socialismo democrático no Brasil.[5]

Sua idealização do Suplemento Literário, em 1956, caderno de crítica anexo ao jornal O Estado de S. Paulo, até 1966, contando com colaboração de Paulo Emílio Salles Gomes, Wilson Martins, do próprio Antonio Candido e outros, é visto como marco do pensamento crítico brasileiro.[4] Sua obra mais influente, Formação da Literatura Brasileira, foi lançada em 1959. Estreitou relações e amizades com pelo menos duas das grandes gerações de importantes escritores brasileiros, como Oswald de Andrade, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, dos quais escreveu também resenhas, estudos e críticas referenciais e seminais para o entendimento de suas obras.

Entre diversos outros prêmios importantes por seu trabalho, recebeu o Prêmio Jabuti em 1965 e novamente em 1993, o Prêmio Machado de Assis em 1993, o Prêmio Anísio Teixeira em 1996 e o Prémio Camões em 1998.[6]

Índice

BiografiaEditar

Filho do médico Aristides Candido de Mello e Souza e de Clarisse Tolentino de Mello e Souza, passou a infância entre os limites geográficos e culturais de Minas Gerais e São Paulo (Cássia, Poços de Caldas e São João da Boa Vista), para fixar-se na cidade São Paulo em 1937.[7]

Ingressou na Faculdade de Direito e na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo em 1939, tendo abandonado a primeira no quinto ano e se formado em Ciências Sociais em 1942.[7]

CarreiraEditar

Iniciou sua carreira como crítico na revista Clima (1941-1944), juntamente com Paulo Emílio Salles Gomes, Alfredo Mesquita, Décio de Almeida Prado, Gilda Rocha de Mello e Souza (filha de um primo de Mário de Andrade), com quem veio a se casar, e outros.

PolíticaEditar

Paralelo às atividades literárias, Candido militou no Partido Socialista Brasileiro e participou do Grupo Radical de Ação Popular, integrado também por Paulo Emílio Salles Gomes, Germinal Feijó, Paulo Zingg e Antônio Costa Correia, editando um jornal clandestino, de oposição ao governo ditatorial de Getúlio Vargas, chamado Resistência. Posteriormente, participou do processo de fundação do Partido dos Trabalhadores, onde, entre outras funções, foi Presidente do 1º Conselho Curador da Fundação Wilson Pinheiro, fundação de apoio partidária instituída pelo PT em 1981[8], antecessora da Fundação Perseu Abramo. Foi filiado ao PT até sua morte, tendo apoiado a candidatura de Dilma Rousseff em 2010.[9]

Considerou-se sempre socialista, tendo declarado, já aos 93 anos de idade:

"O socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: “o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana”. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na “Ideologia Alemã”: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo."[10]

ProfessorEditar

Em 1942 ingressou no corpo docente da Universidade de São Paulo (USP) como assistente de ensino do professor Fernando de Azevedo, na cadeira de Sociologia II, onde foi colega de Florestan Fernandes. A partir de 1943 passou a colaborar com o jornal Folha da Manhã, em que escreveu diversos artigos e resenhou os primeiros livros de João Cabral de Melo Neto e Clarice Lispector.

Em 1945, obteve o título de livre-docente com a tese Introdução ao Método Crítico de Sílvio Romero e, em 1954, o grau de doutor em Ciências Sociais com a tese Parceiros do Rio Bonito, ainda hoje um marco nos estudos brasileiros sobre sociedades tradicionais. Entre 1958 e 1960 foi professor de literatura brasileira na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, hoje integrada à Universidade Estadual Paulista.

Em 1961 regressou à USP e, a partir de 1974, torna-se professor-titular de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (assim denominada a partir de 1970) da USP, sendo responsável pela formação de grande parte da intelectualidade nacional, direta ou indiretamente. Entre os seus discípulos estão Antônio Lázaro de Almeida Prado, Fernando Henrique Cardoso, Roberto Schwarz, Davi Arrigucci Jr., Walnice Nogueira Galvão, João Luiz Lafetá, Antônio Arnoni Prado e Antônio Luiz Cagnin entre outros.

Aposentou-se em 1978, todavia manteve-se ainda como professor do curso de pós-graduação até 1992, ano em que orientou a última tese, a do crítico mexicano Jorge Ruedas de La Serna e crítico atuante não só na vida literária, como também na política, tendo sido um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Recebeu o Prémio Camões em 1998.[11]

Antonio Candido foi o primeiro brasileiro a receber o Prêmio Internacional Alfonso Reyes, um dos mais importantes da América Latina. A premiação ocorreu em 8 de outubro de 2005, em Monterrey, a cidade natal de Reyes. Escritores como Borges, Carpentier, Malraux, Octavio Paz, Harold Bloom figuram entre os premiados [12]

Vida pessoalEditar

Antonio Candido foi casado com Gilda de Mello e Souza, professora de Estética no Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Falecida em 25 de dezembro de 2005, Gilda era filha de um primo do escritor Mário de Andrade, com quem conviveu na mesma casa por 12 anos e cuja obra ela estudou, especialmente em O Tupi e o Alaúde. Candido deixou três filhas: Ana Luísa e as também professoras de História da USP, Laura de Mello e Souza e Marina de Mello e Souza.[13]

Mesmo discreto, aposentado e afastado da vida social e acadêmica, era frequentemente requisitado por alunos e instituições, por conta de sua erudição.[14]

MorteEditar

Antonio Candido morreu em 12 de maio de 2017, em São Paulo, em decorrência de uma hérnia de hiato inoperável.[13][15]

Principais obrasEditar

  • Introdução ao método crítico de Sílvio Romero, 1945;
  • Ficção e confissão: estudo sobre a obra de Graciliano Ramos, 1956;
  • Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, 1959;
  • O observador literário, 1959;
  • Tese e antítese: ensaios, 1964;
  • Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida, 1964;
  • Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária, 1965;
  • Vários escritos, 1970;
  • Formação da literatura brasileira, 1975;
  • Teresina etc., 1980;
  • Na sala de aula: caderno de análise literária, 1985;
  • A educação pela noite e outros ensaios, 1987;
  • O estudo analítico do poema, 1987;
  • Recortes, 1993;
  • O discurso e a cidade, 1993;
  • Teresina e seus amigos, 1996;
  • Iniciação à literatura brasileira (Resumo para principiantes), 1997;
  • O Romantismo no Brasil, 2002;
  • Um funcionário da Monarquia: ensaio sobre o segundo escalão, 2002.

Obras em parceriaEditar

Obras sobre Antonio CandidoEditar

  • Aguiar, Flávio (org.). Antonio Candido: pensamento e militância. Fundação Perseu Abramo e Humanitas FFLCH/USP, 1999.
  • Antelo, Raúl (org.). Antonio Candido y los Estúdios Latinoamericanos. Instituto Internacional de Literatura Ibero-Americana da Universidade de Pittsburgh, 2002.
  • Arantes, Paulo Eduardo. Sentimento da Dialética. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
  • Corpas, Danielle et al. (org.). 40 anos de Formação da literatura brasileira. v. 1. Rio de Janeiro: Fundação Universitária José Bonifácio (UFRJ), 2000.
  • Dantas Vinícius. "Bibliografia de Antonio Candido", São Paulo, Duas Cidades / 34 Letras, 2004.
  • Goto, Roberto. Malandragem revisitada. Campinas: Pontes, 1988.
  • Jackson, Luiz Carlos. A tradição esquecida; Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2002.
  • Lafer, Celso. (org.). Esboço de Figura. São Paulo, Duas Cidades, 1979.
  • Martinello, André Souza; Schneider, Sérgio. “PARALELOS ENTRE ANTONIO CANDIDO E ALEXANDRE CHAYANOV: economia fechada, equilíbrio mínimo e rusticidade.” In: CARVALHO, Horacio Martins de (Org.). CHAYANOV E O CAMPESINATO. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2014, p. 273-298.
  • Pontes, Heloísa. "Destinos Mistos. Companhia das Letras. 1998.
  • Schwarz, Roberto. "Pressupostos, salvo engano, de Dialética da malandragem". In: ___ Que Horas São? São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
  • Schwarz, Roberto. Sequências Brasileiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
  • Serna, Jorge Ruedas de la (org.). "História e Literatura: Homenagem a Antonio Candido", Unicamp, 2003.
  • MARTINELLO, André Souza; SCHNEIDER, Sérgio. 'PARALELOS ENTRE ANTONIO CANDIDO E ALEXANDRE CHAYANOV: ECONOMIA FECHADA, EQUILIBRIO MÍNIMO E RUSTICIDADE.' Revista Territórios e Fronteiras (UFMT). V.3, número 02 - Jul/Dez 2010. p. 138-158, 2010.

PrêmiosEditar

Ver tambémEditar

Referências

  1. «Antonio Candido foi o último dos grandes intérpretes do Brasil». Folha de S. Paulo. 15 de maio de 2017. Consultado em 4 de setembro de 2018. 
  2. Sandra Nitrini, "Um comparatista dialético". in: Revista de Letras. Vol. 36 (1996), pp. 17-32.
  3. «Título de Doctor Honoris causa para el brasileño Antonio Cândido de Mello Souza». www.universidad.edu.uy (em espanhol). Portal Universidad de la República. 21 de setembro de 2006. Consultado em 5 de dezembro de 2017. 
  4. a b Antonio Candido. Enciclopédia Itaú Cultural. Acesso: 6 de julho de 2018.
  5. "entrevista/Max Gimenes "Antonio Candido é um dos Precursores do Socialismo Democrático no Brasil"". Revista Maquiavel. Acesso: 6 de julho de 2018.
  6. «Agraciados». Prêmio Anísio Teixeira. 1 de junho de 2016. Consultado em 5 de dezembro de 2017. 
  7. a b Mota, Lourenço Dantas. Introduçao Ao Brasil - Um Banquete No Tropico. [S.l.]: Editora SENAC São Paulo. ISBN 9788573597653 
  8. Menegozzo, C H M; Maciel, A F; Silva, P R; Ramires, M F; Góes, W L. (20 de novembro de 2010). «Centro Sérgio Buarque de Holanda: Guia de Acervo» (PDF). Fundação Perseu Abramo. Consultado em 5 de dezembro de 2017.. Cópia arquivada (PDF) em 20 de novembro de 2010 
  9. Xavier, Cezar (26 de outubro de 2010). «Leia declaração de Antonio Candido durante ato dos dois mil Pró-Dilma, na USP, nesta segunda (25)». PT SÃO PAULO. Consultado em 5 de dezembro de 2017.. Cópia arquivada em 17 de novembro de 2010 
  10. Joana Tavares, "“O socialismo é uma doutrina triunfante”". Brasil de Fato. 08 de Agosto de 2011. Acesso: 6 de julho de 2018.
  11. «Prêmio Camões de Literatura». Brasil: Fundação Biblioteca Nacional. Cópia arquivada em 16 de Março de 2016 
  12. Lafer, Celso. «Homenagem Mexicana». memorial.org.br. Revista Nossa América. Consultado em 5 de dezembro de 2017. 
  13. a b «Antonio Candido, crítico literário e sociólogo, morre aos 98 anos em São Paulo». G1. 12 de maio de 2017. Consultado em 5 de dezembro de 2017. 
  14. Pablo Pires Fernandes, "Antonio Candido foi o maior pensador e divulgador da literatura brasileira. Uai. 13/05/2017. Acesso: 6 de julho de 2018.
  15. Ubiratan Brasil, Guilherme Sobota (12 de maio de 2017). «Morre Antonio Candido aos 98 anos». Estadão. Consultado em 5 de dezembro de 2017. 

Ligações externasEditar